O Tronco do Ipê/II/V

Wikisource, a biblioteca livre
< O Tronco do Ipê
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
O Tronco do Ipê por José de Alencar
Missa do Galo

A noite vai escura, mas serena. O céu estofado de um azul profundo não venda a trepidação das estrelas, cuja luz filtra como através de um cristal fosco.

A viração, que anuncia o quarto d'alva, hálito suave da manhã, começa a ramalhar enredando-se pela copa dos cafezais em flor. Como se os ares se adelgaçassem nessa hora puríssima de conceição, em que a terra sempre virgem e sempre mãe desabrocha flores e frutos; os murmúrios do arroio, antes abafados pela calada da noite, rumorejam agora entre os gazeios da aragem.

A Fazenda do Boqueirão jaz em completo sossego. Todos os fogos tanto na Casa Grande como nas senzalas estão extintos. Não se vê luz, a não ser um frouxo raio coado entre a folhagem do arvoredo. Talvez provenha da grande alâmpada de prata que há na capela, e é costume acender dia e noite a Nossa Senhora em certas ocasiões.

Desde alguns meses se conservava ela acesa por ordem de Alice, que todas as tardes ao toque de Ave-Maria tinha por devoção ir à capela rezar sua oração habitual e implorar à Virgem pelo restabelecimento de seu pai.

O primeiro galo cantou e os outros responderam sucessivamente dos quintais vizinhos e das palhoças dos agregados. Ouviram-se uns sussurros de vozes abafadas trazidos pela rajada.

Instantes depois soaram rufos de pandeiro com prelúdios de rabeca e flauta ao lado da Casa Grande, onde acabava de aparecer à luz de archotes um rancho de romeiros, com seus chapéus desabados e capuzes de penitentes. Saindo do jardim onde estiveram esperando o cantar do galo, foram colocar-se na frente do terreiro, soltando estas alvoradas ao toque da música:

As ovelhas a dormirem
E os pastorinhos velando,
Quando o anjo do Senhor
Apareceu-lhes cantando.


A voz do anjo, muito parecida com a de Alice, acudiu:


Toma o bordão,
Ó bom pastor;
Nasceu Jesus,
O Salvador.


Outro farrancho de festeiros apareceu do lado oposto que tomou a mão ao descante:


Meia-noite era passada,
Já o céu a desmaiar;
Mas a estrela do Natal
Cada vez mais a brilhar.


Então de rumos diversos acudiram vozes que se alternaram concertando, como os diálogos de um auto. A primeira partira do poleiro, e as outras respondiam de pontos destacados:


O galo cantou,
“Cristo nasceu.”
O

boi perguntou,
“Aonde?” E a ovelha
Logo respondeu:
“Foi em Belém;”
“Para o nosso bem”,
Disse o pastor.


Eis que no mirante da Casa Grande surgem umas sombras alvas e tão buliçosas, que logo se percebe serem de moças. Mas o canto parece realmente angélico, pela doçura de que se repassa:


E os anjos no céu cantavam,
Que se ouviu além da serra:
“Glória à Deus lá nas alturas
E paz aos homens na terra.”


Um jacto de fogo de bengala esguichou, abrindo o globo de luz em que se debuxou um molho de rostos mimosos, como esses bandos de anjinhos que se veem a voar nas redomas de Nossa Senhora. Entre todos, porém, nenhum era tão do céu como o de Alice, cujas tranças louras espargidas sobre os ombros e agitadas pela brisa, lembravam as plumas de ouro de umas asas de serafim.

Entretanto o primeiro rancho de romeiros prosseguia no descante:


Já levantam-se os pastores
E tomando seus bordões,
No caminho de Belém
Vão soltando estes pregões.


Aí entrou o bando dos pastores, formado de moças que não eram outras senão os anjinhos do mirante, e de mancebos que deixando as capas de romeiros, apareciam agora em novas figuras. Trajavam todos roupas de linho branco e chapéus de palha com fita escarlate; os mancebos levavam na mão seu cajado e as moças uma cestinha de flores. Iam a dois e dois, cada pastor com sua pastorinha; os primeiros eram Mário e Alice.

O bando rodeou o terreiro, parando de tempo em tempo para lançar o seu descante:


Acordai, ó boa gente,
Vinde ver a maravilha;

nas bandas do oriente
Como um sol, a estrela brilha.
É a estrela de Jacó
É a luz da redenção;
Da rosa de Jericó
Rebentou novo botão.


De dentro da casa, do lado do caminho, e de outros pontos destacados, por onde chegavam bandos de convidados da vizinhança, surdia então esta requesta:


Que novas trazeis, pastores,
Para tantas alegrias?
A remir aos pecadores
É vindo enfim o Messias?


Depois que todos acabaram, tornou o coro dos pastores:


O anjo o disse: — “Maria
Esta noite deu à luz
Na palha da estrebaria
A seu menino Jesus.”


Eis rompem de todos os pontos grandes brados e clamores de júbilo, acompanhados pela bimbalhada dos sinos, e cortados pelo mugir do gado, pelo balido das ovelhas, e alvoroço que faziam os animais subitamente despertados com os clarões e alaridos da festa.

Multidão de lanternas do ar, e fogaréus, que agitavam os escravos da fazenda, derramou-se pelo vasto pátio, iluminado de repente. A banda de música dos pretos, com suas roupas agaloadas, saiu do saguão onde estivera oculta. Ao mesmo tempo abriam-se de par em par as janelas da Casa Grande, cujas salas nadavam em luz; e nas sacadas apareciam o barão, a baronesa, o conselheiro, o vigário e outros hóspedes que pela sua idade ou posição grave não tomavam parte direta nas folias dos moços.

Quando essa grande ebulição de entusiasmo, chegada ao auge, começou a declinar, desprendeu-se dentre os rumores festivos, este canto que levantado sucessivamente por todos os diversos grupos, subiu ao céu, como a efusão de um grande fervor religioso:


Vamos, vamos adorar
Cristo, nosso salvador,

Que ao mundo veio a salvar
O seu povo pecador.

Vamos, que a Virgem Maria
Esta noite deu à luz
Na palha da estrebaria
Ao nosso bento Jesus.


Reunidos em um só os diferentes ranchos de romeiros, com os bandos de convidados que chegavam a cada momento, deram volta ao terreiro, e dirigiram-se à capela onde já estava o reverendo vigário em paramentos ricos, e seu acólito o Sr. Domingos Pais, que a ninguém cedia a honra insigne de ajudar cada ano a missa de Natal, na capela de seu excelentíssimo compadre, o “Comendador Barão da Espera”.

Durante as cenas anteriores, o Sr. Domingos Pais considerou-se obscurecido, porque na representação do auto do Natal, apenas lhe tocara o papel de galo, quando ele sentia-se com força de acumular o do boi e da ovelha, acrescentando ainda o do jumento, que não figurava; omissão imperdoável na opinião do exímio compadre, pois segundo ele, e era autoridade, o jumento foi a trombeta que primeiro acordou a gente de Belém, com o zurro formidável; sem o que certamente passaria desapercebido o galicínio.

Apesar da perfeição com que o compadre executara o seu cocorocó, essa parte, dificílima pela sua originalidade, não fora apreciada; mas o compadre com a confiança dos grandes homens esperava a sua hora de triunfo. Era na ocasião da missa, que ele ia despicar-se de toda essa gente, dando-lhe as costas, e fazendo-a levantar-se ou ajoelhar à sua feição.

O bando dos romeiros, passando por baixo dos arcos de coqueiros e luminárias, entrou na capela alvoriçando como uma chusma de abelhas dentro da colmeia. Apenas o barão, dando o braço à baronesa, tomou com as visitas mais graduadas assento nas banquetas forradas de damasco, o Domingos Pais, revestindo-se de um ar solene e circulando o âmbito do templo com um olhar sobranceiro, tangeu grave e pausadamente a campa, dando os três dobres da etiqueta.

Pousando a campa ao pé do altar, tomou o gancho e acendeu as três velas superiores do nicho da custódia com ar de importância que assume um ministro em alguma cerimônia palaciana.

— A senhora tinha me prometido, D. Adélia, ser minha pastorinha? dizia entanto o Lúcio arrufado.

— Ora muito obrigada; queria que fosse procurá-lo? respondeu a moça despeitada.

— Eu estava falando com mamãe.

— Pois outra vez seja melhor cavalheiro.

D. Alina tinha arranjado de propósito aquele desencontro; e dele aproveitou-se o Frederico para consolar-se do desengano cruel que deu a filha do barão à sua pretensão de servir-lhe de pastor naquela noite.

Do outro lado Alice sem deixar o braço de Mário sobre o qual se apoiava com um gesto de confiança e orgulho, dizia comovida a seu companheiro:

— Não esteve bonito o nosso descante?

— Bonito e tocante, sobretudo para mim. Depois de tão longa ausência de nossa terra, ninguém faz ideia do prazer que eu sinto em achar-me outra vez em seu seio, no meio destas festas singelas e destes costumes, que despertam em mim tantas recordações...

A palavra do mancebo vendou-se em uma reticência melancólica. Alice, vendo no semblante do amigo sombras de uma triste reminiscência, que lhe pungira a alma, procurou distraí-lo daquele pensamento.

Mas o vigário, de estola e casula, subiu ao altar; a missa começava.

— Ajoelhemos! disse Alice a rir. O Sr. Domingos Pais já nos deitou uns olhos!