O Vaqueano/IX

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O Vaqueano por Apolinário Porto-Alegre
Capítulo IX: O caracará e a juriti


Moisés - dizia André -, sete anos lancei-me em busca do assassino de meu pai. Eu havia jurado uma vingança se, parelha... Hépuxa! se lhe boto a mão! ... Queria estaqueá-lo durante dois dias, insultando-o, cuspindo-lhe às faces. .. E depois?! Ah! Ah! Pôr-lhe-ia a marca da vítima, o ferro em brasa no rosto...

E fez breve pausa para rir como não ri um ente humano. Estranho rir, mefistofélico e divino! onde à ironia adunava uma dor profunda, ao ódio a grandeza de um sentimento santo, onde o céu e o inferno pareciam fazer a mais incrível das alianças!

O mulato sentia gelo até a medula dos ossos.

Rosita empalidecera. Um busto de lioz não tinha a brancura dela: mas também despedia do olhar rútilos do jaguar ferido. Semelhava uma camada de gelo em cujo seio ebulia um vulcão.

- Que tens, irmã? - perguntou com acerbo sarcasmo.

- É horrível! É horrível - e ocultou a fronte entre os braços.

- És muito piedosa! - e tinha tal expressão no cenho carregado, onde condensava uma tempestade que arrancou um grito involuntário a Moisés.

Voltando-se para este, prosseguiu:

- Não é nada ainda, Moisés. Descansarei por alguns dias. Vendi todos os meus cabedais para campeá-lo, semanas, meses, anos e séculos, se fora possível. Dobras, as tenho de remanescente. Depois das estacas o ataria ao palanque, e o laço havia de vergoar aquele corpo infame. Ah! eu não o ter, não poder executar meus planos!

A raiva o sufocava, parou e tomou fôlego.

- Em continuação, cerceando a mão direita, mandaria queimá-la em sua presença, mão maldita, que, por Deus, hei de topá-la ainda! Ainda, Moisés, nova parada para tratá-lo. Quem assim sabe poupar o inimigo, torna mais doce a vinganga. E o fim? Coepuxa! Que bonita charqueada! Carneava-o vivo.

O caçador em pé, aterrorizado, tinha uma das mãos na cadeira, em atitude de fugir. Os cabelos encarapinhados estavam hirtos no pericrânio como os espinhos na palma da urumbeba.

A moça erguera o porte. O colo arfava ofegante. A cólera bulhava; das pálpebras chispavam incêndios. A fronte altiva derrubada sobre a espádua cingida de uma auréola rubra e luminosa era a mais sublime idealização do desafio. A destra erguida radiava uma provocação:

- És um miserável! - exclamou. E na frase que soltara espargia todos os estos do coração, todos os eflúvios da alma... Aquela frase queimava mais que a lava candente.

O irmão caminhou com passo lento, tomou-lhe o pulso, o constringiu a roxear, sem que ela mostrasse nos músculos a menor crispatura espasmódica de sofrimento, sem que soltasse um só gemido.

André disse com inflexão lúgubre:

- Rosa, eu quero vingar nosso pai. Ouviste?

- Mentes... Eles cruzaram as armas. .. Mentes, covarde! Não ousarias afrontar José, face a face.

André apertou-lhe o pulso com mais força. O sangue golfou em jorro. Ela desmaiou.

- Mulheres?! Audácia e fraquez!I Nódoas numa família!

Abandonou-a.

Seu rosto readquiriu a impassibilidade habitual. As rugas distenderam. Procurou Moisés. Desaparecera durante a última cena. O mulato saíra alucinado. Só ao transpor a soleira da casa, sentindo a baforada fria da noite, voltou a si e pôde refletir. A caminho, veio-lhe mentalmente a comparação do homem que deixara, com tão agradável conspecto, ocultando um coração pervertido, e os animais que caçava constantemente. E em sua consciência decidia que se o houvesse morto teria feito um grande bem à humanidade. Veleidades teve ele de retroceder para satisfazer a inspiração de momento; mas a comissão que desempenhava o retinha, bem como a espécie de terror que lhe incutia o adversário.

- Caramba! Ver a pequena assim aperreada e consentir que ele fizesse o que não deixo um caracará fazer à juriti!

Teve medo... Ninguém dirá...

E assim ponderando, lembrou-se do guaicanã: - Que a erva tranquila escondia a jararaca.

- E quem mata uma jararaca não tem lá nenhum crime - continuou a falar de si para si. - Valia a pena lhe destroçar a cabeça. Não sei mesmo que diabo tive; foi uma nuvem que me passou cá pela vista...

O grito da gaivota penetrou o silêncio da noite.

Moisés parou o passo e o cogitar. Arrastado pelo monólogo, abalado pelo que assistira, e quase de corrida, esquecera o companheiro.

O índio encostado a uma moita adormecera. O filho da selva tem o sono leve como os quero-queros da campina. Acordara às compridas pisadas do caçador. Lobrigou o vulto na penumbra, e em distância não pôde reconhecê-lo. Atirou o nariz ao espaço; três minutos depois recebeu emanações que o fizeram desconfiar, e, para certificar seu perigo, deu o sinal convencionado.

Outro grito da gaivota repercutiu.

Um corpo serpenteou na escuridão como um reptil e foi deter-se junto a Moisés.

- Então?

- À canoa, depressa.