O moço loiro/Epílogo

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O moço loiro por Joaquim Manuel de Macedo
Epílogo


Um mês depois da entrada de Lauro na casa de seus parentes, uma grande festa ia ser dada: Lauro e Honorina celebravam o seu casamento.

Afora Lucrécia, que tinha julgado a propósito passar alguns meses no campo, e Otávio, que acreditara útil fazer uma viagem à Europa, todos os outros nossos conhecidos deste romance preparavam-se para o belo sarau oferecido pelos noivos.

E o sarau tinha de ser esplêndido; Lauro de Mendonça, viúvo da filha de um rico negociante da Bahia, reduzira a dinheiro tudo quanto herdara de sua mulher, e, regressando ao Rio de Janeiro, depois de desfazer a calúnia que o manchava, tomou parte na casa de seu tio, e com seus imensos cabedais, levantou-a em brilhante pé. O sarau será, pois, digno de tão abastados senhores.

Hugo, Ema e Lúcia não tinham medidas para seu prazer.

Venâncio mandara (bem entendido, por ordem de Tomásia) fazer uma casaca nova. Manduca, apesar do logro que sofrera, exprimia-se com ardor a respeito de Lauro, pois que sua mana Rosa já se achava casada com Félix.

Brás-mimoso, sempre incorrigível, dispunha-se para estalar balas.

Raquel parecia ter cobrado o seu antigo prazer: fora ela quem apressara e marcara o dia do casamento; deu sua opinião sobre o vestido da noiva, de cujo lado só à força se separava.

Honorina ainda não se tinha acostumado a chamar seu futuro marido nem primo, nem Lauro; achava, dizia ela, graça indizível em chamá-lo moço loiro.

E o moço loiro continuava, como dantes, sempre bom e travesso, alegre e amoroso, apaixonado e extravagante. Sara e seu filho falavam dele com entusiasmo; Carlos mostrava-se sempre tão grato como devotado.



Ia-se volvendo a tarde do dia marcado para o casamento; eram horas de correr aos pés do altar, e de receber a bênção nupcial. Hugo chamava por sua filha.

Honorina, mais bela que nunca, ornada com suas galas, embelecida com seus naturais encantos; e ainda mais ornada e embelecida com essa interessante mistura de amor e pejo tão apreciável nas noivas, abaixou a cabeça para que Raquel lhe pusesse sua coroa de virgem, sua capela de flores de laranjeira.

— Estás pronta, Honorina, disse Raquel.

— Adeus, Raquel! balbuciou Honorina suspirando.

— Oh!... um beijo ainda!...

— Sim... seja teu o meu derradeiro beijo de moça solteira...

E as duas amigas estreitadas em mútuo abraço estavam a beijar-se mil vezes, quando uma lágrima caiu dos cílios de Raquel nos lábios de Honorina.

— Tu choras, Raquel?...

— E tu, Honorina?...

— Sim; mas eu... e tu também, choramos de prazer; não é assim?...

— Sim!... sim!... de muito prazer... adeus!... sê feliz!...

A noiva partiu.

Raquel foi à janela para vê-la embarcar-se na carruagem. Hugo deu a mão à sua filha.

— Sê feliz, Honorina!... sê feliz!... gritou Raquel da janela.

Honorina não respondeu... tinha muito pejo.

A carruagem desapareceu...

Raquel voltou-se e viu que se achava só na sala; deu alguns passos... soluçava... caiu de joelhos, e ergueu as mãos para o céu.

Um homem entrou pé por pé nesse momento, e ficou parado na porta por detrás da moça.

Raquel exclamou:

— Misericórdia!... meu Deus, misericórdia!... eu menti! eu pequei! mas estou arrependida; eu me desdigo, meu Deus!... não! não! amor não é uma vã mentira!... amor não é uma das muitas quimeras com que a fantasia nos entretém na vida, como a boneca que se dá à criança para conservá-la quieta no berço!... não!... eu o confesso... eu o experimento... amor é uma realidade!... realidade, meu Deus, terrível para mim!...

O homem, que estava observando Raquel, lançou-se então para ela, como levado da mais veemente das dores, e, abraçando-a, exclamou:

— Filha do meu coração!... pobre mártir!... Fujamos desta casa! vem... fujamos!...

Jorge tentava levar sua filha, que, forcejando para ficar, respondeu:

— Não! não! meu pai; aqui ao menos tenho eu um remédio contra meu padecer.

— Aqui?... e onde?...

— Na santa amizade de Honorina.

— Mas a sua felicidade faz o teu martírio...

— A sua felicidade é a consolação de minha alma.

— Queres, portanto, ser vítima de seu amor?...

— Outra vez não, meu pai; mas quero ser a mãe de seu primeiro filho.

Ouvindo tão nobre pensamento, Jorge levantou as mãos sobre a cabeça de Raquel e disse:

— Abençoada sejas tu, meu anjo de candura!...