Os Filhos do Padre Anselmo/VII

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Os Filhos do Padre Anselmo por António José de Albergaria
Capítulo VII: Tres miseraveis


Depois da scena que representou com a filha, o Custodio de Jesus correu a procurar o seu amigo Belchior.

O agiota ia radiante de satisfação.

— Beatriz — disse elle ao procurador — está no caminho!

— No caminho de quê?

— No caminho de acceitar o casamento com o Eugenio de Mello.

— Sério?

— Homem, digo-lh'o eu! A principio recusou, fez cara feia, e ia-me fazendo sahir fóra dos eixos, porque eu não sou para graças... Mas depois...

— Conseguiu intimidal-a?

— Isso sim! Aquella sonsinha que você alli vê tem figados! Ameacei-a com as irmãs da caridade para toda a vida, e ella teve a pouca vergonha de me dizer que podia matal-a, mas que não podia fazer com que ella fosse á egreja dizer o sim!...

— É o que eu digo! O outro rapaselho deu-lhe volta ao juizo, e as mulheres são assim... são peores que cabras... Em encarreirando para um lado, não ha diabo que as faça voltar para trás!

— Mas consegui eu que ella voltasse...

— Como?

— Com bons modos... Você, afinal, foi quem me ensinou o segredo... Mas eu tambem discorri alguma coisa... Comecei a amacial-a, a dizer-lhe que se desejava que ella acceitasse o casamento era para interesse d'ella, porque eu estava pobre, estava desgraçado, tudo quanto tinha já não chegava para pagar aos credores, e portanto que só havia a escolher: ou casar ella com Eugenio de Mello ou dar eu um tiro nos miolos e arrumar com isto por uma vez. Chorei, que se você visse até se admirava!

— E afinal?

— Afinal, ella, que estava de pedra e cal, a dizer que não e que não, poz-se a considerar um bocado e por fim disse-me que queria fallar com o noivo...

— Com o Eugenio de Mello?

— Pois então com quem? Quem é o noivo?

— O noivo é aquelle com quem ella estiver para se casar...

— Bem! pois esse é o Eugenio de Mello. Não se trata de outro.

— Que diabo lhe quererá ella? — commentou o procurador.

— Ora o que ha de querer? Quer que elle lhe diga que lhe tem muito amor, que está a morrer de paixão por ella, que não sonha com outra coisa senão com o momento ditoso, et coetera... coisas que todas as raparigas gostam de ouvir aos namorados.

O Belchior pôz-se a rir.

— Vá lá a gente fiar-se em mulheres! — disse elle. — Muito amor ao outro, capaz de se deixar matar antes que trahir a fé jurada; mas assim que lhe cheirou a que o negocio era de cobres e que sem elles não teria mais vestidos, nem mais luxo nem mais commodidades, — venha de lá o homem da massa e atire-se com o querido do coração ás ortigas! Ah! mulheres, mulheres! quem não as conhecer que se fie n'ellas!...

— Pois por eu saber isso — retorquiu o Custodio — por ter a experiencia de que não ha amor que resista á perspectiva da miseria, é que eu me lembrei de inventar esta historia, que ha de dar bom resultado... Agora elle que lhe cante umas cantiguinhas bem cantadas... que lhe falle d'amor, de paixão e de todas essas frioleiras que as raparigas apreciam, e d'aqui a dois dias, diabos me levem se ella pensa mais no outro!

— Quando entende você que deve ir fallar-lhe o Eugenio?

— O mais depressa possivel. N'estas coisas nunca ha tempo a perder...

— Está bem. N'esse caso, vou lá hoje á noite com elle tomar o chá...

— Sim senhor! E passaremos uma noite bem passada... A pequena toca piano, você gaba-lhe a habilidade para a musica, o rapaz rende-lhe finezas, e ás duas por tres a rapariga está ensarilhada, e não terá remedio senão dizer que sim.

— Vou então mandar prevenir o rapaz. Foi o diabo você não vir mais cêdo, porque elle ainda ha bocado sahiu d'aqui... Veio cá para eu lhe adiantar um dinheiro sobre o arrendamento de uma quinta que de dois em dois annos rende seis contos de réis, só em cortiça! É um doidivanas... Não sabe o que tem de seu e anda sempre a pillar por dinheiro!

— Afinal — considerou o Custodio de Jesus — este casamento até é uma providencia para elle... Porque se nós não lhe puzessemos uma tutella, por esse andar ainda vinha a dar n'um pobre de pedir...

O Belchior disfarçou um sorriso velhaco.

— Quem duvida que é uma obra de caridade casal-o e tomar-lhe conta dos haveres? Mas é preciso que você saiba, amigo Custodio, que eu é que fico em peores lençoes...

— Porque?

— Porque este diabo é maluco, e depois, quando você e sua filha lhe moverem um processo de interdicção, quem paga as favas sou eu... Contra mim é que elle se ha-de voltar, a dizer que lhe armei esta ratoeira de proposito para lhe apanharem a fortuna...

— E a você que se lhe dá? A sua consciencia diz-lhe que praticou uma acção bôa... que importa lá que elle grite?

— Pois sim, mas a minha consciencia tambem me diz que eu escuso de me metter em alhadas sem interesse, e que se elle, por fim, como é maluco, me quebrar a cabeça, é bem feito... Portanto, logo que este casamento esteja combinado, nós temos um pequeno negociosinho a fazer...

— Que negocio? — interrogou o Custodio franzindo o sobr'olho.

— Que diabo! É justo que eu leve rasca na assudura... Eu pratico uma acção bôa... bôa para si e bôa para elle... Parece que tambem não será fóra de razão que a pratique bôa para mim...

— Mas o que é então que você quer dizer com isso? — tornou o Custodio desconfiado.

— Quero dizer que o negocio é negocio, e que se eu lhe metto a você para cima de noventa contos de reis no bolso, é de justiça que leve n'isso uma pequena commissão...

— Uma commissão! Mas que commissão quer você?

O Belchior sorriu:

— Socegue! eu não sou d'aquelles que comem a sardinha e deixam para os outros só a espinha... Ahi uns dezitos por cento sobre a fortuna do rapaz, não é coisa que empobreça ninguem...

— Dez por cento! Você está doido! — exclamou o Custodio de Jesus, fazendo uma careta terrivel — Dez por cento sobre noventa contos, atirava lá para nove contos. Isso era melhor do que fazer meia!

— É... é melhor do que fazer meia... E oitenta contos por uma filha que está em vesperas de casar com um rapaz que não tem de seu oitenta reis, o que é? É barro!

— Não que eu não a deixo casar senão á minha vontade! — barafustou o Custodio.

O Belchior teve um sorriso desdenhoso.

— Você não a deixa casar senão com quem muito bem entender, e ella não casará senão com quem muito bem quizer — replicou por fim. — Mas o nosso caso é muito outro, amigo Custodio... Se você arranjar o casamento da pequena com outro rapaz, sem ser por minha intervenção, ainda que o noivo tenha mil contos de reis, descance, que eu não vou lá metter-me no negocio nem reclamar para mim a mais insignificante parte nos lucros... Ora agora, fazendo-se o casamento com o Eugenio de Mello, e sendo eu o principal agente d'este negocio que lhe mette a você para cima de noventa contos no bolso, tenha paciencia, mas a minha commissão é justo que se pague...

— Com os diabos! eu ainda lhe não disse a você que queria o seu trabalho de graça! — prorompeu o Custodio. — Mas é preciso ter consciencia... é preciso que você não queira a melhor parte para si...

— A melhor parte! Então nove contos de reis é a melhor parte de noventa?

— Limpinhos e sêccos, sem mais incommodos, sem ter que aturar a noiva a choramigar e sem ter que andar ás testilhas com o noivo para o fazer entrar na ordem, acha você que não é nada!

— E a minha responsabilidade? E ter depois de me haver com o rapaz, que é um touro de força, e que, se lhe der na cabeça, é muito capaz de me lançar as culpas de tudo e quebrar-me as costellas? Isso não representa nada, não?!

— Se elle fizer isso, você arma-lhe um processo... Tem a justiça de casa, fica-lhe barato...

— Mas o corpo é meu, e depois de eu as cá ter, do lombo é que ninguem m'as tira! — berrou o procurador. — Homem, é preciso que você veja que isto é negocio muito arriscado para mim... E eu metter-me em folias, sem ao menos ter garantidos os pontos que depois hei-de levar nas feridas... não me serve!

E n'um repellão:

— Então acabemos com isto, não se falla mais em tal e você case lá a pequena com quem quizer.

O Custodio amaciou um pouco.

— Ora venha cá... — disse elle. — Você sempre tem um demonio d'um genio!

— Mas pela razão!... pela razão é que eu tenho genio! — contestou o Belchior. — Você, se fosse outro, dava o valôr ás coisas e não estava a fazer questão de uma miseria... Demais a mais, sabendo que eu entro n'isto por ser seu amigo...

— Bem sei, Belchior, bem sei que você é meu amigo; e por isso mesmo é que eu esperava que você fosse mais rasoavel...

O procurador descarregou violento murro sobre a escrivaninha.

— Mais rasoavel! — exclamou elle. — Póde-se ser mais rasoavel do que isto? Você, que empresta dinheiro a vinte e a trinta por cento, acha caro noventa contos de reis comprados a troco de nove?!

— Pois sim, mas isso não é dá cá, toma lá... O dinheiro é do rapaz e elle é que continua sendo senhor d'elle...

— Não me venha com cantigas! Eu já lhe disse a você como é que as coisas se arranjam... Mas se acha que é prejudicado ou que o negocio não vale a pena, eu lavo d'ahi as minhas mãos e arranje você casamento melhor para a pequena.

Era a segunda vez que o Belchior ameaçava desmanchar o negocio. O Custodio de Jesus tremeu com a ideia de que o procurador tivesse já posto a mira n'outra noiva para o seu cliente.

— Homem! — disse elle — a gente não está aqui a jogar facadas. Nem você quer o meu prejuizo nem eu o seu... Você faz um abatimentosinho... fica a coisa reduzida a seis por cento...

— Sete tenho eu quem me dê! — volveu o procurador. — E é porque eu não quiz entrar em transacção, senão a coisa chegava aos oito. Mas a mim aborrece-me regatear... Isto não é negocio de cebolas. Disse que hão de ser dez, e hão de ser dez, ou o rapaz não casa no Porto. Então dou um passeio com elle até Lisboa, e você verá como até apanho lá uma viscondessa para elle. Aquillo é que é terra! Aquillo sim! Ali dá-se valôr ao dinheiro e ao trabalho de cada um...

— Bom! Você é teimoso... tambem não quero que diga que, sendo eu seu amigo, estou a fazer questão por pouca coisa... Está tratado.

— Ora até que, emfim, chegou-se á razão! — disse o procurador, como quem se alliviava d'um grande peso — Eu bem sabia que você não deixava fugir o bôlo, ainda que tivesse de partir um bocado maior para mim... Mas eu não gosto d'abusar com os amigos...

— Vamos lá! — suspirou o Custodio. — Para amigos, você carregou um bocadito na mão... Mas acabou-se! Está tratado, está tratado. Não volto com a palavra atrás.

— Sim, senhor! — tornou o Belchior. — Ora agora temos a regular a forma do contracto... Eu recebo os nove contos no dia do casamento, antes dos noivos irem para a egreja...

— O que! Então você põe-me assim as facas ao peito?! — exclamou o Custodio de Jesus muito admirado.

— Homem, negocio é negocio. Eu comprometto-me a levar o noivo até sua casa no dia do casamento, sem escripturas, para a noiva poder entrar na meação dos bens que elle possa possuir. Feito isto, o dinheiro que eu ganhei é meu, você passa-m'o para a mão e estamos quites. Pois como queria você?

— Isso não podia ser depois do casamento realisado?

— Póde, acceitando-me você letras...

— Você sabe-a toda! — fez o Cutodio sorrindo, como quem acaba de effectuar um bello negocio. — Vá lá! No dia do casamento entrego-lhe o dinheiro e está a conta arrumada.

— Antes dos noivos partirem para a egreja...

— Sim, homem, sim! Antes dos noivos partirem para a egreja.

— Pois então esta noite lá estamos. Vou mandar prevenir o rapaz para não faltar.

O Custodio despediu-se e o Belchior correu ao Francfort a prevenir Eugenio.

N'essa mesma noite, a sala de visitas do Custodio de Jesus era theatro da odiosa farça que os tres miseraveis se dispunham a representar á roda do coração de Beatriz, illudindo-se uns aos outros, como quasi sempre acontece quando tres patifes de grande marca se encontram unidos pelo mesmo pensamento de interesse commum.

O Custodio, sahindo de casa do Belchior, passára pela casa de D. Barbara, viuva d'um general reformado e mãe de tres filhas feiissimas que o Monte-pio militar sustentava, e pediu-lhes para irem á noite tomar o chá e fazer um bocado de companhia á Beatriz, que já tinha fallado n'ellas e estranhado que estivessem tanto tempo sem lhe irem fazer uma visita.

O Belchior, pela sua parte, fizera-se acompanhar da mulher, a D. Rosalia, e da cunhada, a D. Adelia, ambas vermelhuscas e adiposas, — a D. Rosalia queixando-se sempre do seu figado e a D. Adelia dos seus flatos.

Eram estas as relações mais intimas do Custodio que, usurario e forrêta, detestava reuniões e convivencias que o forçassem a incommodos e despesas.

Tolerava a viuva do general, cujo conhecimento proviera de serem as filhas companheiras de Beatriz no collegio, porque lhe rebatia as pensões com extraordinaria usura; e quanto á familia do Belchior, está bem patente o interesse que lhe advinha das suas relações.

Beatriz, prevenida por seu pae de que n'essa noite viriam visitas, preparou-se para as receber.

A candida menina preferiria antes a solidão do seu quarto á enfadonha conversação de tão estolidas creaturas; mas como era a ella que cumpria desempenhar os deveres de dona da casa, não teve remedio, sacrificou-se ás leis da boa educação e foi com risonho, embora contrafeito, semblante que veio á sala.

Eugenio de Mello, acompanhando o Belchior, apresentou-se gentil e muito correcto no seu trajo elegante de rapaz rico, affectando uns ares superiores, de bom tom, sem comtudo deixar de se mostrar amavel e attencioso em extremo para com as damas.

Conversaram estas de modas, do tempo, dos theatros, dos mil nadas que preoccupam o espirito das senhoras finas, ou que de taes se presumem; emquanto Custodio, Belchior e Eugenio commentavam os ultimos acontecimentos politicos e prophetisavam mil horrores ao futuro de Portugal.

Veio o chá. Servido elle, o Belchior perguntou:

— Então não temos um bocadinho de musica? Vá, sr.ª D. Rufininha, dê-nos um bocadinho de piano.

Rufininha era a filha mais velha do general.

— É verdade! apoiou Custodio — e a sr.ª D. Therezinha canta aquella canção

Murmura, rio, murmura!

que é tão bonita.

A Rufina dirigiu-se logo ao piano e a Therezinha, morta por cantar, começou a fazer caretas e a desculpar-se, que estava sem voz, que não se sentia bôa da garganta, que hoje não, para outra vez cantaria.

Mas o Belchior e o Custodio insistiram, — que cantasse, que eram desculpas de mau pagador, que quem tinha uma voz tão bonita não devia ser tão avara do seu thesouro.

E agarrando-lhe cada um por seu braço, arrastaram-n'a até junto do piano, onde já a irmã pingava notas preparando-se para o acompanhamento.

Assim instada, a Therezinha começou esganiçando-se terrivelmente, a pedir ao rio que murmurasse, em meio do silencio e da forçada attenção dos circumstantes.

Aproveitando-se d'este momento, Eugenio, aproximou-se da filha do Custodio e, sentando-se n'uma cadeira proxima, encetou com ella este dialogo:

— Dá-me licença, sr.ª D. Beatriz, que lhe faça uma pergunta?

— Queira v. ex.ª dizer, sr. Eugenio de Mello — respondeu Beatriz, sem poder reprimir um movimento de terror instinctivo.

— Parece-me vêl-a triste, como que sob o peso de um desgosto intimo... Acaso devo eu attribuir á minha presença a melacholica expressão do seu rosto?

— Porque me faz essa pergunta, sr. Eugenio de Mello?

— Perdão, se fui indiscreto! — tornou o mancebo. — Mas, em primeiro logar, interessam-me as dôres e as alegrias do seu coração mais do que talvez póde imaginar... Depois... creio que lhe não deve ser estranho o desejo ardente que me anima de lhe dedicar toda a minha existencia e de viver feliz da sua felicidade...

Beatriz baixou os olhos.

— Creio que quer referir-se — disse ella — a um projecto de casamento de que já ouvi fallar meu pae...

— Não me atrevi a patentear a v. ex.ª o sentir intimo do meu coração, e dizer-lhe a chamma abrasadora que o seu dulcissimo olhar me accendeu no peito... E como a vi filha meiga e carinhosa, filha submissa e obediente, não hesitei em pedir a seu pae e meu bom amigo, que fosse interprete fiel e auctorisado dos meus sentimentos junto de v. ex.ª. Fiz mal?

— No logar de v. ex.ª, eu não teria procedido assim...

— Porque? Quem melhor póde ser fiador dos puros e santos affectos da minha alma, das delicadas e nobres intenções que me animam, do que o proprio pae da mulher que amo? Porventura, se o meu amor por v. ex.ª não fosse uma d'aquellas paixões abrasadoras, violentas, em que fazemos consistir toda a nossa felicidade, iria eu pedir para elle o consenso do auctor dos seus dias?

— V. ex.ª esqueceu ou não contou para nada com o meu coração. Era no emtanto a elle que v. ex.ª devia dirigir-se primeiro, creio eu...

— Supponho-a tão bôa, tão pura, tão santa, que não duvidei um momento da bondade angelica com que acolheria as supplicas de um infeliz, sabendo que eu, infeliz, morro por v. ex.ª.

— Por muito bondosa que eu lhe parecesse, nunca deveria suppôr-me tanto que me julgasse capaz de sacrificar o meu coração á sua felicidade, sr. Eugenio de Mello.

— Quer dizer com isso que me despreza, que recusa o meu amor, que devo julgar para sempre perdida a felicidade, esmagado para sempre o meu coração?

— Quero dizer-lhe, senhor, que preciso fallar-lhe com a lealdade e franqueza que devo a v. ex.ª e á minha dignidade de mulher. Se depois de me escutar, ainda persistir no seu proposito...

— Consentirá em ser minha esposa?

— É possivel.

— Pois bem; falle! Diga-me v. ex.ª o que tem a dizer, porque eu anceio pelo momento de lhe poder dar uma prova cabal, irrecusavel, sublime, do meu amôr!

— O que tenho a dizer-lhe, sr. Eugenio de Mello, — respondeu friamente Beatriz — é por tal modo grave e serio, requer tanto socego e reflexão que, aqui, n'esta sala, n'um curto momento de conversa, entre pessoas que fallam, tocam e cantam, mais poderia v. ex.ª dar-lhe peso e eu exprimir-me como desejo. Se lhe não fôr demasiado o sacrificio, rogo-lhe que venha ámanhã de dia, e então fallaremos. Já expressei a meu pae a necessidade que tinha de me entender com v. ex.ª sobre o assumpto em questão, e portanto a sua vinda a esta casa está perfeitamente auctorisada por elle.

— Virei então ámanhã — disse Eugenio. — Mas, por Deus, não me roube a esperança de vir a chamar-lhe minha esposa, de vir a ser o seu escravo sendo ao mesmo tempo o mais feliz dos homens.

Beatriz levantou-se, despedindo-o com um gesto.

— Amanhã! — disse ella.

Esta conversa passara-se por entre os olhares obliquos de Belchior e Custodio, que ambos, fingindo prestar grande attenção ás filhas da D. Thereza, não perdiam de vista Eugenio e Beatriz.

Por volta das 11 horas, a viuva e as filhas do general deram o signal da retirada.

A mulher e a cunhada do procurador despediram-se tambem.

Já na rua, o Belchior, voltando-se para o Eugenio, perguntou:

— E então?

— Então... nada!

— Pois você não lhe fallou em amor, não lhe disse que morria de paixão por ella?

— Disse-lhe tudo isso, porque, verdade, verdade, eu não vim cá para outra coisa. Mas achei-a muito fria, muito reservada... Teima que me quer fallar amanhã, porque tem coisas muito sérias e muito graves a dizer-me...

— Já sei. O que ella quer é namoro. Quer que você lhe cante a sós as lindas cantigas da sua paixão por ella e lhe jure mil vezes que a ha de amar até á morte...

— Isso não são as coisas sérias e graves que ella tem para me dizer... Se me chama, não é para que eu lhe falle, é para ella me fallar a mim... Que quererá dizer-me?

— Naturalmente que tem um namoro que a ama apaixonadamente e que, assim que souber que ella está para casar com outro, é capaz de se ir deitar da ponte abaixo — disse rindo o procurador.

— Emfim, seja o que fôr. Amanhã virei fallar-lhe e saberemos o que ella quer...

— Que diabo hade querer? Quer casar, quer-lhe apanhar a cortiça toda da sua quinta — porque julga que o pae está pobre e que não póde continuar a dar-lhe vestidos de seda... As mulheres são todas assim, meu amigo!

— Não parece que seja isso — volveu Eugenio — Pelo contrario, supponho outra coisa...

— O que?

— Que a pequena cahiu em alguma falta grave e quer francamente confessar-m'a antes de casar...

— Pois você suppõe?...

— Não sei... Mulheres são mulheres...

— Mas você, ainda que isso seja, não faz caso!... — preveniu o procurador, receioso d'escrupulos por parte do seu cumplice.

— Bem me importa cá a mim! Perdôo... faço de generoso... O que se quer cá são os vinte contos...

— E que o Custodio morra breve para vir a maquia completa! — accrescentou o Belchior.

— Nem mais nem menos!

Assim entendidos, ao outro dia, Eugenio apresentou-se em casa do Custodio.

O usurario, informado do que se passava, simulou uma sahida a tratar de negocios, afim de facilitar a entrevista dos dois.

Beatriz, pallida de commoção, saiu á sala de visitas a receber o mancebo.

— Queira sentar-se, sr. Eugenio de Mello — disse ella gravemente, indicando-lhe uma cadeira — Pedi-lhe a fineza de me escutar a sós por alguns instantes, pois o que tenho a dizer-lhe não deve ser conhecido de mais pessoa alguma; e confio na sua honra de cavalheiro que saberá guardar absoluto sigilo sobre o que me ouvir...

— Oh, minha senhora! — exclamou o mancebo — Amo-a tanto que, mesmo sem essa prevenção, guardaria avidamente no fundo da minha alma todas as suas palavras como um inestimavel thesouro!

— E devem realmente valer para v. ex.ª um thesouro pela franqueza e lealdade que revestem. V. ex.ª, segundo creio, manifestou a meu pae o desejo de me tomar para sua esposa...

— De novo peço perdão, se assim procedi, mas julguei que ninguem melhor do que elle podia ser interprete dos meus sentimentos junto de v. ex.ª... Nos tempos que vão correndo é tão frequente vêr-se um seductor abusar da hospitalidade de um homem de bem para lhe ludibriar uma filha, que eu julguei um dever de honra, antes de tudo, patentear a quem tão generosamente me acolhia as nobres e puras intenções do meu coração apaixonado! Se errei, v. ex.ª saberá perdoar-me o inconsiderando passo com que pude contrarial-a, em attenção aos honestos sentimentos que me moveram.

— É v. ex.ª um homem de bem e por isso mesmo ha-de saber comprehender e avaliar os justos melindres que me forçaram a uma explicação clara, franca e leal da minha situação...

— Dos labios de v. ex.ª está dependente a minha sorte, o meu futuro, a minha vida. Peço-lhe que falle como á pessoa que mais a ama e que mais ardentemente deseja merecer-lhe inteira confiança!

— Pois bem; em primeiro logar, o meu coração já não está livre — disse Beatriz — Amo e sou amada com o sincero e vehemente amôr de duas almas irmãs que desejam unir-se no mesmo destino...

Eugenio levantou-se de golpe, simulando uma muito bem fingida commoção.

— Beatriz! — disse elle arrebatadamente tentando apoderar-se das mãos da joven — não posso crêr que haja no mundo quem a ame, quem a adore com o santo e fervoroso culto que o meu coração lhe tributa! É possivel que haja, e creio bem que haverá, quem renda o merecido preito á sua belleza, ás suas virtudes, á nobre e graciosa distincção de sua gentil figura. Mas amor puro, santo, sincero e vehemente como este que me agita o peito, que me rouba o socego e a tranquillidade e me faz sonhar constantemente na ventura de a possuir, de a ter por esposa, de lhe dedicar todas as horas da minha vida, todas as alegrias da minha existencia... oh, não! não é possivel! Diz-me que o seu coração não é livre... Creio bem que o seu coração a engana e toma como sincera expressão de verdadeiro amor um sentimento de mera sympathia, fugaz, passageiro, como são em geral todas as affeições que nascem de um olhar, de um sorriso, de um entretenimento de cartas amorosas, de uma troca de simples palavras murmuradas a mêdo no redomoinhar de uma walsa ou na mysteriosa entrevista de uma janella para a rua!

— Engana-se, sr. Eugenio de Mello! — retorquiu Beatriz — Este amor que me prende o coração a outro coração, não é um d'esses caprichosos sentimentos de futil galanteio, que nascem n'um dia para morrerem no outro; é, pelo contrario, uma paixão verdadeira, profunda, sinceramente sentida e a que está indissoluvelmente presa para sempre a nossa existencia, o nosso destino...

— Todavia — observou Eugenio com um sorriso levemente desdenhoso — essa declaração de v. ex.ª harmonisa-se bem pouco com as esperanças que me pareceu traduzir na resposta dada por v. ex.ª a seu pae e que elle me transmittiu ácerca do nosso enlace...

— É justamente por isso que desejei fallar-lhe — volveu Beatriz, com altiva dignidade. — Quando meu pae me fez sciente das honrosas pretensões de v. ex.ª á minha mão, recusei terminantemente, dispensando-me de declarar os poderosos motivos que determinavam a recusa. Meu pae insistiu e eu reagi, pois não reconheço á auctoridade paterna o direito de dispôr do coração dos filhos para os obrigar a um enlace que só uma sentida affeição determina. Ameaçou-me com rigores, com violencias, com a sahida immediata de casa para um convento. Nada d'isso me intimidou nem me demoveu do meu proposito. A final, meu pae declarou-me com franqueza que o motivo da sua insistencia para que esta união se realise é o estado de ruina financeira em que se encontra e que de um momento para o outro ameaça deixar-nos sem tecto e sem pão. Chorou, lamentando a sua e a minha miseria, e declarou-me que, tendo posto toda a esperança de salvação n'este casamento, desde que eu o recusava, faria saltar os miolos com um tiro na cabeça e que a mim me ficaria o remorso de lhe ter causado a morte. Foi então que, para o socegar, prometti annuir aos seus desejos com a condição de que préviamente me seria permittido fallar com v. ex.ª. Eis tudo o que se passou e eis o que tenho a dizer-lhe: Quererá v. ex.ª acceitar por esposa uma mulher cujo coração pertence a outro e que unicamente, — unicamente, tome v. ex.ª nota — por salvar a vida de seu velho pae, faz o sacrificio da sua vida e do seu amor, acceitando o enlace que v. ex.ª lhe propõe?

Eugenio ficou um momento indeciso ante a rude crueza d'esta inesperada pergunta que punha em cheque os seus brios d'homem, a tão apregoada dignidade dos seus sentimentos.

— E v. ex.ª no meu logar o que faria? — disse elle por fim, respondendo com esta pergunta á pergunta que lhe fôra feita.

— Pois que lhe fallo d'esta maneira, é porque não julgo acceitavel uma união em taes circumstancias.

— N'esse caso, o que é que v. ex.ª exige de mim?

— Tudo o que póde exigir-se d'um homem digno. Que v. ex.ª, guardando absoluto silencio sobre os motivos que acabo de expôr-lhe, simule reconsiderar e dê como irrealisavel a união que projectou.

— Oh! isso nunca! — protestou vivamente o bohemio — Com que pretexto diria eu a seu pae que lhe rejeitava a mão da filha? Isso envolveria não só uma violencia cruel ao meu coração, como uma affronta gravissima á honra de v. ex.ª. E eu que a amo, eu que faço consistir toda a minha ventura na dita immensa de a ter por esposa, havia de ser o primeiro a lançar na reputação de v. ex.ª o stygma affrontoso de um repudio aviltante?! Repare v. ex.ª que isso é exigir-me mais que a propria vida!

— Pois bem; não diga v. ex.ª que desiste inteiramente das suas pretensões a esta união impossivel; mas busque, pelo menos, um pretexto para o addiamento indefinido... Ser-lhe-ha facil pretextar embaraços emprevistos, uma viagem longa, demorada...

— Quer v. ex.ª dizer que me afaste, que deixe de a ver, de lhe fallar, de viver na mesma terra em que v. ex.ª vive, de frequentar os mesmos logares que v. ex.ª frequenta, de respirar o mesmo ar que v. ex.ª respira! — exclamou o bohemio n'um fingido rapto de desesperada eloquencia — E emquanto eu, distante, na solidão e no abandono da minha retirada terra de provincia, curto as dôres e as amarguras de um amor sem esperança, fica um outro, um outro a quem v. ex.ª ama, na posse feliz do seu coração, gosando tranquillo as suaves delicias do amor correspondido! É por demais cruel, minha senhora! E eu, francamente, não lhe mereço o atroz supplicio a que quer condemnar-me!

Estas palavras foram proferidas com um mixto de indignação e amargura tal, que Beatriz não pôde deixar de córar, pensando que tinha sido demasiado impiedosa no seu egoismo de mulher apaixonada.

— Peço perdão — balbuciou ella — mas propondo isto, eu parto do principio de que v. ex.ª, como homem digno, não póde pensar mais em que eu seja sua esposa e de que o meu nome deve, por esse motivo, ser para sempre banido da sua lembrança...

— Oh, minha senhora! Como conhece mal o coração do homem que ama com o ardor e enthusiasmo com que eu amo a v. ex.ª! — exclamou cynicamente o bohemio. — Se antes de a ouvir eu tinha motivos para a desejar, para querer ser o possuidor unico de esse precioso thesouro d'encantos e perfeições que fazem de v. ex.ª a creatura mais adoravel do Universo, agora, depois de a ouvir, esses motivos redobram e impellem o meu coração a amal-a doidamente! V. ex.ª está pobre. Eu sou rico. Do meu casamento com v. ex.ª depende não só o seu futuro tranquillo e feliz, mas ainda a vida do seu proprio pae, esse amigo inestimavel a quem me prendem tantos laços de sincera affeição. Já não fallo de mim, do meu coração para sempre morto aos golpes crueis de uma desillusão sem esperança... Mas poderia eu, sem ser um miseravel cobarde, abandonar á pobreza e aos horrores do desespêro a mulher que amo e a vida do amigo que tanto préso? E tudo isto para quê? Para que um desconhecido, um homem que eu nunca vi, que não estimo, que não sei quem é, não seja perturbado nos seus caprichosos sonhos de uma felicidade que não tem nem póde dar!

A estas palavras, Beatriz levantou-se pallida, e tremula, agitada por uma commoção indescriptivel.

— Sr. Eugenio de Mello — disse ella com os olhos brilhantes de indignação — o homem de quem falla não pediu nada a v. ex.ª, nem eu quiz com as minhas palavras collocal-o sob a alçada dos seus juizos temerarios. Não se trata d'elle: trata-se de mim, trata-se de nós. V. ex.ª persiste na ideia d'este casamento, não obstante saber que amo outro homem e que só por salvar a vida de meu pae é que eu poderia consentir em conceder-lhe a mão de esposa?

— Se eu a amo tanto! Se eu a adoro e espero que á força de dedicação e de sacrificios hei-de fazer-me tambem amar por v. ex.ª!

— Nunca! Nunca! — protestou Beatriz — Mulheres como eu, amam uma só vez na vida e só podem pertencer d'alma e coração ao homem a quem se dedicaram.

Nos labios de Eugenio volitou um sorriso ironico.

— V. ex.ª é livre, minha senhora — replicou elle — Póde impunemente matar seu pobre pae e matar-me tambem a mim com a sua recusa... O que não conseguirá é fazer-me cumplice n'esse parricidio e tampouco que eu acceite voluntariamente a morte a que me condemna, em premio de tanto amor que lhe consagro.

Beatriz encarou-o fixamente. No seu olhar havia um desprezo mortal, uma d'estas condemnações terriveis que cavam um eterno abysmo de odio entre dois sêres.

— Tenho entendido, senhor — disse ella em tom breve e secco — Preciso de meditar nas suas palavras antes de dar uma resposta definitiva. Meu pae o informará da minha resolução.

Inclinou a cabeça ligeiramente, n'um movimento de despedida, e sahiu da sala com altiva serenidade.

— Tens cabellinho na venta — disse comsigo o bohemio, descendo as escadas que conduziam ao escriptorio do Custodio — mas, se me caes nas mãos, eu te porei macia que nem velludo!...

No escriptorio estavam já o Custodio e o Belchior, anciosos por saberem o que se estaria passando entre Beatriz e Eugenio.

Quando o mancebo appareceu á porta, os olhares dos dois patifes cravaram-se perscrutadores no rosto do bohemio.

— Então? — perguntaram ao mesmo tempo.

— Quartel-general em Abrantes. Tudo como d'antes.

— Mas o que disse ella? — insistiu o Custodio.

— Contou-me toda a scena da pobreza que o meu amigo lhe metteu em cabeça; disse-me que amava outro homem, e que só pelo receio de que o meu amigo se matasse é que condescendeu em dar esperanças d'acceitar o casamento. Queria que eu desse o dito por não dito, que desistisse de a querer para esposa...

— Mas você nem nentes! — atalhou o Belchior ancioso por se inteirar de tudo.

— Está visto! Recusei, porque a amo, porque a adoro sinceramente, e você amigo Belchior bem sabe se isto é verdade...

— E ella? — interrogou o Custodio.

— Despediu-me dizendo, que, visto isso, ia pensar e depois daria resposta definitiva...

— Amigo Custodio! — disse o Belchior, batendo familiarmente no hombro do usurario — o caso agora é comsigo... Aperte-me a pequena... torne a representar a scena da pobreza até ella dizer que sim... Tenha pena d'este pobre diabo, que anda aqui pelo queixo!...

— Não tem duvida! — aquietou o Custodio — Ella ha de ir... O que eu quiz foi apanhar-lhe o fraco... Se fôr preciso, até dou um tiro para o ar, a fingir que me mato... E ella ha de ir!...