O Vaqueano/XI

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O Vaqueano por Apolinário Porto-Alegre
Capítulo XI: Pechada morruda


O tiroteio marítimo continuou talvez pelo espaço de duas horas sem a gente de André, apesar da superioridade do número e do batel o conseguir dar abordagem ao fraco toro de timbaúva concavado, cuja tripulação resumida e em retirada não entibiava de ânimo. A canoa ricocheteava salpicando o ar de gotas por miríades à contadora quilha. Os remeiros tinham a vertigem de vôo.

O leve madeiro semelhava à ave aquática abrindo as asas e esvoejando à flor das ondas.

Os mercenários peões não puderam nunca romper e ganhar terreno nas 50 braças que os distanciavam, nem poupavam balas que, sempre desviadas do alvo, indicavam os braços servis que as atiravam.

O céu, entretanto, embruscou-se, a frouxa claridade das estrelas começou a empanar pela carneirada de nuvens que uma brisa do sul arreganhava.

A escassez de luz protegia a Moisés e a seu companheiro, tornando-os menos visíveis; contudo não se embeveceu com o auxílio quase providencial, viu que o perigo não era menos iminente. Com o pensamento em atividade, os pulsos em moto-contínuo, a pupila acesa na treva espessa da noite, o suor a filtrar em bagas, não confiava muito em milagres, sem esforço individual. Vislumbrara-lhe a doce esperança numa sombra projetada na face cintilante das águas. Há muito a contemplava com olhar magnético. Era uma grande ilha de aguapés que boiava na rota seguida.

Quando se avizinhou dela, achegou a boca ao ouvido do índio e disse em tom baixo e incisivo, indigitando-a:

- Ali.

Ergueu o talhe robusto, sepultou a clavina no fundo do pego. O outro, que logo lhe compreendeu o Pensamento, tomou o arco.

Ambos segurando as folhas da planta marinha, impeliram com os pés a borda da canoa que flutuou em direção norte, quando eles com bracejo surdo arrastaram a salvadora cesta de nenúfares à margem meridional, e só perderam um pouco de terror misterioso que os dominava, depois que ouviram mais ao longe o ranger dos toletes às remadas no bote.

O estratagema iludiu perfeitamente os contrários.

Mas qual não foi a admiração e pasmo destes quando se viram no triste ludíbrio de uma ilusão ou de um acontecimento fantástico, deparando com a canoa vazia. Interrogaram-se mutuamente com os olhos, com a palavra e os esgares.

Oscilaram alguns instantes duvidosos sobre o rumo que tomariam. Ao fim com o instinto de feras esfaimadas foram no encalço certeiro. Verdade é que os perseguidos lhes davam lampas, além da circunstância de terem desaparecido de um modo estranho e sobrenatural.

O mulato e o guaicanã apojam à praia, galfam o solo, entre a rama miúda e rúla dos sarandis. Ladeiam alguns momentos o lago e internam-se numa ponta de mato, onde haviam deixado à soga dois cavalos. Parou de súbito Moisés e levando as mãos à cabeça:

- Aquele homem! Aquele homem! Sempre que o encontro uma desgraça me acontece.

O outro curvando-se e examinando um arbusto donde pendiam ainda os fragmentos de duas rijeiras de guasca, disse com gravidade:

- O guaraxaim protege o inimigo, irmão. Os cavalos voltaram ao acampamento.

Sem trocarem mais uma palavra, ambos sumiram numa densa reboleira do matagal.

As nuvens caliginosas distenderam e o céu começou a peneirar fina garoa que, condensando, cobriu a terra de um manto inconsútil, alvacento e imenso, como o espaço que o olhar abrangia.

Deus velava por eles.

A cada passo os interceptava à perseguição.

Meia hora escoara. Moisés e o guaicanã caminhavam calados e tristes, tendo na passagem sérias precauções para evitar que encontrassem a trilha percorrida por eles. Nenhum sinal até então indicava que os sicários de Capinchos os fariscavam.

Súbito o indígena estremeceu, abaixou-se, colou o ouvido ao chão e sacudiu a cabeça.

- O que há?

- Eles!

- Caramba!

Trazem cachorros.

A brenha era cerrada. De instante a instante o latir dos cães aproximava. A folhagem ramalhou. O índio embebeu uma seta no arco, a qual sibilou e deitou por terra um bugio. Também, sem demora, cingindo um tronco, trepou por ele acima. O mulato fez outro tanto. Ambos começaram a saltar de galho em galho como dois quatis que fogem à sanha dos caçadores. A viagem aérea foi de pouca duração, no espaço de menos de uma quadra.

O guaicanã calculara que os seguiam pelo rastro. Matreiro como um veado que conhece o olfato da raça canina, extinguiu todas as emanações que pudessem traí-los. E para ganhar tempo e deter os cães, abateu o bugio que tivera a imprudência de vir espreitá-los.

Enquanto uns assim exauriam os recursos de defesa, a peonada de André, tão prática e conhecedora de semelhantes meios como eles próprios, não os economizava para alcançá-los.

-Desembarcando, conheceram logo o desastre da perda dos cavalos e concluíram que fugiam a pé. Puseram, pois, os animais à pista.

- Furtam-nos a volta - disse um, parando ante a presa que agonizava atravessada de uma flecha. - Vamos negaceá-los de outro jeito. Dividiu a gente em duas turmas e cada uma tomou diferente caminho com o propósito de se reunirem numa campina fora do mato.

O mulato e o companheiro, saindo do bosque, entraram num descampado, onde agachados entre as macegas prosseguiam rápidos na retirada. Ali encontraram uma partida volante de farroupilhas. Criaram alma nova e, em vez de recuarem, avançaram, esperando a pé firme. O inimigo não tardou muito. Vinha a marcha forçada. Além da cerração, o auxílio que viera como caído das nuvens deu a Moisés o condão de fazer prodígios. E os fez. Quando a gente de André pensava agarrá-los e conduzi-los como terneirinhos à mangueira, sofreu tal refrega, que nenhum conseguiu escapar; uns mortos, outros prisioneiros.

- Caramba! - rugiu o mulato - que pechada morruda!