Obras de Manoel Antonio Alvares de Azevedo (1862)/Fragmentos de cartas do autor/27 de agosto de 1848

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Obras de Manoel Antonio Alvares de Azevedo (1862)Fragmentos de cartas do autor por Álvares de Azevedo
27 de agosto de 1848
Carta endereçada a Luís Antônio da Silva Nunes, em edição de Domingos Jaci Monteiro

Meu Luiz.

S. Paulo, 27 de Agosto.
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Eu tinha agora parado de escrever-te, e recordei-me de um madrigal do Dr. Queiroga, [1] que é um primorzinho de bonito e terno; e veio-me ao pensamento fazer uns versos. Não sei se elles sâo imitação, pois não ha nada n’elles do Queiroga — são inspiração delles. Lá vão os do Queiroga, depois escreverei os meus:


Furtivo beijo timido da virgem
    Co’a mente erma de amores,
O brilhante matiz que a borboleta
Deixa nas azas ver por entre as flores,
O mystico clarão frouxo da estrella
    Que no céo se esvaece,
O hynmo melancolico da pomba
    Que os bosques enternece,
E da quebrada vaga os sons pausados
    Nos rochedos magoados,
E de lyra romantica e divina,
Os mais aereos sons, são menos doces
    Que o nome de Ocarlina.


Agora, pedindo perdão ao Sr. Queiroga da approximação, lá vâo os meus:


A rosa da manhã cedinho aberta,
A estrella se apagando em céos d’aurora,

Os carmineos rubores do crepusculo,
Dos labios o tremer da virgem que ora;

Na selva a briza sen cantar coando;
De viuvo sabiá nenias e prantos;
A lua pallida nos céos sósinha,
Mas no doido tristor cheia d’encantos;

O suave rumor, á noite ouvido,
Da terra que resomna em dormir leve;
O triste fenecer de rosa pallida,
Que sente em seu nascer já morta a seve;

O sentir exhalar-se a alma em extase
Em noite de luar silencioso;
Quando em torno é silencio tudo, e a praia
Abraça o mar em beijos d’amoroso,

O mais languido arfar d’harpa de fadas,
E todas essas rosas da natura,
E a noite, o dia, e o amor e a crença.
Do céo o azul, e os sonhos de ventura;

Sonhar sonhos do Céo — do mel vivendo,
De fresca madresilva lá crescida;
E á noite imaginar um beijo d’anjo
A correr-nos a face enfebrecida;

Tudo isto é menos que beber-te as fallas,
Roçar-te a face que enrubesce o pejo
Com os labios que fervem-me d’anhelos
E — teus olhos nos meus — morrer n’um beijo!


Basta por esta vez de poesia.

Has de conhecer a Parisina de Lord Byron. Para mim é uma das cousas mais suavemente escriptas desse poeta — de tudo que eu conheço em ínglez o mais suave.

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Eu fiz um começo de traducçâo della; fazia tenção de mandar-t’a, mas fica para outra vez. Tanto mais devo mandar-t’a, que as primeiras palavras que escrevi no borrador da 1ª pagina de traducçâo forão: A meu amigo Luiz Antonio; É uma das obras mais immoraes de Byron, pois é uma madrasta adultera com seu enteado, que elle pinta com as cores mais românticas possiveis. — Eu creio que não acabarei a traducçâo; mas o que ha feito é teu e só teu: e por isso t’o mandarei. Cada qual dá o que tem — dar-te-hei versos, já que só isso tenho.

Meu Luiz, por agora adeus. Quando vier do baile, contar-te-hei alguma cousa que me impressionar mais por lá.

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Notas[editar]

  1. Autoria definida com auxílio de MIRANDA, José Américo. O poema “Sinhá”, de Machado de Assis. Navegações: revista de cultura e literaturas de língua portuguesa, Porto Alegre, v. 6, n. 1, p.8-15, jan. 2013. Disponível em: <http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/navegacoes/article/view/14657>. Acesso em: 07 nov. 2015. [Nota dos editores no Wikisource]