O moço loiro/XL

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O moço loiro por Joaquim Manuel de Macedo
Capítulo XL: O moço loiro


Triunfante em toda a parte, contando cada hora por uma nova vitória, a causa do moço loiro perigava, todavia, corria sérios riscos de completamente perder-se no grande campo de guerra, onde cumpria vencer a batalha decisiva.

O aparecimento inesperado da cruz da família tinha mudado a face das discussões travadas na casa de Hugo de Mendonça; semelhante fato, que era ainda mais uma prova do amor e dedicação do moço loiro por Honorina, havia somente servido de forte argumento a favor de seu temível rival, do primo Lauro. Também aquele não devia ignorar que estava servindo de instrumento para a fortuna desse, por quem parece que fora enviado para demonstrar a sua inocência.

Com efeito, a família inteira de Hugo se empenhava agora com indizível força para obter o sim de Honorina a favor de seu primo. Ema, como querendo compensar seu neto das injustiças que lhe havia feito, era quem mais se extremava em oferecê-lo à bela neta, como o modelo dos noivos. A mãe Lúcia trabalhava no mesmo sentido, quanto podia: o único que se conservava no mesmo posto que dantes era Hugo, a quem apenas se ouvia dizer:

— Minha filha, consulta primeiro o teu coração; mas não te sacrifiques.

A crise terrível e assustadora que ameaçava Hugo, já também não espantava a velha Ema; feliz com sua fé, feliz com sua religiosa esperança, ela exclamava a miúdo:

— Não há mais desgraça possível para nós: a cruz da família apareceu; o nosso talismã vai salvar-nos.

Mas, entretanto, o moço loiro estava mais que nunca presente ao coração de Honorina: cada palavra, cada idéia, cada lembrança que ouvia lhe faziam recordar a imagem daquele que, oculto sempre a todos os olhos, desaparecendo, a despeito das suas indagações, aparecia, contudo, quando era preciso demonstrar o amor que tinha por ela; quando se fazia necessário prestar-lhe um pequeno ou grande serviço; quando, enfim, ela pedia ao céu um anjo que a salvasse de algum perigo.

Oh! um amor tão profundo, uma dedicação tão generosa era bela, nobre e santa como a beneficência, que de improviso se apresenta para o bem, e de improviso se esconde, fugindo dos agradecimentos.

E Honorina, ruminando seus dias passados, largando todos os panos à sua imaginação fértil e brilhante, viu de novo o seu querido moço loiro escoando-se pela sombra, ou adorando-a de joelhos ao clarão de cheio luar; ouviu-a ainda sua voz sonora; e, enfim, repetindo a si mesma os melancólicos pensamentos de seu livro de amor, e recordando-se a todo o instante do último serviço que acabava de prestar-lhe, e também generosamente a seu rival, revoltava-se contra esse pensamento frio e desabrido, contra esse esqueleto horrível, que como uma barreira a queria separar de seu romanesco amante... revoltava-se contra a idéia da miséria do pobre.

Desde o grito de surpresa que soltara, ouvindo Félix pronunciar o nome de moço loiro, Honorina se arrancara do estado de inércia em que se achava; e seu rosto, até então comprimido pela mais acerba tristeza, dilatou-se com não sei quê magnética e entusiástica alegria; brilhavam-lhe os olhos cheios de ardor e fogo; branda nuvem cor-de-rosa lhe assomava as faces; feiticeiro sorrir de confiada esperança brincava-lhe descuidadoso nos lábios; seu semblante exprimia valor e decisão; batia-lhe o coração rápido e forte; e seu pulso agitado e irregular faria crer que ela estava em uma hora de febre.

Apesar de sua avó, talvez mesmo que apesar de seu pai, a filha de Hugo de Mendonça dará a sentença a favor do moço loiro.

Honorina vai deixar falar seu coração; há nela todo esse encanto inexplicável, toda essa bravura feminil, que se adora em algumas nobres senhoras, que tem a alma ao pé dos lábios; em quem a sinceridade e a franqueza são sempre viçosas flores; senhoras verdadeiramente belas, que com seu caráter firme, independente e angélico, quando amam dizem sem temer — eu amo!

Hugo acabava de lembrar a questão que havia sido interrompida pela chegada de Félix; Honorina ergueu orgulhosa a cabeça... ia falar... mas nesse momento Jorge e Raquel apareciam na porta da sala.

As duas amigas correram a encontrar-se, e prenderam-se nos braços uma da outra.

— Minha boa Honorina! disse Raquel.

— Raquel!... Raquel!... eu precisava ver-te para te dizer que sou muito feliz!... respondeu em voz baixa Honorina.

Raquel recuou dois passos, e sentindo na sua mão a mão ardente da moça, e vendo no seu rosto o rubor e alegria anormal que o enfeitavam, tremeu, pensando que a sua amiga delirava.

— Tu feliz?!...

— Mais baixo: isto é só para nós duas.

— Porém, tu dizes que és feliz?...

— Oh!... muito, Raquel! vem, eu te vou dizer.

Honorina levou Raquel pela mão até uma janela, que abriu, e, recostando-se com a sua amiga sobre a grade, começou a referir-lhe em voz baixa quanto devia ao moço loiro; se Honorina não estivesse fora de seu natural estado, se sua mão não ardesse, teria certamente compreendido que sua relação fazia mal a Raquel, e que a mão desta se tornava fria como o gelo.

Havia um não sei quê de grande e solene no que se estava passando então na casa de Hugo de Mendonça.

Jorge, cedendo, sem dúvida, aos conselhos da amizade e às generosas inspirações de sua filha, vinha sondar o infortúnio de seu amigo, e oferecer-lhe a mão para arrancá-lo do abismo; por isso, tendo pedido a Hugo que lhe confiasse o estado de seus negócios, se retirou com ele para o gabinete, e aí examinavam ambos os papéis e livros pertencentes a casa.

Ema, sentada no canapé, conversava animada com Lúcia, que a ouvia de um lado, em pé, mostrando-se talvez alegre.

Honorina e Raquel estavam, como deixamos dito, praticando em voz baixa, recostadas à grade de uma janela.

A sala, apesar de longa e espaçosa, achava-se suficientemente iluminada; viam-se nas paredes, e ocupando cada um o seu lado da sala, quatro grandes retratos, o de Raul de Mendonça — avô — o de Raul de Mendonça e o de Clemência de Mendonça — pai e mãe de Lauro; e, finalmente, o de Clara de Mendonça — mãe de Honorina.

Aqueles retratos, nos quais refletiam os raios das luzes, pareciam animar-se, encher-se de vida, observando a maneira por que era tratada uma questão de vida ou de morte de sua antiga casa.

Pouco antes das onze horas, Lúcia dirigiu-se para a janela, onde conversavam Honorina e Raquel; as moças calaram-se imediatamente.

— As senhoras acabam de calar-se, vendo-me chegar, de modo que eu devo pensar que as importuno...

— Não, mãe Lúcia, não...

— Sim; e calaram-se porque pensam que conversavam em objeto que é, e deve continuar a ser um segredo para mim...

— Ora, mãe Lúcia...

— E, todavia, eu sei perfeitamente a respeito de que as senhoras estavam conversando...

— Sim... como era sobre coisas muito naturais...

— Por exemplo, sobre...

Lúcia abaixou a voz.

— Sobre o quê, mãe Lúcia?...

— Sobre o moço loiro.

— Ah!...

— Não grite assim, menina; do contrário não lhe contarei muitas coisas que estimará ouvir.

— E, então, o que é?...

— A história do moço loiro.

— Tu vês, Raquel, como ela está zombando de nós ambas?

— Não, Honorina, a Sr.ª Lúcia parece querer contar-te alguma coisa de interesse.

— Pois então...

— Querem ouvir-me?

— Certamente.

— Bem, senhoras; mas há de ser contado em voz baixa, em segredo, e só para as senhoras.

As duas moças fizeram com que Lúcia se chegasse para bem perto delas, e prestaram curiosa atenção ao que lhes ia ser referido.

A ama de Honorina começou:

— Lembra-se, Sr.ª D. Honorina, que, tratando-se da volta do Sr. Hugo de Mendonça e das senhoras para a corte, eu as preveni, aqui, e vim chegar três dias antes para preparar a casa, que as devia receber?...

— Lembro-me, sim.

— Pois no dia que seguiu ao da minha chegada, quando eu já fazia aprontar a bela casa de campo que tivemos em Niterói, eram oito para nove horas da noite, e um pajem me veio dizer que alguém esperava-me no jardim para falar-me em negócio de interesse; fui, e achei-me diante de um interessante moço de olhos ardentes e cabelos loiros...

— Era ele!... balbuciou Honorina sem poder suster-se.

— Era ele!... respondeu dentro do coração, Raquel.

— Perguntei-lhe quem era, continuou Lúcia rindo-se, e me não quis dizer seu nome; contou-me tão fielmente a história de meu querido Lauro de Mendonça, e disse-me com tal acento de verdade que vinha por ele enviado para provar sua inocência e descobrir o verdadeiro autor do furto da cruz de brilhantes, que eu não pude deixar de crê-lo, nem de prometer ajudá-lo no generoso empenho em que ia achar-se. Pediu-me depois que lhe dissesse que pessoas compunham a família do Sr. Hugo de Mendonça, e devendo eu responder-lhe, e chegando ao nome da Sr.ª D. Honorina, fiz com toda a verdade o elogio de suas virtudes, talento e beleza; e, posto que não dissesse tudo quanto podia, conheci que o pouco que havia dito tinha bastado para produzir curiosa impressão naquele jovem.

— Adiante, mãe Lúcia.

— O moço pediu-me uma nova conferência, e eu lhe marquei uma noite, à meia-noite em ponto, no jardim. A Sr.ª D. Raquel para visitá-la veio da corte no dia que precedeu a essa noite; à hora do nosso encontro, as senhoras estavam conversando na janela do seu quarto, e a nossa entrevista deveria ser debaixo dessa janela; se tive receio de ir, porém o moço lá esteve, e ouviu toda a conversação das senhoras; ao fazer um movimento... a janela de seu quarto se fechou, e então ele tirou um pedaço de papel de sua carteira, escreveu nele algumas palavras, mercê do clarão da lua, e, tendo dobrado o papel, trepou-se pela parede, e o deitou debaixo da vidraça da janela do seu quarto.

Quando o moço saltou no chão, eu estava junto dele, e lhe disse em tom sério:

— Que foi o senhor fazer?...

O moço respondeu-me com sua voz doce, e, rindo-se, maliciosamente:

— Fui pôr uma declaração de amor debaixo daquela vidraça.

— Como, senhor?...

— Senhora Lúcia, eu amo a D. Honorina.

— Mas o senhor atreve-se?... exclamei eu.

— Atrevo-me, respondeu-me sem hesitar; olhe: primeiro atrevi-me a olhá-la muito, e a admirá-la ainda mais, quando ela na tarde do dia 6 de agosto atravessou certo largo da cidade do Rio de Janeiro, montada em seu lindo cavalo branco, que ardido e insofrido se deixava, todavia, domar pela mão formosa da encantadora cavaleira; atrevi-me também ainda há pouco a ouvir suas doces palavras, seus generosos sentimentos; atrevo-me, enfim, a dizer que a amo; atrevo-me a jurar que o farei em toda a minha vida.

Finalmente, senhoras, esse moço é um pouco feiticeiro; teve a habilidade de convencer-me de que eu mesma devia ajudá-lo no seu amor; lembrei-me que era o defensor de meu pobre Lauro; confesso que deixei-me enfeitiçar por suas palavras, e sabe o que fiz?... prometi o que ele queria.

— Mãe Lúcia!...

— Portanto, eu sabia quem tinha posto o papel debaixo da vidraça; e fiz mais ainda: em todas as noites nós nos encontrávamos no jardim, e eu lhe dava parte de todos os passos da senhora.

— Oh! que traição!... disse Honorina querendo debalde mostrar-se enfadada.

— E assim, ele soube que a senhora ia receber um cabeleireiro na tarde que precedeu ao sarau; soube que a senhora voltava no fim dele; soube que a sempre-viva havia sido guardada; soube de seu belo pensamento, que exprimiu dizendo: foi um sopro de Deus; soube que se daria um passeio no mar; soube tudo.

— E pela minha parte eu sabia, que um falso cabeleireiro teria de roubar-lhe um anel de madeixas; que a senhora teria de encontrar um jovem desconhecido no sarau; que um falso bateleiro a traria a Niterói; e que um mentiroso velho pescador iria escutar o seu canto na noite do passeio do mar.

— E que mais?

— Sabendo, também por mim, do infortúnio de seu pai, ele, que, segundo há muito dizia, desejava fazer experiências sobre o seu coração, aproveitou o ensejo: mandou-lhe um célebre livro da alma, em cuja composição se entretinha desde alguns dias, já de plano, e no qual chorava, lastimava-se, e... perdoe-me a expressão, e mentia.

— Pois ele mente? perguntou com ingenuidade Honorina.

— Mente muito às moças.

— Meu Deus! isso é tão feio!...

— Por exemplo, diz ele no seu livro que a amou só por tê-la ouvido.

— E então?...

— Antes de ouvi-la já a tinha visto uma vez a cavalo na tarde de 6 de agosto, e no dia seguinte também de tarde, à borda do mar. Também chora muito a pobreza...

— Pois não é pobre?...

— Ao contrário, é rico.

— Mas para que assim zombar de mim?

— Já não disse que ele queria fazer experiências sobre o seu coração? e era eu encarregada de observá-la; felizmente as conseqüências da leitura do livro da alma do moço loiro provaram cada vez mais a reconhecida nobreza de seu caráter.

— E depois, mãe Lúcia?...

— Depois ele descobriu a cruz da família; e, ao mesmo tempo que trabalhava por fora a favor de Lauro e da senhora, eu velava em prol das mesmas pessoas cá dentro: ambos nós desconfiávamos da amizade que lhe mostrava a Sr.ª D. Lucrécia.

— É possível, mãe Lúcia?... pois não era eu só?...

— Quando esta manhã ela veio e com a senhora conversou muito tempo no seu quarto, eu a escutava cuidadosa; ouvi a traidora proposição de fuga para um convento... era uma cilada, senhora, ou pelo menos um conselho indigno!...

— Oh!... mas eu o rejeitei!

— Sim; e o moço loiro soube tudo.

— Meu Deus!... obrigada, mãe Lúcia.

— A Sr.ª D. Lucrécia recebeu às duas horas da tarde um bilhete, no qual estava escrita esta simples palavra — sim.

— Mas... esse foi o sinal dado por ela...

— Eu o sabia, senhora.

— E portanto...

— O moço loiro quis vingar-se dela no seu próprio crime, porque era um crime, era uma traição, o que a D. Lucrécia tentava!... a estas horas a senhora deveria estar perdida... longe da casa de seus pais, e desacreditada na opinião pública.

— Oh!

— Na tarde de hoje uma carta da Sr.ª D. Lucrécia lhe avisara de que tudo estava pronto, e que às dez horas da noite fosse, como ficara convencionado, embarcar-se na sege, aconselhando-lhe, enfim, que tratasse de prevenir-se de uma máscara.

— E o que sucedeu?...

— Às dez horas da noite, senhora, a sege se achava parada no lugar determinado; uma mulher entrou para ela...

— E depois?

— Um homem vestido de mulher foi sentar-se a seu lado: a sege partiu; e essa mulher, que ia junto de um homem, pensava que tinha em suas redes a filha do Sr. Hugo de Mendonça.

— Meu Deus!

Nesse momento bateram na escada, e pouco depois um pajem entrou e disse:

— A Sr.ª D. Lucrécia manda pedir notícias da Sr.ª D. Honorina, e informar-se de sua saúde.

— E então, senhora?... perguntou Lúcia.

Honorina tornou-se rubra de despeito:

— Segue-se, disse ela, que D. Lucrécia mandou espiar-me por um de seus escravos!

Depois voltou-se para o escravo, que trouxera o recado, e disse:

— Faz entrar o pajem da Sr.ª D. Lucrécia.

O pajem entrou.

— Diz à tua senhora que me viste, pronunciou com voz animada Honorina; e que eu lhe mando dizer que passo bem... perfeitamente bem, principalmente desde as dez horas da noite.

O pajem retirou-se, e Honorina, dirigindo-se de novo a Lúcia, disse:

— Agora, mãe Lúcia, continua.

— Nada tenho a acrescentar, senhora: disse tudo o que sabia, respondeu Lúcia dobrando-se sobre a grade, a que se recostara, e olhando curiosa para a rua.

— Não, mãe Lúcia, falta dizer-nos o melhor; e depois, eu notarei uma grande contradição no teu procedimento.

— Eu estou pronta, senhora, para responder.

— Pois bem: como se chama o moço loiro?...

— Oh!... a isso nada posso dizer.

— Ignoras o seu nome?...

— Ao contrário.

— Então por que o não dizes?...

— Porque ele me proibiu fazê-lo.

— Mãe Lúcia!...

— Outra coisa, senhora.

— Está bom, paciência, tornou a moça; vamos à contradição: como é, mãe Lúcia, que tão enfeitiçada estando por esse moço que tantas traições me andas fazendo por causa dele, tanto te empenhas agora por me ver casada com meu primo?...

— É uma outra coisa que eu não posso explicar.

— Então não explicas nada...

— Um outro explicará por mim...

Ouviu-se, então, passos de alguém que vinha subindo a escada; e pouco depois soaram palmas.

— Uma visita a estas horas! disse Ema.

— Quem será?... perguntou Honorina.

— Talvez D. Lucrécia, disse Raquel.

— Ora... não!... respondeu rindo-se Lúcia.

Um pajem entrou e, dirigindo-se ao gabinete, onde estavam Hugo e Jorge, parou na porta, e disse:

— Um moço, que se diz novo administrador da casa de meu senhor, pede para vir entregar as letras, que teve ordem de ir pagar ao Sr. Otávio.

— Isso é um sonho ou uma zombaria!... exclamou Hugo levantando-se.

— Seja quem for, manda-o entrar, disse Jorge.

— Eu não tenho novo administrador, tornou Hugo.

— Embora... vejamos quem é.

— Que entre pois.

Todos na sala ficaram suspensos e curiosos com os olhos fitos na porta de entrada; Hugo e Jorge em pé na porta do gabinete; Ema sentada no sofá; Honorina, Raquel e Lúcia na janela; todos estáticos nos mesmos lugares em que antes estavam.

E ele entrou... era um elegante mancebo vestido todo de preto, com uma bela gravata branca primorosamente atada... com um rico alfinete de esmeralda ao peito; era um jovem interessante, de olhos ardentes e cabelos loiros... era ele.

Tinha tremendo avançado... chegou ao meio da sala, quando da boca de Honorina e de Raquel saíram as mesmas palavras, posto que em tom baixo:

— O moço loiro!...

E Hugo de Mendonça e Ema surpreendidos bradaram:

— Lauro!...

O mancebo, sem pronunciar palavra, avançou comovido, mas resoluto, até parar defronte de um dos quatro retratos; era o de Clemência; então ele ajoelhou-se, levantou as mãos, e com voz entrecortada por soluço, exclamou:

— Minha mãe!... minha mãe!... minha mãe!... já tenho o rosto descoberto!... já provei minha inocência!...

E ficou assim de joelhos e com as mãos erguidas para o retrato de sua mãe, chorando docemente muito tempo... muito tempo...

E quando, enfim, pensou que se podia sorrir, voltou os olhos, e estendeu a mão para Honorina.