O moço loiro/XXX

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O moço loiro por Joaquim Manuel de Macedo
Capítulo XXX: Ao crepúsculo


À luz dos últimos raios do sol, lia Honorina as páginas escritas do livro de amor do moço loiro: uma profunda melancolia, às vezes acerba, estava em quase todas elas derramada.

Julgava-se o moço loiro verdadeiramente infeliz? ou sua tristeza era ainda fingida, como a que afetara na noite do sarau de Tomásia?... exprimia naqueles papéis uma dor terrível e real, ou neles jogava sua derradeira carta para ver se ganhava a partida?...

Longo e afatigador fora acompanhar a filha de Hugo de Mendonça na leitura que começara; parece talvez melhor transcrever aqui apenas o que for suficiente para dar uma idéia dessa peça, que, em suma, é tão vã e inconseqüente, como qualquer outra do mesmo gênero, como qualquer carta de amor.

No entanto, por deferência a seu autor, conserva o título e a epígrafe, com que se orna.

Era pouco mais ou menos o seguinte:

LIVRO DE MINH’ALMA

'

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Je t’aime!


Et le dire ici, c’est le bonheur suprême!...

V. Hugo

Capítulo I

Eu vi uma mulher verdadeiramente bela.

Seus cabelos são negros e luzidios como o azeviche; seus olhos grandes, pretos e ardentes dardejam vistas de fogo tão penetrantes como os raios do sol.

Sua fronte branca, elevada e lisa é o trono do mais nobre sossego; seu rosto pálido, melancólico e doce o assento da graça mais arrebatadora; seus lábios encarnados, virginais e puros a fonte das mais angélicas delícias.

E abaixo de seu colo garboso, como o da garça, há um mar de leite, que, quando ela suspira, se agita... se inquieta... e... então lutam aí de mistura pudor e desejos; inocência e amor; candideza e voluptuosidade!... e então quem a está olhando, sente... anela... arde.

Seus braços são alvos e torneados; e suas mãos delicadas e finas; seus dedos dir-se-iam brandas hastes de cristal, cada uma das quais fosse coroada por uma pétala de rubra rosa.

Seu pisar é subtil como o da pomba... o volver de seu vulto engraçado como o fugir da sombra... o seu falar meigo e harmonioso como a melodia de um anjo.

Ela tem a gentileza da aurora; a frescura do favônio; a suavidade e pureza do arroio do deserto.



Um olhar de amor de seus olhos, uma palavra de amor de seus lábios, e um suspiro de amor de seu seio deve ser o complemento de todas as felicidades que se podem dar cá na terra...

Porque enfim... ela é uma mulher verdadeiramente bela.

Capítulo II

E antes de ver essa mulher, já eu a amava muito; porque já a tinha ouvido.

Era uma noite serena e fresca: eu passeava melancólico e abatido à borda do mar, quando de repente uma voz — ah! uma voz como outra igual nunca dantes havia soado!... suave, melíflua e tocante, que, entrando por meus ouvidos, ia até à medula de meus ossos, até ao âmago de meu coração, que se entranhava por minha alma!... — entoou um hino à inocência.

Debalde o canto acabou... debalde; porque eu o estava ouvindo sempre, e dentro de mim mesmo... e ali fiquei estático, entre o céu e a terra, entre a consciência do meu nada, de minha pobreza, de minha desgraça; e essa voz fascinadora, que pôde fazer-me crer que é possível a felicidade cá embaixo, quando se vive toda uma vida com os olhos embebidos nos olhos, com os ouvidos perto dos lábios desse anjo, que canta assim.

O sinal da meia-noite arrancou-me do meu encanto... lembrei-me, então, que sobre a minha cabeça, debaixo de meus pés, e em derredor de mim havia mundo e miséria; porque até essa hora eu tinha esquecido tudo... tudo... ocupado somente com duas idéias que eram a onipotência de Deus e a existência dessa mulher.

A lua estava clara e brilhante... vi, a curta distância, aberta a porta de um jardim, e no meio deste erguer-se uma frondosa mangueira debaixo da qual tinha saído a voz que me arrebatara. Entrei... um braço invisível e forte me arrastava para aí... eu queria, ao menos, beijar as pisadas dessa mulher.

Avancei alguns passos... a claridade da lua mostrou-me dois vultos de moças recostadas em uma janela; senti dentro de mim um desejo invencível de ouvir o que diziam as duas moças, de julgar de sua beleza se possível fosse...

Não as vi tão bem, como anelava...

Mas o que eu ouvi não me esquecerá mais nunca!...



Meu Deus!... meu Deus!... vós não sentis que a sensibilidade é o maior dos tormentos do homem pobre?... não é bem verdade que os pobres deveriam poder viver sem coração?...

Pois o que há de fazer o homem pobre, quando ama?...

Abafar o seu amor?

Eis aí, portanto, um enorme tormento: esse fogo intenso que se sufoca, lança chamas devoradoras que fazem caminho rasgando... queimando o coração; esse amor, que se concentra, e se faz por afogar, é um raio da alma, que brilha no meio de horríveis ruínas... de calabouços medonhos! por que, pois, a luz, se a luz vem fazer sentir tão grande miséria?!...

Pretender o objeto amado?...

Como?... e para quê?... — Como, se essa mulher encantadora e bela, cercada sempre por uma multidão de galantes mancebos, ricos, espirituosos, alegres, lisonjeadores, que sabem dizer tão bonitas coisas e olhar com olhos tão ardentes, não poderá ver nunca o homem pobre, que só tem para lhe oferecer um coração cheio de lágrimas!... que não se animará nunca a balbuciar uma frase de amor!... que não ousará jamais levantar seus olhos uma só linha acima dos pés da mulher amada?!... — E para quê?... para ser correspondido?... para ganhar gratidão, e depois dar para comer a esse anjo, que se adora, um pedaço de pão amassado com o pranto de seus olhos?... para repartir com essa mulher a miséria que padece... a vida de tormentos que arrasta?!... para padecer o dobro, vendo-a padecer também?!...

Oh! não!... não, meu Deus!... o homem pobre não deve amar, não!



. . .

E, então, por que fui eu escrever aquele bilhete, e deixá-lo debaixo da vidraça de sua janela?... por que me atrevi a jurar-lhe um amor de poeta e de fogo?...

Oh! foi porque a voz dessa mulher prendeu para sempre meu destino a seus lábios!...

E, portanto, não me é possível duvidar mais da natureza de meus sentimentos... eu amo!...

Qual será o resultado desta paixão que me alucina?... que futuro me estará esperando?... por que novas provações terá de passar a minha alma?...

Meu Deus!... meu Deus!... vós não sentis que a sensibilidade é o maior dos tormentos do homem pobre?... não é bem verdade que os pobres deveriam poder viver sem coração?...

Capítulo III

Enfim, graças ao céu!... eu pude, sem ser visto, vê-la de perto... observá-la... admirá-la!

Há no mundo só uma coisa que arrebata ainda mais do que a voz dessa moça; é o semblante dela mesma.

Já me não arrependo de tê-la ouvido e visto; já não sinto haver amado; sofrerei todos os tormentos possíveis com valor e serenidade... chegarei mesmo a bendizê-los; pois estou convencido de que por gratidão eu devia amar tão encantadora criatura.

Devia! porque ela fez desabrochar em minha alma, sempre tão árida e tão estéril, uma flor: a flor da crença na possibilidade de ventura cá na terra, flor bela como o rosto, suave como o canto, balsâmica como o hálito de Honorina!...

Devia! porque ela fez bruxulear no horizonte de minha vida sempre tão escuro, tão em trevas, tão tempestuoso, uma aurora... a jucunda aurora do amor, aurora brilhante como o olhar, bonançosa como o sorrir, fascinadora como o arfar dos seios de Honorina!...

E eu, pois, a amo! amo-a, qual ama o náufrago a derradeira tábua do navio despedaçado, a que se prende para escapar à morte!... amo-a, como o homem réprobo amaria o anjo de salvação, a cujas asas se pudesse ter agarrado!

Amo-a como a pomba a seus pombinhos inda implumes; como o heliotrópio ao astro do dia; como a mais extremosa mãe ao mais extremoso filho!



Mas é bem possível que essa mulher angélica não se lembre nunca deste homem que a adora tanto!

E isso que importa?... é a sorte do mundo. Todo o homem encontra sempre em sua vida um coração de mulher, que o não atende, e outro coração de mulher que por ele sofre: é a sorte do mundo.

Daqui a pouco verei chegar a jovem S... pobre menina!... creio que também é infeliz... suponho que me ama... e que se ressente de minha indiferença...

Se Honorina um dia me dissesse: "Senhor!... como pode maltratar assim uma mulher que lhe ama?..."

Eu acredito que me atreveria a responder-lhe: "É uma compensação, senhora! É preciso que uma mulher experimente os tormentos que outra mulher me faz sofrer!"

É a sorte do mundo.

Capítulo IV

Esperança!... esperança!... esperança!...

Por que não posso eu ser amado por Honorina?... o que pede ela ao céu?... um amor de poeta e de fogo; pois bem: eu tenho mil vulcões no coração, desde que a amo; ame-me ela, e terei uma cabeça de poeta.



E onde deve despontar o almo sol da esperança, senão no sereno horizonte da juventude?... onde com tanto viço, com tão copiosa exalação de perfumes se ostentará a rosa da esperança, como no jardim fecundo da idade dos amores?

A luz da vida — o facho que o homem se guia na longa viagem deste mundo — a fonte inesgotável donde o pensamento tira as tintas cor de fogo para pintar formosos arabescos no painel do futuro — a balança encantada em que o homem se equilibra entre os males que experimenta, e os bens que almeja — eis a esperança!...

Ninguém, ninguém vive sem esperança: por que, pois, não a terei eu também?... oh!... ainda que seja uma ilusão... eu a quero!...

A esperança é o alimento do espírito... a alma do coração...



Capítulo V

Tenho sido tão ousado, como feliz! em meus sonos de mancebo jamais sonhei gozar tantas delícias, como as que me tem dado a realidade deste amor.

Escreverei aqui a história da minha vida, desde que me fiz cabeleireiro, até que fui velho pescador.



........ A minha sempre-viva caiu dentro de sua câmara... a seus pés!... sua mão ia talvez lançá-la fora, quando valeu-me o zéfiro da manhã... e, portanto, esse zéfiro será sempre para mim o sopro de Deus!



Salvei-a!... salvei-a!... como me encho de orgulho! como me considero coberto de glória!... é um homem pobre... desvalido... sem amigos, só no mundo, que se entusiasma por ter arrancado das garras da morte a obra mais perfeita do Criador!...



Eu receio estar cometendo um sacrilégio... eu tenho medo de que o céu me castigue... porque ouso pensar que sou amado!...

Meus Deus! se isso não é verdade, deixai-me ir gozando meus dias embalado por tão doce mentira...

Já agora viver sem essa deliciosa ilusão é um impossível; é o único sacrifício que eu não faria a Honorina.



Capítulo VI

O que seria do homem sem o amor da mulher?

Ir até o fim dessa longa viagem da vida, que se começa chorando, e se acaba com um gemido; contar tantos anos, em que algumas horas de ventura são sufocadas pela corrente imensa desses dias de infortúnios, fora certamente impossível, se não houvesse desejos na alma, e esperança no coração do homem.

E a mulher é a fonte das mais doces esperanças, e o objeto dos mais ternos desejos.



Deus tinha previsto que a vida com tantas tempestades se tornaria desagradável, enfadonha ao homem; que o mundo tão semeado de abismos seria um perigo para a virtude; e assoprou na alma do mesmo homem uma chama sagrada, que alimenta a virtude: — é a esperança da eternidade —; e plantou-lhe no coração um sentimento generoso e nobre, que sabe prendê-lo à vida: é o amor da mulher.



E o homem deve ser para a mulher como o favônio da aurora ou o orvalho da noite são para a flor; porque também ela é para o homem, como a flor para o prado, a fragrância para o zéfiro, o sorriso para os lábios, e a ventura para o coração.



Seja, portanto, a alma do homem uma harpa harmoniosa; e converta ela seus pensamentos todos em hinos jamais interrompidos, e votados sempre à mulher!...

Capítulo VII





Capítulo VIII

A desgraça veio sobre mim imprevista, inesperada como o raio; furiosa, terrível, como o tigre.

Não há mais esperança para mim.

Estou outra vez no que era dantes; estou de novo nas trevas; e minha posição é agora dobradamente cruel; porque a luz já tocou meus olhos... e, portanto, posso avaliar o bem que tenho perdido!...

Ah!... o homem que nasce cego é menos infeliz do que aquele que cega depois de ter visto; o primeiro não goza nada... mas também não conhece o valor daquilo que não goza!...

Para que ouvi eu a voz, vi o rosto, e compreendi a alma dessa mulher-anjo, que nunca poderá derramar vistas de amor sobre meu rosto?

Pobre de minha ilusão!... foi como o sonho da noite que se esvai ao romper da aurora!... desfez-se ante a força da realidade, semelhante a esses lagos encantados de orvalho, que se vêem nas invernosas manhãs de junho e que pouco depois se derretem sob a influência dos raios do sol!...



Impossível!... impossível!... impossível!...

Maldito seja o homem que primeiro inventou essa palavra infernal, que exprime uma blasfêmia!...

E, todavia, eu a estou ouvindo a todo o instante dentro do coração!... oh! é horrível!... ver o homem perto de si uma mulher bela... amá-la, e supor que é também amado... não conceber sem ela felicidade nesta vida, e sentir o homem, o homem que tem direito de procurar ser feliz, sentir que o destino vai levantando entre ela e ele uma barreira insuperável!... que a desgraça vai murmurando aos ouvidos dele e dela nunca!... nunca!... impossível!... impossível!... oh!... é muito horrível, meu Deus!...



E o que poderá fazer essa interessante moça, que vê as lágrimas de seu pai, e pressente sua miséria?... e que se não ceder às inspirações da virtude?...

Portanto, também a mesma virtude se opõe ao amor que me abrasa!... e eu que me achava com forças de disputar a posse de Honorina ao mundo inteiro, devo e hei de abaixar a cabeça à filha do céu!...

Não há nada, não; não há meio nenhum!... em minha própria imaginação eu não encontro um único remédio!...

Um só... talvez... se eu fosse rico!...

Oh!... tenho-me lembrado de sair por essas ruas, gritando: — quem quer comprar um homem de honra?... mas ninguém daria por mim tanto quanto é preciso para salvar o pai de Honorina!... e, contudo, existe no meu coração um amor generoso e nobre que vale mil vezes mais do que todos os tesouros do universo...

Meu Deus!... meu Deus!... como há de ser a minha vida de agora por diante?!...



No primeiro instante turvou-me o espírito a idéia do suicídio... mas logo depois a imagem de Honorina veio apagar o sinistro pensamento; foi ela o anjo de minha guarda que arrojou para longe a tentação do demônio... foi como um vento benigno e saudável que desfez a nuvem negra prenhe de tempestade e de horrores...

Agora só me ficou o coração cheio de agonia profunda... incurável... que não há de acabar, nem diminuir nunca; se eu vivesse ainda cem anos, no dia que completasse um século teria aí a mesma agonia, com a mesma intensidade, profunda... incurável sempre, como há cem anos antes...

Mas por que desejar a morte?... o mimoso sentimento que fez a minha ventura de alguns dias, nem sofreu a injúria de um desprezo, nem a injustiça de uma ingratidão; cedeu ao império de um dever... duro, porém sublime. O sacrifício deste amor é a demonstração de sua pureza e santidade!...

Minha alma repassada de dores aparece no meio de suas angústias, inocente e cândida, como o formoso e angélico semblante de uma virgem cristã, que morre pela fé, brilha com os raios da divina graça por entre as chamas da fogueira do martírio...

Há também orgulho na desgraça não merecida... e esse orgulho deve ser capaz de animar-me nos dias de torturas, por que vou passar, como a esperança da eternidade infunde coragem no homem injustamente condenado, que de cima do patíbulo diz o adeus derradeiro ao mundo...

Sim! devo viver, para que minha alma provada na abnegação e nos tormentos se ostente com seu amor mais que nunca puro, imenso e radioso, semelhante ao pirilampo que tanto mais brilha quanto mais negra e obumbrada é a noite; semelhante às plantas aromáticas, que tanto mais recendem quanto mais as pisam e maceram...

Devo viver, porque pobre... desgraçado... miserável e rude, o único objeto que eu tenho para oferecer e votar a Honorina é a minha vida; e quem sabe se um dia o triste presente não poderá ser apreciado?... neste mundo desleal e insano, a mulher, que enquanto menina é sempre um anjo que se sorri; e quando chega a senhora é às vezes uma vítima que chora; tem tantos perigos a correr, tantas borrascas a assoberbar, que lhe deve ser grato contar com um homem pronto a morrer por ela.



Possa a dedicação de minha vida ser tão bem-aceita por Honorina, como deve tê-lo sido pela virtude o sacrifício do mais ardente amor!...

E o lugar, que no meu coração era ocupado pela esperança do amor de Honorina, seja hoje consagrado a uma nova esperança... a de morrer por ela.



Arrastemos os dias pois...

Até que enfim, se no caminho da vida de Honorina estiver aberto um abismo, e além dele lhe seja preciso ir, passe-o ela segura e salva por cima do meu cadáver, como sobre a tábua de uma ponte.

Mas se ainda a derradeira esperança tem de ser também a minha última ilusão; se a vida deve, finalmente, deixar-me, evaporando-se pouco a pouco no esquecimento de alguma cabana solitária; então, na hora da extrema agonia, farei com que o arranco doloroso do pensamento se transforme em um hino de saudade votado à mulher que adorei com tanta paixão.

E, como o cisne que canta assentado na beira do sepulcro em que vai cair, eu pisarei no umbral da eternidade, e saudarei o espectro da morte, entoando um canto de amor!...

FIM

Quando Honorina terminou a leitura das páginas de amor, apertou-as fortemente contra o coração; e depois, reclinando-se sobre a cadeira de braços em que se achava sentada, fechou os olhos...

Parecia querer assim cerrar as portas de sua alma a todos os objetos, para embeber-se exclusivamente numa única idéia, em um único sentimento — naquele amor ardente e sublime que lhe votava o moço loiro.

Nos longos cílios de suas pálpebras cerradas viam-se pendendo lágrimas brilhantes... no arfar veemente de seus seios adivinhava-se uma luta de nobres afetos travada em seu coração...

Tão enlevada ficou no seu meditar, que talvez fosse uma corrente de ternos pensamentos a que se estava deslizando por diante de seu espírito.

Era já começo da noite: a brisa meigamente brincava com os anéis das madeixas de Honorina, que, vestida com um simples roupão branco, cujo corpinho folgado deixava em perigosa liberdade insinuarem-se as mais encantadoras formas, e sentada perto e defronte de uma janela, por onde vinham alguns raios da lua clara e luzente derramar-se sobre ela, mostrava-se pálida... fantástica... e mais que nunca formosa...

Alguns minutos se passaram... depois as lágrimas caíram dos cílios de Honorina, e não foram novas dependurar-se neles... serenou a tempestade que agitava o seio da virgem... e ela sempre em silêncio... imóvel... respirava apenas.

Tinha involuntariamente adormecido.

Alguns momentos mais... e na porta de um corredor, mercê da qual se comunicavam as duas saletas pelo lado do jardim, deixou-se ver a figura de um mancebo loiro... engraçado e alegre...

Era ele.

O moço loiro foi pé por pé, cuidadoso, e de manso ajoelhar-se junto de Honorina; e ficou breves minutos em encantada contemplação com os olhos embebidos no rosto da virgem, como um pecador aos pés de uma santa.

Depois curvou-se até o chão... beijou com apaixonado gesto a barra do vestido da idolatrada moça, e, olhando-a ainda uma vez radioso de ternura e felicidade, retirou-se tão de manso como viera; e sumiu-se pelo corredor...

Quase ao mesmo tempo Lúcia apareceu na porta da entrada da saleta, e despertou a Honorina.