O moço loiro/XXXI

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O moço loiro por Joaquim Manuel de Macedo
Capítulo XXXI: Imposição


Honorina não pôde dormir um só instante durante toda a noite.

O bilhete e ainda mais o livro da alma do moço loiro tinham vindo aumentar os sofrimentos da infeliz jovem; porque, além da expressão viva e terna de um amor ardente e nobre, como o que ela pedira noutro tempo ao céu, amor de poeta e de fogo, aí aparecia uma idéia melancólica, amarga, arrancada talvez da íntima e dolorosa convicção de quem a enunciava: era o profundo sentimento da miséria do pobre.

E essa idéia despótica, terrível, apoderou-se da imaginação de Honorina, pô-la em torturas longas horas de uma noite, desenhou-se com mil formas diante de seus olhos, e pesou sobre seu coração de um modo cruel.

Estimulada por seu amor, levada da nobreza de sua alma, escrava de sua imaginação fervente, Honorina corou, acreditou-se muito abaixo de si própria, não achou uma desculpa para suas hesitações do dia que acabara; e, uma vez desassossegada, possuída de convulso tremor, sentou-se no leito, e com os olhos luzentes, ela um pouco febril e superexcitada, lançou para trás com as mãos as soltas madeixas e, sacudindo a cabeça como se delirasse, exclamou:

— Nada de máscara!... não!... nada de máscara!... sinceridade ao menos. É preciso confessar que eu sou do vulgo, e cativa do meu século!... seria uma vergonha aceitar a defesa que me oferece aquele que eu me ufanava de amar, quando diz que a minha generosidade me sacrifica, quando pensa que eu sou uma mártir. Não!... nada de ilusões! o caso é simples: ponhamo-lo bem transparente. Eu disse a mim mesma que amava a um homem, e esse homem é pobre; meu pai sente estremecer sua casa, está a ponto de perder tudo, e meu primo, que é rico, se oferece para salvar-nos a preço de minha mão, isto é, temos de um lado um homem pobre, e do outro um rico; temos numa das conchas da balança — amor, e na outra — ouro!... temos ali um mancebo que me ama, e que me salvou a vida; acolá, um outro que não pode amar-me e que quer comprar a minha mão por alguns contos de réis; e aqui, enfim, temos uma mulher que diz que ama, e hesita na escolha; que diz que despreza o ouro e tem pensado em se deixar vender por ele!... Não!... ainda uma vez nada de máscara!... nada de falsas interpretações!... o que quer dizer aquele que escreve a um pai estas palavras — toma esse dinheiro; mas dá-me tua filha — o que quer dizer?... falemos claro: é exatamente o seguinte — queres vender-me tua filha?... eu dou-te tanto.

Copioso suor banhou a fronte de Honorina, que prosseguiu com dobrado fogo.

— Isso quer dizer que se negoceia com o coração de uma mulher!... que a alma, que ama, a alma, que é dom do céu, a alma que é espírito, a alma, que é de Deus, pode comprar-se com o ouro dos homens!... oh!... e quando se tem um pai, como eu tenho, que não é tirano, que é amigo extremoso, que é, enfim, digno do sagrado nome de pai; quando ele me está dizendo — filha!... respeita a flor de teu coração! filha, não te sacrifiques!... filha, não cases com quem não amas!... filha, decide-te com toda a liberdade! — pensar eu, um instante só, em sacrificar-me!... o que é a desgraça, que para não ser pobre se liga para sempre ao homem que mal conhece, traindo um outro, que tem domínio sobre seus pensamentos, que é o objeto do mais puro amor?... o que é?... é uma mulher que se vende! não é uma mulher, não: é uma escrava, ou, ainda melhor, a alfaia delicada que um homem regateia e compra!...

Honorina estava realmente bela nesse monólogo febril, em que ela deixava fugir-lhe dentre os lábios as proposições atrevidas de seu exagerado raciocinar, como centelhas brilhantes de um vivo fogo, em que internamente estivesse ardendo. Mas arrastada por sua imaginação, continuou ainda:

— E como me desculpo eu!... digo que hesito, porque me lembro do quanto sofrerão meu pai e minha avó nas garras da pobreza que os ameaça!... sinto isto no coração; porém, meu Deus, a pobreza e a miséria poderão causar maior dor a meus pais do que o aspecto da minha desgraça?!... não será enormíssima crueldade, que uma moça se faça infeliz por suas mãos, casando-se com um homem a quem não ama, quando sabe que sua desdita, sua vida de martírio, vai ser um tormento incessante, eterno, despedaçador do coração de seu pai?... E, demais, o que faz a mulher que abafa suas ternas afeições para sacrificar-se a um noivo que não poderá amar nunca?... de duas uma: ou é má, e suspira por um véu de viúva, ou é vítima, e com o rosto em lágrimas com o padecimento na face faz o tormento do marido, que a infelicita, e, finalmente, o atraiçoa na alma; porque, mesmo contra a vontade, pensa no seu primeiro amor.

Depois de um instante de silêncio, a filha de Hugo de Mendonça prosseguiu:

— E eu então que outrora bradava: é um horrível sacrilégio ir um homem ajoelhar-se aos pés do altar, receber a bênção do sacerdote, estender a mão para uma triste mulher, com os olhos em seu rosto e o pensamento no seu dinheiro!... Eu, então, como devo bradar agora?... oh!... pela última vez, nada de máscara!... não!... sinceridade ao menos!... esse ente, que tenho ouvido dizer que é muito belo, e que começo a experimentar que é muito desgraçado; a mulher, que esquece o amor pelo ouro, que entrega sua mão a um homem com as vistas em suas riquezas, procede dobradamente pior! sim, porque a mulher vale muito, vale tudo pelo amor; e sem ele perde seu brilho, todo o seu merecimento; sim, porque o amor é o perfume, o encanto da mulher; sim, finalmente, porque a mulher, que vai junto aos altares jurar amor eterno a um homem que não ama, jurar por Deus, o que não pode cumprir, é mil vezes sacrílega!... fecha com suas próprias mãos as portas da salvação!... pois bem, não serei sacrílega!... não serei sacrílega!... e, quando meu pai me perguntar — o que decides?... — eu lhe direi bem alto — não!...

Mas, no meio do ardor e da veemência de seus pensamentos, mesmo quando acabava de pronunciar a palavra — não! —, parece que uma idéia sinistra surgiu na alma da virgem; pois que ela, soltando um gemido, exclamou com a expressão da mais dolorosa angústia:

— E meu pai!... e meu desgraçado pai!...

E deixou-se cair no leito, como quem tivesse esgotado todas as suas forças.



Pelo correr das dez horas do dia o curso de sua reflexões foi interrompido por Lúcia, que entrou no quarto.

Honorina, ao senti-la chegar, ergueu-se para atirar-se nos seus braços, mas recuou espantada, vendo alegre sorrir derramado nos lábios de Lúcia.

Oh!... é mais que impiedade; é talvez um insulto, que aquele a quem estimamos venha rir-se no rosto de nossa dor!...

— Estás bem alegre, mãe Lúcia! disse a moça em tom de amarga queixa.

— Eu pensava que a senhora também o estaria!

— É por que eu sou bem venturosa, não é assim, mãe Lúcia?!

— Ah! eu vejo, pois, que me enganei; ouvi a Sr.ª D. Ema repetir-me o conteúdo da carta que ontem se recebeu do meu querido filho, e vinha alegrar-me com a outra minha filha... é que eu tinha para mim que a maior felicidade que me podia ainda vir no mundo, era ver unidos os dois entes que alimentei com meu leite...

— Também tu, mãe Lúcia! exclamou a moça chorando amargamente.

— Mas eu não entendo por que a senhora está chorando assim...

— Ainda bem!... ainda bem que o não entendes!...

— Devo crer que é por não desejar casar-se com seu primo; pois por ele respondo eu: o senhor Lauro não é capaz de abusar de sua posição...

— Mãe Lúcia!

— Parece-me, porém, que, se a senhora chegar a vê-lo, há de mudar de opinião... olhe, menina, não se parece nada com o outro...

— Com o outro?... que outro?... perguntou estremecendo Honorina, que tinha sempre o pensamento no moço loiro.

— O outro que cá veio, há poucos dias, pedi-la em casamento, que foi pela senhora mal-aceito, e que, apesar disso, não sei por que teima em voltar ainda...

— Pois ele tem voltado?...

— Está aí agora a praticar com o Sr. Hugo de Mendonça e com a senhora sua avó.

— Mãe Lúcia, disse Honorina levantando-se e enxugando os olhos, eu quero ouvi-los.

— Nada é mais fácil: a porta, que dá para o gabinete de seu pai, está aberta.

— Pois vem comigo.

Um momento depois Honorina e Lúcia, apertadas contra a porta do gabinete de Hugo de Mendonça, ouviam tudo o que se passava na sala.

Ainda uma vez tratava-se de Honorina.

Estavam aí três pessoas: Ema, Hugo de Mendonça e Otávio.

Otávio não tinha tido a paciência precisa para esperar pelo dia do vencimento da primeira letra; com toda a sofreguidão de um homem apaixonado, sob o pretexto de vir antecipar a Hugo de Mendonça aquilo mesmo de que nenhum negociante honrado se pode esquecer, apresentou-se na casa dele.

Travou-se em breve entre os três uma polêmica forte e animada. Otávio mostrou-se sabido do estado dos negócios de Hugo, e imprudente, sem dúvida, ofereceu-se para salvá-lo à custa da mão de Honorina, aceitando como dote da moça a dívida de Hugo de Mendonça: em suma, Otávio impôs.

Ema, que já tinha defendido as pretensões de Otávio, e que agora temia ver sua neta casada com o moço que detestava, sustentou na presença daquele a conveniência do casamento que lhes vinha propor; e, exasperada pela oposição de seu filho, declarou a Otávio que contasse com a sua aprovação.

Hugo de Mendonça, enfim, em quem a desgraça parecia haver criado resolução e força, respondeu com dignidade à imposição de Otávio e ao empenho de sua mãe.

— Senhor, exclamou o negociante olhando para Otávio, não chegou ainda nenhum dos dias em que se vencem as letras, que lhe devo pagar e lhe pagarei; só então, se eu faltar aos meus deveres, lhe será lícito vir impor-me condições!

— Senhora, continuou dirigindo-se à sua mãe, eu me espanto da parte animada que minha mãe toma em favor das pretensões do Sr. Otávio; mas minha mãe sabe que primeiro arrastarei a miséria, do que consentirei que minha filha sacrifique seu coração à minha fortuna!

— Senhor! disse ele ainda uma vez a Otávio: dentro em dois dias eu conto que estarão terminados todos os negócios que entre nós se acham pendentes; no entanto, espero que se convença, de uma vez para sempre, que eu não considero minha filha uma letra de câmbio, nem uma mercadoria com que possa negociar; que eu não vendo minha filha por nenhum preço; que jamais consentirei em vê-la sacrificada ao homem que não pode amar!

Escutando semelhante conclusão, Otávio despediu-se vivamente agitado; e foi com acento de concentrado despeito que ele disse sem apertar a mão de Hugo:

— Até depois de amanhã!

— Sem dúvida, respondeu o negociante vendo-o sair; até depois de amanhã!

Honorina apenas viu a sós seu pai e sua avó, ia de novo recolher-se à sua câmara, quando se suspendeu a voz de Hugo que se dirigia a Ema.

— Minha mãe, disse o filho; parece que me não deve ser oculta a razão por que tanto se mostra empenhada a favor do homem que acaba de sair daqui.

— Há duas razões, disse a velha com rispidez.

— Posso eu sabê-las?...

— Sim; eu vejo prestes a cair a casa que tanto trabalhamos para levantar; essa queda trará a vergonha de todos nós; e o casamento que se propõe é um meio de preveni-la tão fácil como decoroso.

— Mas minha mãe devia lembrar-se que Honorina já disse uma vez que não são iguais as proposições deste mesmo homem.

— Honorina há de dizer que sim, quando pensar que é esse o único meio de salvar sua família.

— Mas o pai de Honorina não há de consentir semelhante sacrifício! eu sei que, se ela ouvir a minha mãe, responderá chorando — sim; fique, porém, minha mãe sabendo que o pai de Honorina dirá por sua vez — não!

A velha fez um movimento de cólera, que não escapou aos olhos de Hugo de Mendonça.

— Sossegue, minha mãe; bem vê que se está tratando de minha filha. Vamos à segunda razão.

— A segunda razão, disse Ema com despeito, é que este casamento impediria que se concluísse o outro que projetas; faria com que tu não fosses entregar a única pessoa que me prende ao mundo a um homem miserável e infame!

— Minha mãe, Lauro pediu a mão de Honorina para quando provasse que essa infâmia não tem sido mais que uma calúnia!

A velha soltou uma risada sarcástica.

— E quem já assegurou, continuou Hugo de Mendonça, que minha filha se casará com Lauro?...

Ema olhou espantada para seu filho.

— Porventura Honorina já nos disse que sim?...

— E se ela o não disser, que esperança te restará, Hugo?...

— Minha mãe, a mesma que me restava ontem de manhã.

— A desonra.

— Não: a miséria.

— Sim... tudo sacrificado...

— Tudo, respondeu friamente Hugo de Mendonça.

— E depois darás à tua filha a vida das lágrimas e das privações; rir-te-ás diante de seu pranto; e dirás triunfante: — ao menos não é esposa de Otávio!

Nas palavras de Ema estava derramado todo o fel da mais acerba ironia.

— Não, minha mãe, respondeu o filho; trabalharei noite e dia por minha filha; irei ser um humilde caixeiro, um simples escrevente de cartório, o que primeiro puder ser, enfim; mas trabalharei sempre, e muito... dormirei menos duas horas... vestir-me-ei mal... serei capaz de pedir uma esmola; mas, quando trouxer a Honorina o pão comprado com o suor do meu rosto, eu exultarei, minha mãe; porque no meu coração estarei dizendo a mim mesmo — ao menos não sacrifiquei-a!

— Sim! sim! sim! exclamou a velha despeitada; e quando daqui a um ano, a dois ou três, pagares o tributo de tua vida, tu a deixarás no mundo só, nua, faminta, com um pé na miséria e o outro na desonra; mas do fundo do sepulcro teus ossos estarão dizendo: — ao menos não sacrifiquei-a!...

— Minha mãe! é uma impiedade estar assim redobrando meus tormentos!...

— É que tu estás cavando um abismo debaixo dos pés de tua filha!

— Eu... nós já lhe demos a educação e os exemplos da virtude...

— Mas aí está o mundo...

— E sobre o mundo, minha mãe, está Deus...

A velha entendeu que era tempo de calar-se; e Hugo de Mendonça, que já se achava vestido e pronto para sair, tomou o chapéu.

— Minha mãe, devo sair, disse ele; tenho ainda papéis a ver, passos a dar, e talvez fatos a averiguar. Eu lhe peço que não diga uma única palavra a Honorina a respeito do que se tem passado: devemos querer, quero, que ela tome uma resolução definitiva, sim; mas quero também que o faça livremente; trata-se da felicidade ou da desgraça de toda a sua vida; e já que a seu pai não é dado ler no futuro, faça-se ela feliz ou desgraçada por suas próprias mãos.

Um instante depois Ema ficou só na sala; e Honorina foi de novo abrigar-se no silêncio de seu quarto.