Os Filhos do Padre Anselmo/III

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Os Filhos do Padre Anselmo por António José de Albergaria
Capítulo III: Pae e filha


Emquanto o pupillo do padre Filippe e de madre Paula busca a maneira de realisar os dourados sonhos da sua imaginação juvenil, queira o leitor acompanhar-nos a casa do pae de Beatriz e travar conhecimento com o sombrio progenitor da encantadora menina.

Não tendo nós os mesmos motivos de Paulo para occultar do pae as relações com a filha, justo é que busquemos o conhecimento de ambos e entremos na intimidade dos dois para melhor podermos avaliar o caracter de cada um e apreciar os acontecimentos que vão desenrolar-se aos nossos olhos.

Á hora a que entramos, está o sr. Custodio de Jesus sentado á secretária do seu gabinete, fazendo contas e archivando documentos que parece lhe são muito uteis, pela attenção e minuciosidade com que os examina e pelo cuidado com que em seguida os guarda emmaçados e rodeados de uma larga cinta de papel branco, em que se lê n'uma excellente letra garrafal, a palavra — Hypothecas.

— Estas bem estão — murmura elle coçando distrahidamente com a mão direita a vasta suissa grisalha, talhada em fórma de foucinha e franzindo o labio superior completamente rapado á navalha, talvez para facilitar a passagem do meio grosso destillado e liquifeito em repetidas pitadas nas profundezas insondaveis de um nariz que exteriormente apresenta a configuração e o aspecto de um capacete de alambique — Estas bem estão... O peor são as outras...

Passou a examinar segundo maço, mostrando no rosto evidentes signaes de mau humor.

— Aqui está! — disse elle, batendo com a mão espalmada sobre os papeis — Mais de cincoenta contos em hypothecas que não pagam ha um anno um real de juro! Ladrões! E agora são capazes de ainda vir fazer questão para juizo e arranjar-me a tramoia de modo que eu não fique com as propriedades pelo preço da louvação...

Como correspondendo a estas reflexões, que accusavam no sr. Custodio de Jesus um agiota costumado a perseguir as suas victimas até as espoliar em leilão, nos tribunaes, abriu-se a porta do escriptorio e entrou por ella um homem alto, espadaudo, porém excessivamente magro, usando uma comprida barba que quasi lhe chegava á cintura e que lhe dava á physionomia um aspecto carregado, ameaçador, capaz de apavorar o mais remisso devedor, o mais teimoso dos litigantes.

Este homem entrou como pessoa intima na casa, cerrou a porta sobre si, dirigiu-se a uma cadeira que estava devoluta junto da secretária, e sentou-se sem mesmo se dar ao incommodo de tirar o chapéo que lhe ensombrava o barbudo rosto.

Ao vêl-o, o sr. Custodio de Jesus teve um sorriso de intimo contentamento e exclamou:

— Estava agora mesmo a pensar em você, amigo Belchior!

— Aqui me tem. Os amigos lembram sempre na occasião... Não vim mais cedo porque tive de ir ao tribunal requerer um arresto... E amanhã tenho outro... Isto é um nunca acabar de caloteiros, que só gostam de comer e não pagar! Mas aquelle que me cahe nas unhas e tem por onde pagar, amola-se! Deixo-o expremido que nem um limão.

— É o que eu preciso que se faça a estes tratantes que aqui estão com o juro por pagar! — exclamou o sr. Custodio de Jesus, apontando para as escripturas que tinha diante de si.

— Não se afflija, que isso é negocio de pouca demora... Qualquer dia tratamos d'isso. Sabe ao que eu cá venho?

— Você o dirá, amigo Belchior.

— O rapaz, pelas informações que tenho d'elle, e um partidão!

— Sim?

— Não imagina! É mesmo mais rico do que eu supunha... O melhor que temos a fazer é não perder tempo e tratarmos de aferventar isto quanto antes.

— Você bem sabe que o caso não é para pressas, amigo Belchior... Eu mesmo tenho receio do rapaz... Diz você que elle tem uma grande fortuna, e eu mesmo não duvido que assim seja, mas quem é que me assegura que elle não tem a maior parte dos haveres compromettidos, ou que não possa vir a compromettel-os?

— Quanto á primeira hypothese, posso affirmar-lhe que o rapaz tem sido estroina, tem gasto em passeios, em ceias com as actrizes, tem finalmente pago o seu tributo á mocidade... Mas todas essas rapaziadas não teem desfalcado o rendimento, que é grande... Quanto á segunda hypothese, é provavel que elle, depois de casar com sua filha, mude de feitio e comece a portar-se como homem sério... Mas se o não fôr, tanto melhor...

— Tanto melhor, como? — interrogou o sr. Custodio de Jesus, indignado. — Então é melhor que minha filha case com um valdevinos, um dissipador, um extravagante? Bonita moral a sua, seu Belchior! Pois eu, meu amigo, desde já lhe declaro que o que tenho me custou muito a ganhar, e não é para o vêr dissipado em patuscadas e ceias ás actrizes!

— O meu amigo Custodio de Jesus saberá muito bem como é que se ganha dinheiro, como se descontam letras e se empresta a juro sobre hypotheca; mas o que não sabe é nada de jurisprudencia — disse o Belchior com emphase. — É preciso que o meu amigo se lembre de que sou solicitador ha mais de vinte e cinco annos, e que, durante todo este tempo, tenho adquirido conhecimentos que me habilitam a segurar o que é meu e o que é dos meus constituintes...

— Não digo que não, mas essa theoria, com franqueza, não me agrada... Lá que o rapaz tenha tido estroinices, emfim, não é bom precedente, mas desde que elle ainda possue uma casa grande, de vasto rendimento, tudo se lhe póde perdoar e esquecer com a condição de mudar de vida e de costumes dissipadores, logo que ligue o seu destino ao de minha filha. Mas agora achar melhor que elle continue nas suas dissipações e loucuras, do que se emende e seja um bom marido, isso é que me não entra cá!

— É o que eu digo! — volveu o procurador com desdem — não sabem nada da lei e mettem-se a discutir com quem conhece a letra dos codigos!

— Os codigos, amigo Belchior, pódem dizer o que quizerem, mas o que elles não pódem é metter-me em cabeça que um marido estroina é muito melhor do que um marido economico, morigerado e amante de sua mulher.

— É porque o amigo e sr. Custodio de Jesus — respondeu o procurador, formalisado — não sabe que a lei faculta uma acção de interdicção contra o marido prodigo, e confere a administração do casal a uma ou mais pessoas de familia.

O Custodio de Jesus arregalou os olhos, espantado.

— O quê? O que é isso? Explique lá, homem, que eu não percebi bem.

— Não tem que explicar. Não se fazem escripturas, de modo que a noiva tem a meação nos haveres de seu marido, como o marido a tem nos haveres da mulher. Ora a administração do casal pertence de facto e por lei ao marido; mas se este, em vez de administrar parcimoniosamente, se entrega a dissipações e patuscadas escandalosas, á mulher assiste o direito de requerer a interdicção do marido e pôr-lhe uma tutela que, n'este caso, poderia muito bem ser exercida pelo meu amigo o sr. Custodio de Jesus... Ora percebe agora a razão por que eu digo que mais valerá que elle continue a affirmar-se um estroina, um dissipador de marca?

— Realmente você, amigo Belchior, é uma cabecinha privilegiada! exclamou enthusiasmado o pae de Beatriz. — Porque não estudou você para doutor?

O procurador sorriu com bonhomia e encolheu os hombros com despreso:

— Não me faz falta — disse. — Conheço tão bem a lei como aquelles que fôram a Coimbra. Por isso lhe digo, não deixe perder esta bella occasião de apanhar uma fortuna, que decerto lhe não voltará tão cedo a bater á porta outra igual... Case a pequena quanto antes com o doidivanas que se lhe offerece, e deixe o caso por minha conta.

— Eu já disse á minha Beatriz que fazia muito gosto em que ella acceitasse por marido este rapaz...

— E ella, o que respondeu?

— Como o meu amigo póde bem avaliar, minha filha, que até agora não tem pensado em casamento, caiu das nuvens quando lhe fallei em casar.

— Mas manifestou repugnancia em acceitar o marido que se lhe propõe?

— Ella pediu-me que a deixasse pensar na resposta... Emfim... deseja consultar o seu coração, e isso não se lhe póde levar a mal...

— Bem! Mas supponha que ella recusa...?

— Que motivo terá para recusar quando sabe que a minha vontade é que este casamento se faça e quando o noivo é realmente uma bella figura, capaz de captar as sympathias da menina mais exigente?

— Mas supponhamos que recusa! — Insistiu ainda o procurador.

— Não posso suppôr tal cousa, porque não estou habituado a que, em minha casa, alguem tenha vontade differente da minha.

— Nas pequenas questões da vida domestica, d'accordo... eu creio que o meu amigo tenha sido e continuará a ser completamente obedecido... Mas n'este caso talvez não encontre a mesma cega obediencia que suppõe...

— Por que?

— Porque as mulheres, quando encarreiram as suas affeições para um lado, não ha diabo que as faça voltar para outro, amigo e sr. Custodio...

— O que quer dizer com isso, amigo Belchior?

— Quero dizer que se a Beatrizita já tem por ahi namoro que lhe faça andar a cabeça á roda, ao meu amigo não lhe será tão facil como julga o fazer que ella obedeça á sua vontade...

— Namoro! A minha Beatriz é uma creança de dezeseis annos e não pensa n'essas tolices! — protestou o sr. Custodio de Jesus encrespando o sobr'olho. — Isso é bom para aquellas raparigas que são educadas á redea solta e que não teem paes que lhes saibam dar educação... Namoro! Eu admittia lá que uma filha minha tivesse namoro!

— As filhas nunca pedem licença aos paes para essas coisas... — commentou o outro.

— As filhas que não respeitam os paes ou que não teem paes que se façam respeitar, d'accordo. Mas em minha casa não se dá isso...

— E se se desse?

— Se se desse! Você sabe alguma coisa, Belchior?

— Se se desse, é o que eu pergunto? — retorquiu o procurador com um sorriso mysterioso.

— Se se desse, ia ahi tudo com seiscentos diabos! Fechava a rapariga n'um quarto, que não tornava a vêr sol nem lua, emquanto não fosse á egreja casar com quem eu dissesse! — bramiu o sr. Custodio de Jesus, assentando furioso murro sobre as escripturas das hypothecas em divida. — Mas você sabe alguma coisa? Homem, seja franco!

— Pois então fique o amigo Custodio sabendo que temos moiro na costa e que a pequena... mas você não vá agora fazer asneira... estas coisas levam-se com prudencia...

— Diga, diga, homem! — insistiu o capitalista afflicto. — Sabe que a minha filha...

— Tem um namoro. E então? É a coisa mais natural d'este mundo.

— Você falla serio?

— Não costumo brincar com coisas d'estas. Quando eu lhe digo que sua filha se corresponde com um rapaz a quem vae fallar da janella para a rua todas as noites, é porque tenho d'isso a certeza.

Custodio de Jesus levantou-se de um salto como mordido da tarantula.

— Você não me repita isso nem a brincar! — bramiu elle — porque eu vou-me áquella desavergonhada e racho-a!

— Mau! assim não fazemos nada! — reprehendeu o procurador — Aqui o que convem é saber o que se passa e tratar de encaminhar as coisas de modo que o projectado casamento com o nosso rapaz se realise o mais breve possivel...

— Mas quem é, quem é esse outro que ella namora?

— É um estudantito... um rapaselho.

— Rico? — interrogou o Custodio arregalando os olhos.

O procurador soltou uma gargalhada.

— Você, amigo Custodio, cuida que os rapazes ricos andam por ahi aos pontapés! Isto hoje é tudo uma pelintrice, você bem o sabe... Quando apparece um como o Eugenio, é um milagre! Porisso é que eu digo: vamos a deitar a unha a este, porque se o deixamos escapar não apparece outro tão cedo...

O Custodio de Jesus passeava agitado pelo aposento, quasi sem prestar attenção ás palavras do procurador.

— Mulheres! Raça maldita! Nasceram só para enganar! — blasphemava elle — Até esta, de 16 annos, creada com todo o recato, longe das sociedades, retirada das más companhias, até esta, que parecia uma innocente, me sae á ultima hora a corresponder-se com um namoro, sem que eu, que sou pae e ando sempre com mil cuidados e cautelas a vigiar-lhe os menores movimentos, tenha dado por isso!

— Amigo Custodio — obtemperou o procurador — não vale a pena affligir... Não é caso de morte de homem ou casa queimada... Que diabo! eu disse isto porque entendo que a você, como pae, convem saber o que se passa para saber como ha de proceder...

— Como hei de proceder sei eu! — rugiu colerico o pae de Beatriz — Ponho-a de pé descalço a fazer o serviço da casa, a varrer, a lavar a louça, a cosinhar, para lhe tirar o vicio! Se tem sentimentos de criada de servir, que seja criada de servir em tudo!

— Homem, eu desconheço-o! — reprehendeu severo o Belchior — Tinha-o na conta de um homem de juizo, um homem prudente que sabe o que lhe convem e que respeita os seus interesses, e você sae-me a querer fazer tolices e disparates que não lembram a ninguem!

— É que você não sabe o odio que eu tenho ás mulheres! — explicou o Custodio — Esta filha veio para meu castigo!

— Não veio para seu castigo nada! Apparece-lhe um casamento bom para ella, um casamento de primeira ordem? Aproveite-o, trate de a casar por bem ou por mal... isso sim, senhor! Mas agora romper no excesso de a pôr a fazer de servilheta, isso é dar murros em si proprio, amigo Custodio. Ora imagine que você faz isso, e a pequena desesperada lhe foge... E depois? Você desherdal-a não póde, porque ella é sua filha. Além d'isso; já não tem mãe e mais tarde ou mais cedo tem que entrar na posse da herança materna... Homem, prudencia!... levemos as coisas por bem, que é melhor...

— Tem razão! — concordou por fim o Custodio — Mas olhe que é para um homem arreliar! Não ha ninguem mais infeliz com as mulheres do que eu! — desabafou com o desespero de quem tocou a méta do soffrimento — Eu fui casado duas vezes... A primeira mulher, a Carlota, sahiu-me uma bebeda, uma desavergonhada que toda a vida me atraiçoou com um padre em quem eu tinha toda a confiança e que até por ultimo me roubou, levando-me tudo, deixando-me a pedir uma esmola!... Veja lá você! Eu era um bolas que não sabia nada do mundo, via Deus no céo e a mulher na terra, tudo o que ella dizia era o que se fazia, e afinal o pago que me deu foi aquelle! Tambem a levou o diabo, que lá se envenenou em Lisboa, e tão infame que até á hora da morte deixou um bilhete a dizer que se matava por minha causa! Isso foi uma coisa muito fallada, até andou nas gazetas...

— Espere lá!... D. Carlota? Tenho ideia de lêr isso...

— Foi ha dezoito annos...

— Sim... ha de haver esse tempo, ha de...

— Pois, meu amigo, o ladrão do padre arranjou-me uma tramoia de umas letras que eu acceitei a um outro maroto como elle, um tal João Ignacio...

— Bem sei! Conheço perfeitamente. Esse homem tambem parece que deu com tudo á costa. Até esteve doido, e a sua mania é que tinha sido roubado por um padre...

— Era o mesmo... o padre Anselmo! Um ladrão, um malandro com capa de santo, que foi a minha desgraça! Se não fosse elle metter-se-me com a mulher e roubar-me tudo, eu tinha a estas horas mais de quatrocentos contos!

— Vamos lá! — observou sorrindo o procurador — Parece que ainda lhe não levou tudo, porque você, amigo Custodio, está possuidor de capitaes muito avultados.

— Á custa de muito trabalho e depois do segundo casamento para cá — explicou o Custodio.

— Não sei como você, depois de ser tão infeliz com a primeira mulher, ainda caiu em casar segunda vez.

— Que remedio tive eu! Não foi por minha vontade, não... Mas eu fiquei, como o outro que diz, sem eira nem beira nem ramo do figueira. Appareceu-me uma mulher que tinha ido em nova para o Brazil e que por lá arranjou uns contos de reis e esta filha com que voltou a Braga...

— Ah! então Beatriz...

— Não é minha filha, mas eu perfilhei-a no acto de casar com a mãe, e ahi é que eu quero chegar... A bebeda, a grande desavergonhada enganou-me!

— Enganou-o... quem?

— A minha segunda mulher. Disse-me que trazia para cima de cincoenta contos, e afinal vae-se a vêr, entre joias, dinheiro e papeis, pouco passava de vinte!

— Está feito!

— Está feito, diz você! Mas eu perfilhei-lhe a filha, tenho trabalhado como um burro, aturei-a a ella até á hora da morte — que ella vinha arruinada da saude, escangalhada, um caco velho em summa — tive de sahir de Braga, porque lá toda a gente lhe sabia a vida e era uma vergonha, e agora, depois de tudo isto, ainda não sou senhor de deixar o que é meu a quem eu quizer, porque para todos os effeitos esta rapariga é que é a minha herdeira.

— Por esse lado, tem o meu amigo razão — concordou o procurador — mas tambem, se não tem parentes ou outra pessoa que melhor lh'o mereça, pouco desarranjo lhe póde fazer... O amigo para a cova não o póde levar...

— Mas podia deixal-o ás Ordens ou a quem eu muito bem quizesse! — recalcitrou o Custodio, indignado.

— As Ordens não lh'o agradeciam melhor do que esta pequena... — philosophou scepticamente o Belchior, com um sorriso desdenhoso. — Não havia Ordem nenhuma que fosse capaz de lhe metter em casa uma fortuna como a que ella lhe traz pela porta dentro, se casar com o Eugenio de Mello...

— Fortuna... para ella!

— E você não é pae? E sendo pae, não fica sendo sogro do rapaz? E sendo sogro do rapaz, desde o momento em que elle não dê carreira direita não lhe vem a administração do casal parar ás unhas?

— Isso ainda está em vêl-o-hemos... Se o rapaz ganhar juizo...

— Se ganhar juizo, faz-se-lhe perder... A questão é que você queira...

— Mas faz-se-lhe perder como? Como é que eu hei-de querer? — perguntou o Custodio de Jesus, arregalando os olhos, sem comprehender.

— Homem! o rapaz é estroina, a doidice está-lhe na massa do sangue... E os estroinas são como os alcoolicos, a quem os medicos dizem que morrem se continuarem a beber... Emendam-se, fazem um grande esforço para se habituarem á agua, mas se um dia entram n'uma patuscada e vêem uma garrafa que lhes desperta o appetite, perdem o mêdo atiram-se a ella, bebem e morrem victimas do vicio que o instincto da conservação não foi sufficiente para debelar. Ora o rapaz está n'este caso. Ha-de querer portar-se bem, emendar-se, ser um homem exemplar, mas, se lhe apparecer um amigo que o leve a uma ceia e lhe mostre uma actrizita com um palmo de cara regular, não tenha você mêdo que elle ahi irá de vento em pôpa pelo caminho da dissipação e da prodigalidade, e então é que é dar-lhe o golpe de misericordia... Percebe-me agora?

O Custodio, maravilhado, contemplava aquelle patife que tinha sobre elle a enorme vantagem de conhecer os escaninhos da lei, segundo a phrase pittorêsca do procurador.

— Você — disse elle por fim, encarando sorridente o Belchior — é dos de estrella e bêta e pé calçado!

— Meu amigo, um homem tem obrigação de não ser tôlo, de não andar no mundo por vêr andar os mais... As patifarias da vida é que põem um homem fino...

— Você havia de me ter apparecido em Braga, aqui ha vinte annos antes... Não era comsigo que o ladrão do padre Anselmo mettia dente... E você não me tinha deixado roubar!

— Estava bem arranjado o padreca! Que viesse para cá... Comigo nem elle nem o mais pintado fazia farinha! — blasonou basofiento o procurador. — Tenho dado com elles d'aqui... detrás da orelha; mas eu atiro-lhes para a caveira com as baldas certas e elles veem buscar lã mas vão tosquiados!

O Custodio suspirou:

— Aquelle ladrão! — exclamou n'um surdo rancôr — roubou-me por eu o não conhecer a você!

— Meu amigo, com aguas passadas não móem moinhos... O que não tem remedio remediado está... Agora vamos a vêr mas é se se trata de arranjar outro... Disponha as coisas de modo que o casamento se faça quanto antes, porque a fatia é boa e não se póde perder...

— A rapariga casa. Por bem ou por mal, que remedio tem ella senão obedecer-me e fazer o que eu disser!

— Se ella estiver deveras encarriçada com o tal franganote, ha de custar-lhe a resolvêl-a...

— Por isso não seja a duvida... A questão é saber se o negocio convem...

O procurador assobiou, acompanhando o assobio com repetidos estalos produzidos pelos dedos maioral e pollegar.

— Se convem! — disse elle — É uma pechincha! É um negocio de costa acima! Queira elle noventa contos pela casa, que eu pago-lhe as dividas todas e ainda metto para cima de cincoenta no bolso. É um casão!

— Bom! pois então fique descançado, que a rapariga eu cá me encarrego de a domesticar...

— Mas veja lá; você não lhe falle no namoro, que é peor... — aconselhou o procurador.

— Nem palavra! Para lhe fallar n'elle, tinha de lhe partir os ossos... Nada! eu resolvi ir cá por outro caminho...

— E se fôr preciso que o rapaz appareça para lhe fazer o seu pé de alferes...

— Por ora não... Deixe estar, deixe vêr como as coisas se preparam...

— Arranje lá... E adeus, que devo ter lá em casa os constituintes á espera.

Despediu-se, estendendo dois dêdos protectores ao Custodio.

— Mas você apparece por cá? — disse o pae de Beatriz, apertando e retendo na mão os dedos do Belchior.

— Sim, amanhã...

E dirigiu-se para a porta.

— Olhe lá: você vá dando esperanças ao rapaz, hein?

— Não tem duvida... Disponha você a pequena.

Mal que o procurador sahiu, o Custodio subiu ao andar superior e chamou a filha.

Beatriz era uma d'estas creaturas franzinas, delicadas, doceis e submissas por indole e por temperamento, na apparencia faceis de dominar, mas que, depois de terem tomado uma resolução, primeiro se deixarão matar do que render-se. Alta, elegante, cabellos e olhos castanhos, tez clara, faces rosadas, o seu gracioso vulto, de uma distincção rara, captivava pela belleza e impunha respeito pelo suave perfume de innocencia e bondade que respirava.

Quando o pae a chamou, a pobre menina appareceu tremula, como se o coração lhe presagiasse a tortura que a esperava.

— Aqui estou, meu pae — disse ella.

O sr. Custodio ameigou a voz, contra o seu costume, e, contrafazendo o semblante n'um risinho agradavel, chamou a filha para o pe de si, fel-a sentar ao seu lado, e perguntou-lhe:

— Então, já pensaste no casamento em que te fallei, minha filha?

— Já, meu pae... já pensei... — tartamudeou a pobre pequena, commovida.

— E decidiste acceitar o partido que se te offerece, não é assim?

— Não, meu pae...

— Não?! — exclamou o sr. Custodio, fingindo-se surprehendido e mudando rapidamente d'aspecto. — E porque?

— Porque não me sinto ainda com disposição para casar...

— Não te sentes com disposição! Essa é bôa! Mas para casar ninguem está á espera de disposição... Aproveita-se o noivo quando apparece, e a disposição vem depois...

— Eu não poderia unir-me a um homem por quem o meu coração não sentisse a menor sympathia...

— Sympathia! — bramiu o sr. Custodio furioso, dando largas ao seu desespero. — Que vem a ser cá isso? Temos frioleiras de romance? Com as sympathias não é que os casados fazem sopa e compram os chapéos e os vestidos ás modistas. O noivo é rico? É o essencial. Ora este tem uma grande fortuna, é novo, é uma bôa figura, não é cego, não é aleijado — e ainda que o fosse, não se perdia nada — porque é que elle não te hade ser sympathico?

— Será para outras, mulheres, não para mim... — atreveu-se a dizer Beatriz.

Isto foi o mesmo que fazer explodir o immenso paiol em que o sr. Custodio tinha accumulado toda a polvora dos seus rancores de ha muitos annos contra as mulheres.

— Que pouca vergonha é essa?! — berrou elle, levantando-se e encarando a filha, rubro de colera — Quem é aqui o pae: sou eu ou é vocemecê?

A ira dementava-o a ponto de não o deixar reparar no burlesco e incongruente disparate da pergunta, que faria rir a pobre menina, se o horror da situação em que se encontrava não a tivesse afogado em pranto.

— Meu pae! Meu pae! — bradou ella supplicante, caindo de joelhos com as mãos postas — pelo amor de Deus, perdoe-me! mas eu não posso... não posso!

— Deixemo-nos de comedias! — rugiu o Custodio n'um recrudescimento de ira — Ou casa ou metto-a nas irmãs da caridade!

Beatriz, de joelhos, continuava a implorar:

— Meu pae, por alma de minha mãe lhe peço que não me force a este casamento que o meu coração não póde acceitar!

— Sua mãe! Não me falle em quem já morreu! Quem lá vae, lá vae, não é aqui chamado!

A esta brutal e grosseira reprehensão, Beatriz ergueu-se. No rosto pallido as lagrimas seccaram-se-lhe como por encanto, e nos olhos, fulgurantes de indignação, lia-se-lhe agora uma resolução inabalavel.

— Minha mãe — disse ella em voz calma e firme — não me responderia assim, se eu, de joelhos, lhe invocasse a memoria de meu pae morto.

Esta resposta acabou de exasperar o sr. Custodio.

— Cale-se! — não me falte ao respeito!

— Não sabia que a lembrança de minha mãe era para meu pae uma offensa.

Beatriz, perfilhada pelo sr. Custodio aos dois annos d'edade, fôra educada na crença de que este homem era seu pae e ignorava por completo a historia do seu nascimento.

Notava que o homem a quem chamava pae a tratára sempre com grande severidade e rispidez, e lamentava-se intimamente de não achar no coração do auctor de seus dias a ternura e carinho a que tem direito uma filha obediente e submissa, como ella era.

Esta severidade recrudescera, quasi degenerando em tyrannia, depois que a mãe se lhe finara.

A pobre pequena habituara-se áquelle tratamento, e, crescendo na edade, sentira mudar-se-lhe o terror infantil n'uma repugnancia instinctiva, porém soffredora e paciente, que mais e mais a afastava do pae.

Evitava a sua presença o mais que podia; e nos curtos instantes em que era obrigada a aproximar-se d'elle e a ouvir-lhe as reprehensões grosseiras e injustas, era sempre com os olhos no chão que o escutava.

Havia, pois, uma antipathia profunda entre estes dois sêres, que o destino cruel pussera em face um do outro, ligados pelos laços de um parentesco ficticio, mas nem por isso menos respeitavel aos olhos do mundo e da propria victima.

A attitude do senhor Custodio, que sempre fôra mau para com a filha, tornara-se desde este momento odiosa.

Ferira a pobre creança no que ella tinha de mais santo e mais sagrado no fundo do coração e que fazia objecto do seu culto: — o respeito pela memoria de sua mãe e o seu amor por Paulo.

O despreso amargo com que seu pae acolhera a supplica que ella lhe dirigira humildemente, de joelhos, em nome da mãe, revoltou-a, e onde a revolta começa o respeito acaba.

Aquella phrase altiva, serena e sêcca com que respondeu ao pae, que a mandava calar, era o prenuncio da lucta que ia travar-se, era como que o grito de revolta chamando em seu auxilio todas as energias da sua alma de mulher para resistir á violencia com que queriam esmagar-lhe o coração.

— Já disse! — volveu o descaroado pae. — Quem manda aqui sou eu. Este casamento ha de fazer-se por vontade ou por força.

— Viva não me levarão á egreja! — respondeu firmemente a pequena.

— Atreve-se a fallar-me assim, a faltar-me ao respeito? Esquece que sou seu pae?

— Não esqueço. Mas lembro-me tambem de que não devo ser tratada como escrava.

— Quem é que a quer escravisar? Chama escravisarem-n'a ao quererem fazer-lhe um casamento rico, com um rapaz de bôa familia, educado e que póde dar-lhe respeito na sociedade?

— O meu coração não se vende a pezo de dinheiro, meu pae! Se esse homem quer comprar affectos, que os busque onde elles se vendem.

— Está muito adeantada! Quem é que lhe ensinou tanto?

— A minha razão e a consciencia dos meus deveres de mulher digna.

O senhor Custodio enviesou-lhe um olhar furibundo. A sua vontade seria estrangulal-a. Mas conteve-se.

— Isso são frioleiras de romances! — gritou elle — . A menina não sabe o que diz. A culpa tenho-a tido eu em consentir que certas leituras lhe ponham a cabeça á razão de juros. Mas não tem duvida... Eu a mandarei para onde lhe ensinem os seus deveres de filha.

— Mande-me o pae para onde quizer. Obedecer-lhe-hei como filha que não necessita que lhe ensinem os seus deveres. Mas não exija que acceite por marido um homem que o meu coração não estime, porque a isso recusar-me-hei.

— Veremos!

O sr. Custodio sahiu bufando como um touro e foi direito ao escriptorio.

— Que tal está a bisca?! — rosnova elle, no auge da furia. — Bem se vê que não é minha filha!

Passeou com as mãos ora mettidas nos bolsos, ora coçando nervoso a suissa, o que n'elle denunciava sempre ou uma profunda meditação ou um violento desespero.

— E ainda o Belchior a dizer-me que leve as coisas com prudencia! — regougou por fim. — A prudencia era dar-lhe com um cacête até o diabo dizer basta! Amanhã estava ahi macia como um velludo e ia casar com quem eu quizesse...

De repente parou como ferido por ideia subita.

— E talvez... quem sabe? Esta ideia não é má e póde dar resultado... Vamos lá a experimentar se, levando as coisas por bem, conseguimos o nosso fim.

Tornou a subir ao andar superior e chamou a filha.

A pequena, muito pallida, veio ter com o pae e perguntou:

— O pae deseja alguma coisa?

— Desejo, minha filha. Anda cá... senta-te aqui. Quero que me escutes com attenção e que vejas que não sou tão mau como pareço...

O sr. Custodio, vendo que Beatriz, sempre com os olhos baixos, não respondia, pegou-lhe na mão e puxou-a docemente para junto de si, fazendo-a sentar ao seu lado, e principiou dizendo:

— Ora anda cá, minha filha! É preciso que saibas que ninguem é mais teu amigo n'este mundo do que teu pae... Eu estou velho... estou com os pés na cova, e, com estes desgostos que me estás dando, não posso ir muito longe.

— Mas em que é que eu o desgostei, meu pae?

— Desgostaste-me com o teu procedimento de ha pouco...

— Perdão! eu fui humilde e submissa, eu implorei de joelhos e mãos postas que não me forçasse ao casamento com um homem que o meu coração não póde acceitar... É isto desobediencia?

— Filha! mas tu matas-me com essa recusa! — exclamou o sr. Custodio, afflicto, simulando uma enorme contrariedade.

— Mato-o porque não me quero casar, porque prefiro viver ao lado de meu pae?!

— Matas-me porque o teu futuro e o meu está dependente d'esse casamento, filha! Matas-me porque recusando a mão d'este rapaz lavras uma sentença de morte contra mim!

Beatriz empallideceu.

— Não o comprehendo, meu pae — balbuciou ella.

— Eu te explico, minha filha...

E aqui o sr. Custodio interrompeu-se, como para tomar alento, passou o lenço pelos olhos para enxugar uma lagrima ausente, suspirou fundo e proseguiu:

— Eu ha pouco fallei-te desabridamente, fui severo, fui rispido, fui mesmo, injusto para comtigo; mas tudo isto era não só o resultado do muito amor que sinto por ti, porque todo o meu desejo é vêr-te feliz, mas tambem e principalmente era motivado pelo desespero da minha horrorosa situação...

Suspendeu-se a olhar para a filha, a vêr o effeito que n'ella produziam estas palavras. A pequena permanecia com os olhos baixos, immovel, na attitude de quem escuta pacientemente uma historia que não lhe interessa.

— Ouves, Beatriz?

— Ouço, meu pae.

— Da minha horrorosa situação! — tornou o sr. Custodio a dizer, com um suspiro ainda mais fundo. E abraçando-se na pequena, a soluçar, exclamou: — Ah! filha! filha! teu pae está perdido! Se tu o não salvas, ficas orphã... orphã e pobre, porque eu a esta dôr não resisto!

Beatriz, surprehendida, porém de modo algum commovida com esta dôr ficticia, perguntou, como se apenas cumprisse um dever:

— Mas o que foi que lhe succedeu, meu pae? Porque é que assim se afflige?

— Filha! — tornou o senhor Custodio, com a voz entrecortada pelos soluços e sem desprender dos braços o corpo franzino de Beatriz — estou pobre... estou arruinado e só tu me pódes salvar!

— Eu, meu pae! O que posso eu fazer em seu auxilio?

— Tudo, minha filha! Mas deixa-me explicar-te primeiro... Os meus negocios teem corrido mal... Nos ultimos tempos tenho soffrido prejuizos importantes que me teem reduzido á miseria... Este procurador, este Belchior que aqui vem e que, coitado, é meu amigo... — não o posso negar, é meu amigo!... — tem-me valido com a sua amizade, abonando-me importantes quantias que me teem sido precisas para solvêr compromissos creados... Mas agora nem já elle tem, nem eu... Este rapaz é rico, possue uma importante fortuna e ama-te apaixonadamente, minha filha... Elle promette pagar todas as minhas dividas no momento em que tu consintas em ser sua esposa... Portanto, vê lá: ou ficamos reduzidos á miseria, sem um bocado de pão, e sem abrigo, porque tudo quanto está n'esta casa é dos credores, ou tu acceitas este casamento e voltam para o nosso lar os dias felizes, a paz e a abundancia, como até aqui.

E como Beatriz permanecesse calada, com os olhos no chão, sem responder, o sr. Custodio fitou-a anciosamente e perguntou n'um tom supplicante:

— Então, Beatriz, o que dizes?

A joven guardou ainda silencio por alguns instantes e depois murmurou:

— Digo que é uma grande desgraça, meu pae...

— Sim, é uma grande desgraça, não ha duvida... Mas, graças a Deus, temos o remedio para ella, se tu quizeres, minha filha.

— Todas as desgraças teem remedio, meu pae, e esta tambem o terá, sem nos ser preciso buscar uma desgraça ainda maior...

— Não te comprehendo, Beatriz! — exclamou o sr. Custodio — O que queres dizer?

— Quero dizer que se a perda de todos os seus haveres, meu pae, é uma grande desgraça, o meu casamento com esse rapaz ainda a aggravaria mais...

— Porque, minha filha?

— Porque eu não o amo.

— Deixa-te de creancices, Beatriz! O amor vem com a convivencia... Tendo tu o que necessitas para continuar a viver na abundancia, e tendo um marido que te estime e que satisfaça todos os teus desejos, ainda os mais insignificantes, verás que breve te affeiçoas a elle.

— Mas eu não necessito de coisa alguma! — protestou vivamente Beatriz.

— Não necessitas! Pois estando eu pobre, arruinado...

— Eu trabalharei e viveremos do meu trabalho — acudiu corajosamente a nobre menina. — Darei lições pelos collegios e pelas casas particulares, e se não pudermos viver com ostentação, o que não dá a felicidade, viveremos remediados e livres de maiores privações...

— Tu estás doida! — berrou o sr. Custodio, desmanchando-se no seu papel de carpidor de desgraças, para assumir a attitude grosseiramente petulante da sua indole má, irritada pola teimosia da filha. — Bem se vê que tens instinctos baixos e que não te repugna fazer má figura!

— O que me repugna, meu pae, é illudir e enganar alguem, seja por que preço fôr...

— Mas a quem é que tu enganavas, casando com o Eugenio? Anda, dize lá!

— Enganava principalmente esse homem, que julgaria encontrar em mim um affecto que eu não posso sentir por elle!

— Historias! Affecto não é coisa que se coma!

E recahindo nas lamentações primitivas:

— Que infeliz eu sou! Velho, com os pés na cova, reduzido á ultima miseria, e não achar na minha propria filha amparo nem compaixão para a minha desgraça!

Beatriz ouvia quasi indifferente as lamurias do pae.

Toda aquella dôr, manifestada assim em lamentações tão improprias de um homem que sempre se mostrara altivo, sêcco e intractavel, afigurava-se-lhe ignobil. Sentia uma revolta interior, um nojo intimo d'aquella vilissima creatura, de quem se suppunha filha, e tinha como que um secreto remorso de não poder amar o auctor de seus dias.

O sr. Custodio percebia esta indifferença da filha, e emquanto se lamuriava, dizia comsigo:

— Grande desavergonhada! Bem se vê que não és minha filha!

Por fim, Beatriz aventurou esta pergunta:

— E se esse rapaz não tivesse apparecido a querer casar comigo, o pae não teria outro meio de remediar os desastres soffridos no seu negocio?

— Como havia de eu remediál-os? O remedio era entregar tudo aos credores e ficarmos sem nada!

— Mas haviamos de viver...

— Viver como? — interrogou o sr. Custodio impaciente.

— Como vivem tantos pobres, resignados com a sua miseria...

D'esta vez o sr. Custodio conteve-se e não descambou no repellão habitual.

— Sabes lá o que dizes, filha! Os que vivem conformados com a sua pobresa são os que nunca souberam o que era viver melhor. Nasceram miseraveis, na miseria se crearam e assim vivem e morrem sem soffrimento nem pesar. Mas quem está na nossa situação, filha, quem experimentou a abundancia e depois se vê reduzido á penuria póde lá conformar-se com isso?! Eu por mim, declaro, dou cabo da vida, e ha-de ficar-te o remorso de teres causado a morte de teu pae!

Esta ultima phrase fez estremecer a pobre menina. Tudo quereria menos a pungir-lhe na consciencia o crime de haver morto seu pae. Embora não sentisse por elle os extremos de affecto que o genio irascivel, rispido e severo d'aquelle homem não soubera inspirar-lhe, a sua razão dizia-lhe que tinha deveres de filha a cumprir, e a esses não queria ella faltar.

— Mato-me! — continuava o sr. Custodio, abrindo a valvula ao desespero que lhe ia na alma — mato-me, porque não tenho animo para soffrer os horrores da miseria que me estão reservados, e antes quero dar cabo de mim do que vêr a minha filha exposta a todas as desgraças que a pobresa traz comsigo!

— Por mim, não se mate, meu pae! Eu tenho força e coragem para resistir aos golpes da adversidade.

— Tu terás forças, minha filha, mas eu é que já não as tenho! Dize-me terminantemente que não casas com esse rapaz, que não salvas teu velho pae da miseria, e tu verás o que eu faço... Não tenho animo para vêr os credores entrar por aqui dentro e pôrem-me lá fóra a mim e mais a ti! Não! quando elles entrarem, hão-de vir já encontrar-me cadaver!

Disse, e levantando-se como quem tinha tomado uma resolução inabalavel, perguntou:

— O que resolves, Beatriz? Nas tuas mãos está a minha vida, a vida de teu pae!...

A joven, assim instada, sentiu-se vacillar. Vencida pelo tom humilde e supplicante em que o pae se lhe dirigia, não tinha forças para recusar abertamente.

— Meu pae — balbuciou por fim — deixe-me ainda reflectir até amanhã.

O usurario percebeu que levava o inimigo de vencida e não quiz abandonar a victoria.

— Amanhã será tarde — disse elle — A resposta tem de ser dada hoje ao Belchior impreterivelmente, sob pena de amanhã os credores entrarem por aqui dentro e levarem tudo. Resolve, pois. Eu não te quero forçar a um casamento que te repugna. Bem reconheço mesmo que não tenho direito ao teu sacrificio, porque eu não sou d'esses paes que andam sempre a acarinhar as filhas, sem terem por ellas metade do amor que eu sinto por ti... Tenho este genio assim... pareço severo, pareço um homem que não sabe o que é amor de pae, mas o que o meu coração sente só eu é que o sei!...

Interrompeu-se para abafar os soluços e enxugar as lagrimas, que não chorava, ao lenço tabaqueiro e proseguiu:

— Paciencia! Tinha de ser assim... seja!

E como a filha se conservasse silenciosa, pegou-lhe na mão, exclamando:

— Adeus, Beatriz! Despede-te do teu pae, que o não tornas a vêr vivo!

— Meu pae! — disse a pobre menina com a voz embargada na garganta pela commoção — Pelo amor de Deus, não tome qualquer resolução desesperada sem que eu falle primeiro com esse rapaz!

— Com quem? — interrogou o sr. Custodio, fixando a filha.

— Com esse... sr. Eugenio.

— Queres fallar com elle para lhe dizeres que não? Dize-m'o antes a mim, filha!

— Não, meu pae. Desejo fallar com elle para ouvir de seus labios a declaração de que me quer por mulher.

— E casarás?

— Casarei, se não houver outro remedio.

O sr. Custodio, radiante, estreitou-a nos braços com frenesi.

— Deus te abençôe, minha filha! Pódes dizer que salvaste teu pobre pae! Vou mandar avisar o Belchior.

E, beijando a filha na testa, sahiu quasi doido de contentamento.