O Tronco do Ipê/II/XVII

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O Tronco do Ipê por José de Alencar
Para Sempre

O resto desse dia 14 de janeiro foi mais triste ainda.

Era o prefácio do aniversário da catástrofe do boqueirão e da morte do pai de Mário.

Ao retirar-se do gabinete do barão, Alice procurou Mário, resolvida a arrancar-lhe a todo o transe o segredo fatal que os separava. O que lhe inspirava essa força e coragem, não era somente seu amor; ela tinha a convicção que defendia, além da sua, a felicidade dos dois entes que mais a queriam neste mundo, e que uma fatalidade separava.

Mário tinha saído; e só voltou à casa tarde da noite, quando todos já se tinham recolhido. Alice porém ouviu seus passos, quando ele entrava, e a certeza de o ter sob o mesmo teto, a consolou em sua aflição.

Dormiu porém um sono agitado. O receio indefinível, que durante aquela tarde a inquietava, persistiu apesar do letargo; e a sobressaltava de momento a momento. Despertava então com a ideia fixa de que nunca mais veria Mário.

De uma vez, pareceu-lhe ouvir o rumor de portas que se abriam. O primeiro arrebol franjava as nuvens do horizonte, que ela entrevia pelos vidros da janela.

Ergueu-se tomada de um pressentimento; e oculta entre as cortinas, descobriu o vulto de Mário que saía de casa, levando na mão uma pequena mala de viagem. A alguns passos de distância, o mancebo parou para fitar na janela um breve mas profundo olhar.

Curvando a cabeça ao jugo de uma resolução inabalável, afastou-se rapidamente na direção da capela. Ia ver o túmulo de sua mãe, antes de separar-se talvez para sempre desses lugares.

Sabia ele onde o levaria o seu destino? Partia; a direção pouco lhe importava; contanto que fosse longe, bem longe, para interpor entre si e aquela casa uma distância imensa, um mundo se fosse possível.

Sentado à beira do jazigo, ficou um instante absorvido nas reflexões que lhe acudiam de tropel, com a cabeça pendida ao peito e as mãos enlaçadas aos joelhos.

— Se não me tivesses deixado tão cedo, boa mãe, talvez que teu carinho me houvesse arrancado esta horrível suspeita. Quando menino, não soube amar-te. É hoje que te compreendo, e adivinho o que serias se ainda vivesses! Quem sabe se tuas lágrimas não teriam orvalhado essa aridez de minha alma! Quem sabe?

Emudeceu um instante, como esperando a resposta do túmulo, a quem interrogava.

— Mas não! Foste tu mesma, que me enviaste do seio da eternidade, como tua última lembrança, a prova do crime!...

O crepitar do folhedo sob um passo ligeiro fê-lo voltar-se. Era Alice que vinha para ele, sofregamente, com os cabelos ainda em tranças e o semblante demudado. Na mão trazia uma carta que tomara do Martinho, a quem Mário a confiara para mais tarde entregar ao barão.

— Que é isto, Mário! Você vai deixar-nos?

— Assim é preciso, respondeu o mancebo com o tom grave de uma resolução fatal.

— Mas por que, meu Deus?

— Depois do que houve, minha presença aqui seria um martírio para nós ambos; e um desgosto, se não fosse uma humilhação, para seu pai.

— Meu pai desejava esse casamento; era seu sonho. Mas desde que não lhe agrada, ninguém mais lhe falará nisso. Não me importa ficar solteira toda minha vida!

— Que tenho eu sido no seio de sua família e de sua existência, Alice? Um germe de contrariedades e desgostos. Quando criança, as lágrimas que derramou, fui eu que as arranquei; quando moça, foi a minha chegada que veio perturbar a alegria de sua feliz primavera. Minha alma é como um desses lagos sinistros, que envenenam com seus miasmas; desgraçado de quem os respira! Quando eu estiver longe, e me esquecerem de todo nesta casa, a calma e o sossego voltarão a ela. Há de ser feliz, Alice, e todos os seus!

— A felicidade que eu pedia a Deus, ele não me julgou digna de a possuir. Restava-me uma, era a de viver sempre junto daqueles a quem estimo. Esta você ainda podia dar-me; porém não quer.

— Não quero?... repetiu o moço meneando a cabeça. Não posso!

— Que segredo é esse?

— Oh! não me interrogue! Eu lhe peço! Nada sei; não tenho segredos. O motivo que me prende só diz respeito a mim, e a ninguém mais. É uma fatalidade.

Um sorriso triste fugiu dos lábios de Alice.

— Sei qual é!

— Sabe! exclamou Mário recuando. Não; é impossível!

— Nada sente por mim... nem amizade. Eis a razão.

— Creia-me. Se eu não a amasse como a amo, Alice, talvez tivesse aceitado sua mão; e quando a recusasse, não duvidaria ficar aqui.

Estas palavras foram proferidas com estranha e profunda entonação. Alice fitou no semblante do mancebo seus belos olhos azuis, para perscrutar o pensamento que não entendera.

— Não pode compreender estas palavras, nem procure jamais compreendê-las! Elas matam. Bem vê que não devo ficar aqui; meus lábios destilam veneno: um olhar meu pode assassiná-la.

Mário afastara-se rapidamente; a alguns passos voltou-se:

— Adeus, Alice, e para sempre! Esqueça-me!...

De joelhos junto ao túmulo, a que se amparava para não cair, a menina ergueu a custo a fronte:

— Se algum dia voltar, nos achará aqui, a ambas! murmurou ela com resignação angélica.

Mário não pôde resistir. Suspendeu-a nos braços e cingindo-lhe o talhe, estreitou-a ao seio convulso.

Assim ficaram unidos e imóveis por algum tempo.

— Alice, acredite. Se há um meio de unir-nos algum dia, é essa ausência. Minha vida aqui é uma vertigem, uma alucinação; cada pensamento é um desespero, senão uma loucura; cada instante um perigo. E se fosse só para mim? Mas para aqueles a quem amo. Longe daqui, talvez que eu possa esquecer; talvez que a fatalidade canse... e... eu volte um dia. Senão...

— Nunca mais nos veremos! murmurou Alice.

— Não; havemos de nos ver, Alice.

— Quando?

— No céu!

— Sim, no céu; mas como dois estranhos e desconhecidos, soluçou a doce voz da menina.

Mário compreendeu seu pensamento:

— Eu lhe juro! Sobre esta sepultura que é para mim o altar mais sagrado, eu lhe juro. Minha alma lhe pertencerá exclusivamente, ninguém terá o direito de reclamá-la.

Uma serenidade celestial difundiu-se pelo rosto de Alice, e deu à sua tristeza o toque suave dessa maviosa melancolia que é uma espécie de nostalgia d'alma pela sua mansão etérea.

Mário tomou entre as mãos a loura cabeça do anjo transfigurada pela visão da bem-aventurança, e beijou-a santamente, murmurando a palavra – adeus!

Por fim, arrancando-se a esse beijo onde lhe ficara a alma divulsa, partiu. Imóvel, como ele a deixara, permaneceu Alice, com a fronte levemente pendida e as mãos no seio onde as cruzara o pudor. Seu talhe oscilava, como a cana que o vento parte pela raiz; e os olhos acompanhavam a Mário que se afastava rapidamente. Parecia que esse olhar longo, fixo e intenso, era o fio invisível que retinha suspensa sua alma. Quando o mancebo desapareceu, ao longe, entre o arvoredo, o corpo exânime dobrou-se, primeiro os joelhos, depois a fronte, e resvalou ao chão.

Ali a veio achar pouco depois, seu pai, chamado pelos gritos das mucamas.

Foi um terrível momento para o barão. Embora acostumado desde muito às graves comoções, e provado pela adversidade, pouco faltou que não sucumbisse a esse golpe profundo.

A carta de Mário ficara casualmente sobre a lousa negra do túmulo de D. Francisca, onde Alice a pusera em um momento de perturbação. No sobrescrito lia-se o nome do barão. Ali em face do corpo inanimado da filha e daquela carta agoureira que ia receber de um túmulo, cuidou perder a razão. No cérebro alucinado caíam-lhe como gotas de chumbo, ideias horríveis. Fora Alice assassinada? Mário estaria morto também? E aquela carta? Era o sarcasmo de uma vingança cruel?

Afinal recobrou Alice os espíritos; e sua pupila azul, ainda nublada pelo torpor da vertigem, perpassou em torno um vago olhar que repousou no semblante lívido do pai. Foi uma ressurreição para a mente já vacilante do barão.

Entretanto Mário, desviando-se do caminho que seguira, penetrava na mata. Ele conservara de sua infância esse amor da floresta, que se parece com o amor do oceano. A alma do homem carece para expandir-se, do elemento de que se criou: salsugem do mar, ou aroma agreste.

Sentado sobre um cômoro de relva, com as costas apoiadas a um tronco de jequitibá, o mancebo refletiu sobre sua vida.

“Está morto o passado: o homem que fui, lancei-o ao nada, como um despojo inútil. Renasço agora outra vez, e como a primeira, para a pobreza e para a luta; porém levo de mais a razão, e de menos o remorso. Sim, o remorso; a flagelação da vítima obrigada a receber o benefício da mão assassina!

“Que nome tem isso que eu fiz? Será uma virtude, um capricho, uma loucura, ou uma imbecilidade?

“A sorte me enviou uma riqueza, que em toda minha vida não poderei adquirir, e para partilhar essa riqueza destinou-me uma esposa, como eu não ousava sonhar, antes de a conhecer. O futuro era a estrada semeada de flores, iluminada pelos raios da felicidade. E esse dote que o destino me oferecia, eu o arremessei no abismo do impossível!

“O mundo chamará a isso uma tolice, e eu mesmo às vezes duvido que tivesse direito de recusar a ventura que Deus me concedia! Mas ela trazia no seio um verme que a havia de devorar. Poderia eu jamais arrancar de meu coração esta suspeita que o contamina como uma lepra? A todo o instante, entre os enlevos do amor de Alice, no meio dos gozos da riqueza, não ouviria o riso estridente e sarcástico da consciência, a escarnecer a felicidade, que fora o salário pago pelo crime à vil impiedade do filho?...

“Eu pudera esquecer, e talvez mesmo perdoar, se o perdão fosse generoso, de mim para ele; mas dele para mim, nunca!”

Por muito tempo essas ideias trabalharam o espírito do mancebo.

“Pensemos no futuro, disse por fim; aonde irei? Os felizes têm uma estrela que os guia. Os desgraçados... Esses têm a fatalidade que os impele, e os arroja a seu cruel destino. Pois bem; entrego-me a ela; sou um de seus prediletos!...”

Ergueu-se e tomou através da floresta o caminho da cabana do pai Benedito. Tinha um último dever a cumprir naquele sítio, antes de o deixar para sempre; ia despedir-se desse amigo de infância.

Estava ausente o preto velho; tinham vindo chamá-lo horas antes, por mandado do barão. Mário tirou da mala um livro, e foi esperá-lo à sombra do tronco doipê.