O Tronco do Ipê/II/I

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O Tronco do Ipê por José de Alencar
A Doceira

Não tarda meio-dia.

A uma das portas que dão para o quintal da Casa Grande aparece uma linda moça de dezoito anos.

O que logo se nota nela, não é tanto a gentileza das formas e o mimo de seu rostinho de camafeu, como o contraste do vulto gracioso com o lugar. Lembra a doce virgem, que Murilo pintou sobre a tela de um guardanapo ou mantém de cozinha.

Realmente aqueles olhos azuis de uma luz tão cintilante; os cabelos de ouro riçados em diadema; o níveo colo, cuja nascença se debuxa sob o talhe afogado de um vestido de seda cor de cinza; e sobretudo a mão pequenina, melindrosa e afilada; são para a janela da rica sala, e não para a porta da copa, onde nesse momento se desempenham os humildes serviços do tráfego diário da casa.

A moça porém não se preocupa decerto com a impropriedade de sua presença naqueles lugares; e muito senhora de si, move-se com o maior desembaraço atendendo a diversos objetos que a interessam. Se encontra no caminho uma gamela cheia de água, refuga desapiedadamente a saia do bonito vestido de seda, já tão amarrotado que mete pena.

— Nhanhã, estão aqui os ovos, disse a Vicência.

Alice voltou-se. A mãe do Martinho, que era uma das cozinheiras da casa, acabava de pôr sobre a mesa um açafate com algumas dúzias de ovos.

— Traze o alguidar. Manda ver o forno, que esteja pronto.

As gemas d'ovos foram passando para o alguidar onde se mediu uma libra de manteiga, duas de farinha de trigo, conforme recomenda o livro da Perfeita Doceira, que a menina consultara de véspera, e que ali estava à mão para tirar qualquer dúvida.

Não fora decerto para esses misteres caseiros que Alice aprontara-se logo de manhã de vestido de seda e trajo elegante, mas descendo à copa a fim de ver o serviço das pretas, não lhe sofrera a paciência: e ali estava ela emendando o que não achava bom, e fazendo por suas mãos o que não executavam com a desejada rapidez.

Enquanto se trazia a tábua onde estendesse a massa, aproveitou a menina para de novo chegar à porta e lançar como da primeira vez um olhar para a copa frondosa de uma árvore que aparecia a algumas braças por cima do muro do quintal. Era um alto jequitibá, relíquia da antiga mata virgem; tinham-no conservado para dar sombra ao curral do gado.

— Psiu! Martinho! gritou a moça bastante alto para ser ouvida ao longe, mas com um sombreado na voz que indicava certo acanhamento.

— Ainda não, nhanhã! respondeu desconsolado o pajem mostrando o focinho entre a folhagem da última grimpa do jequitibá.

Alice tinha nesse momento as mangas arregaçadas e as mãos até os pulsos cheias do bolo que estivera amassando no alguidar para fazer os fartes de Natal. Querendo ver a hora no reloginho de esmalte preso à cintura, lembrou-se que não podia, e chamou a mucama:

— Olha aqui, Eufrosina. Quase meio-dia!... Não vem mais hoje!

— Com certeza só chega de tarde, nhanhã.

— E por que não há de chegar agora? disse a moça agastada e batendo o pé com um gesto de impaciência.

Mas esse arrufo de passarinho não durou um instante, desvanecendo-se logo na habitual jovialidade e garridice.

— Está se fazendo desejado, o tal Sr. Mário! acudiu ela com um sorriso faceiro.

— Xi! Há de estar um moço bonito, não é, nhanhã?

Um laivo de carmim roseou a face acetinada da menina, que respondeu rapidamente:

— Sempre foi.

— É verdade, nhanhã; mas depois que esteve em Paris!

— Quem havia de estar agora bem contente era sinhá D. Francisca; mas Deus não quis, disse Paula.

— Mas também, tia Paula, ela era tão doente, coitadinha! Já antes de nhonhô Mário ir...

— Está bom, atalhou Alice; não vão falar nisso quando ele chegar.

— Jesus! Só se a gente estivesse doida, nhanhã.

Era antevéspera de Natal.

Na Casa Grande tudo estava em movimento e rebuliço com os preparativos da festa. À exceção da baronesa, a quem nada podia arrancar de sua fleuma desdenhosa, cada uma das pessoas da fazenda se ocupava em qualquer dos vários arranjos para a função do Natal, que esse ano prometia ser ainda mais chibante do que de costume.

Alice que dirigia os aprestos distribuíra a cada um sua tarefa, da qual não escaparam nem o dono da casa, nem os hóspedes. O barão fora encarregado de escrever nos rótulos de prata das garrafas os nomes dos vinhos e fazer as encomendas para a Corte. O conselheiro devia dar uns versos para a cantiga do Natal. D. Luíza e Adélia recordavam ao piano as músicas de canto e dança. D. Alina se incumbira do arranjo dos quartos para os convidados. Lúcio e Frederico armados ambos de tesoura recortavam papel dourado, prateado e de várias cores, destinado a fazer rosetas para os castiçais, ou mangas para os presuntos e pernas de carneiro.

O Sr. Domingos Pais, esse andava em uma dobadoura. Não tivera incumbência especial; estava à mão para tudo que fosse preciso. Faltava uma fita para a fronha de um convidado? uma serrilha para recortar biscoitos? pão-de-ouro para enfeitar o pudim? Lá ia o Sr. Domingos Pais chotando para a vila no rucinho, à cata do objeto. Havia necessidade de repor as cortinas de damasco nas janelas da sala? de alongar a mesa para caberem todos os convidados? de preparar a capela e armar os arcos de palmeiras? O Sr. Domingos Pais era o homem talhado para esses misteres.

Todos os anos Alice gostava de festejar o Natal, e com antecedência se ocupava dos preparativos necessários para receber as pessoas que estavam no costume de ouvir a missa do galo na capela de N. Senhora do Boqueirão, e passar na fazenda em contínua função os dias seguintes até Reis.

Nunca porém a menina se tinha esmerado nos preparativos, como agora; nunca achara tanto prazer nessa ocupação, nem vira aproximar-se o Natal com este alvoroto de uma esperança risonha. Seria porque já tinha feito dezoito anos, e o coração da moça palpitava com a lembrança dos divertimentos, que para a menina eram apenas folguedo e travessura? Ou era porque Mário devia chegar naqueles dias, e ela ia afinal rever seu companheiro de infância, depois de sete anos de ausência?

A alegria que lhe causava a volta de Mário, Alice não a escondia; ao contrário estava a transbordar-lhe d'alma por todos os poros, no olhar sôfrego, no sorriso cheio de esperança, como no gesto inquieto.

Da mesa, onde estendia a massa para recortar os folhos dos pastéis, ela aplicava o ouvido ao menor rumor de fora, estremecendo quando supunha escutar o tropel de animais. A miúdo chegava à porta para ver se Martinho tinha alguma boa nova a dar-lhe.

Desde madrugada que o pajem se havia encarapitado no último galho da árvore, donde só descera um momento para almoçar. Alice havia prometido festas dobradas a quem lhe pedisse as alvíssaras da chegada de Mário, e o moleque resolvido a ganhar a gorda molhadura, escolhera aquele posto donde avistava o caminho da Corte até cerca de um quarto de légua.

Logo deram por falta do pajem em casa; e pensavam que andava peralteando pela senzala como de costume. A mãe prometeu-lhe um lembrete de cabo de vassoura quando tornasse; e a Eufrosina, cujo teiró continuava, mandou logo em nome da baronesa aviso ao administrador para fazer amarrar o fujão e rapar-lhe a cabeça.

Mas Alice desfez todas essas tempestades com um sopro:

— Fui eu que o mandei.

E acabou-se; ninguém perguntou para onde, nem a que.

— Já tomou ponto, nhanhã! Agora, se quer mais apertado!...

Estas palavras partiam da gorducha Florência, a doceira famosa da casa. Incumbida de um tacho de cocada que fervia na cozinha, ela assomara à porta da copa, com a colher de pau em uma mão e o pires cheio d’água na outra.

Alice porém não se contentou com a prova e foi por si mesma examinar o tacho de doce na cozinha.

Com a Eufrosina, ficaram na copa outras mucamas e pretas da cozinha ocupadas em diversos misteres, como arear as caixas de manuês, bater pão de ló, ralar gengibre e cidra para os pastéis, e cortar as folhas de banana para as mães-bentas.

No meio do ruído produzido pelos diferentes serviços, e pela garrulice inesgotável das raparigas que falavam todas ao mesmo tempo, começou a destacar-se ao longe um surdo rumor, que de momento a momento se tornava mais distinto. Não era preciso bom ouvido para conhecer, na cadência alternada desse longínquo ribombo, o galope de um cavalo.

Foi a Eufrosina a primeira que percebeu o tropel; reprimindo seu primeiro movimento, calou-se e continuou sorrateiramente a escutar. Não lhe custou inventar um disfarce para sair ao quintal, donde com mais facilidade podia, abrindo a porta que dava para o pátio, ver chegar o cavaleiro.

— Alvíssaras, nhanhã, alvíssaras! Fui eu!...

— Não foi! Eu disse primeiro!

— E eu?

Escapou Alice de queimar-se com o sobressalto que sentiu, ouvindo de repente os gritos descompassados que vinham do quintal. Sem dar tempo a que Florência limpasse-lhe a saia toda respingada de doce, a menina correu, alvoroçada pela esperança de ver Mário e de abraçá-lo afinal.

As pretas corriam às tontas; umas entravam, para pedir as alvíssaras a Alice, outras espirravam pela porta do pátio para serem as primeiras a ver Mário apear-se; a Eufrosina não sabia como dividir-se, pois sua vontade era estar em um e outro ponto ao mesmo tempo.

No meio dessa algazarra ouvia-se a voz do Martinho que de seu posto, na grimpa do jequitibá se esganiçava como um doguezinho de sobrado ladrando para a rua.

Do que ele guinchava não se percebia palavra, apesar da gesticulação formidável com que fazia trabalhar os braços e a cabeça.