O Sertanejo/II/V

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O Sertanejo por José de Alencar
Segunda Parte, Capítulo V: A carreira

Quando o Dourado ouviu o brado de Arnaldo, conheceu que tinha homem em campo; e abrindo então a carreira, em dois corcovos deixou o Fragoso a uma grande distância.

O mancebo perdera a esperança de agarrar o boi; e atribuindo a derrota ao grito que espantara o animal, irritou-se contra o autor dessa picardia, que no primeiro momento suspeitou provir de seu primo Daniel Ferro.

Logo, porém, reconheceu o engano. Um cavaleiro passou por êrle à desfilada; e a-pesar-da velocidade da carreira pôde ver o rosto de Arnaldo, que o ódio lhe gravara na memória.

Desde então o Marcos Fragoso continuou a correr, mas já não era atrás do Dourado, e sim atrás do sertanejo, contra quem se arrojou com todo o ímpeto das cóleras, que o seu afeto por D. Flor o tinha obrigado a recalcar durante os últimos dias, e que afinal faziam explosão.

Voltando o rosto, viu Arnaldo na fisionomia e no gesto do capitão a expressão de seu rancor, e respondeu-lhe com um sorriso de desprêzo.

— Não fujas, cobarde! exclamou Fragoso.

— Havemos de encontrar-nos.

— É agora, neste momento, que eu vou castigar a tua insolência.

— Havemos de encontrar-nos, sr. capitão; mas quando eu quiser, e for de minha vontade. Antes disso não conheço o senhor; e os seus gritos, são como os berros dêstes novilhos, que ainda não sabem urrar.

O sertanejo, que refreara um tanto a corrida do cardão para lançar estas palavras, de novo desfechou atrás do Dourado, o qual devorava o espaço.

O capitão-mór, Daniel Ferro e Agrela, que já vinham atrasados, com a chegada do Arnaldo perderam a esperança, não só de agarrar o boi, no que não pensavam mais, como de seguir-lhe a pista. Resolveram, portanto, parar em um alto, para acompanharem com a vista a corrida.

O mesmo faziam na colina D. Genoveva, Flor, Alina, e o Padre Teles, com João Correia e Ourém, que tiveram por mais prudente trocar o papel de atores daquela campanha sertaneja pelo de espectadores.

O último não perdeu ensêjo de encaixar a sua citação dos Lusíadas. Quando chegavam à falda da colina gritou êle para o companheiro:

Olá Veloso amigo, aquele outeiro É melhor de descer que de subir.

O capitão-mór estava de não caber em si, com a satisfação e contentamento de que o enchera o Arnaldo. Desassombrado do receio de que o Fragoso, um rapaz lá de Inhamuns e de mais e mais gamenho da cidade, agarrasse o corredor de maior fama do Quixeramobim e levasse as lampas aos campeiros daquele sertão, o dono da Oiticica já contava como certa a proeza de seu vaqueiro; e entusiasmava-se de antemão como êsse triunfo, que lhe pertencia, pois êle o alcançava na pessoa de uma criatura sua, que era como o seu braço.

Era uma corrida vertiginosa aquela. Os olhos não podiam acompanhá-la sem turbarem-se; porque boi e cavaleiro fugiam instantaneamente à vista que os fitava.

O capitão-mór bradava com uma voz de canhão:

— Assim, Arnaldo! Aguenta, rapaz!

O Daniel Ferro entusiasmado também com a valentia do boi e o arrôjo do campeador, gritava:

— Ecou! Ecou!... Arriba, vaqueiro!

Agrela assistia à luta em silêncio, mas agitado por vários sentimentos. Invejava a façanha de Arnaldo e volvia um olhar melancólico para o sítio onde estava Alina; mas se brotou em seu coração alguma vaga esperança de ver frustrado o esfôrço do sertanejo, logo a sufocou a sincera admiração que inspiravam-lhe a fôrça e a destreza.

Em D. Flor e sua mãe repercutiam as emoções do0capitão-mór, com quem essas duas almas se identificavam sempre, sobretudo nos impulsos generosos. Alina estremecia de susto e comunicava seus terrores ao Padre Teles, que não a ouvia. Quanto a Ourém e João Correia, assistiam consigo se o rapaz não estaria em algum acesso de loucura furiosa.

Que fazia então o capitão Marcos Fragoso? Tinham-no visto pouco antes correndo com Arnaldo atrás do barbatão; logo depois desaparecera; e ninguém nesse momento deu por sua falta.

Havia à beira da várzea e já no tabuleiro, um alto e esgalhado barbatimão que estendia rasteiros os grossos ramos encarquilhados, formando uma sebe viva. O Dourado vivamente acossado, meteu-se naquele embastido e o atravessou agachado; contava êle que o vaqueiro esbarrando com tapume, e não achando passagem, o rodeasse perdendo assim muito terreno.

Enganou-se porém. O Corisco, intrépido campeão, e sabedor de todas as manhas do gado mocambeiro, furou a ramada sem hesitar, guiado pela experiência, de que onde passava o corpo mais grosso do boi, devia passar êle e seu cavaleiro.

Na disparada em que ia, Arnaldo viu os galhos rasteiros da árvore, prolongados horizontalmente na altura do peito do cardão. Êste coleou-se como uma serpente e resvalou quase de rastos. O sertanejo, porém, já não tinha tempo de estender-se ao comprido e coser-se ao flanco do animal. Então de um salto galgou o ramo, e uma braça além foi cair na sela, para de novo pular segundo e terceiro ramo, que sucediam-se ao primeiro.

De longe e especialmente do lugar onde estava o capitão-mór, o que se viu foi o cavalo submergir-se na folhagem e o cavaleiro, desprendendo-se da sela, voar por cima daquele monte de ramas, para reunirem-se afinal e prosseguirem na desfilada.

A voz do Campelo retumbou pelo espaço:

— Bravo, Arnaldo!

Daniel Ferro eletrizado pela proeza, começou a cantar como um possesso a quadra do Rabicho da Geralda, que celebra um passo:

Tinha adiante um pau caído
Na descida de um riacho;
O cabra saltou por cima,
O ruço passou por baixo.

Os ecos da cantiga chegaram a Arnaldo, que achou graça na lembrança do Ferro, e também por sua vez repetiu o palavreado do Inácio Gomes, quando corria atrás do Rabicho:

Corra, corra, camarada,
Puxe bem pela memória;
Quando eu vim de minha terra
Não foi p’ra contar história.

Pelo caso do barbatinão acabara o Dourado de conhecer que vaqueiro tinha êle à cola; e entendendo que o negócio era sério, tratou de pôr-se no seguro.

Endireitou então para uma ponta da várzea, em que a corrente das águas tinha desde eras remotas cavado um profundo barranco, por onde no tempo das chuvas torrenciais, borbotavam para o rio. Uma vegetação exuberante nutrida pelo humo que a enxurrada alí depositava, cobria êsse tremedal de sarmentos viçosos e lindos festões de flores.

Estendido sôbre essa cúpula de verdura, um grosso tejú-assú aquecia-se ainda sonolento aos raios do sol matutino, e abria os olhos preguiçosos para ver a causa do alvorôço que ia pela várzea naquela manhã.

A gente do José Bernardo não julgara necessário guardar êsse ponto, que estava já de si defendido pelo desfiladeiro onde nunca pensaram que o boi se arriscasse por mais afoito que fosse. Ainda não conheciam o Dourado.

Os olhares que seguiam com atenção essa corrida cheia de peripécias, tiveram um deslumbramento. O boi primeiro, depois o cavalo com o vaqueiro, submergiram-se de repente naquele espêsso balseiro. Retroou um grande baque. Todo êsse turbilhão de homem e animais acabava de despenhar-se do barranco abaixo.

Houve um instante de ansiedade. Aqueles ânimos acostumados a essas correrias temerárias e curtidos para todos os perigos, sentiram uma vaga inquietação. Estaria Arnaldo naquele instante dilacerado pelos estrepes sôbre que talvez o arremessara a queda desastrada?

Ouviu-se o grito de terror, que soltara Alina, e a exclamação das senhoras. D. Genoveva dissera:

— Meu Deus!

Flor invocara a intercessão daquele que para ela tudo podia na terra.

— Meu pai!

O capitão-mór, escutando de longe a voz da filha, voltou-se para dirigir-lhe um gesto tranquilizador.

Do lugar onde estava com os outros companheiros, viram-se além, na estreita nesga de campo que ficava depois do despenhadeiro, passar umas sombras que sumiram-se na mata. E agora ouvia-se um estrépito bem conhecido dos sertanejos; era como uma descarga de fuzilaria que reboava na floresta. O estalar dos ramos despedaçados pela corrida veloz de um animal possante, como o boi, o cavalo, a anta e o veado, produz essa ilusão, que aumenta com a repercussão profunda e sonora da espessura.

O capitão-mór reconheceu que o Dourado corria na mata; e a velocidade de sua fuga indicava muito claramente que ia perseguido. Portanto nada acontecera ao intrépido vaqueiro; pois êle acossava o boi com o mesmo ardor, e já lhe estava no encalço, como se calculava pelo breve espaço que mediava entre uma e outra crepitação.

Efetivamente Arnaldo rompia a mata naquele instante como um raio, de que dera o nome ao seu cavalo; e para usar da frase sertaneja levava o Dourado de tropelão. Ganhando sempre avanço, à medida que estendia-se a carreira e a-pesar-de todas as manhas do boi, já achava-se apenas na distância de uns dez passos, o que todavia, se nada vale no campo one o vaqueiro pode manejar o laço, é muito no mato fechado.

Essa corrida cega pelo mato fechado é das façanhas do sertanejo a mais admirável. Nem a destreza dos árabes e dos citas, os mais famosos cavaleiros do velho mundo; nem a ligeireza dos guaicurús e dos gaúchos, seus discípulos, são para comparar-se com a prodigiosa agilidade do vaqueiro cearense.

Aqueles manejam os seus corcéis no descampado das estepes, dos pampas e das savanas; nenhum estôrvo surge-lhes avante para tolher-lhes o passo; êles desfraldam a corrida pelo espaço livre, como o alcião que transpõe os mares.

O vaqueiro cearense, porém, corre pelas brenhas sombrias, que formam um inextricével labirinto de troncos e ramos tecidos por mil atilhos de cipós, mais fortes do que uma corda de cânhamo, e crivados de espinhos. Êle não vê o solo que tem debaixo dos pés, e que a todo o momento pode afundar-se em um tremedal ou erriçar-se em um abrôlho.

Falta-lhe o espaço para mover-se. Às vezes o intervalo entre dois troncos, ou a aberta dos galhos, é tão estreita que não podem passar, nem o seu cavalo, nem êle, separados, quanto mais juntos. Mas é preciso que passem, e sem demora. Passam; mas para encontrar adiante outro obstáculo e vencê-lo.

Não se compreende êsse milagre de destreza senão pela perfeita identificação que se opera entre o cavalo e o cavaleiro. Unidos pelo mesmo ardente estímulo, êles permutam entre si suas melhores faculdades. O homem apropria-se pelo hábito dos instintos do animal; e o animal recebe um influxo da inteligência do homem, a quem associou-se como seu companheiro e amigo.

O pundonor do vaqueiro, que julga desdouro para si voltar sem o boi que afrontou-lhe as barbas, o campeão o compreende e o sente; essa corrida é também para êle um ponto de honra; e porisso não carece o seu ardor de ser estimulado.

Êsses dois entres assim intimamente ligados no mesmo intuito, formando como o centauro antigo um só monstro de duas cabeças, separam-se quando é mister para tornarem-se pequenos e passarem onde não caberiam juntos. Cada um cuida de si unicamente, certo de que o outro basta-se; mas ambos aproveitam da observação do companheiro, e reunem seus esforços no momento oportuno.

É assim que explica-se a rápida percepção que chega a ponto de parecer impossível, e a prontidão ainda mais prodigiosa do movimento com que o cavalo e o cavaleiro se esquivam aos embates, e sulcam por entre as vagas revôltas do oceano.

Já iam muito pela mata a dentro, quando o Dourado tentando um esfôrço para escapar, meteu-se imprudentemente por um bamburral quase impenetrável. Êle bem vira que essa brenha era urdida de grossas enrediças de japecanga, capazes de arrastar o mais grosso madeiro, de tão fortes que são. Mas se pudesse romper, estaria salvo; porque o vaqueiro não conseguiria abrir caminho sem o auxílio da faca.

Ficou, porém, enleado no labirinto; e quando fazia os maiores esforços para despedaçar aquelas cadeias com as patas e os chifres, chegou Arnaldo ao pé do bamburral. Logo percebeu o sertanejo que o boi estava emaranhado; e que êle facilmente podia alí agarrá-lo.

Mas o moço sertanejo entendeu que não era generoso, nem mesmo leal, aproveitar-se daquele acidente para pegar o boi que êle queria vencer por seu esfôrço e valentia, e não pelo acaso. Assim parou à espera que o touro se desvencilhasse dos cipós.

— Não dou em homem deitado, camarada. Safe-se da embrulhada em que se meteu, meu Dourado, e tome campo; que daquí dêste arção, ninguém o tira. Digo-lhe eu, Arnaldo Louredo, que nunca mentí a homem, quanto mais a boi.

Isto dizia o sertanejo a rir, e o Corisco parecia entendê-lo, pois olhava o Dourado com um certo ar de mofa e soltava uns relinchos mui alegres, que se diriam estrídulas gragalhadas.

A êstes relinchos do Corisco responderam a alguma distância outros cavalos, mas com a voz abafada. Arnaldo aplicou o ouvido para bem distinguir aqueles sons e marcar a direção e lugar presumível donde vinham.

Entretanto o Dourado conseguira desembaraçar-se da meada de enrediças, e astutamente espreitava a ocasião de espirrar daquele refúgio, de modo a ganhar parte do avanço que perdera.

Arnaldo não teve tempo de demorar-se na escuta. O boi arrancara de novo e êle seguia-lhe o trilho, certo de que já não lhe escapava. Com efeito, ao cabo de um estirão de carreira impetuosa, o destemido vaqueiro alcançou o barbatão e pôs-lhe a mão sôbre a cauda; mas não quis derrubá-lo. Êle tratava o Dourado com a gentileza que os cavaleiros usavam outrora no combate; a derruba era uma afronta que não infligiria a um corredor de fama como aquele.

Emparelhou o sertanejo seu cavalo com o boi, e passando o braço pelo pescoço dêste, continuaram assim a corrida por algum tempo ainda. Afinal o boi parou; conheceu que fugia debalde: já tinha na cabeça o laço que o vaqueiro lhe passara rapidamente.

Arnaldo prendendo a ponta do laço ao arção da sela, tirou o boi para o limpo, a fim de orientar-se e ver o rumo em que ficava a colina escolhida para ponto de parada da comitiva. Surpreendeu-o a impassibilidade do Dourado, que permanecia grave e taciturno.

Estava o sertanejo muito acostumado a ver a fôrça moral do homem dominar não só o boi, como outras feras mais bravias, a ponto de abater-lhes de todo a resistência. Mas ainda não tivera exemplo daquela indiferença. O barbatão não parecia o touro que pouco antes corcoveavapelo mato, e sim um carreiro tardo e pesado.

Isso levou-o a examinar o boi para verificar, se ficara ferido ou estropeado da carreira, como acontece frequentemente. O Dourado estava são; mas triste e abatido. Grossa lágrima, porventura arrancada por alguma vergôntea que lhe ofendera a pupila, corria da pálpebra.

O sertanejo é supersticioso. A solidão, quando não a acompanha a ciência, inspira sempre êste feiticismo. Vivendo no seio da grande alma da criação, que êle sente palpitar em cada objeto, tudo quanto o cerca, animal ou coisa, parece ao homem do campo encerrar um espírito, que alí expia talvez uma falta, ou espera uma ressurreição.

Arnaldo acreditou que o Dourado chorava. O famoso corredor, que há sete anos desafiava os mais destemidos vaqueiros, carpia-se, porque afinal fôra vencido, e ia ser reduzido, êle, touro livre e brioso, a um boi de curral, ou talvez a um cangueiro.

O sertanejo ficou pensativo. Aquele boi que êle tinha ao arção da sela, era o seu triunfo como vaqueiro, pois quando êle o apresentasse, todos o proclamariam o primeiro campeador, e sua fama correria o sertão.

Aquele boi era mais ainda; era o prazer que D. Flor ia ter vendo o valente barbatão marcado com seu ferro; era a humilhação de Marcos Fragoso, cujas bravatas o tinham irritado, a êle Arnaldo; era finalmente a satisfação do velho capitão-mór, que se encheria de orgulho com a proeza do seu vaqueiro.

Entretanto quando o mancebo ergueu a cabeça, o movimento de generosa simpatia e fraternidade que despertara em sua alma a tristeza do boi vencido, tinha alcançado dele um sacrifício heróico. Resolvera soltar o Dourado.

Nenhum outro homem, dominado por tão veemente paixão, seria capaz dêsse ato. Mas o amor de Arnaldo vivia de abnegação; e eram êsses os seus júbilos. O pensamento de elevar-se até D. Flor, não o tinha; e se ela, a altiva donzela, descesse até êle, talvez que todo o encanto daquela adoração se dissipasse.

Apeou-se e tirou um ferro de marcar, da maleta de couro, que trazia à garupa, e a que no sertão dá-se o nome de maca.

Todo o bom vaqueiro tem seu tanto de ferreiro quanto basta para fazer um aguilhão, para arrnajar as letras com que marca as reses de sua obrigação e as de sua sorte, para dar têmpera à faca de ponta, e até mesmo para consertar a espingarda.

Arnaldo, havia anos, fabricara na forja da Oiticica um ferro que representava uma pequena flor de quatro pétalas atravessada por um F. O feitio era mais apurado e de menores dimensões do que os ferros geralmente usados no sertão.

Essa flor, que tinha por estame uma inicial, significava o emblema da mulher a quem idolatrava. Seu timbre, sua glória, era gravá-lo no gado, como em todos os animais bravios, que seu braço robusto domava. Assim os submetia ao domínio e jugo da soberana de seu coração.

Por toda a parte, nas rochas, como nos troncos seculares, êle tinha esculpido êste símbolo de sua adoração. Como os descobridores de novas terras erigiam um padrão, ou fincavam um marco para tomar posse dessas paregens em nome de seu rei, êle, Arnaldo, na sua ingênua dedicação, pensava que, daquela sorte, avassalava o deserto a D. Flor, e afirmava o seu império sôbre toda a criação.

O moço sertanejo bateu o isqueiro e acendeu fogo num toro carcomido, que lhe serviu de braseiro para quentar o ferro; e enquanto esperava, dirigiu-se ao boi nestes têrmos e com um modo afável.

— Fique descansado, camarada, que não o envergonharei levando-o à ponta de laço para mostrá-lo a toda aquela gente! Não, ninguém há de rir-se de sua desgraça. Você é um boi valente e destemido; vou dar-lhe a liberdade. Quero que viva muitos anos, senhor de si, zombando de todos os vaqueiros do mundo, para um dia, quando morrer de velhice, contar que só temeu a um homem, e êsse foi Arnaldo Louredo.

O sertanejo parou para observar o boi, como se esperasse mostra de o ter êle entendido, e continuou:

— Mas o ferro da sua senhora, que também é a minha, tenha paciência, meu Dourado, êsse há de levar; que é o sinal de o ter rendido o meu braço. Ser dela, não é ser escravo; mas servir a Deus, que a fez um anjo. Eu também trago o seu ferro aquí, no peito. Olhe, meu Dourado.

O mancebo abriu a camisa, e mostrou ao boi o emblema que êle havia picado na pele, sôbre o seio esquerdo, por meio do processo bem conhecido da inoculação de uma matéria colorante na epiderme. O debuxo de Arnaldo fôra estresido com o suco do coipuna, que dá uma bela tinta escarlate, com que os índios outrora e atualmente os sertanejos tingem suas redes de algodão.

Depois de ter assim falado ao animal, como a um homem que o entendesse, o sertanejo tomou o cabo de ferro que já estava em brasa, e marcou o Dourado sôbre a pá esquerda.

— Agora, camarada, pertence a D. Flor, e portanto, quem o ofender tem de haver-se comigo, Arnaldo Louredo. Tem entendido?... Pode voltar aos seus pastos; quando eu quiser, sei onde achá-lo. Já lhe conheço o rasto.

O Dourado dirigiu-se com o passo moroso para o mato; chegado à beira, voltou a cabeça para olhar o sertanejo, soltou um mugido saudoso e desapareceu.

Arnaldo acreditou que o boi tinha-lhe dito um afetuoso adeus.

E o narrador dêste conto sertanejo não se anima a afirmar que êle se iludisse em sua ingênua superstição.