O Teles e o Tobias/VIII

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O Teles e o Tobias por Machado de Assis
Capítulo VIII


O filho de Chico Teles andava todo cheio com a eleição. Já se estava a se ver na câmara, diante das galerias apinhadas, e dominando com o olhar o ministério assustado e receoso de si.

Esta perspectiva política fez apagar muito a imagem da filha do Tobias; e a pobre menina, que até então se carteava com o candidato, às ocultas, começou a duvidar do amor dele, desde que as missivas começaram a rarear.

Ato contínuo, teve uma febre intermitente.

O médico chamado a ver a doente, ou porque soubesse do fato, ou porque tivesse a ciência de adivinhar, o certo é que declarou ao juiz de paz que o verdadeiro motivo da moléstia da moça era o amor por Alfredo.

— E nesse caso, disse o médico, julgo melhor casá-los.

— Não! não! clamou Tobias, atirando com os óculos pela janela fora, isso nunca! Há de haver algum remédio em substituição a esse.

— Paliativos, disse o médico.

— Casar com ele é unir minha família à daquele biltre! O que não haviam de dizer os meus correligionários políticos?

— Deixe-se disso, sr. Tobias. Os seus correligionários não têm direito a impedir que o senhor case sua filha.

— Mas a honra do partido!

— Qual, partido!

— Cale a boca, doutor! Lembre-se de que eu tenho uma folha, e posso...

— Uma folha de que eu sou assinante.

Tobias que já contava ameaçar o médico, ficou macio quando este lhe lembrou a circunstância da assinatura, e foi pouco e pouco moderando o seu ardor político.

A conversa morreu sem que Tobias tomasse decisão alguma.

Entretanto, de um lado, e do outro, ativavam-se os elementos para a grande batalha campal da eleição.

Teles tinha um irmão rico, cuja fazenda distava dez léguas da vila; escreveu-lhe pedindo uma remessa de dinheiro para auxiliar a liberdade do voto.

Alfredo lembrou-se de ter lido alguma coisa a respeito de meetings ingleses, e disse ao pai que era um excelente meio de consolidar a sua candidatura. O pai aceitou a idéia; mas para que não argüíssem de cumplicidade nesse fato, Teles retirou-se da vila durante dois dias, e deu assim tempo a que o filho pudesse pôr em prática o meio eleitoral.

Não custou pouco ao rapaz reunir gente para o meeting, mas afinal conseguiu. O local era o largo da matriz. Uma espécie de tribuna erguia-se no centro da praça, e era o lugar destinado ao orador.

Algumas velhas, vendo o aparato do largo da matriz tiveram a indiscrição de perguntar se havia nesse dia teatro de bonecos. Responderam-lhes que era uma sessão preparatória de eleição.

Chegou o dia aprazado; os vereadores e algumas outras autoridades assistiram ao meeting; os curiosos eram em grande número.

Alfredo foi o único orador.

— Meus senhores, disse ele do alto da tribuna; dentro de poucos dias tem de haver a eleição de deputado; eu apresento-me candidato a um dos lugares da lista. Bem sei que o voto agora restringe-se aos eleitores, e que vós, povo, não tendes mais o direito de votar: mas o que eu peço, é que a alta consciência dos eleitores seja um tanto influenciada pela voz da opinião pública que é a senhora do universo. É a ti, opinião pública, que eu me dirijo, é aos teus pés que eu deponho os meus poucos méritos, é de ti que eu desejo o batismo.

— O batismo! rosnou o barbeiro da vila; parece que o sr. Teles esqueceu-se de mandar o filho à pia...

O orador desceu, entretanto, os degraus da tribuna, no meio de alguns vivas, soltados por dois ou três capangas, anteriormente pagos.

O povo ficou ainda algum tempo a esperar por mais, até que veio a noite, e cada um foi para casa, com a cara à banda.

Alfredo também se retirava, quando um moleque se chegou a ele, e entregou-lhe o seguinte bilhete:

Alfredo, se me amas, vem buscar-me, fujamos hoje mesmo; apesar de doente, irei contigo; se não vieres, mato-me.

O bilhete era da filha de Tobias. Alfredo franziu a testa, e releu o bilhete. Embora não tivesse já os primeiros ardores pela moça, todavia ainda gostava dela, e a idéia de uma catástrofe devia impressioná-lo.

No meio das suas glórias eleitorais, vinha o amor aguar-lhe o prazer — Que idiota! — Quantos há que por um amor sincero, ardente, puro, dariam eleições, câmaras, ministérios, e tudo!

Alfredo foi para casa, e gastou a noite em meditar no que devia fazer. Depois de muito tempo mandou à namorada o seguinte bilhete:

Tente bem, se o mamão...

A moça leu espantada este bilhete; não compreendia o que era; mas de repente uma triste idéia a assaltou.

— Se Alfredo estivesse louco!...

Nisto teve um desmaio. Quando deu acordo de si, estava nos braços do pai, a quem confessou tudo, para poder contar os seus tristes receios.

Tobias ralhou com a filha, mas lá se alegrou no interior por ver doido o candidato, tanto que no dia seguinte lia-se a seguinte notícia no Farol:

Afirmam-nos que se acha atacado de alienação mental o sr. Alfredo Teles. Este jovem merecia as simpatias das pessoas sensatas da vila, apesar do pai.

Nessa manhã venderam-se mais vinte exemplares do Farol, e a notícia chegou até o lugar onde se achava Chico Teles, que amarrotou o jornal, e veio para a vila disposto a deitar tudo abaixo.

Pobre Alfredo! O que ele queria dizer era entretanto simples. O hábito do anagrama foi a causa daquilo. Ele queria dizer:

Não te mates meu bem.
E escreveu:
Tente bem, se o mamão...
Até onde vai um mau costume!