O Tronco do Ipê/II/XVI

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O Tronco do Ipê por José de Alencar
O Impossível

Um raio de esperança veio brilhar no coração de Alice. Eram dez horas da manhã. Com a fronte apoiada na quina interior do portal de uma janela, acompanhava com os olhos o vulto de Mário que atravessava o jardim. Seu lindo seio sublevou-se com o esto da mágoa que enchia-lhe a alma; e lágrimas silenciosas orvalharam-lhe as faces.

A Casa Grande estava enfim viúva de seus hóspedes; a festa despedindo-se deixara nela a prostração e cansaço de prazer. Havia um recolho íntimo n'alma dessa habitação, tão cheia sempre de bulício e movimento.

Mas, além do desmaio, natural depois de tanta exaltação, percebia-se nessa atmosfera doméstica a morna atonia, que prepara a tormenta. Entretanto nenhum dos habitantes da casa, se o interrogassem, poderia dizer o que sentia, pois de fato nada sentia ainda. O que lhes nublava o espírito era essa impressão fugitiva, espécie de reflexo de uma luz recôndita a refranger-se na consciência, mas de leve, tão sutil, como os fogos-fátuos que rajam as nuvens.

Em sua melancólica atenção não ouviu a menina os passos do pai que se aproximara. Um momento esteve o barão comovido a contemplar o belo semblante aljofrado pelo pranto.

— Como tu o amas, minha Alice! murmurou ele enternecido, passando o braço pela cintura da filha para estreitá-la ao peito.

A menina soltou um pequeno grito de susto, que sufocou reconhecendo quem lhe falava; e escondeu envergonhada o rosto escarlate no seio do pai.

— E aquele ingrato não vê estas lágrimas! continuou o barão com ternura. Mas eu te prometo que muito breve, hoje mesmo, ele virá pedir-te perdão.

Erguendo rapidamente a cabeça, Alice fitou no pai um olhar de muda, mas ansiosa interrogação.

— Serás feliz, minha filha!

A menina agitou a cabeça em ar de dúvida.

— Não acreditas em teu pai?

— Como em Deus.

— Pois espera.

O Sr. Domingos Pais entrava nesse momento um tanto sarapantado conforme seu costume.

— Compadre, disse o barão, faça-me o favor de dizer a Mário que eu preciso falar-lhe já, no meu gabinete.

— Estará no quarto?

— Vi-o há pouco no jardim.

O compadre saiu:

— Sabes para que o mandei chamar, Alice? perguntou o barão sorrindo à filha.

— Não, papai! respondeu ela palpitante.

— Pois adivinha!

Soltando estas últimas palavras embebidas no mesmo sorriso carinhoso, o barão depôs um beijo na face da filha, e foi encerrar-se em seu gabinete à espera de Mário.

Entretanto o mancebo, que atravessara o jardim poucos momentos antes, dirigia-se à mesa do pomar onde na semana passada conversara a sós com Alice. Quase ao mesmo tempo chegou D. Alina, que viera às ocultas e por diverso caminho.

A trêfega senhora andava desde a véspera em um alvoroço que apesar da sua astúcia lhe era impossível disfarçar. Com o nariz ao vento parecia farejar um perigo que a fazia estremecer, e causava-lhe frenesis de raiva.

D. Alina suspeitava pelos modos do barão e por algumas palavras ambíguas da baronesa, que uma novidade estava iminente, e essa novidade não era outra senão o casamento de Alice com Mário, o que vinha aniquilar o projeto por ela tão afagado de alcançar a riqueza do barão para seu filho Lúcio, como uma compensação da herança de que ele fora esbulhado.

Pressentindo esse desfecho, a viúva se entendera com Lopes sobre os meios de conjurar o malogro de suas esperanças, predispondo o barão em favor de Lúcio. Confiava ela do conselheiro, que estimulado pelo interesse do casamento de Adélia com o Frederico, se empenharia em ganhar a causa, e era de ambos, para o que dispunha o deputado de grande influência no ânimo do barão.

Mas o Sr. Domingos Pais, com seu desazo desmanchou o plano tão bem combinado. A cena grotesca do pato produziu no conselheiro um abalo terrível. O novo estadista sucumbiu ante as consequências incalculáveis que daquele incidente podiam resultar para a sua carreira. Viu seu futuro esmagado pelo ridículo, esse corrosivo moral, a que não resistem as mais sólidas reputações; e da qual nem o talento, nem a virtude preservam os caracteres. O ministério parecia-lhe agora uma rocha inacessível; do próprio Parlamento, quem sabe se não o expulsariam os sarcasmos dos candidatos rivais. Para qualquer horizonte que se voltasse, surgia-lhe em face de sua ambição o demônio do escárnio e soltava uma gargalhada estridente, que o arrepiava até a medula.

Se vivesse atualmente, é natural que o acidente do pato, longe de desanimar o homem, ao contrário lhe enchesse a alma de abundâncias. O ridículo hoje em dia é um meio de subir; pois o ridículo habitua o homem à humilhação, e a humilhação forma o capitel dessa coluna de virtudes políticas que nas altas regiões se chama um estadista. Um ministro que não sabe afrontar o ridículo e desconjuntar-se como um manequim, descobre a coroa: é a regra do governo constitucional.

Mas o conselheiro estava em 1857, no tempo em que ainda se guardavam as aparências, e por isso não é para admirar que pensasse daquela forma. Acabrunhado ao peso do infortúnio enervou-se-lhe a ambição; e a perspectiva de um casamento rico para a filha não teve força para arrancá-lo à atonia. Só nutria um desejo, retirar-se daquela sociedade e daquele sítio que foram testemunhas do desastre.

D. Alina, vendo-o partir, conheceu que só devia contar consigo, e ficou de espreita. Naquela manhã, entendeu que era chegado o momento de dar o golpe; e depois do almoço, passando por Mário no corredor, atirou-lhe rapidamente estas palavras:

— Quer saber o segredo de seu pai?

Mário voltou-se de chofre, mas ela afastava-se dizendo:

— Na mesa do pomar!

O mancebo, um instante irresoluto, dirigiu-se ao lugar indicado. Desde que achara o misterioso papel na caixinha de sua mãe, um só pensamento, uma ideia fixa o dominava. Ele daria tudo para obter a chave do enigma que tinha diante dos olhos, nas poucas palavras escritas do punho de seu pai, na véspera da catástrofe.

Com efeito o papel apenas continha a seguinte nota:


Réis
Comendador Alves Ferreira .......... 120:000$000
Major Mendonça ........................... 85:000$000
Luís Vieira ..................................... 79:000$000
Capitão Félix ................................. 66:000$000
350:000$000


Nesse rascunho de um cálculo aritmético trazia Mário o seu espírito concentrado desde a tarde em que pela primeira vez o vira. Aquele pedaço de papel encerrava sem dúvida o segredo, que ele debalde perscrutava desde a infância. Mas que significação tinham esses algarismos e os nomes colocados em face?

Grande devia ser pois a sofreguidão de Mário, quando ele compreendeu que ninguém melhor do que D. Alina podia revelar o mistério da inesperada pobreza de seu avô, e talvez da morte de seu pai. Desde menino, ele sentia uma invencível repugnância por essa mulher; com a razão essa repugnância transformou-se em desprezo; adivinhara que nesse corpo seco morava uma alma héctica e mirrada.

Superando um movimento de repulsão, Mário resolvera aproximar-se dessa mulher e ouvi-la, com o mesmo esforço do médico dedicado, que revolve a sânie de uma chaga para conhecer a natureza do mal e curá-lo.

Quando D. Alina chegava ao pomar, ouvia-se um sussurro de vozes, que talvez ainda estivessem longe, mas soavam perto. É um fenômeno, que se observa comumente no campo, e sobretudo em terreno acidentado, onde o som adquire uma grande expansão e elasticidade.

Julgando distinguir entre o murmúrio seu nome, estremeceu a viúva com receio de que a surpreendessem. Não havia perder tempo, se não queria perder também a ocasião:

— Jura que ninguém saberá?...

— O quê? perguntou Mário.

— Que fui eu que lhe contei.

— Juro por Deus e pela memória do meu pai!

Nesse momento soou distintamente o nome de Mário, a pequena distância. D. Alina, suspensa ao ouvido do mancebo que reclinara a fronte, soltou com sofreguidão nervosa, uma torrente de palavras, que borbotava-lhe dos lábios, como o esguicho de um repuxo.

Uma só vez o mancebo descerrou o lábio frisado pelo desprezo, e foi para perguntar:

— Quem eram os primeiros credores?

— Alves Ferreira, o Comendador Major Mendonça, Luís Vieira e o Capitão Félix.

Eram os nomes escritos no papel. Mário curvou de novo a cabeça e continuou a ouvir. Mas D. Alina, que falando tinha o ouvido à escuta, fugiu de chofre, para não ser vista pelas pessoas cujas pisadas ouvira crepitar nas folhas.

Erguendo os olhos, Mário deu com o Sr. Domingos Pais acompanhado pelo Martinho. Alice apareceu também como quem vinha a passeio e circulou com os olhos o sítio; em seu rosto assomava uma vaga inquietação e desconfiança.

Da sala a moça descera ao jardim, talvez na esperança de encontrar Mário e vê-lo antes da conferência que ia ter com seu pai. Logo após chegou o Domingos Pais que procurava o moço, guiado pelo Martinho.

— Da janela da cozinha, dizia o pajem, eu vi ele passar para o pomar, e por sinal que sinhá D. Alina também foi para lá.

Essa coincidência causou reparo a Alice. Que ia D. Alina fazer no pomar? Pretendia encontrar-se com Mário? E para que fim? Eis os motivos da inquietação da moça.

— O sr. barão o chama, disse o Domingos Pais.

— A mim? perguntou Mário admirado. Para quê?

— Deseja falar-lhe.

O mancebo fitou um olhar surpreso e interrogador em Alice, que sentiu uma nuvem de rubor ofuscar-lhe a vista. Pálida e trêmula, mal pôde suster-se em pé, amparando-se aos ramos da jaqueira.

Instantes depois Mário entrava no gabinete onde o barão o esperava com impaciência e, ao mesmo tempo, certa inquietação; se por um lado ansiava falar ao mancebo, por outro não se podia esquivar ao receio vago que lhe incutia a ideia dessa conversa.

— O sr. barão deseja falar-me? disse Mário.

A entrada do mancebo causara no fazendeiro uma perturbação, que ele apesar do grande esforço, não pôde recalcar. Sua voz ainda ressentia-se desse abalo quando respondeu depois de uma pausa:

— Sim, Mário; sente-se.

Alguns momentos decorreram em um silêncio incômodo para o barão, e fatigante para Mário, que não se recobrara ainda da primeira surpresa. Afinal o fazendeiro falou: mas bastante comovido, e divagando a vista pelo vale para evitar o encontro do olhar do mancebo:

— Quando seu pai e eu tínhamos sua idade, Mário, fazíamos nossos castelos, como todos os moços costumam. Uma vez, no meio daqueles sonhos do futuro, ele disse-me gracejando que pedia a Deus um filho para casar com a filha que eu devia ter, conforme seu desejo: “Assim, ficaremos ainda mais unidos”, acrescentava ele.

O barão pronunciou estas palavras com um timbre vendado, como se temesse que alguém o estivesse escutando. Mário, em quem à surpresa sucedera um recolhimento profundo, ouvia com uma placidez fria e quase rígida.

— Mais tarde, quando sucedeu a desgraça que o privou de seu pai e a mim do único amigo, quase irmão, esse gracejo de nossa mocidade tornou-se um voto. Fiz à memória de Figueira a promessa de cumprir seu desejo, e no dia em que você, Mário, salvou Alice, eu selei aquela promessa com um juramento. Fazem agora sete anos que eu espero com ansiedade o momento de realizar esse voto; tinha medo de morrer sem cumprir meu juramento. O momento chegou...

Pela primeira vez o barão pôs os olhos no semblante do mancebo:

— Alice o ama; ela é sua, Mário!

Ouvindo estas palavras, que ele pressentira antes de pronunciadas, um choque rápido percutiu o mancebo. Suas pálpebras cerradas ocultaram por um instante o abrasado olhar; nas faces subitamente incrustadas em uma lividez marmórea, ardia e se apagava uma nódoa rúbida, que mostrava o ímpeto do fluxo e refluxo do sangue no coração.

Ninguém imaginaria a luta violenta que se travou n'alma de Mário, sob a máscara de uma fisionomia embotada.

— Se Alice me ama, sr. barão, disse o moço em tom austero, é uma desgraça...

— Por quê? atalhou o barão assustado. O senhor não retribui essa afeição?

— Eu?... Também a amo, senhor; porém Deus é testemunha que esse amor puro e inocente não fui eu que o inspirei à sua filha. Ao contrário, tudo fiz para evitá-lo; e era minha intenção afastar-me desta casa, aonde talvez não devera ter voltado, depois que dela saí.

— Não o compreendo. Se ambos se amam, o que se opõe à sua felicidade quando todos a desejam?

— O céu!... murmurou Mário engolfando os olhos no éter azul.

O barão vergou a cabeça ao peito; e o moço, com a face apoiada no revés da mão direita, permaneceu na mesma posição com os olhos embebidos no firmamento. Afinal compreendeu ele o perigo da situação, e estremecido pelo desejo ardente de defender a ventura de sua filha querida, sacudiu o torpor.

O pai extremoso empregou todos os recursos para destruir no ânimo do mancebo os escrúpulos da pobreza orgulhosa que supunha ser o obstáculo sério ao projeto. Representou o casamento de Alice não como um favor ou benefício para Mário, mas ao contrário como um sacrifício que fazia à felicidade da inocente menina, e ao sossego dos pais. Invocou a amizade de José Figueira, como título para merecer do filho tão grande serviço, e ao mesmo tempo como testemunho da obrigação em que estava, ele barão, de confundir em uma as duas famílias.

Foi eloquente e sublime; falava pelo coração, e com o vocábulo das paixões nobres e generosas; com a abnegação, o amor paterno, a amizade; e talvez mais algum sentimento oculto, e igualmente poderoso.

Mário não o interrompera; mudo e imóvel escutara.

— Sr. barão, esse casamento é impossível.

— Por que, Mário?

— É impossível, sr. barão; e eu lhe peço, não me pergunte por que.

O olhar límpido de Mário traspassou alma do barão, que afastou-se pálido. O mancebo cortejou e saiu.

Momentos decorridos, Alice, entrando no gabinete, achou o barão de bruços com a cabeça vergada sobre os braços que tinha cruzados em cima da banca. Ao toque da mão da filha estremeceu. Custou a levantar a fronte e quando o fez, pareceu a Alice que tinha os olhos úmidos; mas ele se afastara ao erguer-se, de modo que não pôde a moça verificar o reparo.

— Mário é orgulhoso, minha filha, tem os prejuízos de certos moços pobres. Mostrou dificuldades; mas havemos de vencer os seus escrúpulos; fica sossegada. Até logo. Quero examinar umas contas.

Alice moveu a cabeça com ar de dúvida.

— Se Mário fosse muito rico e eu muito pobre, acredito que seria ele o primeiro a pedir. Como pois recusaria aquilo que esperava de mim, e que eu não hesitaria em fazer? Não; há outra razão, meu pai! murmurou a menina com um acento profundo.

O barão estremeceu.

— Qual?... disse ele pálido e balbuciante.

— Ah! Se eu soubesse! exclamou ela levando a mão ao seio e erguendo ao céu os belos olhos. Mas Deus há de permitir que eu penetre esse mistério!

O pai cingiu a cabeça da filha e estreitou-a ao coração. Esse movimento subtraiu aos olhos da menina a expressão pávida do semblante do barão, que se demudara por um modo assombroso.

Quando Alice deixou-o só, o infeliz, como se lhe faltasse de súbito o alento vital, caiu fulminado sobre o pavimento.