O Sertanejo/II/VII

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O Sertanejo por José de Alencar
Segunda Parte, Capítulo VII: A volta

Na ourela da mata, à sombra de umas grandes sicupiras copadas de flores roxas, tinham os criados do capitão Marcos Fragoso arvorado um tôldo de damasco amarelo, sôbre estacas vestidas com o mesmo estôfo de côr azul, formando assim um vistoso e elegante pavilhão.

Alí já estava armada a mesa, a qual, feita de improviso com quatro forquilhas e ramos, ocultava êsse aspecto rústico sob as telas de sêda que a fraldavam até o chão. Sôbre a alvíssima toalha do melhor linho de damasco, ostentavam-se com profusão as várias peças de uma riquíssima copa de ouro, prata, cristal e porcelana da Índia, que ofereciam ao regalo dos olhos, como do paladar, os vinhos mais estimados e as mais saborosas das iguarias da época.

As canastras em que tinham vindo todos êsses objetos, reunidas umas às outras de ambos os lados da mesa e fraldadas igualmente de telas de sêda escarlate, formavam dois sofás ou divãs para assento dos convidados.

O chão fôra tapeçado com uma grande alcatifa mourisca, na qual se viam estampadas as figuras das hurís e dos guerreiros bem-aventurados, trançando no paraíso as mais graciosas dansas orientais, ou trocando entre si ardentes carícias.

Felizmente para a tranquilidade do banquete, as estampas da tapeçaria ficavam quase de todo ocultas pela mesa e assentos; pois do contrário o capitão-mór, apercebendo-se de semelhante desvergonhamento, não o suportaria de-certo; e nós já sabemos a fôrça de pressão do seu orgulho, quando ofendido.

As damas que tinham-se recolhido ao pavilhão por convite de Fragoso, já estavam sentadas no sofá; e só esperavam para se porem à mesa, a chegada do capitão-mór e dos outros companheiros, que aproveitavam o tempo a montear as reses bravas.

A vitela que forneceu a carne para o banquete fôra lançada pelo próprio capitão-mór e sangrada pelo Daniel Ferro. O João Correia tinha feito também a sua proeza. Correndo atrás de um boiote, foi sôbre êle com tal fúria, que, focinhando o seu cavalo no chão, achou-se êle montado no novilho; êste espantado com a carga deitou a correr para o mato como um desesperado. O primeiro ramo baixo atirou ao chão com a carga.

O capitão-mór apenado-se, contou à mulher a façanha do recifense.

— Aquí está o sr. capitão João Correia, que levou as lampas a todos, D. Genoveva. Montou num boiote, e largou-se a correr para o mato com tanta fúria que furou pela terra a dentro.

— Então divertiu-se muito? perguntou D. Genoveva ao capitão para arredar a lembrança do seu revés.

— A vaquejada é um belo passatempo, sem dúvida; mas eu prefiro a caça a tiro.

— Então já não é vaquejada; é matança como usam os que precisam da carne para comer, disse o Daniel Ferro.

Pagens do reino, vestidos de garridas librés à moda do tempo, com longas casacas de abas largas, calções e meias brancas, vieram apresentar às damas e convidados ricas bacias de prata dourada, para lavarem as mãos, entornando água de jarros do mesmo lavor e metal.

Ao ombro esquerdo traziam êles alvas toalhas do mais fino esguião lavradas de labirinto com guarnições de renda, trabalhos êstes em que as filhas do Aracatí já primavam naquele tempo, e que lhes valeu a reputação das mais mimosas rendeiras de todo o norte.

Depois que o capitão-mór e sua família enxugaram as mãos, o Marcos Fragoso fazendo as honras do banquete com a apurada cortesia, conduziu à mesa seus convidados colocando-os nos lugares a cada um destinados conforme o grau de cerimônia e importância.

Ao capitão-mór coube a cabeceira; as damas com o capelão ocuparam um lado; e o outro lado ficou para Ourém, Daniel Ferro, João Correia e o Agrela; Marcos Fragoso sentou-se no tôpo.

Eram mais de oito horas. Para a época e o lugar tardara o almôço; mas fôra preciso dar tempo à montearia, mais agradável com a fresca da manhã. Além de que os tarros de leite fresco, mugido do peito das vacas alí mesmo no pasto, haviam confortado os estômagos. Todavia o apetite foi o que se devia esperar depois de três horas de equitação e dos exercícios ativíssimos da vaquejada.

O sol já estava alto; mas seus fogos eram moderados pela aragem fagueira que durante os meses do inverno reina no sertão.

Aquela festa cortesã, arreada com todos os primores do luxo, tinha alí no seio do deserto um encanto especial e novo que perderia, se, em vez da floresta, a cingissem as paredes do mais suntuoso palácio. As telas de veludo e sêda, desfraldadas por entre o verde estôfo da folhagem; a competência do cristal, do ouro e da prata com as flores e os frutos dos mais finos matizes e de mil formas caprichosas; a antítese da arte no seu esplendor com a natureza em sua virgindade primitiva: era de enlevar.

O banquete foi demorado. A princípio correu quase silencioso; os caçadores tratavam de aplacar os rebates do apetite, que a-pesar-do anexim, não cedia ao do pescado, na fome como na sede.

Durante essa primeira parte do almôço, alguns pagens tocavam charamelas, gaitas e outros instrumentos que formavam então as bandas de música marcial.

Mais tarde levantou-se a conversação na qual tomou parte ativa Marcos fragoso.

Não perdeu o moço capitão vez de insinuar a D. Flor alusões e finezas encobertas que todos entendiam, menos a donzela, cuja índole não se prestava a tais ambiguidades, e o capitão-mór, para o qual a mitologia em que os namorados de então se forneciam de galanteios, era um latim rebarbativo.

Já estava a terminar o almôço, quando Arnaldo que tornava da corrida, ouviu de longe os brindes que se trocavam entre os convidados. Aproximou-se cautelosamente por dentro do mato. O seu nobre semblante, que tinha habitualmente a expressão viva e atenta, que é própria do sertanejo, nesse momento apresentava uma alerta ainda mais pronta e vigilante.

Por entre as árvores descobriu êle as cavalgaduras, que pastavam à soga em uma clareira coberta de relva e sombreada pela mata. Perto do baio de D. Flor, estava um rapaz de vinte anos, que pelo tipo das feições e pela côr baça do rosto combinada com os cabelos negros e lustrosos, mostrava pertencer à raça boêmia, da qual nesse tempo e até época bem recente, vagavam pelo sertão bandos que viviam de enliços e rapinas.

O escritor desta páginas ainda tem viva a lembrança dessas partidas de ciganos, que muitas se arrancharam no sítio onde nasceu, e cuja derrota era assinalada pelo desaparecimento das aves e criação e animais domésticos, especialmente cavalos, quando não havia a lamentar o furto de crianças, de que faziam particular indústria.

O rapaz que Arnaldo vira, era um cigano desgarrado, como havia alguns por exceção; e estava a fazer ao baio uns afagos e carícias, tão cacheiros que para exprimí-los, adotou a língua o seu próprio nome. O povo rude chamava a isso, enfeitiçar o cavalo; e acreditava que o animal assim enliçado fugia do dono para seguir o ladino.

O sertanejo parou um instante a observar o cigano, e seguiu adiante.

O capitão-mór pela posição em que estava foi quem primeiro o avistou, e de longe, ainda gritou:

— Sempre escapou-te, o Dourado, rapaz? Aquilo é um boi danado, e manhoso como nunca se viu. Mas não te desconsoles. Outra vez com certeza lhe deitas a unha. Êle ficou te conhecendo desta primeira corrida que lhe deste, e já sabe o filho e quem és. Teu pai, o Louredo, nosso vaqueiro, e o primeiro campeador de todo êste Quixeramobim, o que quer dizer de todos os sertões do mundo, levou uma semana atrás dêsse boi desaforado.

Ao terminar desta fala, já Arnaldo achava-se perto da mesa. Marcos fragoso, a-pesar-de haver-se convencido da necessidade de suportar com uma altiva impassibilidade a presença do vaqueiro que o havia insultado, custou a conter-se, e como o banquete havia terminado apartou-se com o primo Ourém para não precipitar-se.

— Portanto, concluiu o capitão-mór, erguendo-se da mesa e caminhando para o sertanejo, não tens de que te envergonhar, rapaz! Aprendeste as manhas do boi; qualquer dia dêstes consegues pegá-lo.

— Eu já o peguei, sr. capitão-mór, disse Arnaldo sem alterar-se.

— Que dizes? Pegaste o Dourado, rapaz? perguntou o fazendeiro na maior surpresa.

— Á unha, sr. capitão-mór.

— Bravo, Arnaldo! Onde está o maganão? Trouxeste-o à ponta de laço, ou deixaste-o amarrado ao pau, que não é boi para matar-se aquele?

— Tive pena dele, e solteio-o, respondeu Arnaldo com emoção.

— É boa! exclamou João Correia. Pena de um demônio em figura de boi!

— Que ternuras de vaqueiro! acrescentou Daniel Ferro.

— Soltei o Dourado, sr. capitão-mór; porém antes marquei-o com o ferro de D. Flor, como ela tinha-me ordenado, concluiu Arnaldo sem dar ouvido às observações impertinentes.

O capitão-mór exultou:

— Flor, já sabe? O Dourado está com o seu ferro. Não pediu?

— Eu sabia que êle tinha de ser meu, e que Arnaldo é que o havia de amansar, respondeu a donzela sorrindo.

— Mas que prova temos nós disso? volveu Daniel Ferro.

— De quê? perguntou o sertanejo.

— De ter pegado o boi e ferrado.

Arnaldo olhou-o com surpresa:

— A minha palavra, respondeu.

Já soava o riso dos dois hóspedes do Fragoso quando o capitão-mór o atalhou:

— A tua palavra, Arnaldo, que nós seguramos com a nossa. O que disse o nosso vaqueiro é a verdade, e somos nós, o capitão-mór Gonçalo Pires Campelo, que o afirmamos. Se há quem duvide... terminou com uma reticência cheia de ameaças, correndo os olhos em roda.

— Quem é capaz de duvidar da honrada palavra de vossa senhoria? acudiu o João Correia. Desde que o sr. capitão-mór abona, está acabado.

O Daniel Ferro foi prudente apenas, e afastou-se.

— Mas então, como foi o caso, Arnaldo? Conta-me tudo, quero saber. Pegaste-o mesmo à unha?

Arnaldo referiu singelamente ao capitão-mór os pormenores da corrida, sem omitir nem mesmo suas conjeturas acêrca da tristeza do boi, e da piedade que excitara nele a lágrima do corredor. O capitão-mór ouviu atentamente, inquirindo de cada circunstância, e aprovou o procedimento de seu vaqueiro.

— Fizeste bem; não se deve informar um boi valente, é melhor matá-lo.

Enquanto relatava ao capitão-mór a corrida, não cessou Arnaldo de observar o Marcos Fragoso, e viu a conferência que êle teve com o Ourém.

— É agora na volta, primo Ourém, que pretendo falar ao capitão-mór sôbre o assunto que sabe; e decidir êste casamento, de que depende o meu sossêgo, pois quis o fado que eu não possa viver sem D. Flor. Espero que me ajudará.

— Disponha de mim, primo; infelizmente não posso pôr à sua disposição:

«Para servi-vos braço às armas feito, Para cantar-vos mente à musa dada.»

— Guarde o braço; quanto à musa basta que ela entretenha as damas e os outros, enquanto me entendo com o capitão-mór.

— Conte comigo.

— Obrigado. Se a resposta for favorável, conhecerá pela demora e por meu semblante; se for contrária, há de ouvir-se o toque de charamelas; é o sinal para afastar-se logo do caminho e tomar direito pelo mato, onde nos reuniremos.

— Sem despedir-me do capitão-mór?

— A conferência há de acabar um tanto azedada; pelo que julgo mais prudente não a prolongar com despedidas.

— Lá isso é verdade.

— Previna o primo ao João Correia, que eu vou avisar ao Daniel Ferro.

Instantes depois anunciou-se a partida. Vieram os cavalos, e Arnaldo trouxe pelo freio o baio, que apresentou a D. Flor; mas não deu tempo à moça de falar-lhe. Quando depois de ter montado ia a donzela dirigir-lhe a palavra, tinha êle desaparecido.

Tornou a comitiva pelo mesmo caminho.

A cêrca de meia légua da marizeira, onde as duas comitivas se haviam juntado, Marcos Fragoso, que seguia de par com o capitão-mór entretendo-o com uma conversa banal acêrca de fazendas de gado e outros assuntos do sertão, fez uma pequena pausa, e mudou de tom.

As senhoras e os outros cavaleiros iam muito adiante escaramuçando e já não apareciam; o Agrela vinha atrás com a escolta. Tinha, pois, o Fragoso liberdade para encetar o delicado assunto:

— Agora, sr. capitão-mór, peço-lhe vênia para tratar de um ponto que me toca mais que nenhum outro, disse Fragoso; e releve vossa senhoria, se o faço nesta ocasião imprópria, mas como talvez saia amanhã para Inhamuns, não quis adiar.

— Visto que está de partida e o caso é urgente, não nos negaremos a ouví-lo aquí, sr. capitão Marcos Fragoso, ainda que o direito era em nossa casa.

— Bem o reconheço; mas a bondade de vossa senhoria supre esta minha falta.

— De que se trata então?

— O muito e estremecido afeto que sinto por sua filha, D. Flor, e que eu acredito ser por ela retribuído, obriga-me a pedir sua mão a vossa senhoria, que decidirá, como pai que é, de nossa mútua felicidade.

Passada a surpresa, o capitão-mór respondeu com severidade:

— Nossa filha, sr. capitão Marcos Fragoso, não podia pensar em homem algum sem licença de seu pai. Fique sabendo.

— Talvez me iluda; e nesse caso dela virá a minha desventura. Mas vossa senhoria, que decide?

— O senhor não falou esta mesma manhã de uma noiva, com quem já parecia justo e contratado? A-propósito do Dourado e daquelas formosas chinelas que ainda não tem solado?

— Ah! exclamou Fragoso sorrindo. Essa noiva de que eu falei, é precisamente aquela que lhe acabo de pedir, e que espero alcançar da sua generosidade.

— Visto isso, já contava como certo o seu casamento? retorquiu o capitão-mór, rugando o sobrolho.

— Tinha a esperança, que ainda conservo, de que vossa senhoria não me recusará a mão de D. Flor, tornou Marcos Fragoso.

O Campelo calou-se.

— Que resolve, senhor capitão-mór?

— Eu pensarei.

— Já anunciei a vossa senhoria que parto amanhã, e careço de uma resposta para terminar agora mesmo esta minha pretensão de uma ou de outra forma.

O capitão-mór solenizou-se:

— O que lhe podemos dizer, sr. Marcos Fragoso, é que apressou-se em pedir nossa filha e pensar que ela estivesse à sua espera ou de outro qualquer.

— Será porventura alguma princesa? atalhou Fragoso, já não dominando o despeito.

— É nossa filha, a filha do capitão-mór Gonçalo Pires Campelo. Está ouvindo? Nós podíamos, se nos aprouvesse, escolher entre outros o sr. Marcos Fragoso para casá-lo com D. Flor; mas não admitimos que pretenda casá-la consigo.

— Quer isso dizer que seriam o senhor e ela quem me dariam a honra de admitir-me na sua família, em falta e coisa melhor, e por uma espécie de promoção ao pôsto de marido?

— É justamente isto, tornou o capitão-mór.

Fragoso calou-se. Com um movimento expressivo tirou o chapéu e conservou-o algum tempo na mão. Soou então no mato o canto estridente da saracura; e com pouca demora outro igual respondeu-lhe a cêrca de cincoenta braças para diante.

Então o moço capitão voltou-se com arrogância para o Campelo:

— Senhor capitão-mór, o assunto é muito sério. Pese bem a sua resolução.

— O capitão-mór Campelo só tem uma palavra. Disse não; é não.

— Pois saiba vossa senhoria que eu, Marcos fragoso, também só tenho uma vontade e irrevogável. Jurei que sua filha seria minha mulher e, com o favor de Deus, ela há de sê-lo.

O moço capitão fez com o chapéu um cortejo ao Campelo; e voltando à direita meteu-se pelo mato seguido de toda a sua comitiva, inclusive os pagens que ticavam as charamelas.

O capitão-mór ficou um instante perplexo:

— Que disse êle? perguntou para o ajudante. Jurou que minha filha há de pertencer-lhe com o favor de Deus? Irá fazer alguma novena, Agrela?

— Ou alguma penitência, senhor capitão-mór.

A atenção do capitão-mór voltou-se para um grande tropel de cavalos que soara pela frente. Curioso de saber por si mesmo a causa dessa arrancada, apressou o passo do ruço pedrês.