O Tronco do Ipê/II/VI

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O Tronco do Ipê por José de Alencar
Presépio

Ao lado do altar havia um grande presépio, onde um hábil artista de outras eras havia representado ao natural a lenda popular do nascimento de Cristo.

Via-se ali no cimo de uma colina a palhoça da estrebaria; na manjedoura, sobre um molho de palha retraçada, o Menino Jesus, com suas roupas de cambraia. Aos lados Nossa Senhora e São José contemplando o filho de Deus, concebido sem mácula por graça do Espírito Santo.

À parte, o jumento, dono da estrebaria em que pousara a Virgem com o seu esposo por não ter outro abrigo; mais longe o poleiro onde cantava o galo, o curral do gado, o bando das ovelhas e a choça dos pastores a quem o anjo anunciara o nascimento de Cristo.

Pelas encostas da colina viam-se derramados os rebanhos de carneiros, e os bandos de peregrinos que subiam a colina para adorar o Salvador.

No último plano o céu, onde brilhava a estrela de Natal, e uma nuvem resplandecente em cujo seio um grupo de anjinhos cantava hosana ao Senhor.

Aí estava pois debuxada a mesma tradição, que os festeiros haviam copiado na espécie de auto figurado no terreiro. Porventura eram contemporâneos ali naquele lugar o antigo retábulo do presépio, e as cantigas com que todos os anos se festejava o Natal. Um e outro, o auto e o retábulo, tinham certo cunho vetusto que se imprime nos objetos, ainda mesmo inertes, como a ruga na face humana.

Os dizeres do auto embora já bem alterados tinham um sabor de outros tempos, que destoava com o modo de falar de agora. Também as figuras dos santos e pastores, ainda que bem conservadas, mostravam nas cores das roupas certa aspereza que provinha sem dúvida do ressequido das tintas.

Como se conservaram na Fazenda do Boqueirão essas reminiscências dos usos de nossos pais, cujo fervor religioso imprimia às lendas católicas certo cunho dramático?

Essas múmias de um passado extinto são mais do que se pensa a obra da mulher. Enquanto o velho se encolhe na concha de seu egoísmo valetudinário, vereis a velhinha, lá no terreiro da fazenda ou na rótula da cidade, contando as histórias de sua meninice às netinhas, que mais tarde, em sendo moças, levam para sua nova família aquele santuário das lendas e tradições de seus maiores.

Desde a fundação da fazenda que datava o costume de festejar-se o Natal com aquelas cantigas e romarias. Durante muitos anos porém, talvez pelos desgostos que sobrevieram ao antigo dono, tinha caído em esquecimento, até que Alice ficando moça o restaurou. A menina ouvia sempre pelo Natal falarem as pretas velhas das bonitas festas que se faziam outrora na fazenda; e arremedarem as cantigas e representações que se davam então.

Completando os seus catorze anos, e sentindo-se já com força de querer, Alice tentou realizar aquele capricho que alimentava desde menina, e no próximo Natal fez o primeiro ensaio. Desde então, ficou em costume; e cada ano a festa era mais arrojada e esplêndida, até a última que prometia exceder em riqueza e entusiasmo a todas as outras, sem excluir mesmo as mais antigas de que havia memória na fazenda e suas vizinhanças.

Terminada a missa, começou a adoração do presépio, diante do qual se repetiram as mesmas loas do Natal, pela forma por que as tinham cantado no terreiro; com a diferença de serem então as figuras do retábulo que falavam pela boca dos festeiros.

Desta vez o Sr. Domingos Pais desempenhando não no escuro, porém no claro, o seu favorito papel de galo, teve a satisfação de ser acolhido por uma estrepitosa gargalhada, que o lisonjeou. Tomado de uma nobre emulação, o compadre enfunou-se, batendo os braços à guisa de asas. Para ele era ponto de honra exceder no arrufo ao galo do presépio, assim como no grito ao galo do poleiro, ainda que arrebentasse. Os heróis devem morrer sobre os louros.

Chegou o momento das promessas.

Cada pessoa que tinha feito um voto, vinha por sua vez entregar a oferenda e fazer a devota oração. Os objetos, se eram do uso da capela, como círios, roquetes e toalhas, eram guardados para as ocasiões solenes; se constavam de milagres de cera ou registros, ficavam suspensos nas paredes da capela aos lados do altar.

— Nhanhã! Nhanhã!... dizia a Eufrosina que há tempos se conservava atrás de Alice com uma salva coberta de toalha de linho.

A moça, voltando-se, fez à impaciente mucama um gesto de espera e continuou a assistir à cena curiosa que se representava então na capela. Os pretos da fazenda, uniformizados de calça e camisa de riscado azul com cinta de lã encarnada, passavam a um e um pela frente do presépio, ajoelhando para fazer breve oração, e cantando na sua meia língua um louvor a Nossa Senhora. Nessa ocasião, alguns depunham com devoção os objetos que traziam, para oferecer ao Menino Jesus.

Quando o último passou, Alice com um aceno chamou a Eufrosina, e tirou a toalha da salva, descobrindo o objeto oculto com tanto cuidado. Era um grande tapete de lã felpuda, bordado sobre talagarça em ponto de marca. Os frocos rofados ao calor davam-lhe a aparência do veludo. O desenho era simples. Uma virgem, abraçada à cruz, e pondo no céu os olhos cheios de fé e gratidão.

Ao descobrir a salva, a menina com um ligeiro rubor nas faces e uma doce comoção do seio, que se traía na voz, murmurou ao ouvido de seu camarada de infância algumas palavras mostrando-lhe o tapete dobrado ainda e pelo avesso.

— Foi uma promessa que fiz a Nossa Senhora, há sete anos, Mário. Ajude-me a cumpri-la.

Os dois segurando as pontas opostas do tapete, o estenderam ao pé do altar da Virgem. Então Alice ajoelhando rendeu graças à sua divina protetora pela volta de seu amigo e companheiro de infância.

Mário viu o êxtase de felicidade que imergia o lindo rosto de Alice; e sentiu-se profundamente comovido, pensando que ele era o objeto daquela prece tão pura como ardente. No meio da graciosa assunção de sua alma, remontada ao céu, a gentil menina volveu de relance ao mancebo um olhar súplice, repassado de inefável doçura.

Mesmo na prece ela sentia que estava só e separada de metade de sua alma. Mário compreendeu o que passara no pensamento da menina; e vexou-se de sua ingratidão. Por sua vez ajoelhou aos pés do altar, ao lado de Alice; e rogou a Deus pela felicidade dessa formosa menina, que derramava em torno de si um como perfume de santidade e inocência.

Entretanto choviam os elogios ao tapete e as admirações pela delicadeza do trabalho.

— Podia dar um objeto mais rico, dizia Alice erguendo-se. Não é verdade, papai?

A menina abraçou o barão, que respondeu dando-lhe um beijo na face:

— O que tu quisesses.

— Mas eu preferi este, que não lhe custou nada. Fique sabendo, sim, senhor, acrescentou com um gesto faceiro dirigido ao pai. Não só foi todo bordado por minhas mãos, mas a talagarça e a lã, comprei-as com meu dinheiro.

— E esse dinheiro? perguntou Mário.

— Ah! quer saber, senhor curioso; pois ganhei-o com minhas rendas.

— É verdade, acudiu a baronesa descansadamente; só ela teria essa pachorra.

— E eu posso atestar, porque fui quem vendeu as rendas, por sinal que o Sr. Frederico...

— Está bom, acudiu o moço vermelho como um bago de café.

— Acredita que foi ela que fez? murmurava D. Alina ao ouvido de D. Luíza. Qual, senhora! Foram as mucamas.

— Na Rua do Ouvidor, respondia a mulher do conselheiro, compram-se já feitas, faltando apenas encher algumas carreiras. Eu creio até que vi uma igual, se não era a mesma.

— Mamãe pensa? disse Adélia.

A esse tempo já a iluminação da frente da Casa Grande, e dos outros edifícios estava acesa, apresentando um aspecto encantador, com os seus transparentes de papéis de cor e suas grinaldas de flores.

Uma ceia lauta, e sobretudo suculenta, como costumam ser os banquetes brasileiros, esperava os convidados que já enchiam as salas de volta da capela. O barão os acompanhou à mesa unicamente para fazer as honras de sua casa, pois tendo comido apenas uma fatia de peito de peru, recolheu-se a seus aposentos de dormir.

O estado de saúde do dono da casa não lhe permitia passar a noite em claro, fazendo companhia a seus hóspedes, como costumava nos anos anteriores. Já ele tinha desobedecido à prescrição do médico, interrompendo seu repouso para ouvir a missa do Natal.

O barão porém receava que sua ausência agravasse as inquietações de Alice, turvando o prazer que ela esperava da festa preparada com tanto cuidado. Para não murchar as doces e inocentes alegrias da filha, não hesitaria ele diante de maiores sacrifícios.

Alice, tendo acompanhado o pai, quando este se recolheu, voltou à mesa; mas só depois que, entrando de pontinha de pé no aposento do barão, certificou-se que ele ressonava, a menina desprendeu-se de sua preocupação e outra vez se entregou aos divertimentos da noite do Natal.

A ceia foi arrojada; e terminou pelo brinde a Mário e a sua volta feliz. Era para esse brinde que Alice encomendara ao conselheiro os versos; e este, depois de parafusar na memória alguma quadrinha que pudesse servir, se desencarregou da tarefa no vigário.