O moço loiro/XII

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O moço loiro por Joaquim Manuel de Macedo
Capítulo XII: Começa o sarau


Uma bela ouverture foi o sinal do começo do sarau. Logo depois dançou-se a primeira quadrilha. A prova de que Honorina recebia as honras da noite é que todos os olhos estavam fitos nela, como querendo beber seus movimentos.

Não se diga, nem se pense, que loucura é querer concluir da graça de uma bela jovem dos vaivéns que simplesmente fazem as moças, quando contradançam. É inegável, que nos mais brilhantes saraus, a dança não passa, quanto aos homens, de meia dúzia de arrasta-pés acompanhados de outras tantas cortesias, e quanto às moças, de igual número de interessantes deslizamentos; porém, quando uma senhora tem em si isso, que se não pode explicar, mas que por demais se sente no coração, isso que alguns têm chamado graça, mas que não se diz tudo, dizendo-se somente graças; porque graça não define essa bela reunião de uma boca, donde saem palavras que nos fazem sempre sorrir de gosto e que nos ficam de cor; de olhos, cujas vistas nos obrigam a hesitar e estremecer e que penetram até o âmago de nossos corações; de um mimoso andar, que nos faz embeber os olhos nos vestígios das pisadas que deixou, para procurarmos ver alguma coisa que não vemos, mas que devera ter ficado ali; do mimoso andar de um corpo, que deixa na coluna de ar que cortou alguma doce... encantadora... inefável exalação de si próprio, como a rosa impregna de seus eflúvios a branda aragem que lhe varreu a face... isto tudo, e muito mais ainda, que nenhuma boca pode dizer, que nenhuma pena pode explicar, não é somente graça... é antes um sopro saído dos lábios de Deus, que cerca de uma atmosfera mágico-celestina a criatura feliz: não é somente graça; ou então é a graça de Deus.

Pois este dom sagrado, que nenhum homem tem, que pertence exclusivamente a algumas senhoras, pode-se apreciar e de fato se aprecia nas próprias contradanças francesas, apesar de toda a sua monotonia e desagradável simplicidade. E Honorina o tinha!... e eles, pois, a viram andando... (porque dizer dançando, além de uma mentira, seria fazer um insulto ao bom gosto da época), e eles, pois, a viram andando... não... deslizando-se doce e imperceptivelmente, como um leve batel, a quem o sopro do brando zéfiro faz lamber a superfície de um lago sossegado!... e ainda mais: para o encanto ser completo, Honorina, de momento a momento, tornava-se dobradamente interessante. Com efeito, Honorina havia entrado na sala mais pálida do que era; trêmula, receosa, com os olhos baixos, e toda cheia desse acanhamento que acobarda a jovem campesina, que, pela primeira vez aparece em uma assembléia da corte, cônscia de sua ignorância, dos usos do belo tom, ela temia que em cada simples vista de seus olhos houvesse um erro, em cada palavra sua um crime de leso-bom gosto; por isso ela tinha os olhos no colo, e respondia apenas por monossílabos; porém, sua organização eminentemente nervosa lhe devia dar a vitória sobre si mesma. Desde que a música rompeu, o milagre foi operado.

Ouvindo as primeiras harmonias dessa feiticeira inspiração de Auber, o Domino-noir (que foi exatamente a ouverture, com que se deu princípio ao sarau), Honorina sentiu um choque inexplicável... depois... sempre... até o fim se foi ela animando... seu coração pulsando com mais força... sua alma pareceu inflamar-se... seu rosto ergueu-se e ela começou a viver para o mundo onde estava.

Enfim, todo esse movimento, todo esse ruído de um sarau, o calor que fazia, a agitação das contradanças, cuja alegre música podia tanto nela, acenderam ainda mais o fogo que a salvara de seu acanhamento; já tinha as faces levemente coradas... seu peito arfava... ela começava a gostar de tudo o que via... seu cavalheiro já lhe havia jurado que ela era encantadora... Honorina já se tinha sorrido para Raquel... estava alegre, estava feliz; e sua alegria a tornava mais bela que nunca.

Mas o centro, o alvo das atenções dos homens deveria ser o dos ciúmes, pelo menos da maior parte das senhoras. Lucrécia vivamente se incomodava com os obséquios que a via receber; e tanto mais que Lucrécia era realmente bela, e dobradamente orgulhosa. Flor das sociedades, não cedendo até então a primazia a nenhuma, Lucrécia queria todos os homens a seus pés; e nessa noite Honorina lhe conquistou a maior parte dos seus adoradores.

Além disso, um episódio tinha ocorrido, que convém não deixar passar desapercebidamente. Otávio havia chegado pouco antes de Honorina, e se esquecera de ir logo aos pés da bela viúva; quando a filha de Hugo de Mendonça entrou e se sentou junto de Lucrécia, Otávio correra e obtivera daquela a sexta quadrilha, e só depois foi que se dirigiu à sua bela amada, pedindo-lhe exatamente uma contradança que ela acabava de conceder a outro cavalheiro.

Ora, Lucrécia sabia bastante dos segredos dos saraus, que muitas vezes, quando um jovem não quer nem dançar, nem ofender o amor-próprio da senhora a quem um dever qualquer o obriga a dirigir-se, manda um amigo seu convidá-la para certa quadrilha, e depois vai ter com ela e pede para si essa mesma quadrilha, que, incauta já deu a outro.

Esta idéia, a lembrança desse estratagema tantas vezes posto em uso, feriu cruelmente o orgulho da viúva; portanto, Otávio levantava acima dela essa menina, que apenas acabava de aparecer!... isso era uma dessas ofensas que as senhoras jamais perdoam; e, entre as senhoras, o amante que se esqueceu de uma delas, comete um crime enorme, que se faz expiar, não ao desleal que o cometeu, mas à rival, ainda inocente, que o causou. E, pois, Lucrécia, que se sorria, que tinha doçura angélica em seus belos olhos azuis, tinha ao mesmo tempo o despeito e o amargor no coração.

No gabinete onde estava a música, e em que se achava também o piano, apareceu uma moça para cantar, e começou a deixar ouvir os belos acordes de sua doce voz; uma coluna de moços tomava a porta do gabinete.

— Parabéns! disse um àquele que conduzira a moça ao piano, parabéns ao condutor de Euterpe!...

— Que se há de fazer?... respondeu ele, eu cá tolero que se cante, quando não há mais nada que fazer; porém agora, que podemos dançar e conversar com as moças, é mesmo horrível roubar-se-nos meia hora desse prazer para se ouvir aquela senhora!...

— O que é aquilo que ela está cantando?...

— Eu não sei... parece-me inglês; mas deve ser uma ária italiana: — bravo, minha senhora!...

— E que bico faz ela: bravíssimo!...

— Como desafina: bonito! bravo!...

Os dois senhores continuavam a falar desapiedadamente em voz baixa contra a moça que lhes fazia a honra de se deixar ouvir, ao mesmo tempo que em voz alta aplaudiam; mas... é preciso passar isto por alto, porque há tantos homens que se podem julgar retratados nestes dois Midas, que é bom não entender com eles.

A moça concluiu a sua ária no meio de bravos e palmas, e foi conduzida à sua cadeira pelo mesmo cavalheiro que dela criticara em voz baixa.

— Parabéns, minha senhora, dizia ele à moça; cantou mais que brilhantemente!... que harmonia, e que execução!... seria perdoável perguntar a V. Ex.ª se não podia repetir a mesma peça esta noite?...

— Oh!... a mesma não, respondeu a moça; eu cantarei outras, que são igualmente bonitas.

— E quantas serão, minha senhora?...

— Talvez... ainda três...

— Meu Deus!... por que não serão antes seis!...

Mas um sinal da orquestra pôs fim às lisonjas e zombarias de que estava sendo vítima a inocente senhora; era o sinal brilhante e vivo da valsa.

A valsa! sim, a valsa é com toda a razão o delírio das moças e o belo ideal dos moços em um sarau. Acusem-na muito embora os senhores Esculápios (que aqui para nós, nada há com que se não intrometam) como causa de enfermidades sem-número; amaldiçoem-na muito embora como origem de mil pleurites, hepatites e tudo mais que na sua benta língua acabar em "ites", se é assim... melhor para eles.

A valsa é o delírio das moças; porque na valsa é que elas experimentam esses movimentos rápidos, acelerados, consecutivos, que tanto amam por sua organização, e que, marcados por uma música forte, alegre, impulsiva, produzem nelas choques nervosos e abaladores. É na valsa que seus olhos mais brilham, e que mais vivo fogo se acende em suas faces; é na valsa, enfim, que elas se assemelham com os anjos, voando pelos ares, e tendo só de humanos... o receio de uma queda.

E a valsa é o belo ideal dos mancebos; porque é nela que eles cingem a delicada cintura de uma moça! nas contradanças, o apaixonado prefere dançar defronte da sua bela; na valsa, pelo contrário, é com ela mesma que ele dança... com o rosto perto do dela... sentindo o fogo ardente de seus olhos fitos nele... sentindo o delicioso bafo que escapa suspiroso dos lábios dela para refletir nos seus; sentindo a palpitação de seu coração... o toque de sua mão... bebendo o sorriso de seus lábios, e amparando o doce peso de seu corpo, que desleixadamente se abandona nos braços que a cingem!...

A valsa acabou enfim. E passeava-se.

Quem poderá ouvir tudo quanto se diz em um passeio de sarau! seria sua relação um romance tão variado como completo... seria talvez mil romances; porém, desgraçadamente, o que aí se conversa de mais interessante é feito tão em segredo e por entre tantos sorrisos, que mal se pode entender. É melhor, pois, não dizer nada, para não cair no erro de dizer o que menos interessa.

Mas Lucrécia tinha sido convidada, para passear, por Otávio; era como uma satisfação que lhe dava o moço; ela aceitou-lhe o braço. Havia algum acanhamento entre ambos, por isso durante a primeira volta pela sala nenhum dos dois disse palavra; depois eles se dirigiram para o terraço; ao passar pela sala dos refrescos Otávio viu um amigo seu, que passeava só.

— Oh!... Leopoldo! tão solitário...

— Que queres? não encontrei senhora que quisesse aceitar a oferta do meu braço.

— Olha... dirige-te àquela... vai sem cavalheiro.

E Otávio mostra-lhe uma senhora, que deveria contar seus bons setenta janeiros.

— Misericórdia! exclamou Leopoldo; antes só, do que mal acompanhado.

— Mas, segundo o teu sistema, a melhor maneira de chegar até junto das moças é agradar às velhas.

— Sim, sim; porém, aquela é uma velha sem fiadores.

Neste momento Otávio e Lucrécia entravam no terrado.

— Que quer dizer uma velha sem fiadores?... perguntou Lucrécia.

— Quer dizer, respondeu Otávio, uma senhora adiantada em anos, que não tem filhas, nem sobrinhas, nem agregadas moças.

— E por conseqüência uma senhora, com quem os senhores julgam todos os momentos perdidos; Sr. Otávio, V. S.ª tem mãe?...

— Minha senhora, eu não penso como o meu amigo.

— Oh!... mas o que se pratica... o que tenho ouvido... o que acabei de ouvir, enfim me convence de que se eu nunca tiver filhas, não devo freqüentar sociedade alguma, logo que me sentir envelhecer.

— Mas, minha senhora, com o espírito de V. Ex.ª não é possível envelhecer...

— Obrigada... obrigada!... eu gosto muito de parecer espirituosa; mas V. S.ª o sabe, as senhoras gostam ainda mais de parecer outra coisa.

— Eu acreditei, respondeu Otávio, que devia mostrar-me simplesmente tocado do espírito de V. Ex.ª, pois que para o completo elogio de sua beleza é mais que suficiente um espelho.

— Acha-me, portanto, bonita?...

— Preciso repeti-lo ainda?...

— Agradável?...

— Muito.

— Espirituosa?

— O mais que é possível.

— Meu Deus!... isto é quase uma declaração.

— Que não seria mais do que a repetição do que já me tem ouvido.

— Estou a ponto de crer que me ama.

— Eu pensava que já não havia dúvida a esse respeito.

— E, no entanto, o senhor nem ao menos dançará comigo!

— Minha senhora... eu cheguei tarde aos pés de V. Ex.ª

— Nem uma quadrilha... nem uma valsa... nada!

— Eu estava dizendo que cheguei tarde aos pés...

— Oh! é porque talvez, quando quis chegar até a mim, alguma bela aparição o fez parar... sentir... e desejar...

— Minha senhora...

— Primeiro dirigiu-se a uma moça que se sentava ao meu lado; obteve, sem dúvida, o que queria; e depois, quando ouviu que eu acabava de conceder a um seu amigo a terceira quadrilha, V. S.ª chega-se então a mim; e o que me pede?... a terceira quadrilha...

— Então V. Ex.ª chegou a persuadir-se...

— Tenho a certeza de que o Sr. Otávio não se lembrou de mim neste sarau.

— É uma injustiça, minha senhora, que eu podia voltar também contra V. Ex.ª

— Como?...

— Dizendo outro tanto de V. Ex.ª

— Por quê?...

— Porque sabendo que eu vinha a este sarau, porque vendo-me na sala, não me quis guardar uma quadrilha.

— Oh!... mas V. Ex.ª podia ter-me castigado com mais generosidade...

— Pois receba o castigo, senhor: eu guardei-lhe uma quadrilha.

— E qual?... e qual?... minha senhora!

— O senhor a deseja?

— Peço-a de joelhos!... diga-me o número!...

— A sexta...

— A sexta quadrilha...

— Eu não sei a que atribua o movimento que faz: para atribuí-lo a prazer... seria amor-próprio demais.

— É que a sexta quadrilha... eu... me havia comprometido...

— Eu aprecio a sua urbanidade; porém, é tão fácil fingir-se um engano... e depois com uma polida satisfação... ora, os senhores homens sabem às mil maravilhas como se faz isto.

— Se fosse possível ser uma outra qualquer...

— Senhor, eu poderia neste momento lembrar-me de ter ciúmes, se não devesse só recordar-me que já desci bastante de minha posição, guardando-lhe uma quadrilha!...

— Eu reconheço o obséquio que devo a V. Ex.ª

— E então?...

— Em todo o caso aproveitar-me-ei dele... não era possível que de outra forma procedesse.

— Por civilidade, não é assim?...

— Oh!... não: por um sentimento bem terno.

Alguns minutos depois Lucrécia estava outra vez sentada junto de Honorina.

— Então, minha bela menina, disse ela, como acha o sarau?... tem sido feliz nele?...

— Sim... sim, minha senhora; tenho passado uma noite bem esquecida de mim mesma...

— É uma compensação, porque acredito que muita gente só se tem ocupado em admirá-la.

— Minha senhora... eu não posso merecer...

— Ora... ora... aposto eu que tem dançado todas as quadrilhas, que não tem perdido uma só valsa?...

— É verdade; mas creio que também a senhora...

— Não... deixei de dançar a segunda quadrilha; estes homens!... acreditará que estes mesmos senhores, que tantas lisonjas nos dizem, que tantos elogios nos fazem, se aproveitam de tudo para atormentar-nos?...

— Mas a senhora parece ofendida.

— Não, eu os desprezo; porém, quero preveni-la: sabe como aqui se fere o amor-próprio de uma mulher?...

— Não, minha senhora; eu nunca freqüentei saraus.

— Pois bem: o homem que quer demonstrar a uma senhora, que aquela que ele ama é superior a ela, convida-a para certa quadrilha, e quando chega esta, deixa a senhora ficar sentada, e vai dançar com a que ama!

— Isso quando feito de propósito deve julgar-se um insulto!

— Pois eles o fazem!...

Lucrécia pôs fim à sua conversação aí: tinha aguçado um punhal, que deveria ferir o amor-próprio de Honorina no momento de se dançar a sexta quadrilha.