O Tronco do Ipê/I/XIV

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O Tronco do Ipê por José de Alencar
Mário

Quando Mário deixou Benedito junto ao tronco do ipê, ele soltara estas palavras que revelavam no meio de suas tristes preocupações a travessura infantil.

— Vou brincar sozinho.

Não era natural que o preto velho deixasse Mário ir-se dele, em disposições de espírito bem próprias para inquietá-lo. Se Benedito obedecesse ao impulso de sua alma, sem dúvida acompanharia o menino, para distraí-lo de tão negros pensamentos, e evitar que, absorvido como ia, fosse vítima de algum desastre.

O negro porém sabia, desde muito, a que significava na boca do menino aquele simples desejo expresso em breves palavras. Era uma vontade inabalável, da qual não havia meio de demovê-lo. Esse jovem espírito sentia já naqueles primeiros anos, de ordinário tão despreocupados, a necessidade invencível da solidão, que é para a alma a sombra depois do sol, o descanso depois da luta, o abrigo depois do perigo.

Durante a maior parte do dia sofre o corpo a coação que lhe impõe o trajo e a polidez; carece por fim de sentir-se à larga, de se espreguiçar no leito, e de estender os músculos por muito tempo contraídos. A alma, igualmente tolhida pela prática e atenção dos estranhos, carece também como o corpo desses espreguiçamentos íntimos, de uma expansão franca. Para isso procura um refúgio. A solidão é a alcova para a alma.

Não era contudo esta necessidade moral o único móvel, que levava o menino a isolar-se nesses lugares.

Fora aquele o teatro da catástrofe que arrebatara seu pai de uma maneira tão imprevista e para ele inexplicável. O menino não compreendia como um cavaleiro dirigindo-se à Casa Grande, pudesse por engano desviar-se do caminho e precipitar-se no boqueirão; tanto mais quanto esse cavaleiro era um homem nascido e criado naqueles lugares, conhecendo perfeitamente a lagoa e os arredores.

Além de que na tradição do fato havia muito de vago e incerto. Notavam-se lacunas, que de ordinário procuravam preencher com suposições e conjeturas mais ou menos inverossímeis. Mário por vezes havia insistido com as pessoas que se diziam mais informadas da catástrofe; e nenhuma o satisfizera, nem mesmo Benedito, talvez de todos o que mais sabia, porém o que mais reservado se mostrava.

Uma circunstância ocorreu, que deixou no espírito do menino terrível suspeita.

Tempos depois da catástrofe, veio à fazenda um irmão de D. Francisca, morador na Estrela, onde era procurador de causas e meio rábula. A viúva lhe escrevera por vezes insistindo sobre a necessidade que tinha de falar-lhe. O Sr. Juvêncio levara dois anos a resolver-se: mas afinal sempre fez a prometida visita.

Mário tinha então sete anos, e assistiu a uma parte da conferência dos dois irmãos, que vendoo entretido a brincar com um carrinho de cuia, não pensaram que lhes desse atenção.

— Donde lhe veio esta desconfiança? perguntou o rábula.

— Já lhe contei que meu marido foi chamado pelo pai e esteve com ele muitas noites seguidas sem que ninguém o soubesse, senão Benedito. Uma vez, quando voltava, achando-me a trabalhar, ralhou comigo: “porque não era preciso matar-me agora que a fortuna ia mudar e nós íamos ser ricos outra vez”. Está-se vendo que o comendador tinha-lhe prometido deixar tudo.

— Não digo o contrário.

— Na véspera meu marido levou todo o dia a fazer contas e até por sinal deixou em cima da mesa um papel que eu conservei. Olhe!...

D. Francisca tirou do seio uma folha de papel já amarelado, sobretudo nas dobras; e o deu ao procurador para examiná-la.

— No dia seguinte amanheceu meu marido morto, de uma maneira que não se explica; e toda a riqueza do comendador passou para os estranhos.

— Para os credores!

A viúva sorriu amargamente:

— De que ninguém tinha notícia!

— Mana, disse o rábula com importância; tome o meu conselho: esqueça-se disso. No fim de contas você ainda foi muito feliz em achar um homem caridoso como o barão que a protege e a seu filho. Não tente a Deus!

D. Francisca tomou o conselho do irmão; e nunca mais falou de suas desconfianças. Quando mais tarde Mário a interrogou a esse respeito, ela espavorida procurou apagar a lembrança de suas palavras no espírito do menino.

Mas não o conseguiu. A suspeita filtrara profundamente naquela alma.

Cansado de inquirir os homens debalde, passou o sôfrego menino, já então na idade de doze anos, a interrogar a natureza inanimada, os objetos materiais, que foram testemunhas da morte de seu pai. Começou desde então a luta heroica e admirável da criança contra as asperezas do sítio agreste e rude.

Debalde os rochedos erriçavam suas fragas e alcantis, como puas terríveis, ou abriam suas gargantas profundas e medonhas para sumir o imprudente, cujo pé deslizasse à borda do precipício. Debalde o lago sombrio, povoado dos fantasmas que a tradição fazia vagar por suas margens, envolvia-se, como em um sudário, na solidão fria e glacial, exalando pelas fendas do penhasco o lúgubre estertor do remoinho, a se estorcer em convulsões. Debalde pululava aí sob aquela vegetação linfática, a geração abundante de medonhos répteis, que produz sempre nos climas tropicais, o consórcio da água profunda com o rochedo cavernoso.

Nenhuma dessas ameaças do ermo, nenhuma dessas cóleras da natureza selvagem, fez recuar o menino.

Ele avançava, hesitando, é verdade; seu coração batia mais apressado; seus olhos inquietos moviam-se com extrema mobilidade de um a outro lado; frequentemente voltava a cabeça imaginando que um perigo qualquer o seguia passo a passo e estava prestes a cair-lhe sobre. Às vezes parava para escutar os rumores indefiníveis da floresta, essa voz estranha que toma quase ao mesmo tempo todos os tons, desde o gemido até o grito humano, desde o zumbir do inseto até o rugir do tigre, desde a gota que borbulha até à catadupa que ribomba.

Mas a pouco e pouco, Mário foi-se familiarizando com essas ilusões do ermo, verdadeiras miragens da floresta; com a diferença que as miragens dos desertos da Arábia são produzidas pela luz; e as miragens de nossas matas virgens são o efeito da sombra nas horas mais esplêndidas deste clima brilhante.

Um perigo vencido é um degrau que sobe a alma do homem, e do alto do qual olha sobranceira as misérias que lhe vão ficando abaixo dos pés; é um apoio em que se firma para arrojar-se avante. À medida que Mário afrontava a bruteza daquele sítio escabroso, sentia-se mais forte; a têmpera de sua alma apurava-se no atrito daquelas penhas broncas e porventura tomava a seu contacto alguma cousa de ríspido e áspero.

O desenvolvimento físico de seu organismo apurava esse crisol do espírito. O corpo adquiria mais vigor e robustez que punha ao serviço das audácias de uma curiosidade infantil.

Mário conhecia todo o rochedo pelo direito como pelo avesso; tinha subido aos mais altos e ab-ruptos dos píncaros; e descera às profundas cavernas e escuras fendas abertas na rocha. Sabia a forma e o tamanho de cada uma dessas criaturas de pedra; todas tinham para ele uma figura, uma atitude e um nome. Estudara até os seus costumes. Sabia a hora em que apanhavam sol, ou se cobriam de sombras; o momento da sesta do cameleão, e da visita das andorinhas depois do banho.

O lago, apesar do terror de que o cercava a tradição, não escapou às investigações de Mário. Para ali sobretudo, para a voragem medonha, o arrastava sua ardente curiosidade. Aquela água, onde se tinha submergido o corpo de seu pai, talvez guardasse ainda o segredo da catástrofe.

O menino sabia nadar; muitas vezes tinha experimentado suas forças no Paraíba, cortando-lhe a veia; mas a correnteza do rio, ainda mesmo no tempo das enchentes, era suave em comparação com o torvelinho do lago. Aqui a água tinha um eixo em torno do qual volvia com a velocidade do tufão.

A princípio Mário arriscou-se unicamente nos lugares, onde o lago se espraiava, e a rotação das águas era ainda lenta, embora pesada. Circulou essas orlas do abismo, provando as forças, e habituando-se a resistir ao ímpeto da corrente. Mais tarde, protegido por uma corda segura à margem do lago, sondou o remoinho. Da primeira vez pareceu-lhe que o rodavam vivo. A onda agarrou-o como uma folha seca, e enovelando-lhe o corpo levou-o ao fundo do abismo donde o vomitou atordoado.

Graças ao apoio da corda, e por um supremo esforço, pôde Mário ganhar a margem, onde se atirou extenuado; mas a luta se travara entre aquele menino audaz e aquele abismo terrível; um deles devia triunfar e vencer o outro, ou o abismo havia de devorar o menino, ou o menino submeteria o abismo e zombaria de sua cólera.

Mário triunfou. Como o rochedo, o lago recebeu seu jugo. Sondou ele as profundidades do boqueirão, e estudou a sua carcaça; com a continuação, chegou a conhecer todos os incidentes do abismo. Sabia onde estava a raiz encravada no rochedo, a rampa natural da pedra, para em caso de necessidade servir-lhe de apoio contra a torrente.

Toda essa luta porém fora inútil. O lago, o rochedo, a floresta, se conservaram mudos. Mário não encontrou o menor traço da catástrofe que passara pela solidão sem deixar o menor vestígio. Se algum porventura havia ficado, os onze anos decorridos o tinham completamente desvanecido.

Contudo o menino não desanimava; uma esperança vaga, que, se às vezes amortecia, nunca extinguia-se de todo, o alimentava. Parecia-lhe que o mistério ali estava palpitante no seio da solidão; às vezes julgava ouvir-lhe as pulsações; mas alguma cousa o subtraía à sua curiosidade. O menino acreditava que, avançando na idade, sua razão mais vigorosa descobriria aí mesmo, o que tinha escapado ao seu espírito de quinze anos.

Durante as correrias pelo rochedo e as tentativas sobre o lago, Mário corria a cada instante mil perigos; por isso, desde princípio evitou a companhia de Benedito, que se oporia a qualquer travessura mais arriscada. O preto, cuidadoso pelo menino, a quem amava com extrema dedicação, insistiu em segui-lo; mas só obteve irritá-lo.

Mário fingia mudar de propósito; e quando menos esperavam, desaparecia. Pior era sair Benedito em sua procura; porque então com o desejo de subtrair-se às vistas que o buscavam, não havia imprudência que não cometesse. Um dia o velho o viu por diversas vezes a despenhar-se das abas de um alcantil, ou dos galhos de um frágil arbusto, para esconder-se nalgum refúgio inacessível.

O terror que teve então o velho, produziu o efeito desejado por Mário. Desde aquele dia deixou de ser contrariado; bastava que o menino se afastasse, exprimindo o desejo de isolar-se, para que o preto se submetesse à sua vontade, humilde e resignado. Qual não seria a dor do pobre Benedito, se acontecesse a Mário algum desastre, pela precipitação com que desejasse esconder-se?

Naquele fatal dia 15 de janeiro, já marcado pelo selo da desgraça na história de sua família, e destinado ainda para tão tristes acontecimentos; naquele dia, Mário, deixando seu bom e velho amigo, ganhou sob o peso das tristes preocupações a margem do rio que lambia naquela paragem as faldas do rochedo.

— Benedito diz que estou enganado. Se ele soubesse o que eu ouvi? Queria contar-lhe; mas para quê? Não acreditará... Ou talvez acredite, e esconda de mim!...

Mário subindo automaticamente pelo rochedo, foi ter à ponta que se projetava sobre o remoinho. Era o seu pouso favorito; daí dominava ele todo o circuito. Via aos pés o lago adormecido, como um dragão ressupino com as asas desdobradas; em torno, os alcantis apinhados uns sobre outros; ao longe, formando os horizontes do painel, a floresta, a várzea e o rio.

Algum tempo depois de ali chegado, lançando os olhos para o remoinho, viu uma sombra refletir-se nele; e reconheceu Alice.

A princípio Mário não sentiu mais do que a surpresa de ver a menina próxima daquele lugar, donde a deveriam afastar as ordens do barão e os cuidados das pessoas que a acompanhavam. Reparando porém na insistência com que Alice permanecia no lugar, na tenacidade de seu olhar fixo no torvelinho das águas, compreendeu que a menina era naquele momento presa da vertigem.

Outrora, quando mais criança, no começo de suas excursões, ele também sofrera esse encanto poderoso da sereia, que o fascinava e atraía irresistivelmente ao fundo do abismo. Para vencer a alucinação, o menino de propósito afrontou a vertigem, uma e muitas vezes, até que se acostumou a dominá-la.

Mário, conhecendo a força de atração do abismo, imaginou que Alice ia precipitar-se; o seu primeiro impulso foi chamá-la e preveni-la; mas ele tinha às vezes instintiva repugnância por essa menina, a quem envolvia na aversão que votava ao barão e a quanto lhe pertencia.

Nisto, por um fenômeno muito natural nos momentos de emoção, as impressões atuais se travaram e confundiram com as recordações do passado, produzindo uma espécie de nimbo moral, meio visão, meio realidade. Desenhou-se em sua imaginação, como um lampejo, a cena da morte de seu pai, tragado pela voragem, enquanto o barão de pé, na margem, sorria com orgulho. No fundo desse quadro, como disputando-lhe a tela e transparecendo através da primeira cena, a fantasia do menino via Alice por sua vez tragada pelo boqueirão; na margem, o barão sucumbindo ao peso de tamanha desgraça, e ele, Mário, em pé sobre o rochedo, sorrindo-se como o anjo da vingança.

Nesse momento ouviu-se o soluço profundo da onda. Alice, atraída pela vertigem, acabava de precipitar-se.

O abalo que sofreu Mário vendo desaparecer o corpo de Alice, espancou de seu espírito a visão, para mostrar-lhe a realidade. Havia nesse menino um coração precoce como seu espírito, já capaz dos grandes ódios, como dos rasgos de heroísmo.

Diante da catástrofe ele esqueceu quem era a vítima, para só lembrar-se que uma vida corria perigo. A ideia de vingança, que afagara em um instante de cisma, agora o enchia de horror. Como pudera associar uma memória querida à desgraça de outrem?

Por isso o nome do pai lhe viera aos lábios, como um grito de perdão e ao mesmo tempo uma santa invocação, no momento em que ele se arrojava no remoinho para salvar Alice, ou talvez morrer.