O Vaqueano/II

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O Vaqueano por Apolinário Porto-Alegre
Capítulo II: A marcha


De repente na treva sulcou uma centelha.

Crer-se-ia que fora ferida uma pederneira.

A faísca inoculou-se, tomou corpo, distendeu as formas e logo depois uma língua de fogo serpenteou rápida, crepitou momentos lutando com regelo atmosférico e, ao fim, uma labareda flutuou os ígneos penachos.

Meia hora decorrida a ourela dos matos da serra Geral forma uma faixa luminosa.

Então distinguiram-se vultos que cruzavam o ambiente iluminado.

Acerquemo-nos.

Dois homens estão junto a uma das fogueiras. Tomavam mate.

Um de contornos amplos e estatura regular tinha a fisionomia franca, jovial e insinuativa do campeiro rio-grandense.

Por sobre a farda trazia o poncho de pano azul forrado de baetilha e gola de veludo, que em outro seria agaloada, porém, nele, atenta sua simplicidade de costumes e maneiras, apenas rematava por singelo trancelim. Todavia os alamares eram de prata. E a razão é óbvia: este metal na província não é a insígnia distintiva de certas classes, tanto se o depara na cabeçada do lombilho do estancieiro como na do último da peonada. Ricos e proletários ostentam-no com garridice.

As pratarias constituem o ponto de contato entre uns e outros, o laço de irmandade das diferentes hierarquias.

Cobriam-lhe a perna e o pé altas rossilhonas, que, desfraldadas de sobre o joelho, vinham terminar em vigorosas chilenas também de prata, armadas de farpantes e rufadeiras rosetas.

O outro personagem de porte elevado, porém robusto e esbelto, trazia uma capa traçada na omoplata. Seu rosto não enganava à primeira vista. Parecia destacar duma eterna iluminura, dessas que passam intatas através dos séculos. Exuberava irradiações deslumbrantes de toda a fisionomia. Era como a personificação, a apoteose viva do gênio da liberdade.

Quando chegaremos? - dizia o último com pronunciado sotaque italiano. - Estou que quanto mais andar, melhor será. O inimigo não deve acordar antes que cheguemos. Pois em negócios de guerra, penso como Napoleão, a rapidez, o imprevisto, que trazem sempre uns ares de milagre, fazem mais do que os mais bem disciplinados exércitos.

- De acordo, mas você crê então que não vamos de carreira batida? Amigo, vamos que nem chimarrões esfomeados atrás de carneação.

- Não digo o contrário, caminhamos a marcha forçada, bem o vejo; quem sabe, porém, os rodeios que fazemos, quando podíamos encurtar a distância indo em linha reta.

- Aí vem você com suas retas! Não conhece o vaqueano! Guia guapo como ele, não o há em toda a redondeza.

- Realmente; podemos ainda interrogá-lo.

- E já... Vai ver como é aquilo. Não se desmancha nem pelo diabo.

E acenou para um soldado de sentinela.

O soldado achegou-se.

- Chama-me de lá o vaqueano. - E pela vigésima vez encheu a cuia. - O que me admira - ponderou - é como estou verdeando tão maldita caúna. - Momentos depois veio o reclamado.

Não haverá caminho mais curto daqui a Laguna?

O interrogado respondeu com um leve meneio afirmativo da cabeça.

- Por que não o tomaste então?

- Posso ir.

- E por que não foste desde o princípio?

- Perderíamos mais de metade da gente.

- Como?

- Bugres, onças, rios invadeavéis, lagos e correntezas, taimbés, banhados...

- Que tem isto? Chegaremos em menos tempo.

- Mais seis dias, se não houvesse estorvos e embromações; quinze ao contrário.

O primeiro interlocutor refletiu e aventurou mais uma interrogação:

- Conheces bem o caminho?

O semblante do moço passou por súbita metamorfose. As feições contrairam-se e logo por interno esforço distenderam e ficaram imergidas num véu de funda melancolia. Foi efêmera convulsão.

- Se conheço?! - replicou. .. E entre dentes murmurou com voz dolente - Antes nunca o conhecesse!

- Retira-te, estou satisfeito.

- Não te disse, Garibaldi?! Quem lá tem a cabeça do vaqueano? Chuega, é um livro! Até guarda de memória as macegas e pedregulhos das estradas. No sertão não há picada pela qual ele não se meta.

- Do que ele não gosta muito, Canabarro, é de falar. Dá sempre as respostas pelo meio.

- Venetas... É um tanto xucro... Também no mais é um homem, como se deseja.

Os republicanos com grandes vitórias adquiridas em 1838, mormente a do Rio Pardo, em 30 de abril, onde reunidas as forças de Neto, Canabarro, João Antônio da Silveira e Bento Manuel fizeram retirar o exército imperial comandado pelo general Sebastião Barreto Pereira Pinto, quiseram estender a área dos combates, e para tal intuito determinaram tomar a Província de Santa Catarina.

Aí vão eles, agora que os encontramos, executar o plano concebido.