O Sertanejo/II/VI

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O Sertanejo por José de Alencar
Segunda Parte, Capítulo VI: Os bilros

Quando Arnaldo correndo atrás do Dourado, respondeu com palavras de desprêzo ao desafio do Fragoso, êste já irado teve tal acesso de cólera que produziu-lhe uma vertigem.

A impossibilidade de punir imediatamente a insolência do vaqueiro eu causa a essa congestão de ódio. Por momentos esteve sem acôrdo, como alucinado; mas recobrou-se breve.

Se tivesse na mão uma arma de fogo qualquer, pistola ou clavina, com certeza a houvera disparado contra Arnaldo; mas privado como estava de qualquer meio de saciar a sua vingança, e vendo o sertanejo afastar-se cada vez mais na velocidade de sua carreira, êle descarregou a sua raivasôbre o cavalo.

Ferido ao vivo pelos acicates, e ao mesmo tempo sofreado pela rédea, o árdego animal começou a corcovear, e foi aos trancos atirar-se em um atoleiro que a passagem constante do gado tinha cavado no meio de umas touceiras de carnaúbas.

Já fatigado da carreira, alí ficou a patinhar na lama, o que ainda mais exasperou o cavaleiro. Saltando na ilha que formava uma das touceiras, o Fragoso apanhou os talos da palmeira e com êles esbordoou o animal. Êste, pungido pela dôr, conseguiu galgar o atoleiro e fugiu; a fúria do moço capitão voltou-se contra as plantas, e êle continuou a fustigar os cardos, os crauatás e os troncos da carnaúba.

Quando parou de extenuado, as luvas de camurça de veado estavam dilaceradas, e as mãos finas e macias vertiam sangue. Então escoado por essa exerção física o primeiro ímpeto de cólera, a razão, se ainda não reassumiu o seu império, pôde sofrear a índole violenta.

Concentrou-se e refletiu.

Marcos Fragoso era de ânimo generoso, ornado de prendas de cavalheiro; mas tinha o gênio arrebatado e irascível. Além disso, a-pesar-do atrito da cidade e polimento da vida praceira que levava no Recife, era ainda sertanejo da gema; sertanejo por descendência, por nascimento e por criação.

Os sertanejos ricos daquele tempo era todos de orgulho desmedido. Habitando um extenso país, de população muito escassa ainda, e composta na maior parte de moradores pobres ou de vagabundos de toda a casta, o estímulo da defesa e a importância de sua posição bastariam para gerar neles o instinto do mando, se já não o tivessem da natureza.

Para segurança da propriedade e também da vida, tinham necessidade de submeter à sua influência essa plebe altanada ou aventureira que os cercava, e de manter no seio dela o respeito e até mesmo o temor. Assim constituiam-se pelo direito da fôrça uns senhores feudais, por ventura mais absolutos do que êsses outros de Europa, suscitados na média idade por causas idênticas. Traziam séquitos numerosos de valentões; e entretinham a sôldo bandos armados, que em certas ocasiões tomavam proporções de pequenos exércitos.

Êstes barões sertanejos só nominalmente rendiam preito e homenagem ao rei de Portugal, seu senhor suserano, cuja autoridade não penetrava no interior senão pelo intermédio deles próprios. Quando a carta régia ou a provisão do governador levava-lhes títulos e patentes, êles a acatavam; mas se tratava-se de coisa que lhes fosse desagradável não passava de papel sujo. Não davam conta de suas ações senão a Deus; e essa mesma era uma conta de grão-capitão, como diz o anexim, por tal modo arranjada com o auxílio do capelão devidamente peitado, que a conciência do católico ficava sempre lograda. Exerciam soberanamente o direito de vida e de morte, jus vitæ et næcis, sôbre seus vassalos, os quais eram todos quantos podia abranger o seu braço forte na imensidade daquele sertão. Eram os únicos justiceiros em seus domínios, e procediam de plano, sumarissimamente, sem apêlo nem agravo, em qualquer das três ordens, a baixa, média, e a alta justiça. Não careciam para isso de tribunais, nem de ministros e juízes; sua vontade era ao mesmo tempo a lei e a sentença; bastava o executor.

Tais potentados, nados e crescidos no gôzo e prática de um despotismo sem freio, acostumados a ver todas as cabeças curvarem-se ao seu aceno, e a receberem as demonstrações de um acatamento timorato, que passava de vassalagem e chegava à superstição, não podiam, como bem se compreende, viver em paz senão isolados e tão distantes, que a arrogância de um não afrontasse o outro.

Quando por acaso se encontravam na mesma zona, o choque era infalível e medonho. Ainda hoje está viva no sertão a lembrança das horríveis arnificinas, consequências das lutas acirradas dos Montes e Feitosas, mais tarde dos Ferros e Aços. O rancor sanguinário das dissenções políticas de 1817 e 1824, foram resquícios dessas rivalidades e ódios de família, que mais breves não cederam contudo na crueza e animosidade às dos Guelfos e Gibelinos.

O capitão Marcos Fragoso, ainda moço, arredado havia anos do interior e limado pela vida da cidade, não estava no caso de um dêsses potentados do sertão, e não podia julgar-se com direito e fôrça de entrar em competência com o capitão-mór Gonçalo Pires Campelo, cujo nome era temido desde o Exú até os confins do Piauí.

Assim, quando arrastado pela paixão que nele acendera a formosura de D. Flor, deixara o Recife e viera ao Quixeramobim, sob o pretêsto de visitar sua fazenda do Bargado, mas com o fim único de aproximar-se da donzela, dispôs-se o moço capitão a render a sua homenagem ao senhor daquele sertão, a quem já considerava como sogro. Acreditava, porém, que essa homenagem fosse acolhida de um modo obsequioso e retribuída por uma deferência a que se julgava com título.

Falhou a sua conjetura. O capitão-mór lhe dera em sua casa o mais cortês e suntuoso agasalho; porque nisso não tivera em mente obsequiá-lo e sim fazer ostentação de sua opulência. Desde, porém, que êle, Fragoso, transpusera o limiar e deixara de ser hóspede da Oiticica, o senhor de Quixeramobim não o considerou mais senão como um vizinho que lhe devia todas as honras e bajulações, passando a tratá-lo nessa conformidade.

Se não ocorresse ao capitão-mór a idéia de aproveitar o mancebo para dar à sua filha querida um noivo sofrível, certamente que nem o mandaria visitar por seu ajudante, nem o deixaria passar tranquilo no Bargado, cêrca de um mês; já lhe houvera suscitado algum conflito para ter ensêjo de obrigá-lo a um ato formal de submissão.

Esta sobranceria picou ao vivo o Marcos Fragoso; e se não fosse tão veemente e irresistível a sedução dos encantos de D. Flor, já seu orgulho se teria revoltado contra aquele soberbo desdém. O receio de perder a dama de seus afetos e tornar impossível a aliança que sonhava, pôde tanto nele, que o conteve.

Depois de realizada a sua ambição e de alcançada a posse da noiva, então êle se despicaria dêsse procedimento, obrigando o sogro a tratá-lo de igual a igual; e fazendo-lhe sentir que a honra dessa aliança, não a recebia êle, capitão Marcos Fragoso, filho do coronel do mesmo nome de seu competidor lhe sucedera na importância e tornara-se o potentado de Quixeramobim.

Quando cogitava nestas coisas, e recordava as rivalidades que outrora começavam já a levantar os dois vizinhos um contra o outro, acudiu-lhe a idéia de uma recusa da parte do capitão-mór; e se a princípio sua altivez repeliu a possibilidade do fato, refletindo, pareceu-lhe muito próprio o capitão-mór aproveitar-se da oportunidade para abater na pessoa dele o nome e a memória do coronel Fragoso, calcando depois de morto aquele a quem em vida não pudera igualar.

Várias razões haviam de pesar no ânimo do dono da Oiticica para aceitar a sua aliança: o grosso cabedal que ainda possuia êle, Fragoso; a vantagem de ter por vizinho na rica fazenda do Bargado um parente próximo, o que lhe assegurava o tranquilo domínio de todo o Quixeramobim; e finalmente as prendas e mancebo e cavaleiro, que muito valiam para noivo de uma filha mimosa e bem querida.

— Tudo isto, porém, pensava êle, o capitão-mór é homem para desprezar em troca de uma satisfação de seu destemperado orgulho. Portanto cumpre-me tomar as devidas precaições. Tenho suportado e continuarei a suportar suas arrogâncias, por amor da filha; mas albardar todas essas grosserias e ainda por cima a afronta de uma recusa, saindo da emprêsa, além de insultado, escarnecido?... Não; de outra livrem-me os anjos, que desta me saberei guardar.

Efetivamente o capitão já tinha o seu plano feito; tratou de realizá-lo.

Mandou chamar de sua fazenda das Araras, nos Inhamuns, o seu cabo de bandeira, Luiz Onofre, com ordem de trazer-lhe uma boa escolta de gente decidida. O bandeirista havia chegado à marcha forçada três dias antes, conduzindo trinta cabras, dispostos a tudo para ganharem a prometida paga e gozarem do prazer de matar e esfolar.

Essa gente arranchou-se na caserna que o Bargado, como todas as grandes fazendas de então, possuia para aquartelamento dos acostados. Explicou-se a chegada de modo a não despertar suspeita: era a escolta que devia acompanhar o moço capitão à sua fazenda das Araras.

No mesmo dia teve Fragoso uma longa conferência com o Onofre; e saíram ambos a percorrer os arredores. Na volta escreveu o dono do Bargado a carta convidando seu vizinho, o dono da Oiticica, e a família para a montearia.

Na conferência fôra combinado, de pois do estudo do terreno, que Onofre se postaría de emboscada com sua escolta no lugar conhecido por Baús, em caminho da várzea do Quixeramobim.

Na volta da montearia, o Fragoso obteria sob qualquer pretêsto uma audiência do capitão-mór e lhe faria o seu pedido, desculpando-se do lugar, com as razões que levaria preparadas. Se a resposta fosse favorável, estava tudo resolvido pelo melhor; no caso de uma negativa, o Onofre receberia o aviso por um sinal convencionado. Então ao passar D. Flor, que pelas cautelas tomadas se acharia separada do resto da comitiva e sobretudo da escolta, o bandeirista arrebataria a donzela e partiria com ela para o Bargado, seguido por Marcos Fragoso.

A intenção do Fragoso era casar-se imediatamente com D. Flor, para o que já tinha no Bargado um padre que mandara vir de Inhamuns com a escolta e que só alí chegara na noite antecedente, por ter-se demorado em caminho com uma sdesobrigas que pingaram sempre umas pratinhas.

Assim, quando o capitão-mór Gonçalo Pires Campelo dispunha-se a, em qualquer dia, mandar recado ao dono do Bargado e anunciar-lhe o alvitre que tomara de casá-lo com sua filha, Marcos Fragoso preparava-se para raptar a donzela que já lhe estava àquela hora destinada.

Nessa resolução partira êle para a montearia, e bem o demonstrara na conversa com seu primo Ourém.

Todavia absteve-se de comunicar-lhe o plano, e buscou desvanecer suspeitas suscitadas por suas alusões e ambiguidades. Além de não saber que pensaria o outro do projeto, não contava com a sua calma e dissimulação para guardar o segrêdo e não aventar desconfianças.

Fôra nestas disposições que sobreviera o incidente de Arnaldo. O seu gênio impetuoso, por muitos dias sofreado, prorrompera naquela explosão de ira, em que vazou todas as cóleras e irritações acumuladas desde a sua vinda a Quixeramobim.

Mas deixâmo-lo na touceira junto das carnaúbas, concentrado e a refletir.

O resultado dessas reflexões foi o que se devia esperar de um homem tão violentamente apaixonado como êle. Em poucas horas ia decidir da sorte de seu amor; de uma ou de outra forma, D. Flor lhe pertencia.

Devia por um arrebatamento imprudente comprometer sua felicidade, e frustrar a ocasião que nunca mais se apresentaria? Seria uma insensatez.

Chamou pois a si toda a energia da contade, para impor a seu temperamento a calma precisa: compôs o traje, cujo desarranjo podia denunciar a perturbação interior do espírito e cuidou em reunir-se aos companheiros.

Seu cavalo andava alí perto na várzea, aparando as pontas do capim mimoso; foi-lhe fácil apanhá-lo.

A pequena distância andada, acistou os outros vaqueiros que por prazer, andavam a montear o gado barbatão. Encaminhou-se para quele ponto.

Veio-lhe ao encontro o Ourém.

— Ora ressuscitou o primo Fragoso! Já pensávamos que o El-dourado tinha-lhe pegado o encanto e que andava por aí também, não em figura de touro, a-pesar-de que Júpiter não se deshonrou de o ser para carregar às costas a bela Europa; mas na figura de um daqueles gentís amorinhos que andam a beijar as flores. E como a flor das flores ainda não encontrou um bem atrevido para beliscar-lhes as faces, era bem presumível que o primo à semelhança do Cisne de Leda se disfarçasse no passarinho.

— Pois aquí me tem no meu próprio original de carne e osso, primo Ourém; e como destas corridas de touros não se tira outro proveito senão uma dome de caçador, vou saber em que altura anda o almôço, pois já passam das horas.

— Não serei eu que o demore nessa pia intenção; pois se o primo com o coração cheio sente as badaladas do estômago, imagine o que será de mim, que já me sinto todo um vácuo.

O Fragoso continuou o seu caminho. Ao passar por uma árvore viu os luzidos festões de uma trepadeira que descia dos galhos em bambolins de verde folhagem, recamada das mais belas flores purpúreas, quais pingentes de rubís.

O moço capitão colheu um ramalhete dessas lindas flores que no sertão chamam bilros; e dirigiu-se para a colina onde estavam as senhoras. O capitão-mór que o viu passar, gritou-lhe de longe com a sua voz de trovão, fazendo ribombar desapiedadamente aquele seu grosso riso de mofa:

— Então, sr. capitão Fragoso, que novas dá-nos do Dourado? Já esfolou o boi de fama, e traz aí as solas das chinelas? Olhe que o prometido é devido. Quando quiser, o mamote está à sua disposição.

A-pesar-do ânimo resoluto em que vinha, careceu o Fragoso de muito domínio sôbre si, para recalcar a violência de seu despeito e responder com ar prazenteiro:

— A nova que trago, sr. capitão-mór, é que não nascí para o ofício de vaqueiro, mas para o ter ao meu serviço. Foi isto que me ensinou o Dourado; e achando eu que tinha muita razão, deixei-o ir descansado e prometi-lhe mandar o José Bernardo entender-se com êle.

— Não é preciso, oboi não tarda aí. O Arnaldo já o derrubou comc erteza, retorquiu o capitão-mór.

— Melhor; fez sua obrigação.

Marcos Fragoso aproximou-se então de D. Genoveva:

— Quando corria, lembrei-me que em vez de dar caça a um boi magro e fujão, empregaria melhor o meu tempo colhendo estas lindas flores para a senhora D. Genoveva e sua formosa filha, de quem são irmãs, pois também são flores, porém mais meninas e menos encantadoras. Dá-me licença que lhe ofereça, a ela, D. Flor e à sua gentil companheira?

O galanteio era bem torneado para o tempo, e foi expresso com um apuro de maneiras, que já não se usa agora, e ainda mais naqueles sertões de gente franca e rude.

— Agradeço por mim e por elas, disse D. Genoveva, distribuindo as flores pelas duas moças.

— São muito lindas, observou D. Flor ao mancebo. Chamam-se bilros.

— Ah! não sabia, acudiu Fragoso; serão de fadas, pois que outros dedos podem tanger bilros tão graciosos e delicados, que nem os de coral os excedem?

Convidou então Marcos Fragoso as senhoras a se apearem para recolherem-se do sol, na tenda já armada alí perto.