Os Filhos do Padre Anselmo/VIII

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Os Filhos do Padre Anselmo por António José de Albergaria
Capítulo VIII: Entre irmãos


Paulo de Noronha, depois que se filiara na Mão-Negra, não obstante saber que um rival lhe disputava a posse de Beatriz, alimentava a esperança bem fagueira de conquistar em breve uma posição que lhe permittisse apresentar-se a Custodio a pedir-lhe a mão da filha.

Preoccupava-o, porém, a ideia de que sobre o seu nascimento pesava um mysterio que elle não sabia explicar e que o havia de collocar em terriveis embaraços, quando o pae da Beatriz muito naturalmente lhe perguntasse o nome de seus paes.

O pobre rapaz não conhecia o usurario. Suppunha-o um homem honesto, buscando para a filha uma alliança limpa, e o sigillo que o padre Filippe e madre Paula se obstinaram em guardar ácerca d'aquelles a quem devia a existencia, fazia-o tremer pelos resultados da pergunta a que não podia responder.

Elle ignorava que Beatriz tambem não tivera nascimento legitimo e que, se podia apresentar-se como filha de um homem que a perfilhara, esse homem não era seu pae.

O padre Filippe aconselhara-o a que revelasse a madre Paula os segredos do seu coração e ouvisse os conselhos que ella maternalmente entendesse dever dar-lhe.

Mas se o padre Filippe se retrahia e teimava em não o elucidar ácerca do seu mysterioso nascimento, o mancebo julgou, e com razão, que madre Paula tambem nada mais adiantaria a esse respeito.

Não procurou, pois, madre Paula e preferiu procurar o seu amigo Jorge, o mesmo que o iniciára nos mysterios da Mão-Negra.

— Posso fallar-te com franqueza, não é verdade, Jorge? — perguntou-lhe elle.

— Como se fallasses a um irmão — replicou o outro — Desde hontem que nos achamos ligados indissoluvelmente pelos laços de uma associação secreta em que é condição essencial que os filiados se considerem e se amem como verdadeiros irmãos.

— Pois muito bem. Vou fallar-te como a um irmão e espero que como tal prestarás attenção ao que vou dizer-te.

— Falla.

— Como te expliquei, amo uma mulher que é todo o meu pensamento, todo o meu sonho, toda a grande aspiração da minha vida!

— Já m'o disseste.

— Essa mulher corresponde com lealdade e com ardor ao sentimento affectuoso que me inspirou. Mas tem pae, um homem rico, um argentario que busca para a filha uma alliança vantajosa, alliança de dinheiro, e que ha de necessariamente repellir-me com desdem, quando souber que eu, simples academico, apenas rico d'esperanças no futuro, lhe pretendo a mão da filha...

— Mas — objectou Jorge — que necessidade tens de que elle o saiba antes de haveres conquistado a posição que te ha de permittir constituir familia?

— A necessidade está bem patente desde que elle pensa em casar Beatriz com um rapaz rico, que se apresenta como pretendente á sua mão.

— Ah! ah! — fez Jorge — E a pequena?

— Tenciona oppôr a mais tenaz recusa. Mas o pae é rispido, severo, chega mesmo a ser brutal... É capaz de querer impôr pela violencia este enlace e, comquanto eu não receie pela firmeza e constancia de Beatriz, receio comtudo pelos maus tratos e soffrimentos que o pae é capaz de lhe inffligir...

— Não estamos em terra de selvagens — replicou Jorge sorrindo. — Como se chama esse amavel progenitor?

— Custodio de Jesus....

— Mora?

— Na rua do Principe.

— E o outro?

— Qual outro?

— O teu pretendido rival?

— Não o conheço. Sei apenas que se chama Eugenio de Mello.

— Eugenio de de Mello... É do Porto?

— Não; supponho que é um rico proprietario na provincia.

— Já entrado na edade, não?

— Pelo contrario. É novo ainda. Bem vês que lhe chamei um rapaz.

— Os homens ricos são sempre rapazes em questão de casamento... A mocidade tem para elles a duração do seu dinheiro...

— Mas este, mesmo pobre que fôsse, seria ainda rapaz.

Jorge tomou apontamento d'estes nomes n'uma carteira.

— Muito bem! — disse elle — Urge, antes de tudo, conhecer os adversarios com quem temos que medir-nos... Eu vou obter informações e veremos depois o que convem fazer...

— Mas poderei ao menos alimentar esperanças?...

— Dou-te a certeza de que esse casamento não se fará e de que Beatriz não será maltratada pelo pae...

— Obrigado, meu amigo, meu irmão! — exclamou Paulo, cahindo-lhe nos braços. — Escuta ainda, — continuou. — Preciso de te dizer tudo. Entre nós não deve haver segredos...

— Falla, meu irmão!

Paulo hesitou um instante. A face roborisara-se-lhe de vergonha.

— Chamas-me irmão — e comtudo eu creio que não posso ser irmão de ninguem.

— Porque?

— Porque não tenho pae nem mãe, porque eu mesmo, sabendo o que sou, ignoro quem sou!

Contou-lhe então o desespero em que se debatia por não conhecer o segredo do seu nascimento. Conhecia apenas o padre Filippe e madre Paula como seus protectores, ignorando comtudo porque serie de circumstancias se encontrava sob a tutella d'aquelles dois religiosos, recebendo toda a protecção e amparo.

— Vê tu, pois, meu amigo, as terriveis circumstancias em que me encontro! — concluiu elle desalentado. — Ainda que me encontrasse de um momento para o outro em circumstancias de pedir Beatriz, como poderia eu fazel-o não sabendo o nome de meus paes?

— Os irmãos da Mão-Negra — disse Jorge gravemente — são todos filhos do mesmo pae — o Pensamento Altruista que os reuniu e congregou, e da mesma mãe — a Associação Invencivel que os protege e lhes dá força. Com semelhante parentesco qualquer de nós póde considerar-se sufficientemente nobilitado para aspirar á mão da mais nobre e rica princeza do mundo, quanto mais á de uma simples burguesinha, filha de um rico burguez chamado Custodio de Jesus!

— Não duvido da grandeza e poder da nossa Associação, meu amigo; mas, pelo caracter secreto que a reveste, o facto de pertencer-lhe não constitue titulo, que possamos apresentar publicamente, em abono da origem honesta do nosso nascimento...

— O homem — volveu Jorge — creatura de Deus, não póde ser jamais responsavel por actos que não praticou nem estava na sua mão impedir. Tanta culpa teve elle em nascer filho do mais infimo ladrão, como gloria em descender do mais poderoso monarcha da terra. Filho d'um criminoso ou filho de um rei, elle é sempre um homem igual aos outros e d'elles só póde distanciar-se pelos seus talentos e virtudes proprias, ou ser-lhes inferior pelas suas abjecções e pelos seus crimes.

— Ah! meu amigo! que bella e sã doutrina seria essa, se todos os homens a comprehendessem assim!

— Para isso trabalhamos e nem outro é o pensamento que nos une. Temos de luctar, bem sei, contra o preconceito, contra o prejuizo de muitos seculos, contra a rotina — que é a famosa trincheira erguida a impedir a marcha do aperfeiçoamento moral da humanidade. Mas se não houvesse lucta, não seria tão glorioso o triumpho nem teria tanto valor a conquista.

Dizendo isto, Jorge apertou a mão a Paulo e despediu-se, deixando o mancebo mais tranquillo e confiado no futuro.

Sigamos Jorge e vejamol-o bater á porta de uma casa de modesta apparencia, na rua de S. Bento da Victoria...

É um predio de dois andares, que nada tem de notavel e que quasi se confunde na linha de casas modestas, senão pobres, que se erguem do lado nascente d'aquella rua, em frente á Relação, desde a esquina dos Martyres da Patria até á travessa de S. Bento da Victoria.

Posto fosse de dia, a porta principal d'esse predio permanecia fechada. Mas logo que Jorge bateu abriu-se, franqueando-lhe a passagem.

Todavia, no portal não appareceu pessoa alguma, e assim que o amigo de Paulo transpoz a entrada, tornou a fechar-se sem que alguem a impellisse.

Jorge, que parecia familiarisado com estes estranhos habitos da casa, penetrou no corredor escuro do portal e subiu o primeiro lanço das escadas até ao primeiro andar.

Chegando ahi, parou em frente da porta de uma sala que ficava para o lado das trazeiras do predio e pronunciou em latim:

Licet?

— Entrae! — disse de dentro uma voz.

Jorge empurrou a porta e entrou n'uma sala, ao centro da qual se via uma ampla mesa de carvalho, coberta de livros e papeis e a que estava sentado um homem, de roupas escuras e oculos verdes. A longa barba grisalha que lhe descia até ao peito dava-lhe um aspecto de patriarca biblico, que infundia respeito e terror a quem pela primeira vez se encontrava na sua presença.

Rodeado de livros que se viam espalhados pelo chão, em cima das cadeiras e collocados em desordem nas estantes que cobriam as paredes, desde o soalho até ao tecto, não era preciso grande esforço de intelligencia para desde logo comprehender que se estava em presença de um homem de estudo, sabedor e profundo.

Jorge foi passando peio estreito carreiro que se abria entre rumas de livros, da porta até á mesa, fazendo prodigios de equilibrio para não pôr os pés sobre os volumes que lhe obstruiam a passagem.

— É preciso estar na graça de Deus e ter azas como os cherubins — disse elle rindo — para entrar no vosso sanctuario, sem pisar aos pés a sciencia, Mestre!

O homem dos oculos verdes ergueu a cabeça, fitou-o por trás dos oculos e respondeu grave e pausado:

— Só a sciencia vã cahe por terra e desapparece esmagada pelo pé inclemente do homem, na sua marcha para o Bem, para a Verdade e para a Justiça. A verdadeira sciencia, porém, não sente mais o pezo de um pé que se lhe põe em cima do que a torre dos Clerigos o pezo de uma môsca que vá pouzar-lhe no pára-raios.

Indicou uma cadeira desoccupada que se achava junto da sua, e disse ao recem-chegado:

— Sentae-vos, meu amigo. Já cá vos esperava e estava estranhando a vossa demora...

— Mestre — respondeu o outro — teria vindo mais cêdo, se um caso novo, de que urge tratar, me não tivesse tomado o tempo.

— Um caso novo! O que temos, pois?

— Uma injustiça grave, uma monstruosidade revoltante de que se pretende fazer victima um dos irmãos da Mão-Negra.

— A Mão Negra tem já força e poder bastante para desviar de sobre a cabeça de seus irmãos a iniquidade e a injustiça dos homens, por muito alto que elles estejam collocados. De que se trata?

— Do ultimo iniciado no nosso gremio, de Paulo de Noronha...

— Ah! O que lhe succede?

— Este rapaz ama uma mulher, que corresponde ardentemente ao seu amor. O pae d'ella, porém, rico capitalista, pretende violental-a a casar com um herdeiro rico, que ella não deseja nem estima.

— E sabe elle dos amores da filha com Paulo?

— Não o deve saber, pois que este nosso irmão, movido de honestos e nobres intuitos, não se julga auctorisado a tornar ostensivos os sentimentos amorosos do seu coração, emquanto não houver conquistado uma posição social que lhe permitta pedir a mão da mulher que ama.

— O que deseja elle então? Que lhe conquistemos a posição de que precisa?

— De modo nenhum. Paulo tudo espera do seu esforço proprio. Simplesmente o que desejaria era que a mulher que ama e em que faz consistir toda a sua ventura não fosse compellida a unir-se a um outro.

— Está na mão d'ella. Que recuse.

— Mas a recusa, Mestre, importa o supplicio da pobre menina, e é isso o que Paulo pretende evitar.

— Pois bem. A Mão-Negra cumprirá o seu dever. Como se chama o pae d'essa menina?

— Custodio de Jesus?

— E o pretendido noivo?

— Eugenio de Mello.

— Cumpre, antes de tudo, averiguar quem sejam esses dois homens; conhecer-lhes a biographia, saber porque serie de circumstancias vieram a encontrar-se e a alliar-se para uma violencia d'essa ordem.

— Assim entendo que deve ser; e se vós, Mestre, não ordenaes o contrario, eu mesmo me encarregarei do todos esses trabalhos.

— Pois que assim o quereis, nada impede que procedaes. Conheceis todos os irmãos que podem prestar-nos auxilio. Recorrei a elles, e colhidas as informações, procederemos como fôr de justiça.

Jorge inclinou-se.

— Temos ainda mais — disse elle.

— O quê?

— Paulo não conheceu seus paes, e ignora por completo o segredo do seu nascimento...

— Que póde isso importar-lhe? Se os que lhe deram o sêr o repudiaram, que tem o filho que vêr com os paes que o não quizeram ser?

— Perdão, Mestre! É essa a grande duvida e portanto o grande tormento do pobre rapaz... Paulo não pode dizer-se um abandonado... A sua infancia correu sob a protecção carinhosa de dois religiosos, um padre e uma freira, e ainda agora são elles os que occorrem, como sempre, a todas as despezas da sua educação scientifica.

— Conhece elle esses protectores?

— Conhece-os e dedica-lhes verdadeira affeição filial!

— N'esse caso, porque não pensa esse rapaz que pódem ser elles os seus proprios paes?

— Não são, porque madre Paula foi sua madrinha e o padre Filippe não usa o appellido Noronha...

— Madre Paula e padre Filippe, dizeis? — interrogou o homem dos oculos verdes com um leve tremôr na voz.

— Sim. São estes religiosos os protectores de Paulo de Noronha.

O homem a quem Jorge dava o respeitoso tratamento de Mestre, cruzou os braços, inclinou a cabeça sobre o peito e ficou por algum tempo immerso em profunda reflexão.

Dir-se-hia que os nomes de madre Paula e padre Filippe lhe tinham despertado tristes recordações, porque, ao levantar a cabeça e reprimindo a custo um fundo suspiro, disse, mal disfarçado ainda o tremor da voz:

— Pensaremos n'isso, veremos se será conveniente indagar a verdadeira origem d'esse rapaz.

Depois accrescentou:

— Ha mysterios de tal modo tenebrosos na vida do homem, que ás vezes mais vale não querer desvendal-os nunca... Ide, e deixae-me só, meu amigo.

Jorge levantou-se.

— Amanhã — disse elle — deve reunir o capitulo e lá nos encontraremos á hora do costume. É possivel mesmo que d'aqui até lá eu tenha podido obter os esclarecimentos que desejamos ácerca de Custodio de Jesus e de Eugenio de Mello.

— Se assim acontecer — replicou o homem dos oculos verdes — poderemos deliberar em capitulo o que convirá fazer.

Jorge inclinou-se e sahiu com as mesmas precauções com que havia entrado para não calcar com os pés os livros dispersos pelo sobrado.

Ao vel-o sahir, o homem dos oculos fincou os cotovellos sobre a mesa, encostou a fronte ás mãos e ficou assim por largo tempo, engolfado em profundo scismar.

— Madre Paula e padre Filippe! — disse elle por fim. — Porque extraordinario acaso se encontram estes dois nomes ligados á existencia d'esse adolescente que usa o mesmo appellido da Irmã Dorothêa?

Pegou de uma penna e traçou algumas palavras em um papel que dobrou por fim cuidadosamente, lacrando-o em seguida.

Depois, abriu a gaveta da mesa e tirou d'ella um grosso volume encadernado a preto, que abriu e começou folheando.

As paginas d'este livro estavam todas em branco. No emtanto, o mysterioso personagem ia volvendo-as com um sorriso amargo a vincar-lhe os labios, como se do fundo branco d'aquellas folhas resaltasse um pensamento negro.

Chegando ao ponto em que uma fita preta, intercalada nas folhas, punha uma especie de signal, o novo personagem, fez saltar a mola de um tinteiro em fórma de caixa, pegou de uma penna de pato, que molhou n'esse tinteiro, e começou escrevendo vertiginosamente. Ao passo, porém, que a penna ia traçando as palavras, estas iam-se apagando rapidamente; retomando o papel a sua brancura immaculada.

É que o homem dos oculos verdes escrevia com tinta sympathica.

Que mysteriosos pensamentos lançaria elle n'aquelle papel que os guardava discreto, como um vasto mar guarda no fundo os coraes e as perolas, as algas e os peixes que o povoam, sem que a esmeraldina superficie das suas aguas denuncie a existencia dos thesouros que elle occulta no seio?