O Vaqueano/XX

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O Vaqueano por Apolinário Porto-Alegre
Capítulo XX: Vaqueania


No dia seguinte André recebia um bilhete deste teor, pouco mais ou menos:

"Em combate frente a frente comigo teu pai morreu.

Descobri nele o assassino de minha família; as provas aí vão. Fui eu, eu só, não culpem outro; também morri para o mundo".

Rosita teve uma súplica verbal: que rezasse por ele pois o que ele sofria só Deus era sabedor.

E sumiu-se da Vacaria.

Desde então viveu a caminhar. E caminhava de sol a sol!

Vinda a estrela do ocaso, desencilhava a cavalgadura, estendia por terra as coronas e a manta, debruçava a fronte exausta sobre o lombilho, rude travesseiro do rio-grandense em viagem, e dormia!

Ninguém lhe invejasse o repouso.

Que de efialtas medonhos o recordo do passado lhe sugeria à imaginação livre, sem peias na síncope do sono?!

Sopitava o corpo quebrado da árdua provança do dia, a alma agonizava no martírio devorador de anos.

Mal o frouxo clarão da alvorada comegava de jaspear o horizonte, verão ou inverno, e ei-lo de pé, e de novo a volver às vertiginosas marchas, a buscar perigos, a exaurir gota a gota o alento exuberante de sua compleição atlética. Não o perdia, no entretanto; algumas horas de descanso durante a noite renovavam a força perdida. Antélio de um suplício sem nome apenas tocava a terra, remoçava; a própria febre do desespero o nutria. A revezes escoou-lhe pelo cérebro o suicídio, como a única tábua de salvação; recuava, não por medo, mas porque o assemelhava a um desertor, pecha para ele mais aviltante que a morte.

- Cumpra-se o mau fado - dizia.

E caminhava adiante.

Corria do Prata até a feira de Sorocaba, das courelas do litoral às fraldas dos Andes. Não havia trilho em tão larga área que ele não tivesse pisado, torrão de que na memória não guardasse os delineamentos do perfil.

Não tinha pouso certo e nunca acontecera ficar duas noites a eito num mesmo sítio, sendo raramente nos povoados, cujo rebuliço o inquietava. A campanha imensa, ondeando em cochilhas, salpicado de capões, como oásis do deserto, o cerro empinado entestando as franças com os céus davam alguma trégua à mágoa que o flagelava. A solidão da natureza consorciava-se à solidão de sua alma, compreendiam-se, talvez.

Uma trazia a expressão indefinida da criação depois de muitos cataclismos, a outra o selo de uma agonia sem termo. Sob o manto verde do campo e sob o peito do homem sentiam-se dois infinitos intraduzíveis, duas almas cheias de vida, porém numa luta titânica com os invólucros que as revestiam. O globo e o homem são uma série de revoluções. Os séculos as assinalam em camadas e gerações.

José de Avençal, apesar do gênio que lhe era peculiar e o isolava do mundo, não havia quem o não conhecesse.

Como Bento Gonçalves, a glória tradicional do Rio Grande, como Cláudio, o Contador, a maravilha de olhar de Iynce, como Quadrado - nosso Demócrito, e tantas outras popularidades da época, onde passava, o apontavam com o dedo.

A profissão que escolhera ainda mais aumentava a celebridade.

O que é a vaqueania senão a variedade de conhecimentos e relações a cada instante, nas viagens e trajetos?

O que é um guia, o cicerone de estradas, páramos e desertos, senão o homem de todo o mundo, a quem procuram para as peregrinações e mudanças, a quem confiam vida e tesouros por ermos campos e bravios sertões?

E a ele podiam entregar-se em corpo e alma. De mais fiel e seguro condutor não se sabia.

Ahasvero do infortúnio, não era por cobiça de salário, nem pela mera ambição de acumular fortuna, ceitil a ceitil, que errava sobre a terra. Outro móvel o impelia às imensas jornadas, outra lei levava o pálido caminheiro a longos estirões. Buscava afogar no cansaço do dia as atribulações do espírito.

Dinheiro?! Tais naturezas não roçam na moeda que azinhavra, podiam corromper-se ao atrito. Não são feitas para a craveira das mediocridades, rebanhos de misérias brotadas em cada ângulo, como a má erva. Apuraram-se no cadinho do sofrimento, despiram o manto enlodado para revestir a túnica de Cristo, auréola da apoteose.

Dinheiro?! Não o recusava, no entanto, o vaqueano. Era uma propriedade adquirida pelo trabalho; aceitava-o do rico e ia de passagem com ele enxugar a lágrima do pobre.

Para si não carecia. Viajor da fatalidade tinha bastante no cavalo, fido companheiro das lidas, e nos arreios, camilha da noite. O mais encontrava em qualquer choupana hospedeira.

Contavam o seguinte a respeito do desprezo que votava ao metal, único rei da sociedade humana.

Guiava, por exígua e sombria picada do rincão da Cabeça Funda às margens do arroio Colorado, um negociante em viagem de Bajé a Caçapava. A picada esmorecia num fachinal.

Ao chegarem ali, dois vultos erigiram o porte dentre os raleiros de folhas; um desfechou a pistola, cujo balazio esfloreceu face ao viajante, o outro não teve tempo para fazê-lo. A faca do vaqueano, como alada jitiranabóia, cortando os ares, se lhe embebeu na garganta, e um corpo mediu a terra redondamente. O primeiro vendo frustrada a tentativa fugiu em direção à água, porém a armadilha do laço de Avençal, tomando-o pela cintura, reteve-o na carreira. Isto foi obra de minutos. Fora uma espera armada em conseqüência de um litígio de terras.

Chegados em Caçapava, o homem de trato derramou a guaiaca de onças nas mãos de Avençal, que recusou ofendido a recompensa.

- Não foi do conchavo, amigo.

- Veja que me salvou a vida!

- A vida vale mais do que uma ponchada de onças. Aceito o reconhecimento - e repeliu com a mão o ouro para sobre uma mesa.

Partiu para São Gabriel.

A algumas léguas um próprio veio encontrá-lo; entregou uma bolsa de couro e, sem mais explicações, dera de rédea. Abrindo-a viu o dinheiro. O negociante resistira em galardoá-lo. Apresilhou a um tento a bolsa e prosseguiu na tirada.

Quando atravessava a cochilha do Fidélis teve de parar num rancho na orla da estrada. Ali vivia um hábil lombilheiro e trançador, com 36 anos e numerosa prole.

O artífice trabalhava junto à banca, à sombra de uma árvore, nos botões de um boçalete.

Ele esteve contemplando a delicadeza de filigrana, e observou depois de alguns momentos de silêncio:

- Por que não vai para a cidade? Faria mais.

O outro levou-o para casa.

Havia 17 pessoas num largo alpendre, a mãe, 12 filhos e só quatro crianças de menor idade. Uns preparavam o tenro couro do portilho ou o desfiavam em tentos, outros traçavam os filetes da alva lonca ou o manufaturavam em obras.

- Vê? Na cidade como poderia viver com este mundo de povo?

O argumento calou no ânimo do vaqueano, que sobresteve pensativo, tirou uma palha do bolso, cortou-a, picou um pedaço da torcida de fumo, fez o cigarro, feriu a pederneira sobre a isca de pita, e fumou; e durante que passeava, soltando imensas baforadas ao lado do guasqueiro, já de volta ao serviço, seu espírito passava pelas crises de uma imensa elaboração. Pensava em proteger o operário inteligente, sem ofendê-lo. Preparou o cavalo e foi ajustar umas rédeas com ele, recebendo-as por módico preço.

Uma menina apresentou-lhe uma cuia de mate.

- Agradecido, minha filha, tenho pressa de chegar a São Gabriel, leve a seu pai esta bolsa, é o dinheiro da compra.

E cavalgou como uma seta pela estrada.

O ato traduz o homem.

Talvez fossem os únicos instantes de alegria, no correr de dias amargurados, que passava!

Teve que suportar, no entanto, um golpe terrível, meses depois deste fato.

O Brasil abriu a campanha contra seus vizinho do Sul.

Avençal estava longe, mas corre para deixar honrosamente nos campos de batalha uma vida que lhe pesava. já se havia empenhado a ação do Ituzaingo, e quando chegou foi para chorar a morte de Amaral, que ali acabara, trocando uma existência inútil pelo sangue de oito perros, como ele mesmo dissera antes de expirar.