O Vaqueano/III

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O Vaqueano por Apolinário Porto-Alegre
Capítulo III: Avençal


José de Avençal!

Quem então o não conheceu, não por semelhante nome, mas pelo de Vaqueano, que vinha da profissão?

Era uma natureza admirável, não tanto pelas amplas manifestações dos músculos de ferro, como pela perícia e inteligência com que guiava os exércitos da República, e a grandeza e bondade do caráter.

Também jamais houvera rio-grandense que, como ele, conhecesse a Província. Não lhe escapava uma jeira de terra, ainda mesmo perdida nos ínvios sertões ou em banhados de largo perímetro. Tinha a memória fiel até para as nugas locais. Era uma verdadeira vocação. Seu calendário de nomes abraçava do capão sumido na campina à restinga do mato ou arroio de exíguos cabedais. Constituía de per si o mais exato arquivo topográfico, um mapa vivo e pitoresco.

Sempre sorria, quando os companheiros, ante a floresta, em que o taquaruçu crescia úmido, atado às árvores gigantes por fortes cipós e entretecido de finas e mimosas enrediças, exclamavam:

- É impossível!

Quando paravam desanimados na presença dos alcantis da cordilheira ou das barrancos de caudaloso ribeirão, ainda repetiam a frase de desalento.

Sorria.

E o sorriso que lhe rugava o lábio era a craveira de sua grandeza e superioridade.

Nos misteres campeiros ninguém o excedia. Iguais os encontrava, melhores nunca. O homem que nas brenhas brincava com o guará, o tigre e o tapir e os subjugava ao braço como tenra criciúma sob a pressão do vento, que receio teria do potro indômito e bravio e do boi xucro e de pontas aguçadas?

Nos manejos de guerra não ficava somenos. A lança de duas braças de longura vibrava o bote tremendo, o pistolão atravessado na guaiaca poucas vezes errava o tiro na andorinha que cortava os ares. Mas quando expandia o rosto era ao ver a rodilha do lago revolutear no espaço e logo como uma jibóia aérea se distender, se enristar, cingir o corpo da vítima, retê-la no ímpeto da carreira, sofreá-la nas contrações da sanha, envencilhá-la em estreito amplexo e estrangulá-la quase, abatendo-a, vendo-a humilde render-lhe homenagem; ou quando, as bolas em punho, rodeado de adversários, ia derrubando um por um, a golpes terríveis. Essa arma de nossos camponeses realiza para o homem o que realizavam as batistas e catapultas antigas para as muralhas. Onde batem, fazem uma brecha e há quase sempre uma agonia.

Trazem só uma dificuldade, o saber esgrimi-las, e esgrimi-las não é atirá-las que é de uso ordinário.

Para os companheiros de acampamento, Avençal, o Vaqueano, tinha um bom lote de defeitos imperdoáveis. Não falava senão em caso de extrema necessidade, não bebia, jogava menos e fumava pouco ou nada. já se vê que devia forçosamente ser censurado, vivendo na turba soldadesca, gente que tem por vida o presente como um pêndulo oscilante entre a botija, amante de afagos e sonhos inesgotáveis, e o baralho, distração necessária para espairecimento dos sentidos nas horas vagas.

Mas nem por isto era menos querido e admirado.

Supunham-lhe todos uma história negra, fastos de tempos idos, cujas lágrimas ainda transpareciam apesar da distância; porque o viam geralmente recolhido em profundas e melancólicas cismas que lhe amarguravam a existência. Não ria, sorria apenas, o que com bem largos intervalos se dava.

Admitiam uma hipótese, e portanto variável como todas as hipóteses, mas a tinham como verdade à luz meridiana.

Teriam razão?

o filósofo feito a formas dialéticas poderia debalde pregar-lhe largo sermão sobre o atentado, pregaria no deserto; que eles, seguindo-o como instinto campeiro, faculdade de longa vista moral que lobriga na treva de, passado e nas névoas do futuro, iriam teimosos após sua idéia.

O pressentimento faro do desconhecido que nos preocupa, tornado certeza por misteriosa elaboração no espírito do homem da natureza, elaboração em cujo processo entra mais o sentimento do que a razão, os camaradas do vaqueano envidavam todos os meios para fazê-lo falar sobre o passado. Quando isto acontecia, viam-no estremecer e barafustar de pranto. Frustraram-se as mais bem combinadas tentativas. Nos combates era o delírio personificado. Em certo dia, um oficial que o vira lançar-se na peleja dissera admirado: - Aquele homem tem a febre da morte. No entretanto, talvez tanta audácia constituísse um escudo impermeável ao ferro e às balas. Saía sempre incólume, ainda que pesaroso. O leitor pode pôr em dúvida o que levamos dito, julgando fantástica criação que esfrola o cérebro ardente de poeta.

Engana-se.

Os principais traços característicos de fisionomia que esboçamos de leve são tão reais, que os encontramos a cada passo em nossa Província, desde o posteiro até o senhor da estância, desde a existência errante do tropeiro até a existência sedentária do guasqueiro ou trançador de lonca. O que há de mais é a cor do mistério, a sombra da intensa melancolia que o destaca do tipo genérico. Não mais do que a ação de um drama nefasto.