Os Dois Amores/XXVII

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Os Dois Amores por Joaquim Manuel de Macedo
Capítulo XXVII: Confissão de amor


Celina estava muito comovida.

— Anima-te! disse Mariquinhas.

— Tu já amaste? perguntou aquela.

— Agradecida pelo cumprimento, respondeu-lhe a amiga. Com que, tendo eu apenas dezenove anos, entendes que já não posso responder senão pelo passado?

— Pois bem, d. Mariquinhas, tu amas?

— Vamos mal: eu vim para perguntar, e não para responder.

— Mas tu amas?

— Desconfio que sim.

— Pois somente desconfias?

— És muito simples, d. Celina.

— Por quê?

— Porque ainda não sabes que entre nós, as moças, desconfiar, neste assunto, é saber de certo.

— Ah!...

— E tu?

— Eu?... então se tu amas deves ter sofrido muito.

— Sim... sim... sempre se sofre mais ou menos; e tu?...

— Eu também.

— Conta-me isso.

— Não se pode contar o que eu sofro.

— Mas por quê?

— Parece que não é nada, e é muito: é uma dor... um desassossego... um abalo interno que se não pode explicar.

— Pois basta que me contes a história do teu amor; farei idéia de tuas penas pelas minhas.

— Eu penso que amo...

— Sim... compreendo... desconfias que amas.

— Mas olha, d. Mariquinhas, eu não amei por minha vontade... foi sem sentir...

— Sim... sucede a todas nós isso mesmo.

— Foi pouco a pouco que esse sentimento entrou no meu coração... eu não desconfiava disso, aliás saberia combatê-lo...

— Debalde!

— Quando me veio ao pensamento que eu poderia estar amando... quando caí em mim, oh!... tudo foi em vão... era já muito tarde.

— Tal qual sucedeu comigo.

— Chorei muito, d. Mariquinhas, chorei muito... uma noite inteira... e tu?

— Eu?

— Sim; tu choraste também muito?

— Eu não, d. Celina.

— Mas por quê?

— Por duas razões; primeira, porque eu desejava amar.

— É possível?!

— Eu fazia uma idéia muito engraçada do amor; há porém muitas moças que pensam como eu. Pensava que o amor era para uma moça o mesmo que a boneca para uma menina, um passatempo inocente, um brinquedo que se deixa quando nos aborrece, e nada mais; por isso eu desejava amar.

— Que louca!

— Depois, eu não devia também chorar; não tinha de quê; o homem que eu amei era e é digno de mim.

— Certamente não foi por pensar o contrário disso que eu chorei, respondeu Celina corando.

— Então por que foi?

— Também não sei. Ficava só neste quarto pensando... fantasiando tantas coisas... tantas coisas... depois ia, sem saber por que, tornando-me triste... triste... até que desa­tava a chorar.

— E depois?

— Depois que chorava, eu me sentia um pouco mais aliviada de uma dor que não se pode dizer como é; continuava a pensar... a fantasiar outra vez... de novo me entristecia, e de novo chorava.

— Pobre d. Celina!...

— Olha; e nem uma só vez me tenho rido...

— Mas essa tristeza?

— É a um tempo muito amarga e muito doce; se me dessem a escolher uma festa, um baile, um belo passeio, uma noite de teatro, ou uma hora de solidão, de isolamento com a minha querida tristeza, eu te juro, d. Mariquinhas, que preferiria essa hora de pranto a essas noites de prazer.

— Eu compreendo...

— Oh! pensar nele, exclamou Celina, que se ia exaltando pouco a pouco; pensar nele!... ter sua imagem dentro do coração, e ao mesmo tempo diante dos olhos!... estar ele ausente, e eu vê-lo ao meu lado... ouvir a sua voz tão doce! tão meiga! tão melancólica! sentir o toque de sua mão que me causa um abalo indizível; o roçar de sua roupa com a minha em uma curta passagem, que me faz estremecer vivamente... vê-lo andando garboso e engraçado, ouvi-lo a cantar um hino de amor tão terno... não existir nada disso, e estarmos vendo e ouvindo tudo isso... oh! é muito! faz com que instintivamente ergamos mãos ao céu, e clamemos: "bendito seja Deus que nos deu a imaginação, para na ausência vermos e ouvirmos assim aquele a quem tanto amamos!..."

— Tens razão, d. Celina!

— Oh! é sublime! prosseguiu a moça; isso é tão belo, tão encantador, tão mágico, que eu fico às vezes uma hora inteira, mais de uma hora, em contemplação, enlevada nessas delícias, nessas imagens, entre o céu e a terra, porque esse estar assim, esse gozo tem por força alguma coisa de celeste. E por fim, d. Mariquinhas, sem querer, sem sentir, no meio desse sonho de vigília, sem sofrer dor alguma, não sei por que mesmo as lágrimas caem em rios de meus olhos...

— E choras?

— Pranto bem doce! é bom quando se chora assim!...

— Meu Deus!

— Tu não choras nunca assim, d. Mariquinhas?

— Nunca.

— Infeliz! disse a "Bela Órfã" olhando com piedade para a amiga que a escutava admirada.

— Eu infeliz? por não chorar?

— Oh! sim!... porque há certas lágrimas que dão um prazer que está acima de todos os prazeres!

— Então tu és bem ditosa?

— Não.

— Como, pois, esse prazer?

— Ah! não me sacia nunca.

— E então...

— Eu sou como aquele que está devorado por ardente febre: com fervor leva aos lábios um copo d’água... esgota-o... e de novo mata-o a sede. Amar é também uma febre... não é?

— Eu já não digo palavra, respondeu Mariquinhas; estás mais adiantada do que eu.

— É porque tu não amas.

— Mas nota que tenho observado muito.

— Engano! amor não se observa... sente-se!

— Todavia tu és contraditória, d. Celina.

— Como?

— Começaste queixando-te de tuas lágrimas, e acabaste abençoando-as.

— É porque nem todas são da mesma natureza. A imaginação, que não é nossa escrava, a imaginação, livre, independente como as aves da floresta virgem, se às vezes me oferece um quadro de esperança, de amor e de saudade, outras vezes, d. Mariquinhas, cria fantasmas que atemorizam, fantasmas horríveis que bradam a meus ouvidos... que entoam o hino infernal, o hino do desespero resumido em uma palavra fatal...

— Qual?

— Impossível!...

O som com que a "Bela Órfã" pronunciou essa palavra foi tal, que tanto ela como Mariquinhas se deixaram ficar caladas durante algum tempo, tristes e pensativas.

No entanto serenou o ardor que fizera Celina exprimir-se com tanta viveza, de modo que, quando Mariquinhas quis continuar a conversação, já a achou perturbada e comovida como no princípio.

— Mas, d. Celina, ainda me não disseste o que eu desejo principalmente saber.

— O quê?

— Quem é o venturoso mancebo que tanto merece de ti.

A "Bela Órfã" hesitou.

— Se eu não quisesse saber também tudo quanto se tem passado entre ele e ti, continuou Mariquinhas, abster-me-ia de fazer-te esta pergunta.

— Por quê?

— Porque não acho muita dificuldade em adivinhar o nome daquele que amas.

— Já o adivinhaste, d. Mariquinhas?

— Ora!...

— Desde quando?

— Desde antes de teus anos.

— Foi na verdade bem cedo, respondeu Celina; porque então eu mesma apenas o suspeitava.

— Não duvido; isso acontece. Mas então dizer-mo?

— Para que, se tu já sabes?

— Seria possível que eu estivesse em erro.

— És muito viva para te enganares.

— Pois bem, dir-te-ei eu o nome, é porém com uma condição.

— Qual?

— Se eu acertar, hás de confessá-lo.

— Sim.

— Chama-se...

Celina olhou para Mariquinhas.

— Cândido.

A "Bela Órfã" abaixou a cabeça.

— Adivinhei?

— Adivinhaste, murmurou a moça.

— Levanta a cabeça; conta-me o que tem havido; não foi para isso que nos reunimos hoje?

Celina pensou um momento e disse:

— Sou uma louca.

— Tu?...

— Sim; mas ao menos a minha loucura poderá agora ser-me útil.

— Como?...

— Escrevi o que se tem passado comigo...

— A história do teu amor?...

— Sim...

— Um romance?!

— Não... uma verdade.

— Como não?... pensas que os romances são mentiras?...

— Tenho certeza disso.

— Neste ponto estás muito atrasada, d. Celina; os romances têm sempre uma verdade por base. O maior trabalho dos romancistas consiste em desfigurar essa verdade de tal modo que os contemporâneos não cheguem a dar os verda­deiros nomes de batismo às personagens que aí figuram.

— Pelo que ouço, d. Mariquinhas, tu já escreveste!

— Não, mas conversei já com um moço que escreve. Vamos porém ao nosso caso; deixa ver o teu romance.

— A minha história, tornou Celina, que abrindo a gaveta da mesa tirou algumas folhas de papel, e entregou-as com mão trêmula a Mariquinhas.

— "História do meu amor", disse esta lendo; ah! eu tinha adivinhado o título.

— Peço-te que leias para ti só; eu me envergonharia muito se te ouvisse ler alto.

Mariquinhas começou a leitura da história do amor de Celina.

A "Bela Órfã" acompanhava com os olhos todos os movimentos, todas as impressões que aquela leitura produzia em sua amiga, corando se esta sorria, animando-se, tremendo, e confundindo-se segundo as expressões fisionômicas da leitora.

Quando Celina viu que os olhos de Mariquinhas volviam-se correndo pelas últimas linhas da derradeira página, abaixou de novo a cabeça, envergonhada e confusa.

— Bravo, d. Celina! estás em bom caminho para romancista; mas repara que não podes aproveitar muito no nosso país.

— Não zombes.

— Falo séria; porém, dize que destino pretendes que tenham estes papéis?...

— Que destino?... o fogo.

— O fogo?!

— Sim; queimá-los-ei, respondeu soltando um suspiro a "Bela Órfã".

— Não; não cometerás um parricídio. Quando tua mão se erguer para lançá-los às chamas, tua alma, eu o juro, cantará os versos de Torquato: "Ah! não seria possível".

— Pois então que poderia eu fazer deles?...

— Quem sabe?... estes papéis guardam-se. É possível que cheguem um dia às mãos do feliz mancebo que te moveu a escrevê-los.

— Oh! Deus me livre!...

As duas moças calaram-se de repente, sentindo que alguém subia a escada. Celina guardou os papéis na gaveta donde os tinha tirado.

Apareceu uma escrava à porta do quarto.

— O que é?... perguntou Celina.

— O sr. Salustiano, respondeu a escrava.

— Dize-lhe que meu avô e minha tia saíram, respondeu "Bela Órfã".

— Mas que nós descemos já para recebê-lo, acrescentou Mariquinhas.

— Não!

— Sim! vai: dize-lhe que o vamos já receber.

A escrava desceu.

— Que queres fazer, d. Mariquinhas?...

— Conversar, divertir-me.

— Oh! porém tu me comprometes; este homem é um maldito impertinente...

— Melhor.

— Requesta-me... diz-me loucuras.

— Ótimo.

— Eu o aborreço.

— Por isso mesmo.

— Que queres pois?...

— Rir-me.

— Então entendes que devo...

— Zombar dele.

— Como?...

— Como te parecer.

— Mas eu não sei fingir.

— Pois desengana-o; isso também me diverte. Ainda não vi como fica o rosto de um desenganado.

— Tu és louca.

— Vamos!

— Hei de arrepender-me deste passo.

— Ao contrário, prevejo que terás de agradecer-me. Vamos! Não te lembras que o sr. Salustiano nos espera?

Mariquinhas tomou a mão da "Bela Órfã", e levou-a quase à força para o andar inferior.

Quando as moças acabavam de descer a escada, correu-se a cortina que tapava a portinha do fundo, por onde se comunicavam as câmaras de Mariana e de Celina.

Um homem aproximou-se com precaução e cuidado da mesa, junto da qual tinham as moças conversado.

A gaveta dessa mesa estava fechada, mas Celina havia-se esquecido de tirar a chave.

O homem abriu a gaveta, tirou dela os papéis que continham — a história do amor da "Bela Órfã" — e saiu com tanto cuidado e precaução como entrara.

Esse homem era o velho Rodrigues.