Os Dois Amores/XXXIV

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Os Dois Amores por Joaquim Manuel de Macedo
Capítulo XXXIV: A mulher de mantilha


A mulher de mantilha que tinha acabado de entrar, ficara em pé e silenciosa junto da porta.

Trazia tão fechada a mantilha, que apenas se podia descobrir os olhos, que eram negros e brilhantes.

— Minha senhora, disse Cândido, aqui está uma cadeira.

A desconhecida estendeu fora da mantilha um braço perfeitamente torneado pela natureza, e com uma mão delicada e fina tomando a de Cândido, puxou para si o mancebo com voz muito baixa disse:

— Eu preciso falar a sós com o senhor.

— Comigo? a sós?...

— Sim.

— Prefere conversar aqui mesmo, ou quer antes subir ao meu quarto?...

— Prefiro o lugar onde mais livremente puder falar-lhe.

A voz da desconhecida estava trêmula. Cândido pretendia debalde lembrar-se em que ocasião e onde tinha ouvido uma voz que se parecia com aquela. Sentia ao mesmo tempo uma curiosidade imensa de conhecer essa mulher que a tais horas e por tal modo o viera procurar.

— Minha mãe, disse ele voltando-se para Irias, a senhora quer falar-me sem testemunhas; eu vos peço licença para subir com ela ao sótão.

— Meu filho, respondeu a velha, a casa é tua; dá a mão à senhora.

Cândido ofereceu a mão à desconhecida e a guiou pelo corredor à escadinha do sótão.

A velha acompanhou a ambos com um olhar curioso, que se podia traduzir assim: que mulher será essa?... que relação haverá entre ela e Cândido?...

Uma única e fraca luz estava acesa no sótão do "Purgatório-trigueiro", e logo que aí entraram os dois, Cândido ia acender outra vela, mas a desconhecida o susteve, e disse-lhe:

— Basta a que existe.

O mancebo compreendeu que aquela mulher contrafazia a voz. Pretenderia ela não se dar a conhecer?...

— Perdoai, senhora, a desordem deste quarto, disse Cân­dido.

A desconhecida, sem responder à desculpa que lhe dava o moço, tomou uma de suas mãos entre as dela, e apertando-a fortemente, perguntou:

— O senhor é sensível?

— Prezo-me de o ser, senhora.

— Oh! sim; eu o sabia; mas há na natureza humana horas de inexplicáveis inconseqüências; horas em que um coração de malvado se dobra como a cera; e em que, também, um coração sempre cheio de piedade se mostra duro como a rocha.

— E o que pretende significar então com o que acaba de dizer?...

— Quero saber que hora é esta para o seu coração; porque eu preciso de toda a caridade de uma alma cristã...

— Senhora... uma palavra diz tudo: eu chorava quando lhe ouvi bater à porta.

— Chorava?

— Oh! chorava lágrimas de amor.

— Senhor, seria uma indiscrição perguntar-lhe por quê?

— Não, não; antes eu quereria dizê-lo a todos; eu chorava por minha mãe.

— Pois... eu pensava... o senhor...

— É certo, exclamou Cândido; é verdade! eu sou um mísero enjeitado!

— Mas então...

— Oh! é que, apesar de ser enjeitado, houve forçosamente um homem que foi meu pai, e uma mulher me concebeu! esse homem, senhora, é já morto... disseram-mo. Eu sou órfão de pai; mas minha mãe!... essa, diz-me o coração que ainda vive... e eu amo-a com todo este fogo de amor que Deus acendeu na minha alma! ...

— Sem conhecê-la?.

— Que importa? este amor não se gasta, não se esgota; este amor é como o fogo do sol, sempre o mesmo, ou cada vez mais ardente. Quando eu encontrar minha mãe... oh! que amar esse de então!

— É assim... é assim... tem razão, murmurou com voz comovida a senhora de mantilha.

— Uma mãe!... disse Cândido ternamente; uma mãe!... um ventre de mulher abençoado por Deus! oh! senhora, a maternidade é tão sublime, é tão sagrada, que foi por ela que Jesus Cristo se pôs em contato com os homens; foi pela maternidade que Deus salvou-nos!... amaldiçoado seja aquele que não ama a sua mãe.

— E chora?... perguntou a desconhecida chorando também.

— Oh! sim! eu choro... sempre, e muito.

— Por que, senhor...

— Porque eu me lembro que minha mãe pode ser desgraçada... porque talvez ela precise de um braço a que se arrime para fazer a perigosa viagem deste mundo, e eu não a conheço, não lhe posso estender meu braço... enxugar-lhe as lágrimas... ou chorar com ela!

— É assim!...

— Quando, senhora, eu encontro por essas ruas uma pobre mulher doente... mendicante... exposta aos insultos da gente desmoralizada... sendo talvez o objeto do desprezo de muitos... quando de noite, aproveitando as trevas, eu vejo passar junto de mim uma mulher envolta, como a senhora, em negra mantilha, estendendo, vergonhosa, uma mão emagrecida e trêmula para receber a mais chorada esmola... e eu me lembro que tenho no mundo uma mãe, que é por força uma mulher, que não é impossível que seja uma dessas que eu encontro. Senhora!... eu não sei nesses momentos o que desejo... eu toco quase ao desespero... desejo morrer... e não me mato somente porque sou cristão.

Ficaram ambos em silêncio por alguns instantes; ambos chorando, até que Cândido levantou a cabeça, e enxugando as lágrimas, disse:

— Desculpe-me, era a senhora quem devia falar, e eu a tenho ocupado falando-lhe de mim. Eu escuto.

— Não, respondeu a desconhecida; eu precisava ouvi-lo para animar-me.

— Pois bem; agora cabe-lhe dizer em que lhe posso ser útil.

— Senhor, disse a desconhecida, o amor de sua mãe é o único que existe em seu coração?...

— O único, não; eu amo a minha mãe adotiva; devo gratidão a algumas pessoas; e mesmo... amo mais alguém.

— Mas qual de todos esses amores será o maior, o mais poderoso?

O mancebo hesitou; mas depois respondeu com força:

— O de minha mãe.

— Seria capaz de sacrificar-se por esse?...

— Tudo.

— E se alguém lhe viesse pedir um obséquio tão grande que importasse um sacrifício, pelo menos temporário, e lho pedisse em nome de sua mãe?...

— Senhora...

— Se esse serviço que lhe viessem pedir, não o pudesse o senhor fazer sem ferir-se no coração, sem sentir doer-lhe a corda mais sensível dele; mas se, apesar disso, lho pedissem em nome de sua mãe...

— Eu não compreendo...

— Mas se no cumprimento de tal favor estivesse a salvação de uma mulher, que tem talvez idade de ser sua mãe...

— Senhora! fale...

— Oh! é o senhor quem deve falar agora: o que faria?

— Eu não sei de que se trata.

— É um favor imenso, que lhe venho pedir em nome de sua mãe...

— Eu o farei; se a minha honra, se a delicadeza não...

— Nada de condições.

— É impossível obrigar-me de outro modo.

— Em nome de sua mãe...

— Por minha mãe já eu jurei ser honrado e ser honesto...

— O que eu peço, senhor, não se opõe à sua honra.

— Servi-la-ei.

— Basta por alguns dias enganar um coração, martirizando o seu... eis aqui o sacrifício.

Cândido sentiu um calafrio terrível coar-lhe por todo corpo; pareceu adivinhar o que dele queriam, e exclamou:

— Mentir?!

— Por breves dias... mas dessa mentira depende a vida de uma infeliz mulher.

— Mentir! isso não, senhora.

A desconhecida abafou um grito doloroso, que lhe saía do peito.

— De que se trata, senhora? perguntou o mancebo com voz alterada.

A desconhecida, mostrando tomar uma resolução, ergueu-se e perguntou:

— Senhor, já aborreceu alguém em sua vida?...

— Não.

— Nem conserva a lembrança de nenhuma ofensa? nem se apraz de vingar-se quando lhe ofendem?

— Não, não.

— Sabe perdoar?

— Sou cristão.

— Oh! perdoar deve às vezes custar muito.

— Deve ser bem doce.

— Em uma palavra, senhor, tem piedade de uma mulher infeliz?

— Senhora... senhora... sou filho, filho amante, e não conheço minha mãe.

— Basta.

A desconhecida tomou o braço do mancebo, aproximou-se da mesa onde estava a luz, e arrancando de sobre si a mantilha, caiu de joelhos.

Cândido soltou um grito de espanto: acabava de reconhecer a filha de Anacleto.

— Senhora! erga-se...

— Não! não! pelo amor de Deus deixe-me ficar de joelhos.

— É impossível... eu não devo...

— Mas eu quero... e não direi nada... e ver-me-á sair como uma miserável condenada, se quiser obrigar-me a levantar-me.

— Senhora...

— Não... não!... em nome de sua mãe, por todos os seus amores juntos, outra vez pelo amor de Deus deixe-me falar de joelhos.

O mancebo cruzou os braços, e ficou ali em pé, com a cabeça caída para baixo, olhando para aquela mulher que de joelhos, com os braços apertados em cruz contra o peito, e com os olhos cravados no chão, começou a falar:

— Senhor, senhor, o que eu lhe venho dizer e pedir não se diz, não se pede senão a um homem de honra, de piedade e de religião.

— Fale, senhora.

— Eu devo parecer-lhe uma mulher má e intrigante; e todavia eu sou apenas muito desgraçada; ouça-me como um padre ouve no confessionário.

— Fale sem receio, minha senhora.

— Senhor... ia dizendo Mariana.

— Espere, disse Cândido interrompendo-a.

— A viúva levantou a cabeça, e por entre suas lágrimas viu o mancebo dirigir-se à escada e examinar se alguém os escutava. Abaixou de novo a cabeça quando Cândido voltava para ouvi-la.

— Estamos sós; pode falar.

Mariana principiou então a dizer com voz trêmula:

— Na primavera de minha vida, senhor, eu fui tida por formosa, e conhecia-me por sensível. Amei... a história do meu amor começa como todas as do mesmo gênero; mas acaba como as mais desgraçadas. Seduziram-me, senhor... e abandonaram-me! oh! mas o meu infortúnio se tornou mais doloroso hoje porque sei que uma de minhas cartas, exatamente uma em que eu lançava em rosto ao meu sedutor o estado em que me deixava, caiu nas mãos de um homem sem generosidade e sem nobreza, que com ela joga contra mim.

— Oh! esse miserável..

— O senhor o conhece; é um mancebo que freqüenta nossa casa; é...

— Salustiano...

— Esse mesmo. Oh senhor! que procedimento abominável o desse presumido jovem!... eu esqueço tudo quanto se tem passado entre nós dois, para dizer somente a minha desgraça.

— Relação comigo? exclamou Cândido.

— Salustiano, desde muito tempo que ama minha sobrinha, e que debalde trabalha por se fazer amado. Ultimamente, com seus olhos de amante zeloso, descobriu que Celina já amava... oh! adivinhou a verdade: o senhor sabe a quem minha sobrinha amava.

— Ah! senhora.

— Não o increpo. Ela e o senhor são dignos um do outro; mas o amante infeliz jurou levantar uma barreira entre os dois... e essa barreira... a pesar meu... a despeito de todos os esforços, essa barreira sou eu.

— É possível!...

— Com a carta em que eu confesso meu crime, ele me governa como senhor. Com o poder que lhe dá essa carta, ele me disse uma noite: "eu quero que as portas desta casa se fechem ao sr. Cândido!" E eu fui pedir-lhe que me levasse ao jardim, e lá menti, senhor, caluniei minha sobrinha, caluniei meu próprio coração... ousei significar-lhe que a sua presença nos incomodava... despedi-o de nossa casa, e depois fui chorar atrás de uma porta como uma louca!... oh! senhor! perdão! perdão! em nome de sua mãe!...

— A senhora não é criminosa, disse Cândido tristemente; é infeliz...muito infeliz.

— Mas o plano do monstro falhou. Apesar da sua ausência Celina o aborrecia como dantes, quando hoje...

— Hoje... repetiu Cândido.

—É preciso que eu diga tudo. Eu caso-me, senhor, ou pelo menos deverei casar-me antes de oito dias. Pois hoje Salustiano se apresenta em minha casa, e diz-me: "o meu! casamento com sua sobrinha seguirá de perto ao seu: eu o exijo! Se não...

... Oh! com estas palavras é que ele termina sempre.

— É incrível!... exclamou Cândido.

— Minhas observações, minhas súplicas, minhas lágrimas o não comoveram; e formalmente ordenou-me que eu viesse aqui pôr-me de joelhos a seus pés, e pedir-lhe, senhor, como lhe peço, que salve a meu pai, e que me salve!

— Salvá-la? e como?...

— Oh! é preciso ter muita coragem para pedir o que eu peço! é um sacrifício... mas estou de joelhos...

— Diga, senhora.

— O seu amor é que me mata! exclamou Mariana. Celina e o senhor me perdem...

— Ah! meu Deus! bradou Cândido apertando a cabeça com as mãos, porque acabava de adivinhar o que se lhe ia pedir.

— A carta fatal será minha, prosseguiu Mariana, se o senhor quiser deixar de aparecer a Celina por um mês ao menos, e escrever-lhe um bilhete mentindo, senhor!... mentindo... matando-se...

— Diz bem... matando-me...

— Oh! por piedade! exclamou a viúva abraçando-se com as pernas do mancebo; por compaixão! pelo amor de sua mãe!... não me deixe assim morrer desonrada...

— Senhora... mas eu hei de dizer que não amo a esse anjo de beleza e candura... a essa pomba celeste?...

— Senhor... senhor... eu tenho arrastado meu rosto pela terra, que pisam os seus pés... eu peço misericórdia!

— Sacrificar... cooperar para que se sacrifique uma virgem cheia de encantos e virtudes a um monstro... oh! é um crime!

— E eu? e eu então!...

— É um castigo! a Providência pune de mil maneiras neste mundo. Se eu pudesse sofrer só, senhora, para dar-lhe todo sossego, toda ventura que deseja, eu sofreria sem hesitar; mais uma moça inocente! enganá-la, e enganá-la quando apenas foi hoje que comecei a acreditar na possibilidade de um futuro, que seria a vida do paraíso?!

— Oh! pois bem, disse com voz concentrada e terrível a viúva; nada de piedade... nada de misericórdia para mim... eu sei bem que não as mereço; porém meu pobre pai!

— O sr. Anacleto?...

— Amanhã... depois de amanhã... daqui a três ou quatro dias, ao muito, o meu terrível inimigo se apresentará diante do cansado e amoroso velho. Eu o estou vendo, senhor, magro... pálido... melancólico... com a cabeça branca, embranquecida pelos cuidados que comigo teve, e pelos desgostos que lhe eu tenho dado; ele estende temeroso a mão para receber uma carta, que o monstro lhe vai entregar... oh! ele a lê... é a desonra de sua filha... é a mão da maior desgraça que o empurra para a cova... oh! o pobre velho não pode mais com a vida... ve-me chorando, e perdoa-me!... mas chora, por sua vez! o resto da vida que ainda tinha ele o desfaz em lágrimas! chora e morre!...

— Ah! senhora! que imagem!

— No entanto, senhor, nós ficamos no mundo; prosseguiu com ironia desesperadora a viúva. Celina é sua... o amor os liga... a religião soldou os laços; mas quando ao anoitecer o sr. Cândido voltar para casa no meio dessas mulheres doentes... andrajosas... trazendo no rosto a cor amarelenta da miséria, ou melhor, senhor, a cor de todas as misérias; magras, abatidas, mendicantes; aparecerá um vulto mais tocante que todos aqueles vultos... ao menos para o sr. Cândido. Serei eu, senhor! estenderei a minha mão para receber um vintém... e depois... vagarosa... desvairada... louca, eu me irei retirando e balbuciando duas palavras que resumirão toda a minha história!... crime e miséria!...

— Basta, senhora!

— E de noite, senhor, no leito de amor, mesmo junto de Celina, a hedionda figura da mendiga há de aparecer na sua imaginação, e ainda mais... a mendiga há de estar apontando para um sepulcro... o sepulcro há de se ir abrindo... e de dentro dele irá saindo branca... branca a cabeça de um velho... e o rosto deste velho há de ir aparecendo horrivelmente contraído diante da miséria da mendiga!... serão dois espectros... um pai e uma filha! um pai morto de desgostos... uma filha perdida pelo crime e pelos remorsos! serão dois espectros, senhor, Anacleto e Mariana.

— Basta, senhora!... exclamou de novo Cândido, cuja imaginação ardente dava cores ainda mais vivas ao horrível quadro que lhe traçava a viúva.

— Piedade!... misericórdia!... dizia esta sem cessar, abraçando-se com as pernas do mancebo.

— Oh! meu Deus! meu Deus!...

Um pensamento novo e atrevido, uma dessas idéias rápidas, brilhantes, felizes, dignas somente de uma imaginação de mulher, brilhou nos olhos de Mariana.

Ela ergueu-se, enxugou as lágrimas, e com voz segura perguntou a Cândido:

— Que idade tem, senhor?

— Vinte e um anos.

— E eu tenho trinta e seis, disse ela.

— Que quer dizer?...

Mariana, com os olhos em fogo, e um sorrir nervoso, murmurou com voz trêmula e vagarosa:

— Mancebo, sabes tu se eu sou tua mãe?!

Cândido soltou um grito surdo, que lhe saiu do íntimo da alma.

— Senhora, pela vida de seu pai, exclamou ele depois de vencer a primeira e profundíssima impressão que as palavras de Mariana lhe produziram. Diga-me a verdade; de que idade cometeu essa falta de que se acusa?...

— Aos quinze anos, respondeu Mariana com tom grave.

— Quinze para trinta e seis... vinte e um!... é a minha idade!...

— Sem dúvida: teria vinte e um anos! balbuciou lugubremente e a tremer a viúva.

— Oh!... é certo!... a senhora deveria ter um filho?...

— Deveria! respondeu Mariana; e tremia convulsivamente: deveria!

E a idéia do maior dos seus crimes dava mil punhaladas no coração da infeliz mulher.

— Meu Deus!... meu Deus!... quem sabe? quem me arranca desta dúvida?...

— Senhor, disse a viúva, não procurará aparecer a Celina?...

— Não!... não!...

— Está pronto a escrever o bilhete?

— Sim... estou pronto.

— Sente-se e escreva; eu dito.

Cândido sentou-se; tomou papel e pena, e escreveu o que lhe ditou Mariana.

Senhora. Eu parto; eu fujo para sempre de vossos olhos; tenho remorsos... fingia amar-vos... iludia uma inocente moça; os remorsos abriram-me os olhos. Per­doai aquele que antes quer parecer ingrato do que con­tinuar a ser um monstro. — Cândido.

O moço escreveu sem hesitar; assinou com a mão firme, fechou o bilhete, e voltando-se para a viúva entregou-o e disse:

— Eis aí a morte do mais puro dos amores. Mas agora, em troco do que acabo de fazer, protesta dizer-me a verdade a respeito do que lhe vou perguntar?

— E primeiro o senhor jura que cumprirá o que me prometeu, qualquer que seja a resposta que eu lhe der?...

— Juro.

— Pela alma de seu pai?

— Pela alma de meu pai.

— Pelo amor de sua mãe?...

— Pelo amor de minha mãe.

— Bem: pode perguntar.

— Senhora, diga-me, em nome do céu, é verdade tudo quanto dizia há pouco?...

— É verdade.

— Senhora! exclamou Cândido caindo aos pés de Mariana, vós sois minha mãe!..

— Oh!... pobre moço!... balbuciou a viúva.

— Vós sois minha mãe!... continuou ele beijando a barra do vestido de Mariana; vós sois minha mãe! desde muito o coração dentro do peito mo dizia; sem saber por que, eu vos amava com um amor cândido e belo, como somente é o amor filial; eu vos olhava com santo respeito; a vossa voz soava dentro de minha alma; vossos sorrisos me animavam! quando eu pensava em minha mãe, vossa graciosa figura se desenhava diante de mim!... em meus sonhos de filho vinha um anjo, e apontava para uma mulher, cujo rosto estava coberto com um véu, e me dizia "eis aí tua mãe". Eu corria para essa mulher, arrancava-lhe o véu, e o rosto que eu via era o vosso. Ah! vós sois minha mãe!... bendito seja Deus! vós sois minha mãe!...

Mariana sacudiu tristemente a cabeça, e respondeu:

— Não sou sua mãe.

— Onde está pois vosso filho?...

A viúva tornou a tremer da cabeça até os pés, e, apontando para cima, disse:

— Está no céu.

— Morto!...

— Sim, morreu...

Mariana deveria ter dito — matei-o; por isso sua resposta foi como um surdo gemido.

Cândido ficou petrificado.

A viúva envolveu-se de novo em sua mantilha, e despediu-se dizendo:

— Eu o deixo; um dia Deus lhe pagará o que vai fazer por mim.

E partiu.