O moço loiro/XIII

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O moço loiro por Joaquim Manuel de Macedo
Capítulo XIII: O chá


O chá começou a servir-se às dez horas e meia da noite: a hora do chá é nos saraus a hora das satisfações, dos longos cumprimentos, e de certos prazeres que lhe são muito peculiares. Compreender e ouvir para relatar tudo o que então se passa e se diz, seria operar o milagre que não esteve no alcance dos arquitetos e operários da torre de Babel. É certo que ali não se grita, nem se amotina ninguém; mas há em compensação mais de cinqüenta homens que conversam, e outras tantas senhoras que falam todas ao mesmo tempo... e tanto basta.

Brás-mimoso tirava então o seu ventre da miséria; no meio de meia dúzia de moças, nenhuma das quais tinha mais de vinte anos, ele, que tinha embora escondidos cabelos de avô de todas elas, se apresentava com cara e pretensões de priminho de qualquer das seis.

É preciso fazer sentir, antes de ir por diante, o erro em que estão certos sujeitos que, supondo enganar o mundo, enganando a natureza, não enganam senão a si próprios. Para todas as idades, como para todas as condições, há um quadro com duas faces; uma oferece o belo, e a outra o feio, que lhe deve caber. Na boa face de seu quadro tem o velho os respeitos, as considerações, as honras, que todo o mundo bem-educado lhe deve e lhe vota; e o velho, que se quer fazer passar por moço e gamenho, perde o belo de seu quadro e fica com o feio em ambas as faces dele. Pois Brás-mimoso não se dava com isso: espartilhado, todo no rigor do tom, com sua bela cabeleira de cabelos pretos; gamenho com rugas na face, engraçado sem sainete, vaidoso sem mesmo saber de quê, perseguia as moças como... como... tantos outros.

Ele investiu para aquela interessante meia dúzia de tentaçõezinhas com seis balas de estalo nas mãos; era o seu mar de rosas!... no entender de Brás-mimoso, a invenção das balas de estalo era o último apuro do engenho humano.

As moças, assim que o viram, começaram para logo a beliscar-se e a trocar segredos e meias risadinhas. Ora, essa espécie de cabala, nelas é sempre denunciada por um risozinho engraçado, do qual todo o homem, que conta em si uma oitava de juízo, tem mais medo do que da mais estrepitosa trovoada; porém, Brás-mimoso não se dava muito com aquilo; também parece que a natureza, quando tivera de assoprar juízo na cabeça do jovem qüinquagenário, se achava com veia para a homeopatia.

Pobre do meu Brás-mimoso! ei-lo com elas! um velho namorado no meio de seis gênios de graças e travessuras.

— Senhora D. Adelaide, disse Brás-mimoso, venho rogar-lhe que estale uma bala comigo... oh! será um estalo misterioso!...

— Pois não, Sr. Brás, de todo o coração...

A menina pegou na bala com a ponta dos dedos... puxaram, puxaram e o papel rompeu-se sem estalar.

— Chocha!... exclamaram as moças rindo às gargalhadas.

Ora, uma bala de estalo que sai chocha, é uma coisa horrível para o gamenho; Brás-mimoso ficou espantado, como se nunca dantes lhe houvera sucedido tal, a ele o non plus ultra estala balas!

— Uma outra, minha senhora...

— Nada... respondeu a moça; a primeira saiu chocha, não quero mais.

— Então Sr.ª D. Emília...

— Vamos... eu gosto muito de estalar balas com o senhor... bem, puxe!

— Chocha!... exclamaram de novo as seis caçoístas...

— É que eu não compreendo isto! disse Brás-mimoso, só se as senhoras não seguram na bala, como manda a arte...

— Não senhor, não senhor... nós puxamos direito; é porque o senhor não nos estima...

— Oh! minhas senhoras...

— Puxe comigo, Sr. Brás, disse a terceira moça.

— Prontamente, Sr.ª D. Camila.

— Olhe... eu pego bem junto da bala... puxe!

— Chocha!...

— Ora, vocês estão mangando com o Sr. Brás, disse a quarta moça; querem ver como estala?... vamos comigo, Sr. Brás.

Brás-mimoso, pálido e desfigurado estendeu a mão a D. Rosaura... era a quarta bala que pretendia estalar... puxou...

— Chocha! gritaram pela quarta vez as moças.

Brás-mimoso estava mesmo a ponto de chorar de vergonha; parecia-lhe que toda a sociedade tinha os olhos fitos sobre ele... e ele desmentia o conceito que tanto se gabava de merecer!

— Puxe comigo, Sr. Brás, disse D. Leocádia, puxe...

— Ei-la aí, murmurou o pobre do homem quase gemendo.

— Chocha!...

Aquele grito — chocha — soava terrivelmente aos ouvidos do presumido velho, como poderia aparecer ainda nas assembléias, ele, o gamenho por excelência, se em seus dedos haviam consecutivamente falhado cinco balas?! Brás-mimoso estava ouvindo a cada passo esse grito fatal, grito de maldição — chocha!... Foi trêmulo e fora de si, que automaticamente estendeu a última bala à sexta senhora.

D. Felícia teve piedade dele.

— Oh!... exclamou Brás-mimoso, ouvindo o estalo, que trovão argentino!...

As moças desataram-se a rir; com as risadas caiu o ramo de cravos a Felícia; Brás-mimoso imediatamente o apanhou, e, beijando-o, lho entregou; mas quase ao mesmo tempo escapou o leque da mão de Rosaura; o infeliz homem quando o levantou, abaixou-se de novo para dar a Leocádia o lenço que lhe caíra; porém no mesmo momento tombaram os leques de Adelaide e Emília, e Brás-mimoso, que os ergueu, viu que de novo caíra o pendão de cravos de Felícia, e, ao apanhá-lo, esteve a ponto de pisar nas luvas de Camila.

Finalmente, apiedadas do infeliz homem, as moças puseram termo a seu martírio, e para consolá-lo cada uma lhe deu uma flor, e lhe disse, sorrindo docemente, o competente significado.

Brás-mimoso, suando por todos os poros de seu corpo, recebeu as flores com entusiasmo e, orgulhoso, atravessou a sala com elas no peito.

— Ande lá, Sr. Brás, disse um moço, ao vê-lo passar, o senhor é o querido das moças; mas trabalha!...

— Meu amigo, respondeu seriamente Brás-mimoso, sem trabalho não se conquista!

E saiu da sala para concertar-se; porque, graças às muitas vezes que se havia curvado para apanhar os objetos caídos, tinha ficado sem dois botões de sua esticada calça.

No entanto, Honorina e Raquel, alguns momentos depois de haverem tomado chá, tinham-se levantado e passeavam juntas. Apenas deixaram suas cadeiras, um elegante jovem correu para elas:

— V. Ex.as, perguntou ele, estimariam honrar o braço de um cavalheiro?...

— Oh! foi Raquel quem respondeu, nós nos levantamos para conversar juntas e em liberdade; mas, se V. S.ª se interessa por passear conosco, nós teremos prazer em agradar-lhe...

— Minha senhora... grande seria para mim a honra; mas o interesse de meu coração deve ser sacrificado aos desejos de V. Ex.as... eu as deixo em liberdade.

— Este moço é muito civil, disse Honorina continuando a passear com sua amiga.

— Sim, Honorina, contam-se poucos homens que, como ele, deixem de ser importunos.

— Certamente; tenho notado em todos uma urbanidade tão estudada, cumprimentos tão exagerados, palavras tão escolhidas, comparações tão multiplicadas, que...

— Que parece que já as trazem de casa, não é assim?... pois até aí nada há de novo; alguns são ainda suportáveis pela variedade de suas cortesias; mas uma grande parte, Honorina, diz-nos hoje, o que nos está a dizer há cinco ou seis saraus passados; diz-me agora o mesmo, o que já te disse e o que já havia dito as todas as moças com quem tem conversado durante a noite. São cortesãos a machado... belas casacas de fidalgo, cobrindo corpos de rústicos aldeões...

— Raquel, tu falas tão alto...

— Ora, Honorina, e quem manda a essas gralhas virem aqui mostrar-se com presunção de pavões?... é que se faz preciso rirmo-nos muito deles, porque eles pensam que zombam sempre de nós; zombemos, pois, também... zombemos muito. Olha, Honorina, uma boa parte desses senhores, que tanto nos cercam e nos cortejam, são tão tolos como presumidos, e alguns há ainda tão presumidos como insolentes!

— Mas tu és terrível, Raquel!

— É porque tu não os conheces como eu, Honorina. Tu não sabes o que é um jovem presumido. Por exemplo, dize: quantos hoje te hão asseverado que és encantadora!... anda... não cores assim... estás falando comigo: quantos?...

— Todos com quem dancei, Raquel.

— Pois bem, Honorina, eles falaram por acaso a verdade; mas queres tu apostar que quaisquer desses senhores vai dizer que és feia?...

Apesar de toda a sua simplicidade, Honorina não gostou da palavra feia; ela era mulher.

— Então, queres ou não?... repetiu Raquel.

— À minha vista, Raquel?... perguntou Honorina.

— Ora... à tua vista juraria de novo que és um anjo, o mesmo que tivesse dito que és feia.

— Mas poderei eu ouvi-lo?...

— Sim... é possível.

— Pois aceito.

— Bem... oh! a propósito... ali vai uma amiga minha, que nos pode servir: vem cá, Úrsula...

— Adeus, Raquel!... mas deixa-me, eu vou à toilette...

— Não precisas: estás tão bela como entraste, ou mais ainda...

— Obrigada, meu senhor! quer saber onde eu moro?... perguntou Úrsula gracejando.

— Deixa-te de graças, Úrsula; temos negócio sério; primeiro que tudo apresento-te esta senhora, que é minha amiga do coração.

Úrsula deu um beijo em Honorina, e voltando-se para Raquel:

— E depois?... perguntou.

— Ouve: Honorina é nova em nossas assembléias; acha por isso exagerado o quadro que lhe eu tracei dos nossos jovens cavalheiros...

— Oh!... são anjos todos eles, minha senhora!

— Pois, para dar-lhe uma fraca prova do que disse, eu propus fazê-la ouvir ser chamada feia por algum, ou alguns dos que durante a noite lhe juraram que ela era encantadora.

— Pois a senhora duvida disso?...

— Não; mas sempre quisera ouvir.

— Nada é mais fácil; mostre-me alguns desses senhores...

— Aqueles dois que ali conversam...

— Oh! por minha vida! exclamou Úrsula; são meus apaixonados!... mas... separemo-nos... e por enquanto, minha senhora, sou a sua maior inimiga!... Raquel, toma cuidado no meu lenço, ouviste?

— Vai... e apressa-te.

Cinco minutos depois a espertinha D. Úrsula, que se achava no vão de uma janela com outra moça, cercadas por alguns cavalheiros, fez com seu lencinho branco um sinal a Raquel.

— Agora, vem cá, disse Raquel a Honorina.

E, dando uma volta para não serem vistas, as duas moças espremeram-se na janela contígua àquela em que estava Úrsula.

A discussão já tinha começado. Os dois moços, que Honorina havia mostrado, estavam lá.

— Mas eu digo, falava Úrsula, que ela deve estar bem orgulhosa! tem sido tão incensada... tão requestada... eu não sei mesmo por quê...

— Porque é uma novidade...

— Tem dançado por empenhos!...

— Ora, minha senhora, também isso é exageração...

— O Sr. Daniel e o Sr. Jônatas, por exemplo, morriam de paixão se não tivessem dançado com ela!...

Os dois rapazes começaram a dar satisfações, e tentaram livrar-se da moça, jogando a arma feliz, com que quase sempre se faz as pazes com uma senhora... fazendo-lhe elogios.

— Em todo o caso, D. Querubina, continuou Úrsula falando com a moça que lhe estava ao pé, nós devemos estar descontentes, e mesmo despeitadas; aquela senhora foi uma aparição terrível, que nos veio fazer mal... nós nos temos achado sós toda a noite!...

— Que injustiça! bradou Jônatas, eu não me lembro de haver jamais perseguido tanto V. Ex.ª como hoje!...

— Eles fizeram uma comparação entre nós e ela, e a declararam princesa; concedendo-nos, talvez por compaixão, o grau de suas vassalas!...

— Meu Deus!... meu Deus!... como se julga mal de um pobre homem!...

— Paciência, D. Querubina, paciência!... é preciso ceder a palma à beleza do dia... o nosso reinado passou...

— Mas quem é a beleza do dia?... perguntou Daniel.

— Quem?... o seu par da segunda contradança...

— Misericórdia!...

— Nega que os senhores a têm achado a mais bela moça do sarau?...

Daniel olhou para Jônatas.

— Nego! disse Jônatas.

— Seria uma blasfêmia!... disse Daniel.

— Oh! eu os compreendo! ao pé de mim fala-se desse modo; mas daqui a pouco os senhores se vingam, desfazendo-se em elogiar a sua figura...

— Figura sem expressão, minha senhora, disse Daniel torcendo o nariz.

— A sua beleza...

— Que beleza!... é uma flor desbotada... sem aroma... disse Jônatas.

— O seu espírito...

— Espírito?... espírito de mudez: é uma estátua.

— Uma estátua... sim, meus senhores; estátua de Vênus, é o que querem dizer...

— Pois bem, tornou Jônatas, uma estátua de Vênus feita por mãos de escultor calouro.

— E o Sr. Daniel, que é tão apaixonado da cor pálida...

— Sim... aprecio, amo muito a cor pálida... como, por exemplo, a de V. Ex.ª; porém a dela...

— É transparente... diáfana... romântica...

— Repulsiva... repulsiva, disse Daniel.

— Repulsiva?...

— É uma defunta viva, minha senhora! acrescentou Jônatas.

As duas moças começaram a rir-se; e os dois cavalheiros continuariam a dizer ainda melhores coisas de Honorina, se a orquestra não os chamasse para a quinta quadrilha.

Portanto uns e outros se separaram, e um momento depois Úrsula estava junto de Raquel e Honorina.

— Então?... perguntou a Honorina.

— Agradeço-lhe muito, minha senhora: juro-lhe que foram os minutos mais agradáveis que tenho passado esta noite.

— É verdade, Úrsula; a nossa Honorina ouviu tudo com o ar mais divertido do mundo.

— E hesitará em divertir-se também com eles?...

— Oh! não!... não, minha senhora!... muito simples deve ser a mulher que não souber fazer de um homem um bobo com quem se ria!

— Bem!... bem!...

— Honorina, disse Raquel, eis um dos teus apaixonados.

— O Sr. Jônatas...

— Que te chamou defunta viva.

— Vem buscar-me para dançar com ele, tornou Raquel.

Jônatas chegou e ofereceu a mão a Raquel.

— Senhor Jônatas, disse Úrsula, apresento-lhe a mais bela aquisição de nossas assembléias, a minha nova e querida amiga, a Sr.ª D. Honorina: não concorda que é uma jovem encantadora?...

— Apareceu-nos, senhora, como um anjo caído do céu!...

Honorina levou o lenço à boca... mas foi impossível suster-se: soltou uma risada.