O Vaqueano/XXI

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O Vaqueano por Apolinário Porto-Alegre
Capítulo XXI: Rosita


Moisés, que recusava tomar parte na revolução, resolvera afinal acompanhar o vaqueano, com o contingente de quase todos os seus guaicanã.

Eis por que o encontramos na Laguna.

O exército republicano ficara a três léguas, nas abas do morro de Santa Marta, e ele viera ver, como bombeiro, o que faziam na praça.

No dia 23 de julho, o estandarte de cores amarela, encarnada e verde da República de Piratini flutuava sobre a vila, desfraldado aos ventos da vitória.

Fácil vitória sem derramamento de uma lágrima, sem a troca de um tiro.

Canabarro tratou logo de se precaver contra qualquer eventualidade. Levantou na barra uma forte-bateria em defesa do porto e fez armar quatro embarcações para o corso.

Garibaldi não só bom soldado, mas excelente marinheiro, pois na marinha piemontesa galgara até o grau do segundo-tenente por mérito, foi nomeado chefe de esquadrilha.

Também em pouco infestou a costa, e raro era o dia em que não fazia presas consideráveis de navios mercantes do Império, requintando de audácia até o ponto de aparecer em frente à cidade do Desterro e de ameaçá-la com um canhoneio. Canabarro, no continente, não descansava; os planos de hostilidades abrangiam a Província inteira. Esperava em breve ocupar toda a ilha de posições tão importantes, que o tornariam formidável por terra.

Enquanto não chegamos a sérios e culminantes combates, voltamos aos nossos conhecidos.

O vaqueano e o caçador gozavam de privilégios - na turba-multa soldadesca. O primeiro não era mais que o guia do exército, e, se tomou parte nas lutas, sempre foi espontaneamente; o segundo não quis soldo, para obrar em liberdade, dando contudo dez homens para o serviço de guarnição, e pronto a tomar parte em qualquer ocorrência perigosa. O mulato fez todos os esforços para afastar Avençal do teatro da guerra, onde então se achava seu figadal inimigo. Supunha-o capaz de qualquer crime, mormente depois do que com ele praticara, vindo bombear a vila, e da perseguição de que fora alvo. Ouvindo a proposta, o moço encolheu os ombros.

- Já morri uma vez, Moisés. Que importa agora que me maltratem o corpo, quando já me machucaram o coração. A morte, negaceio-a, não lhe volto as costas.

- Mas...

- Basta, afliges mais minha pobre alma - redarguiu com ligeiro assomo de impaciência.

- Está bom, irmão. Não é para te zangares...

Levantaram um arranchamento na coroa da colina. Moisés, aventando os desígnios de André, cuja sanha já conhecia pessoalmente, chamou três dos principais guiacanã, e assim lhes falou:

- Irmãos, a vida de vosso irmão caçador está em perigo. O inimigo o olha de perto. Se quereis que vosso irmão viva, rodeai as ocas de cuidados.

Os selvagens responderam com a habitual gravidade:

- O irmão descanse nos arcos dos guaicanã. Os guerreiros da serra têm a vista do urutau que encara o sol, e a vigilância do pássaro da campina; têm o faro do urubu e o ouvido do cervo.

Desde então o arranchamento, numa área de quarenta braças, ninguém transpunha, além da companhia que encontramos na Vacaria. Às vezes, um transeunte distraído ia passar pelo outeiro e saía-lhe do chão um bugre carrancudo e torvo com enorme clava em punho, desviava e mais adiante entrevia um cano reluzindo entre a rama de uma moita de guaximas; fazia um novo circunlóquio mental a que correspondia um novo circunlóquio dos pés. Mas, prosseguindo, encontrava a alguns passos uma bola que, ao vê-lo, distendia com espantosa elasticidade como uma serpente, e mostrava o arco com a flecha embebida. E, como a prudência é uma virtude nos próprios generais, estabelecendo premissas e uma conclusão de lógica de ferro, o nosso caminhante estugava a passada em longo rodeio, cujo termo era na vila.

Canabarro uma noite saíra da tenda e viera falar ao vaqueano.

Mal quis vingar o perímetro guardado, um vulto se lhe opôs, e o general, furioso e admirado, arrancou da espada. O grito do carancho soou. Era a senha, e, como por encanto, viu-se rodeado de tantos homens, num momento, que, de 40 que eram, julgou divisar um exército nas sombras flutuantes da hora. Os guaiacã levaram-no prisioneiro ao chefe.

Moisés sorriu, quando reparou no preso de tão alta categoria.

- Chega, Moisés! Que diabo de costume é este?

- Não recebo a pessoa de um general sem cortejo - disse gracejando.

E contou-lhe então os motivos por que assim procedia.

- Se ele não estivesse alistado em minha gente mandava prendê-lo; mas, vocês, por que não vêem lá se podem acomodá-lo?

- General, dois dos meus índios não deixam aquele demônio noite e dia. Se quiséssemos fazê-lo estender o molambo, por Deus! que não nos incomodaria mais. Eu cá pensei, mas o vaqueano não quer. ..

- Está bem, arranjem como puderem... Onde foi o vaqueano? Ando pensando que temos chamusco mais dia, menos dia.

- Os caramurus querem corcovear?

- Pior! Querem-nos pôr carona e boçal.

Armemos um pealo e zás! Serão eles os emboçalados.

- Ficaram desbarrigados depois do Rio Pardo, e agora pedem desforra. Hão de ver como os desabusamos, bagualada do rei.

Alguns dias depois os ranchos estavam vazios.

Os índios apreenderam um soldado que - por força queria falar com Avençal e trouxeram-no para as habitações onde o retinham, sob guarda rigorosa. Era de noite. Ele entrou na peça principal e sentou-se num cepo perto de alentador braseiro, sem pronunciar palavra. Não se lhe enxergava o rosto na penumbra do chapéu desabado. Silencioso e sombrio pousou a barba nas mãos, mergulhando em funda cisma. Sua imobilidade o assemelhava a esses guerreiros americanos acocorados nos camucins da derradeira morada.

A ampulheta do tempo vazava hora por hora sem que ninguém aparecesse.

Só a sentinela guaicanã descansava sobre o arco quase da longura de um corpo de homem. Parecia adormecida e, no entretanto, na atitude de estátua, era a personificação da vigilância. Imperturbável como a penedia ereta tinha cem olhos de argos, não perdia o menor acidente do teatro em que se achava; o ouvido era uma acústica viva, o argueiro que tombava, o zumbido do noctívago inseto nele repercutiam.

Avençal, Manduca, Moisés e outros entraram, já sabedores da prisão efetuada em sua ausência.

Seria meia-noite.

O soldado, ao vê-los, soltou um grito e caiu nos braços do vaqueano.

- Avençal! - murmurou.

- Rosita! - exclamou ele.

Largo espaço estiveram unidos, seio contra seio, os olhos debulhados em lágrimas, os lábios exaustos de carinhos.

Numa exclamação tinham dito tudo.

- Avençal e Rosita!

Que mais poderiam dizer?

Aqueles dois nomes para eles não constituíam uma religião, um poema de amor, a imensidade do infortúnio de duas almas nutridas dos mesmo sentimentos, refociladas na mesma crença ao pungir da mocidade? Que se fundiam na mesma aspiração? Tão irmãs como duas flores de um corimbo, como duas asas de beija-flor?

Culto grandioso e sublime de dois corações que se amam, de Romeu e julieta, malgrado os ódios de raça!

Em suas irradiações parecem superiores à natureza, ao espaço e a Deus, embora caiam inânimes na luta!

Quem lhes bradará: - Suspendam!

Vã tentativa! A pira recebe alimento, mais cresce a paixão a cada óbice, a labareda corre como na queimada devoradora e rápida, e torna-se como a entranha da terra; quanto maior pressão, mais a cratera vulcânica fumega, arde, extravasa, vence, mata!

Reprimiram afinal os ímpetos do peito.

- Avençal, fujamos daqui. Amanhã será tarde... Meu irmão procura-te, Avençal... Foge, eu te acompanho. Irei aonde fores... - E travava-lhe das mãos com ar súplice.

- Também enveredo - disse o mulato.

- Fugir?! Não, não posso...

- Partamos... - renovou com o peito partido por um soluço. - Queres morrer! Não vês que nossa ventura deixará de ser uma mentira?

A imagem de José Capinchos, pedindo-lhe a vida em nome da amante, destacou-se no cérebro do mancebo. Esta recordação repassou de amargume o júbilo que por instantes lhe inundara a alma.

Tornou-o forte contra a tentação.

Falou consigo resoluto: - Cumpra-se o fado! - E a ela:

- Nossa ventura, minha Rosita... - e volveu os olhos para o céu... - Só lá!...

André, apenas chegara o exército da República, fora apresentar-se ao general para prestar o auxílio de que ele carecesse, e, de fato, prestou valiosos serviços, já em gente sua reunida ao exército, já em dinheiros. Não fora o amor à causa que o guiara. Foi o pressentimento do ódio. julgava encontrar não só o caçador, mas também o inimigo do íntimo, mas a hora da vingança, hora há tanto almejada e estremecida.

Acertara.

Deparou ambos.

Captara o reconhecimento de Canabarro. Podia operar livremente. Pôs-se em cama. Mas a sanha do tigre teve de quebrar contra a fera têmpera dos aborígenes dedicados até a heroicidade. Moisés, de seu lado, também o pressentira e opusera a única força capaz de resistir-lhe, o único elemento de fidelidade a toda prova.

André queria tomar Avençal, a imaginativa deu-lhe o recurso de mil planos e emboscadas, malogrados sempre pela vigília eterna do gentio. Uma ocasião, no auge do desespero, estrangulou um destes. Outro apareceu, depois um outro e, por fim, turmas que iam aumentando progressivamente como onda após onda na fola dos mares. Fugiu. A irmã, ao vê-lo chegar em casa com as feições decompostas, abrigou-se no quarto. Tinha também feito um plano. Suas faculdades estavam reconcentradas num só ponto: a salvação do amante. Queria vê-lo e confiava em arrastá-lo longe da Laguna. Anoitecia. A hora era propícia. O silêncio reinava em torno da morada. Abriu a rótula, e, disfarçando o sexo nos trajes de homem, saiu.

Com o passo apressado e trêmula foi dar no arranchamento como vimos. Não notara que dois vultos a seguiam de longe: André e um peão.

Quando voltara com o desalento e o desespero na alma e a intuição de uma próxima desgraça, ao transpor a janela, viu destacar tremenda nos umbrais a figura do irmão, lívida de cólera, porém calma no exterior, como a face do oceano antes do furacão.

Ligeiro arrepio frisava-lhe a espaços os traços, e um som cavo e profundo regougava surdamente nas faces prestes a escancarar-se.

- Onde foste, Rosita? - perguntou.

- Que me queres? - respondeu, medindo-o, alucinada, da tartaraúna, como o leite da guararema, espadanou e foi borrifar a face da mimosa donzela.

- Que te quero ! Vai dizer tuas últimas rezas... E depois... irás contar a nosso pai o que fizeste por aqui esta noite... infame!

Rosita sentou-se à borda do leito e mergulhou a mão sob as roupas, que oscilaram por momentos.

E, plácida e radiante, a fronte como o lago em tarde serena ferido dos resplendores do ocaso, esfolhou um sorriso como pétalas de rosas, como acentos de harpas eólias, como dunas seráficas:

- Eu te amo, Avençal... Adeus!

Foi um sussurro... O adejo do espírito que foge do corpo.

Estava morta. Tinha uma adaga cravada no coração.