O Vaqueano/I

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O Vaqueano por Apolinário Porto-Alegre
Capítulo I: Paisagem morta


O inverno desatava as madeixas emperladas de gelo, tão triste que magoava o coração e despertava idéias sombrias, como céus e e terras.

Não sei que íntima e mística afinidade existe entre a natureza e a alma humana, que a morte-cor de uma se reflete na outra como em bacias de límpidas águas, que o múrmur surdo e merencório desta, como num tímpano, encontra ecos naquela.

O inverno é um cemitério! Sazão de morte que não poupa a terna vergôntea, nem as catassóis da asa do colibri! Por isso o calafrio que se sente quando ele se aproxima, o terror que vaga na floresta e na campina, a palidez do manto de verduras, a ausência dos cantores plumosos... e depois o minuano! Como é cruel, ele que fustiga a árvore secular, quee aspergia doce sombra no ardor da sesta, até lhe arrancar uma por uma as folhas de seu diadema! Que cresta a várzea há pouco vicejante alfombra! que torna a linfa de onda argentina e anodina, fria como uma geleira, silenciosa como um ermo, ingrata ao lábio na exsicação da sede!

Quem pode amar-te quadra sem sombras, brisas, cantos e flores? Período que espasma a vida e congela a flor das alegrias?

Só quem não sente, alma embotada para as sensações brandas e suaves, que rodeiam a existência de uma gaza transparente e rósea que se chama poesia!

Era no dia 14 de julho.

O sol cambava. O raio do crepúsculo, círio que vela um ataúde, lambia a face da Terra. Expressão de agonia, lampejo precursor da morte, ia deitar-se o pai da natureza.

Quem então o visse diria que buscava o leito de descanso, numa sepultura imensa como ele próprio, às profundezas do infinito. O cenário sobre que pairamos não recendia menos tristeza.

Eram os campos de Vacaria.

Ao norte o rio Pelotas arquejava, descontando, febrilmente um réquiem, ao sul o Taquari o acompanhava em notas não menos lúgubres; de um lado o lombro verde-negro da serra Geral, interceptando o horizonte; do outro o Mato Português, cuja respiração simulava o paroxismo cruel de leviatãs que estrebucham. O teto - o céu, cujas fímbrias eram as brumas alvacentas de leve coloridas.

Ajuntai o efeito dos troncos quase desnudos de roupas em pé no lusco-fusco da tarde, fantasmas dos séculos estendendo longos e musculosos braços para todas as direções, sacudindo, ao sopro do pálido arrebol, as barbas grisalhas e venerandas, ajuntai mais o mio, ora profundo e cavernoso da onça, ora estrídulo e agudo da jaguatirica, o solfejo áspero e atroador do itanha, o piar agoureiro das corujas, o bramido do minuano que fazia ranger os estípites e galhada da selva, que revolvia os capinzais como oceanos, e tereis o quadro senão completo, em miniatura ao menos.

Ali só uma realeza que contemplava outra realeza.

Ali só o urutau sentia efusões, porque ainda tênue dilúculo de luz lhe banhava a retina, embora mortiça e gélida. Feliz vivente que passa os dias de modo tão estranho! Rompe o dia e ei-lo a saudar a aurora, ei-lo seguindo com a pupila ardente o astro-rei no seu itinerário pelos dédalos da imensidade.

Não sei por que, mas amo-te, ave das solidões do meu berço, anacoreta das florestas natalícias.. Talvez traduzas um emblema sublime! ... A noite desceu. O firmamento era um pavilhão de azul semelhante ao das voragens marítimas, os troncos que cercavam os campos da Vacaria eram suas colunas. As estrelas que o esmaltavam encobriam-se por vezes, como em brancas mortalhas, nos capulhos de nuvens que deliravam nos páramos infindos.

Caia neve em flocos. O frio, intenso. O mistério daquela natureza recolhida e inânime, profundo e terrível. Não tinha só a melancolia do deserto, o vago e indefinido, que coam na alma as savanas e matas americanas, tinha mais o tom baço, a desoladora taciturnidade, a paralisia, a inércia, a aparência de cadáver, que ressaltam da quadra hibernal. Só quem viajou por noites assim através do ermo selvagem pode compreender a expressão aziaga que lhe é própria, os sentimentos inefáveis que ele desperta, expressão e sentimentos que jamais a linguagem conseguiria reproduzir, são tão indescritíveis! Então cada folha, cada filamento de relva, cada seixo parece ter um segredo medonho a contar um cochicho de torva ameaça! Tudo se anima, tudo fala.

O rochedo agita-se, caminha, rodeia-nos e solta uma gargalhada de infrene sarcasmo. A árvore tem o gesto iracundo. O vendaval ruge uma blasfêmia em cada lufada. E o viajante acha-se cercado de calibans e pavorosas lâmias. A noite, o inverno e a solidão o amesquinham à face do mundo e à face de Deus. Ao resfriamento do corpo aduna-se o resfriamento da moral.

O homem é um autômato. Nem o próprio indígena que ali nasceu, vive e há de morrer não se isenta do terror supersticioso; ele mesmo crê em maus gênios que povoam o sertão. Ele mesmo é um átomo que transcende no pensamento, porém fraco e pueril ante as maravilhas de Deus nos seios da criação virgem e grandiosa.