Os Dois Amores/XXXV

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Os Dois Amores por Joaquim Manuel de Macedo
Capítulo XXXV: Salustiano


A casa em que morava Salustiano, e que ele havia herdado de seu pai, rico e honrado negociante, estava situada em uma das mais freqüentadas e comerciais ruas da cidade do Rio de Janeiro.

Importa tão pouco saber o nome dessa rua como descrever essa casa. É de sobra dizer que ela era de dois andares, e que no segundo andar tinha Salustiano estabelecido o seu gabinete particular, com o qual se comunicava o quarto em que dormia.

No dia que seguiu a noite amarga em que Mariana tanto tempo se deixara ficar ajoelhada aos pés de Cândido, estava Salustiano em seu gabinete ocupado em examinar diversos papéis e livros mercantis, trabalho em que o ajudava um velho alto, de rosto vermelho e de cabeça calva.

Esse velho chamava-se João, e era o agente principal da casa de Salustiano.

João era um homem de poucas palavras, de olhar atrevido, de gênio de fogo, de coração bom, e de têmpera de ferro.

Pela volta das onze horas apareceu um caixeiro à porta do gabinete, e disse:

— Está aí o sr. Jacó.

— Que entre para aqui, respondeu Salustiano.

O caixeiro retirou-se,

— Sr. João, continuou Salustiano, suspendamos este trabalho. Tenho que falar a sós com o homem que acaba de ser anunciado. Desça ao primeiro andar e logo que se retirar aquele que nos veio interromper, suba de novo para continuarmos a trabalhar.

O velho, sem dizer palavra, limpou a pena com que estava tomando notas, prendeu-a atrás da orelha, e saiu.

Quando ia descendo a escada, vinha subindo o homem que se anunciara.

O caixeiro que acompanhava o homem reparou que, contra todos os seus hábitos, o velho João tratou aquele sujeito com familiaridade e vivas demonstrações de estima.

Os dois apertaram fortemente as mãos, disseram finezas e mostraram-se mutuamente amigos.

Era um fato admirável na vida de João.

Finalmente o recém-chegado foi introduzido no gabinete de Salustiano, e o caixeiro deixou os dois a sós.

O homem sentou-se na cadeira em que antes estivera sentado João.

Era ele baixo, um pouco gordo, e um pouco calvo; tinha olhos vivos, e mostrava-se alegre. Vinha vestido de fraque roxo abotoado até em cima, e de calças pretas. Calçava botinas de cordovão de lustro, e chamava-se Jacó.

Já não pode haver dúvida nenhuma; era o escrivão que morava na rua de... exatamente defronte do "Céu cor-de-rosa".

Travou-se entre Jacó e Salustiano a seguinte conversação:

— Muito bem, senhor Jacó: o senhor é sempre pontual.

— É um hábito da vida passada; quando eu era escrivão, chegava à casa dos juízes sempre dez minutos antes da hora das audiências.

— Não é esse o seu único mérito: o senhor é capaz de descobrir o maior segredo deste mundo.

— A vida passada! a vida passada! o tino, a prática dos interrogatórios...

— Vamos pois; que notícias me dá?

— Poucas, porém boas.

— A elas, meu caro.

— Ontem, depois das onze horas da noite, a lua estava clara como o dia...

— Dispenso todos os segredos que o senhor possa ter descoberto na lua.

— Hábitos da vida passada! nos corpos de delito o luar é uma circunstância que sempre se faz notar... as vezes importa muito.

— Adiante.

— Bem: pouco depois das onze horas da noite saiu do alpendre do "Céu cor-de-rosa" um vulto de mulher...

— Oh!

— Envolvia-se em uma mantilha: era com efeito uma mulher.

— Está bem certo disso?

— Sim; o andar era majestoso e engraçado... aquela mulher nunca tinha usado mantilha.

— Por quê?

— Porque envolvia-se nela como em um xale. Mas o andar, que era majestoso e engraçado, era ao mesmo tempo tão delicado, as passadas tão curtas e ligeiras, que não podia deixar de ser o andar de uma mulher.

— Bem; e depois?

— Foi direitinha à porta do "Purgatório-trigueiro".

— Ah!

— Tirou debaixo da mantilha e estendeu para fora um lindo braço, e com formosa mão...

— Então viu também que o braço era lindo, e a mão formosa?

— Sem dúvida; porque em um dos dedos dessa bela mão havia um anel de brilhantes.

— Oh! que homem admirável; até nisso reparou! como pôde ver esse anel?

— Brilhou, como só brilha uma pedra de alto preço.

— Está bom... deixemos o anel.

— Ao contrário: o anel é uma circunstância muito importante. Ele só, vale uma prova no libelo acusatório.

— Por quê?

— Porque a viuvinha recebeu há três dias da mão de seu noivo um anel de brilhantes, e não o tirou mais do dedo.

— Como soube disso?

— Uma escrava da viuvinha o contou lá à senhora.

— Por conseqüência?

— Por conseqüência recaem todas as suspeitas sobre a viúva.

— E que mais?

— A mulher de mantilha bateu à porta do "Purgatório-trigueiro", abriram-lha, ela entrou, e esteve lá mais de uma hora.

— E depois?

— Voltou para o "Céu cor-de-rosa".

— Não sabe mais nada?

— Sei que a tal senhora tirou a mantilha dentro do "Purgatório-trigueiro".

— Isso importa pouco; mas como o soube?...

— Porque, quando ela foi para lá, a mantilha arrastava pelo lado esquerdo, e quando voltou, estava muito mais curta desse lado, e ia varrendo a rua pelo outro.

— Sabe só isso?

— Não: sei ainda mais alguma coisa.

— Vá dizendo.

— O velho coruja vai todos os dias conversar com a velha bruxa.

— Ontem?

— Esteve lá ao anoitecer.

— Hoje?

— Para lá foi ao romper do dia.

— De que tratou?

— Sempre do amor do enjeitado e da órfã.

— De que trataram hoje? o que disseram?

— Não pude saber: o diabo da velha, quando o coruja entrou, mandou a negra fazer as compras para o almoço.

— Tem ainda alguma coisa a esse respeito para dizer?

— Por hoje mais nada.

— Então pode voltar depois de amanhã às mesmas horas.

— Serei pronto. Nunca me esqueço o quanto convém ter em lembrança os dias de aparecer nos casos de apelação.

— Estamos justos.

As últimas palavras de Salustiano significavam uma despedida; mas Jacó ficou firme em sua cadeira com o semblante prazenteiro, e os olhinhos vivos como sempre.

Salustiano pareceu incomodar-se com a demora de Jacó, e disse:

— Quer mais alguma coisa?

— É provável.

— Diga.

— Quero que me dê cem mil-réis.

— Oh! há três dias que lhe dei igual quantia.

— Sim, respondeu o ex-escrivão soltando uma risada; mas V. Sa. esquece-se de que agora temos dois negócios.

— Dois? como é isso?

— Pois então?... agora tem V. Sa. de pagar-me o trabalho de ser o espião de polícia e dos seus amores.

— Convenho.

— E depois... aqueles papéis...

— Oh! o senhor é exigente demais! por aqueles papéis, disse Salustiano empalidecendo, deu-lhe meu defunto pai por uma só vez quatro contos de réis.

— Sim... sim... mas por causa daqueles papéis estive na cadeia oito meses e perdi o meu querido ofício.

— E faltou à sua palavra!

— Como é isso?...

— O senhor havia recebido quatro contos de réis para queimar o processo.

— Assim era eu tolo! aqueles papéis são verdadeiras letras de dinheiro, que eu tenho a juros.

— E nem ao menos se lembra de que já não poucas vezes o tenho liberalmente socorrido?

— Sim; mas V. Sa. tem obrigação restrita de pagar-me perdas e danos.

— Em uma palavra e para acabar de todo com estas questões, o senhor quanto quer receber de uma vez por esse processo?...

— Cedendo-lhe todo o direito que tenho a ele?

— Por certo.

— Chama-se a isso queimar a minha fortuna, disse sossegadamente o ex-escrivão.

— Enfim...

— Enfim... dar-lhe-ei esses papéis com a mão direita, exatamente no momento em que V. Sa. me depositar na esquerda uma quantia igual à que me deu o senhor seu pai.

— Quatro contos de réis! é muito!

— Então não temos nada feito. Conservarei o processo.

— Oh! mas é preciso acabar com isto; quando volta o senhor aqui?

— Já disse que dou grande importância aos dias de aparecer: depois de amanhã virei receber as suas ordens.

— Traga-me o processo.

— Dar-me-á os quatro contos? Sim.

— Palavra de honra?

— Sim.

— Bem. Às ordens de V. Sa.

— Até depois de amanhã.

— Mas ah! disse Jacó suspendendo-se, pois que já ia saindo, falta ainda alguma coisa.

— O quê? perguntou Salustiano.

— Os cem mil-réis.

— Ainda!

— São juros vencidos; a satisfação do principal é conta à parte.

— Depois de amanhã...

— Perdoe-me V. Sa., mas eu preciso hoje dessa quantia.

Salustiano arremessou-se para dentro do seu quarto; Jacó estendeu o pescoço, e viu o mancebo abrir uma carteira de jacarandá já meio usada, e tirar dela alguns bilhetes.

Salustiano, na agitação em que estava, deixou a chave na carteira, e voltou ao gabinete com o dinheiro.

— Eis aqui os cem mil-réis, disse ele entregando os bi­lhetes a Jacó.

O ex-escrivão, apenas recebeu o dinheiro, tomou o chapéu, fez uma profunda cortesia ao moço, e foi saindo.

Salustiano o seguiu de perto, e desceu com ele as escadas.

Pouco depois de haverem os dois deixado o gabinete, entrou João.

O velho ia sentar-se na cadeira que pouco antes havia ocupado, quando notou que a porta do quarto de Salustiano estava aberta.

Dirigiu-se imediatamente para o quarto, e apenas chegou ao limiar da porta, soltou uma exclamação:

— Enfim!

E lançou-se para a carteira. Abriu-a, apertou com o dedo polegar uma mola que havia do lado esquerdo, e no fundo da gaveta desse lado abriu-se um escaninho.

Com prontidão e destreza tirou o velho alguns papéis, que aí se achavam. Eram pela maior parte cartas.

João as foi examinando, e passando por elas sem abrir, até que parou em uma que não tinha sobrescrito.

— 12ª! exclamou o velho; enfim!

Abriu a carta e leu:

"Senhor, maldita seja a hora em que nos vimos. Esse amor fatal com que eu vos amava, e que fingistes votar-me para que eu me perdesse, se já desapareceu para nós, a nós deve ter deixado o tormento dos remorsos. Vós me fizestes a mais desgraçada, e eu me fiz a mais criminosa das mulheres. Vós me perdestes, e eu ia ser mãe, e não quisestes ser diante dos homens o pai de vosso filho. Pois bem, sabeis o que eu fiz? tremei... horrorizai-vos: eu matei meu filho; dentro de meu ventre cavei-lhe a sepultura. Agora... preparemo-nos. Teremos de dar contas a Deus, vós da honra, da inocência de uma mulher, e eu da vida de um inocente. Senhor... somos dignos um do outro; nasceram para se encontrar no mundo vós e

Mariana."

— Enfim, repetiu o velho guardando a carta no bolso.

— Enfim!... bradou Salustiano lançando-se sobre João.

O velho recuou dois passos.

— Que veio fazer aqui? perguntou o moço.

— Vim realizar o que desde muito premeditava, respondeu friamente o velho.

— Que tirou daquela carteira?

— O que não lhe pertencia.

— Uma carta!

— Sim.

— Restitua-ma.

— Não.

— Oh! Sr. João!...

— Não, já disse.

— É porque não sabe que essa carta é tudo para mim.

— É por essa mesma razão.

— Por bem ou por mal, senhor, eu hei de reconquistar essa carta.

— Veremos.

— O senhor abusa do respeito que sempre lhe consagrei.

— E o senhor desonra o nome de seu pai.

— A carta!

— Nunca.

Salustiano atirou-se sobre o velho; os braços de ambos se entrelaçaram; e lutaram.

Longa foi a luta, e por fim triunfou o mancebo.

Com um joelho sobre o peito de João, Salustiano bra­dou-lhe:

— A carta!

— Nunca! respondeu o velho com voz sufocada.

O moço, apesar de todos os esforços de João, lançou a mão no bolso deste, e apoderou-se da carta.

Deixou então livre o seu adversário, e erguendo-se estendeu o braço, e mostrou-lhe com o dedo trêmulo a porta:

— Para sempre fora de minha casa! disse em desordem, e a raiva no coração. O velho respondeu:

— Sim; mas não para sempre; porque hei de voltar para vingar-me.

E saiu.