O moço loiro/XXXIII

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O moço loiro por Joaquim Manuel de Macedo
Capítulo XXXIII: Félix


Enquanto aflita e gemebunda a inocência lá se achava exposta aos laços da perfídia e chorava sobre seu amor e sua piedade, o crime não espremia essas lágrimas impunemente.

É falso! não há impunidade para o crime. Deus, sábio e providente, preveniu a ignorância e a fraqueza dos homens; quando estes não condenam, aí está a consciência do criminoso que o tortura. A consciência é a voz de Deus, que brada dentro do homem: o eco de seus brados vai soar na eternidade.

O malvado que se avezou ao crime, que o perpetra como por hábito, não passa ainda assim impune: isso que vós chamais hábito, é já o desespero da salvação; é a prévia condenação eterna, que o punge, que o dilacera tanto, que o faz desafiar a cada instante a cólera do Juiz Supremo, desejoso de ir sofrer a pena terrível, não podendo mais esperar por ela; porque se esperar o bem é um prazer que se frui de longe; esperar o inferno é já estar no inferno. A consciência nunca se caleja; no celerado, o que às vezes se apaga é a esperança de salvação; a nímia malvadeza é como uma loucura, pela qual o homem chega a julgar mais elevada a enormidade de seus crimes do que a misericórdia de Deus.

E aquele, cuja alma se ressente ainda de sua origem celeste, aquele que cometeu pela vez primeira um delito, recua, cora diante de sua consciência, como o mancebo enamorado aos olhos de sua bela, por quem foi convencido de um momento de infidelidade. É cruel estar o homem convicto de que praticou uma ação torpe; desde o instante da convicção, nunca ele está só, nem no solitário leito; aí mesmo, e em toda a parte tem diante de seus olhos, dentro de seu crânio, e sobre seu coração... a consciência do crime.

Esta pena terrível e sublime, que é conhecida do menino e do velho, a estava sofrendo Félix. Ele tinha sido condenado diante do tribunal infalível: seu processo, seu juiz, seu castigo, e o executor desse castigo, era somente a voz de Deus, que falava dentro dele. Não havia aí dizer — sou inocente! — a convicção estava com ele: a convicção era a pena.

Félix havia, pois, cometido um crime, que ainda não está para nós bem patente; mas que o estava para Otávio, que dele se serviu a fim de levá-lo à perpetração de outro.

O guarda-livros se transia, portanto, com a consciência de que era um falsário, um infame, um ladrão! — E não é tudo ainda: o homem, a quem ele tinha deixado roubar, era um de seus benfeitores; por conseqüência, havia um outro crime: a ingratidão.

E os resultados?... se Otávio levar a efeito seu indigno plano, quem sacrifica o coração da pobre moça?... quem reduz à miséria e é a causa dos horrores que ela fará sofrer a Hugo de Mendonça?...

Semelhantes idéias, pungidoras certamente, tinham torturado a Félix durante duas noites; o segundo dia correra tão cruel para ele como o primeiro, e ao chegar o fim dessa tarde, em que Lucrécia recebera o sim por que suspirava, o guarda-livros de Hugo de Mendonça despediu-se dos caixeiros, e o contra, antigo costume, subiu antes da noite para seu quarto.

Apenas entrado fechou-se por dentro, e estirou-se sobre o leito, onde passou meia hora arquejando ansiado; depois ele ergueu-se de repente, correu à sua carteira, tirou dela a carta que Otávio há três dias lhe lançara por debaixo da porta, e, apertando-a na mão, exclamou como em delírio:

— É a minha salvaguarda!... somos dois infames que nos daremos o braço mutuamente! o mundo cuspirá no rosto de ambos; não o fará somente no meu!

Nesse momento bateram na porta do quarto; Félix guardou rapidamente a carta no seio, e com voz alterada perguntou:

— Quem está aí?...

E conheceu a voz de um servente que lhe respondeu:

— Um homem já velho e doente quer falar-lhe; e diz que tem importante negócio a tratar, e recomenda que deve fazê-lo neste mesmo quarto, em segredo.

Félix estremeceu todo inteiro.

— E que homem é esse?...

— Ninguém o conhece lá embaixo.

— Donde, e de quem vem?...

— Não o disse.

— Como se chama?...

— Respondeu que não tem nome.

— Pois que se vá embora: não quero vê-lo.

— Já o despedimos dez vezes.

— E então?...

— Diz que quer falar-lhe por força, e em segredo; por que Vossa Mercê não desejará que ele fale muito alto.

— Pode fazê-lo entrar.

E pálido e temeroso ficou o guarda-livros com a cabeça fora da porta e o ouvido atento: ao ruído das pisadas do servente, que se retirava, sucedeu o ruído das do homem que vinha. Félix o viu aproximar-se vagarosamente de seu quarto e entrar sem dizer palavra.

Era um homem de estatura ordinária, magro, de cabelos que começavam a embranquecer, e que por longos cobriam-lhe as orelhas e uma parte da fronte e das faces: trazia dois parches, um sobre o olho esquerdo e outro que lhe escondia completamente o nariz; vinha com calças e coletes de pano preto já usado e vestia uma longa sobrecasaca verde-escura, que lhe tocava a curva das pernas; tendo entrado no quarto, tomou uma cadeira, e sentou-se defronte de Félix com a maior sem-cerimônia do mundo.

— O senhor queria falar-me... disse Félix.

— Sim... respondeu com voz áspera o homem.

Félix o encarou, e viu fito, pregado em seu rosto o olho direito do desconhecido; e sentiu que esse olhar era penetrante como um dardo, ardente como o raio, terrível como o do tigre.

O guarda-livros teve de abaixar a cabeça, e só então pôde dizer um pouco agitado:

— Pois eu estou pronto para ouvi-lo.

— Convém antes, disse o homem, que aquela porta seja fechada...

E, como para poupar a Félix uma resposta ou algumas passadas, ele mesmo ergueu-se e fechou a porta do quarto.

— Bem, disse Félix, que involuntariamente tremia, e agora?...

— Agora, tornou o homem, escute-me.

— Escute-me?... o senhor fala e pratica de um modo, que...

A personagem desconhecida interrompeu o moço, e começou a falar em voz baixa, mas terrível.

— Eu sei uma história, Sr. Félix, que Vossa Mercê vai ouvir, e há de corar, ouvindo-a, provavelmente, porque o seu melindre e a sua virtude se envergonharão do infame papel que representou o herói dela.

— Mas eu penso que o senhor me não veio incomodar para contar-me histórias...

— Ouça sempre. Em certa cidade... (não importa onde) havia um negociante honesto e honrado, cujos negócios não estavam no melhor pé possível. Obrigado por fatais circunstâncias a retirar-se por meses para o campo, deixou ele administrando sua casa um mancebo, que era o seu guarda-livros...

— Se o senhor quer falar de mim...

— Quando o negociante voltou, apareceu a seu lado uma filha sua, jovem e bela, que até então estivera oculta pelo véu dos cuidados de sua família, como uma violeta entre suas folhas; essa moça foi amada por grande número de mancebos, e no número desses houve um a quem eu darei o nome de Otávio, que a pediu em casamento, e foi repelido por ela.

— Mas... senhor...

— Sem generosidade e sem nobreza, Otávio quis tentar obtê-la à força. Para isso achou um meio: o moço, que servira de administrador da casa do negociante, tinha um segredo fatal, que o podia perder, e que era por ele sabido. Otávio abusou desse segredo, e foi vendê-lo ao antigo administrador a preço de mais de quarenta contos de réis em letras passadas contra a casa do negociante. O antigo administrador cedeu!... vendeu seu patrão.

— É falso! balbuciou Félix, caindo aterrado sobre o leito; é falso! é falso!...

— Em uma noite os dois trocaram infâmia por infâmia, as letras pelo segredo. Otávio deixou o jovem guarda-livros, o antigo administrador, e com três importantes letras na mão foi impor ao negociante, ou o seu casamento com a bela moça, ou a miséria dela, e a queda da casa.

— Oh!...

— E o guarda-livros ficou só... e na mão com que tinha dado as falsas letras estava uma pequena caixa de veludo preto...

— Senhor!... senhor!...

— Daí a pouco abriu uma carteira, como esta, que eu vejo ali, Sr. Félix, e dentro dela... no fundo de um escaninho de segredo escondeu essa caixa de veludo negro, que devia também estar escondendo a prova de um crime ainda mais negro!...

E o desconhecido avançou para a mesa, onde estava a carteira de Félix; mas para logo teve de parar diante do moço, que, possuído de um violento tremor, pálido como um finado, lançando bolhas de espuma pelas comissuras dos lábios, colocou-se entre aquele e a sua carteira, e com voz sepulcral balbuciou:

— Nem mais um passo... ou grito... que me querem roubar... que...

— Não há de gritar, Sr. Félix; não há de mesmo abrir a boca; ou fá-lo-á somente para implorar-me piedade; nem se moverá daí, ou se der um passo, será para cair de joelhos a meus pés!...

— Senhor!... senhor!...

— Porque se quiser chamar alguém, eu bradarei bem alto — dentro daquela carteira existe a prova de um crime, uma caixa de veludo preto! — e então o senhor pedirá que me cale... que não diga nada...

— Silêncio!... silêncio!... balbuciou o guarda-livros.

— Porque se ainda quiser dar um passo, eu continuarei gritando — e dentro dessa caixa forrada de veludo preto está uma cruz cravada de brilhantes! — e então o senhor há de cair de joelhos a meus pés, implorando piedade...

Félix caiu com efeito de joelhos, e, abraçando-se com as pernas do desconhecido, exclamou:

— Compaixão... piedade!... não me perca pelo amor de Deus!...

O desconhecido, desprendendo-se das mãos de Félix, foi de novo sentar-se na cadeira que pouco antes ocupara; e, encarando o mísero guarda-livros, disse com um sorrir desdenhoso e terrível:

— Compaixão!... piedade!... não perdê-lo pelo amor de Deus!... oh! como é miserável e covarde o crime!...

— Perdão! perdão!... murmurou Félix.

— E posso eu perdoar-lhe?... não!... não!... é esse um direito que deve ser exercido por muita gente, já que muitos são os ofendidos: ouça-me! sabe quem eu sou?...

— Não... ou é o meu juiz...

— Eu sou um homem que deve tudo ao Sr. Lauro de Mendonça; que, conhecendo a desgraça do meu benfeitor, jurei demonstrar sua inocência, e demonstrá-la-ei! sou o braço do ofendido... eu sou a vingança!...

A voz deste velho desconhecido era como um trovão, e seu olhar cruelmente embebido no rosto de Félix, era como uma língua de fogo, que lhe ia até ao coração. Ele disse:

— Há sete anos, uma cruz cravada de brilhantes desapareceu da casa de Hugo de Mendonça; Lauro não tinha nem podia ter parte em semelhante acontecimento; o senhor o sabia; o senhor o denunciou como perpetrador do furto dessa cruz; primeiro crime — a calúnia. Só uma pessoa pode perdoar-lho: é Lauro de Mendonça.

Félix quis falar; porém, o desconhecido o não deixou fazer, e prosseguiu.

— Mas essa cruz cravada de brilhantes, que pertencia à filha de Hugo de Mendonça, havia com efeito desaparecido; e o senhor foi o miserável que a furtou: segundo crime — o furto. Uma outra pessoa há que só lho pode perdoar: é Honorina.

Félix fez de novo um movimento; e ainda o desconhecido o suspendeu, continuando:

— E a maldição que sobre Lauro lançaram seus avós e pai?... e os sofrimentos desse mancebo?... e a morte de sua extremosa mãe?... quem, Sr. Félix, quem há de perdoar tudo isso?... só ele, que foi o ofendido, só ele, que herdou a bondade do coração angélico de sua mãe; só Lauro.

O guarda-livros desabafou um surdo suspiro, e o velho disse ainda:

— Agora, Sr. Félix, o que é essa infernal trama, cujo resultado terá de ser a miséria de uma família inteira?... como se chama tão nefando crime?... basta-lhe, diz tudo o nome de ingratidão?... na palavra ingratidão poderá ser abrangida a falsidade, a traição, a infâmia de um homem, que com sua mão fere de morte o chefe de uma família a quem deve tudo?... de um guarda-livros, que vende com tamanha vileza o seu patrão?... E por qual chão tão escabroso arrastará o senhor o rosto para ir implorar perdão a todos esses que têm o nome de Mendonça?...

Félix estava sofrendo todos os tormentos do inferno.

— Oh!... exclamou o desconhecido; não era possível que, por mais tempo, continuasse a calúnia a manchar a virtude: é preciso convir de uma vez para sempre que não há véu suficientemente denso para esconder o crime. Deus castiga a maldade no próprio coração do mau com as torturas do remorso; mas não basta isso. Deus quer ainda que a inocência depois de perseguida e insultada pela aleivosia, apareça, enfim, bela e pura, como os raios do sol, passada a hora de um eclipse, brilham de novo luminosos e ardentes!... portanto, para o senhor houve desde sete anos uma pena justa e terrível, que lhe azedou talvez todos os seus dias, que o acompanhou nos seus prazeres, que fez o martírio de suas noites: havia o remorso!...

— Sim! sim!... disse Félix erguendo-se pálido e desfigurado; sim! eu tenho padecido horrivelmente!...

— E para Lauro abriu a fortuna os braços; e, enquanto sossegado dormia o sono da inocência, ela derramava sobre ele as riquezas e a felicidade. Era, porém, necessário ainda mais: era necessário que o filho repelido entrasse de novo na casa de seus pais puro e nobre, com a face descoberta, e dizendo — eis aqui a demonstração de minha inocência!... eu fui caluniado! — pois bem! esta demonstração, que hoje pode apresentar, deve-o também à sua virtude.

Félix em pé defronte do velho se conservava imóvel, estático como um epiléptico, com os olhos fitos no rosto desse homem terrível, que com sua voz áspera e grave continuou dizendo:

— Lauro de Mendonça, Sr. Félix, sentindo-se muito protegido pela fortuna nessa bela e generosa cidade da Bahia, criou para si uma família, de quem se fez protetor; uma família, cada membro da qual era um pobre, de quem ele se tornava pai; um mísero enfermo, a quem ele amparava e socorria. Entre muitos havia uma mulher, que a sorte tinha arrojado das riquezas na miséria; essa mulher, que era minha parenta... minha mãe... minha irmã... não importa o que; essa mulher, digo eu, morava a três léguas da cidade, a algumas braças de distância do mar, e perto da povoação de Itapoã; ela estava lázara... um único homem tinha verdadeira piedade de seus sofrimentos, ia mil vezes consolá-la... socorrê-la... sem cuspir junto dela: era Lauro. E a lázara foi escolhida pela Providência para rasgar o véu do crime!...

O desconhecido respirou um instante, depois prosseguiu:

— Há pouco menos de um ano, acabara um dia; alta ia uma noite de medonha tempestade; a morfética estava só; um filho que tinha, havia ido na manhã desse dia à cidade, e não pudera voltar com tão tormentoso tempo; à meia-noite batem à porta, e pouco depois um mancebo todo molhado e ferido, cai exausto de forças nos braços da morfética. Uma embarcação carregada de algumas centenas de míseros africanos soçobrara nesse dia; e o dono dela, esse mancebo, ele só, lutara vinte horas dentro de um pequenino batel contra a fúria dos ventos e do mar; finalmente, conseguindo chegar à praia de Itapoã, pudera ir bater na porta da lázara, e caíra nos braços dela, pedindo misericórdia.

Passada uma hora, o náufrago sentiu-se abrasado por terrível febre... houve um momento em que teve medo de morrer... pediu um padre, e não achou quem o fosse chamar; e então ele, jovem, belo, rico, caiu de joelhos aos pés de uma mulher morfética e arrasou um segredo infame!...

— E quem era esse mancebo?... perguntou Félix tremendo.

— Esse mancebo disse à lázara: "Senhora! eu tenho parte num crime, e quero salvar meu nome da desonra; sinto que vou morrer... eu deixei entre meus papéis uma carta que explica meu procedimento a respeito do que vou dizer, mas é possível que a carta desapareça; e, portanto, ouça-me, senhora: da casa de um negociante do Rio de Janeiro, de nome Hugo de Mendonça furtou-se, há seis anos, uma cruz cravada de preciosos brilhantes; imputou-se tal crime a um moço chamado Lauro... não foi ele; essa cruz existe em meu poder, mas o ladrão também não fui eu, não! não!... o ladrão chama-se Félix, é o guarda-livros do mesmo negociante; escreva, senhora, o que eu estou dizendo, e em todo o caso salve o meu nome da desonra..."

— Traidor!... traidor!... balbuciou Félix.

— No outro dia, Sr. Félix, Otávio achou-se inesperadamente melhor; e apenas pôde levantar-se, partiu para a cidade, rogando com fervor à lázara que não divulgasse o segredo que lhe confiara; mas esta, que ouvira espantada o nome de seu benfeitor envolvido naquela estranha confissão, guardou para todos o segredo, menos para ele. Foi a Providência, exclamou o velho, sim! foi a Providência que patenteou o crime, e o criminoso!...

— Basta! disse Félix.

— Lauro, prosseguiu o desconhecido, determinou para logo demonstrar sua inocência; não podendo, porém, deixar a cidade da Bahia tão cedo, pôs a sua causa nas mãos de um parente da lázara, nas mãos de um homem fiel e resoluto, nas minhas mãos, enfim!... Vim eu, Sr. Félix, e meus olhos o têm seguido em toda a parte, há dois meses; agora, graças ao céu, a prova de seu crime vai aparecer; e Lauro de Mendonça, que cedo chegará, há de entrar na casa de seus pais nobre e puro, como sempre foi, e com a cabeça levantada acima das de seus inimigos, e esmagando com seus pés a serpente da calúnia!...

Frio glacial se havia apoderado de Félix: a notícia da próxima chegada de Lauro o enchia de terror indizível.

E, portanto, vamos, Sr. Félix!... é preciso que a cruz de brilhantes apareça, e que o senhor se prepare a seguir-me com ela...

— Eu?... e para onde? perguntou automaticamente Félix.

— À casa de Hugo de Mendonça para confessar o seu crime e pedir o perdão dele.

— Oh!... nunca... morrer antes!

— Prefere, então, que o publique eu mesmo?... que eu vá daqui proclamar pelas ruas a sua vergonha?... perguntou o velho com voz terrível.

Uma chama infernal luziu nos olhos do guarda-livros; em seus lábios estremeceu um sorrir nervoso... satânico... feroz... sua mão trêmula abriu a carteira em que devia estar guardada a pequena caixa forrada de veludo preto; mas, em vez dela, brilhou na mão de Félix um punhal...

— Miserável!... exclamou o desconhecido recuando dois passos e engatilhando uma pistola que tirou do bolso da sobrecasaca; miserável!... eu preveni tudo!...

Félix, que no primeiro instante tinha ousado avançar, sentiu escapar-lhe o punhal da convulsa mão; e ele mesmo caiu outra vez de joelhos aos pés do velho, balbuciando:

— Perdão!... não me mate... não me mate pelo amor de Deus!...

Com insolente movimento de desprezo, o desconhecido empurrou com a ponta do pé o punhal para baixo da cômoda, e disse:

— Desgraçado!... eu preciso da tua vida. Quero que a inocência seja proclamada pela boca do próprio caluniador. Vamos pois!... a cruz de brilhantes!...

Félix olhava espantado para o velho. No rosto do guarda-livros estava derramada essa expressão de estupidez do idiotismo; como que não compreendia o que se exigia dele. A fraqueza, a covardia do infeliz moço não eram só devidas à consciência do seu crime; havia também um poder desconhecido, uma força inexplicável no olhar ardente e penetrante daquele homem singular.

O estado em que se achava era tão horrível, sua fisionomia se mostrava tão dolorosamente decomposta, que o mesmo velho teve piedade dele, e disse com acento menos duro:

— Vamos, Sr. Félix, a minha missão é de paz e de piedade; desfeita a calúnia, que nodoa o meu amigo, deixarei o resto ao seu arrependimento; confio que não consentirá que caiam na miséria os seus benfeitores... e também nada tenho com Hugo de Mendonça... vamos pois!... a cruz de brilhantes, e saiamos; eu lhe obterei o perdão de Lauro, e lhe asseguro o de Honorina, e o do pai, e da avó desta.

— Perdão para mim?... perguntou o moço com uma alegria desregrada e delirante.

— E ainda mais: o esquecimento desse crime.

— O esquecimento...

— Sim; e tudo à custa de duas únicas palavras.

— E quais são?... quais são, senhor, essas duas palavras?...

O desconhecido ia, sem dúvida, responder, quando sentiu que batiam na porta do quarto; então, com extraordinária prontidão, com vivacidade própria do mais ágil mancebo, ele abriu o guarda-roupa de Félix, e, agachando-se dentro, disse antes de contra si fechar as portas dele:

— Pode receber a sua intempestiva visita; mas olhe, que se tentar atraiçoar-me... eu não terei mais piedade de seus tormentos...

O guarda-livros, movendo-se como uma máquina, foi abrir a porta, e achou-se cara a cara com um mocetão muito nosso conhecido, e que era, sem mais nem menos, o incomparável Manduca.