Os Filhos do Padre Anselmo/VI

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Os Filhos do Padre Anselmo por António José de Albergaria
Capítulo VI: Á hora da morte


Tres dias depois d'esta visita do padre Filippe a madre Paula, bateram violentamente á porta do sacerdote, era uma hora da noite.

O padre Filippe não se tinha ainda deitado.

Muito dado á leitura de velhos classicos, o amante de madre Paula passava grande parte da noute a folhear poeirentas chronicas e a fazer annotações curiosas, no intuito de esclarecer varios pontos obscuros da nossa historia que, como se sabe, ainda hoje offerecem duvidas aos mais persistentes e lucidos investigadores. Ouvindo bater á porta com a violencia propria de quem deseja ser ouvido o mais rapidamente possivel, o padre Filippe levantou-se, marcou com um papel em branco a pagina em que interrompia a leitura e veio á janella indagar quem batia. Á porta estava uma mulher do povo, com um chaile pela cabeça para se resguardar do frio cortante da noite.

— É aqui que móra um senhor que é padre e que vae dizer todos os dias missa aos Grillos? — perguntou ella.

— É aqui. O que deseja?

— É que está alli uma velhinha, que é minha visinha, a morrer, e a pobre de Christo não faz senão pedir que lhe chamem um padre, porque se quer confessar; e eu venho cá vêr se v. s.ª faz a esmola de a ouvir de confissão...

— Onde móra essa mulher?

— Na rua da Senhora d'Agosto, meu senhor! É pertinho... é d'aqui a dois passos, e se v. s.ª fizesse a esmola de vir comigo, chegava lá n'um instante!...

— Espere ahi, que eu desço já.

Embrulhou-se n'um capote á hespanhola, pôz na cabeça o seu chapéo alto, pegou da bengala, e pouco depois estava na rua.

— Vamos lá! — disse elle.

Encaminharam-se para a rua da Senhora d'Agosto, que fica a curta distancia, nas proximidades do paço episcopal. A mulher que viera chamar o padre Filippe caminhava apressada adiante d'elle, na ancia de chegar a tempo com o soccorro espiritual que a moribunda reclamava.

— Seja pelas almas! — lamuriava ella. — Está a pobresinha a appellidar por um confessor desde o resto da tarde, que parece que nem póde morrer sem se confessar, e não havia uma alma de Christo que se arresolvesse a vir chamar v. s.ª ou oitro qualquer que lhe deitasse a assolvição!

— Não tem familia essa mulhersinha? — inquiriu o sacerdote.

— Ella não tem ninguem, meu senhor! É velhinha como as serpes, e não tem filhos nem parentes. Vive lá n'um quartinho, que uma visinha lhe alugou por cinco tostões por mez, e dês que caiu emprégadinha, o que vale é a gente ir olhando por ella, por caridade, senão morria p'rá alli, sem ter quem lhe chegasse uma sêde d'auga!

— Coitada! — lamentou o padre Filippe.

— Mas que! — tornou a mulher — a gente támem sêmos probes... támem temos de olhar pela nossa vida, que, se a gente o não ganhar, ninguem nol-o vem trazer... De sorte que a probesinha tem passado muita necessidade...

— Logo que ella assim adoeceu, porque a não mandaram para o hospital?

— No isprital, meu senhor, não na acceitaram, porque lá diz que não curam a velhice... Nem ella queria... Eu ás vezes inda lhe dezia: «Ó sr.ª Maria do Carmo, e se vocemecê pedisse a alguem p'ra vêr se a arrecolhiam no Azylio das velhas?» Mas ella: «que não, e que não», nem queria que lhe fallassem n'isso!

Chegaram a um predio velho e sujo, de miseravel aspecto, com a porta da rua escancarada.

A mulher guiou o padre pelas profundezas escuras do portal, e chegando ao fundo de uma estreita e perigosa escada, que dava accesso aos andares superiores, gritou:

— Ó sr.ª Izabelinha, alumeie, que vae aqui o sr. padre!

No alto do terceiro andar, rangeu uma porta, sentiram-se uns chinellos a arrastar, e na balaustrada do corrimão luziu a mortiça e fumarenta luz d'uma candeia de petroleo.

— É vocemecê, sr.ª Barbora? — perguntou uma voz lá do alto.

— Sou eu, sou, alminha do Senhor! Alumeie, que não vá este senhor cahir...

A sr.ª Barbara investiu com a escada como quem de ha muito estava familiarisada com os perigos d'aquelles desconjuntados degraus.

E voltando-se para o padre Filippe:

— É melhor v. s.ª agarrar-se ao corrimão, que não vá por ahi cahir e partir alguma perna... Isto, quem não está costumado, nada mais facel do que aleijar-se...

O padre Filippe já havia, por instincto, adoptado o expediente que a sua cuidadosa guia lhe aconselhava.

Segurando-se com a mão esquerda ao sujo e gordurento corrimão da escada, e tacteando os degraus com os pés e com a bengala, revestira-se de coragem e paciencia evangelica para realisar a difficil e arriscadissima ascenção.

Quando chegou ao alto do terceiro andar, onde uma velha esguedelhada, de cabeça estopenta e candeia na mão o aguardava, o amante de madre Paula parou offegante e cançado.

— É cá muito em cima! — disse elle.

— E as escadas são ruins d'assobir, meu senhor! — accrescentou a velha. — Eu támem, quando venho de lá de baixo e chego cá arriba, fico que, se me puzessem uma mão na bocca, arrebentava!

— Onde está a doente? — interrogou por fim o padre Filippe.

— Está aqui dentro, meu senhor... Ella está mesmo a espedir, coitadinha! Já desde honte que não lhe foi nada á bocca, e não faz senão pedir auga... Parece que está mesmo abrasadinha lá por dentro! O que aquella creatura me tem consummido p'ra lhe eu mandar chamar o confessor!

— E vocemecê porque não lhe satisfez a vontade?

— Eu já mandei recado ao sr. padre Luiz, que v. s.ª ha de conhecer, mas como a gente semos probes, fez á de conta que não era pressa e inda inté agora cá não appareceu...

— É que vocemecês não lhe mandaram talvez dizer que se tratava de uma pessoa em artigos de morte... — desculpou o padre Filippe. — Ora vamos lá... vamos lá ouvir essa creatura de Deus...

A velha, com a candeia lançando de si um enorme pennacho de fumo negro e suffocante, allumiou o padre Filippe até ao escuro e fétido cubiculo encravado no interior do misero pardieiro, que era um genuino representante da miseria suja do Porto, a mais repellente e odiosa de todas as miserias.

Ha n'esta bella cidade trabalhadora virtudes excepcionaes de honestidade, de honra, de civismo e de labôr persistente, que fariam o orgulho de todos os povos do mundo. Os seus habitantes são generosos, hospitaleiros, leaes, podendo servir de lição e exemplo a quantos se presam de possuir em elevado grau estas raras e nobilissimas qualidades. Mas a par d'isto, quantos defeitos de educação, deprimentes da dignidade de um povo que podia e devia ser o primeiro a marchar na vanguarda da civilisação do seu paiz!

Nas ruas, as classes trabalhadoras apresentam-se, na sua grande maioria, sujas, andrajosas, repellentes de immundicie, mãos e cara accusando uma ignorancia absoluta do uso da agua, como se o trabalho persistente e honesto precisasse d'estes ascorosos attestados da porcaria para se fazer respeitar!

Mulheres novas, bonitas como em nenhuma outra terra de Portugal, percorrem as ruas, descalças, esmadrigadas, as repas soltas, estrelladas de lendeas, e os pés e pernas nuas, batidas dos trapos sujos das fraldas, escodeadas de lama! Uma miseria! Um horror!

E todavia era tão facil mudar os gordurosos e sujos andrajos nas limpas e asseiadas vestes da gente pobre que se lava! Uma pouca d'agua — e o rio Souza, e os poços dos quintaes e os ribeiros dos arrabaldes offerecem tanta! — e dez reis de sabão bastavam!

É talvez esta, a diffusão das ideias de limpeza nas classes proletarias, uma das mais sympathicas e civilisadoras missões que estão reservadas á imprensa periodica dos nossos dias.

Os jornaes populares, os jornaes baratos, que levam tantas doutrinas salutares e tantas noticias perniciosas ás classes humildes, que por elles se guiam e norteiam, — quando se não desnorteiam — não poderiam, com um bocadinho de boa vontade e persistencia, encetar efficazmente a propaganda da limpeza publica e particular dos cidadãos como base primaria de toda a hygiene social e moral?

Valha-me Deus! Pois não ia eu agora descambando da facil e comesinha acção do romance para as considerações sabias e profundas de um sabio e profundo auctor de originaes opusculos?

Desculpe-me o leitor a divagação e acompanhemos, visto que não ha outro remedio, o padre Filippe através dos corredores defumados e mal cheirosos, resumando das paredes e do soalho podridão e esterco, até ao humilde grabato em que arqueja agonisante uma octogenaria, quasi uma mumia, enterrada sob um montão de farrapos.

É a sr.ª Maria do Carmo.

Ao vêr entrar o padre Filippe, a moribunda voltou para elle os olhos, em que perpassou um lampejo de alegria, e disse com voz debil e quasi extincta:

— Graças a Deus! Não morrerei sem que v. s.ª me ouça de confissão!

O padre Filippe aproximou-se do leito e contemplou, á luz de uma candeia de azeite, espetada na parede, do lado da cabeceira, o rosto enrugado e magro da pobre creatura.

— Então deseja reconciliar-se com Deus, não é verdade, minha irmã?

— Sim... sim, meu padre!.. Quero confessar-me... A morte avisinha-se e eu quero... preciso de alliviar a minha consciencia do peso de... peccados que não sei se Deus m'os perdorá! — balbuciou a enferma, com voz entrecortada e de cada vez mais debil.

— Deus é infinitamente bom, infinitamente misericordioso — aquietou o padre Filippe — e está sempre prompto a perdoar á creatura que, humilde e contrita, sente na alma o arrependimento da culpa e para ella implora o divino perdão!

Puxou uma cadeira de pau de pinho, sentou-se á cabeceira do leito e, fazendo signal ás duas mulheres que o conduziram para que o deixassem a sós com a enferma, continuou:

— Aqui estou, pois, minha irmã, para ouvir em nome de Deus, cujo humilde ministro sou, as vozes do seu arrependimento e absolvel-a... De que se accusa?

A velha relanceou para elle os olhos afflictos, em que se lia o pavor do inferno, e principiou com voz lenta e abafada a seguinte narrativa:

— Eu sempre fui muito religiosa e devota... Ia todos os dias ouvir missa e confessar-me, e Deus ajudava-me sempre com a sua divina graça, porque desde que comecei a andar pelas casas do Senhor, nunca me faltou nada, e havia muitas almas bôas que me soccorriam, compadecidas da minha pobreza...

— Ahi tem, pois, uma prova de que Deus não recusa nunca o seu divino amparo áquelles que na sua infinita misericordia depositam inteira fé e confiança...

— Os srs. padres dos Grillos e os srs. padres de S. Bento da Victoria conheciam-me todos... e faziam o favor e esmola... de serem muito meus amigos...

— É porque reconheciam em vocemecê verdadeira devoção e temor de Deus...

— Lá isso... eu na egreja... portei-me sempre com muito respeito... E até quando via certas beatas fingidas — Deus me perdôe! — a fazerem da casa do Senhor logar de recreio e de pouca vergonha... sentia um peso na consciencia e ia-me logo confessar d'isso, como se fosse eu que tivesse commettido o peccado... E aonde não chegava mandava... que era para ellas terem vergonha!

O padre Filippe sorriu indulgente:

— E é talvez d'esse excesso de zelo, em verdade pouco edificante aos olhos do Altissimo, que se arrepende agora e quer pedir perdão a Deus? Tem razão, minha irmã! A moral do evangelho, a religião santa do Crucificado manda que perdoemos as faltas e fraquezas do proximo e não façamos d'ellas objecto de escandalo e de aggravo, com perda e offensa da reputação d'aquelles que peccaram...

— Não é d'isso que eu me accuso, meu padre! — accudiu a velha reanimada um pouco pelo prazer da confissão — Isso até os meus santos padres confessores me diziam que fazia muito bem... e pediam-me que os avisasse de tudo o que visse e ouvisse, que era para elles não andarem a ser enganados... e saberem quem tinha religião e quem não tinha...

O padre Filippe dissimulou um gesto de repulsão e de enfado, e perguntou:

— De que é então que se accusa, minha irmã?

— Eu... de mim... não me accuso de nada, meu santo padre! Eu... o que fiz... foi sempre com os olhos em Deus... e tudo para bem da santa religião...

— Pois se não tem de se accusar de faltas proprias, as dos seus semelhantes tambem não são as que hão-de fazer-lhe carga aos olhos do Altissimo, se para ellas não concorreu nem estava na sua mão impedil-as... Portanto, como onde não ha culpa não ha perdão, eu nada tenho de que absolvêl-a... Feliz de quem póde como vocemecê apparecer no tribunal divino com a alma limpa de macula.

Dizendo isto, o padre Filippe, entediado, ia a levantar-se para sahir, quando a velha, estendendo para elle as mãos convulsas, bradou com indizivel accento de pavôr:

— Pelo amor de Deus! Pelas cinco chagas de Christo, meu padre, ouça-me! Ouça-me que eu quero... confessar-me!...

— Pois o que tem vocemecê estado a fazer, senão a confessar-se, creatura de Deus?

— Como v. s.ª ainda me não perguntou nada...

— Nada tenho que perguntar-lhe, minha irmã... Vocemecê consulta a sua consciencia, e se n'ella encontra escrupulo ou duvida de falta commettida, confessa-a sinceramente e d'ella pede perdão a Deus, em nome de quem eu a estou escutando...

A velha revolveu-se arquejante nos trapos e disse em voz sumida:

— É que eu... criei como se fosse meu filho uma creança... que era filha... de um padre e d'uma mulher casada...

— E vocemecê concorreu d'algum modo para que esse padre e essa mulher casada incorressem na falta que originou o nascimento d'essa creança?

— Não, meu senhor! Eu conhecia o sr. padre Anselmo de me confessar a elle, na egreja de S. Bento, no tempo do sr. padre Couto, que era um santo...

— Só Deus sabe quem é santo! — murmurou o padre Filippe, surprehendido ao ouvir fallar no padre Anselmo.

— E vae depois, um dia, o sr. padre Anselmo chamou-me a Braga para eu tomar conta d'aquella creança debaixo de todo o segredo... Eu, como lhe devia muitas obrigações, trouxe-a e tratei a creança como minha... E o sr. padre Anselmo é que pagava as despezas...

— Que nome tinha essa creança? — perguntou o padre Filippe, agora interessado na estranha narrativa da velha.

— Chamava-se Hilario, meu senhor...

— Esse rapaz ordenou-se e é ecclesiastico — disse o padre Filippe.

— V. s.ª conhece-o? Sabe d'elle? Onde está? — perguntou a velha.

— Conheci-o, em tempo, capellão da casa conventual das irmãs Dorothêas, na Covilhã...

— É esse mesmo! É esse mesmo! — bradou a velha — E onde está agora?

— Ha muitos annos que o não vejo nem ouço fallar n'elle... Supponho que talvez haja partido para as missões ultramarinas ou viva em alguma casa religiosa do estrangeiro...

— Oh! não... não! Mataram-n'o... mataram-n'o!

— Quem? Quem suppõe vocemecê que pudesse ter interesse na morte d'esse obscuro sacerdote?...

— O mesmo que lhe matou a mãe... a D. Carlota...

E a velha juntou as mãos n'uma visivel angustia, murmurando:

— Meu Deus! meu Deus! e eu que o podia ter salvo... o meu pobre Hilario, coitadinho!

E pelas faces resequidas rolavam-lhe lagrimas em fio.

— Socegue, minha irmã, que o padre Hilario não foi victima de nenhum attentado como suppõe — disse o padre Filippe — A morte de um sacerdote não é coisa que passe despercebida na sociedade, mormente se essa morte é resultante de um crime. Ora eu não me recordo de ter lido a noticia do fallecimento do padre Hilario nos jornaes portuguezes e estrangeiros que leio todos os dias.

— Deus Nosso Senhor permitia que elle viva ainda! — murmurou afflictivamente Maria do Carmo.

— Vive decerto — affirmou o padre Filippe, no intuito de serenar a doente.

— Mas então porque não me escreve elle ha tantos annos? Eu que o criei com tanto amor... eu a quem elle chamava mãe...

— Julgará que vocemecê já não é viva...

— Não... não! — tornou a velha — Mataram-n'o para o roubar!...

O padre Filippe, suspeitando um tenebroso mysterio nas palavras da velha beata, perguntou:

— Como póde vocemecê ter semelhante suspeita? Pareceu-me ouvir-lhe ha pouco que a mãe d'esse rapaz foi assassinada...

— Foi... foi...

— Matou-a o marido, sabedor de que ella o atraiçoava?

— Não... o marido não... Foi o outro... o proprio amante...

— Quem?

— O padre Anselmo!

— O padre Anselmo! — disse o padre Filippe com espanto.

— Foi em Lisboa... — continuou a velha enferma — D. Carlota, a mãe do meu Hilario... separada do marido, um tal Custodio, de Braga, tinha feito testamento, deixando-me todos os haveres, para eu fazer entrega d'elles ao filho...

— E entregou-os?

A velha revolveu-se afflicta nos farrapos do leito.

— Não... porque o sr. padre Anselmo fez-me assignar um papel de divida a um homem... um tal João Ignacio, da rua de S. Sebastião, que me levou tudo, tudo!

O padre Filippe esforçava-se por comprehender a confusa narrativa da velha.

— Mas como diz vocemecê que o padre Anselmo matou a mãe do proprio filho d'elle?

— Foi em Lisboa... Elle levou-a para lá a ella e mais a mim, promettendo a ambas que o nosso Hilario iria lá ter comnosco, para vivermos todos juntos... Depois, elle... uma noite... foi tomar o chá no quarto da D. Carlota e... envenenou-a!

Aqui a velha esbracejou mais afflicta, evidentemente torturada pela recordação d'aquelle crime.

— Como o soube? — interrogou o padre Filippe.

— Eu vi n'essa noite a D. Carlota levar para o quarto d'ella o bule do chá com duas chávenas... Desconfiei e fui espreitar á porta do quarto... Presenceei tudo... Ella a queixar-se do veneno e elle... a dizer-lhe que a matava por ella lhe faltar á obediencia... Depois, no outro dia, veio a justiça e achou um bilhete que, não sei como foi, o sr. padre Anselmo tinha arranjado em nome d'ella, a dizer que se matou por causa do marido...

— E vocemecê calou-se com o conhecimento d'esse crime?

— Eu.. tive mêdo que elle me fizesse o mesmo a mim, e calei-me...

— Nem mesmo contou ao padre Hilario o que presenceou?

— Eu nunca mais o tornei a vêr... O sr. padre Anselmo disse-me que ia ter com elle á Covilhã e nunca mais vi um nem o outro... Por isso eu digo que elle o foi matar!...

A velha suspirou afflictivamente. Depois, continuou:

— Quando eu voltei para o Porto, o João Ignacio veio cá com os da justiça e tomou conta de tudo o que era da sr.ª D. Carlota... Acho eu que tomou conta, porque a mim não me chegou nada ás mãos...

— E quem era esse João Ignacio?

— Era o maior amigo do sr. padre Anselmo...

— Sabe se elle ainda vive?

— Ouvi dizer que endoideceu e que o metteram no hospital dos doidos... Foi bem feito! Foi o castigo de Deus!...

— Como conheceu vocemecê a D. Carlota? Foi em Braga, quando tomou conta da creança?

— Nada! Ella nunca viu o filho... e eu só a conheci quando o sr. padre Anselmo a trouve p'rás Sereias e depois a levou p'ra Lisboa enganada... E como ella sabia que fui eu a que creou o Hilario... era muito minha amiga... e fez-me o testamento p'ra eu deixar tudo ao pequeno... Até me deu uma carta muito grande p'ra eu lhe entregar só depois d'ella morrer... Porque ella não queria que o Hilario soubesse que era filho d'ella...

— E o que fez a essa carta? Entregou-a ao padre Anselmo?

— Essa carta... — fez a velha — tenho-a aqui... guardada... como ella m'a deu... Nunca mais tornei a vêr o meu Hilario... nunca lh'a pude entregar...

Nos olhos do padre Filippe luziu um raio de curiosidade.

— É por isso... — proseguiu a velha — que eu me queria confessar a quem contasse isto... e confiasse esta carta... para a entregar ao meu Hilario... se elle algum dia apparecer vivo...

Dizendo isto, a velha introduziu a mão descarnada e tremula debaixo do travesseiro e tirou de lá uma sacca de chita, surrada do attrito das mãos e dos farrapos, e apresentando-a ao padre Filippe, disse com a voz estrangulada pelo esforço:

— Aqui está a carta e mais um dinheirinho que eu fui ajuntando das esmolas dos bemfeitores para lhe dar a elle... se um dia apparecesse... Tome v. s.ª conta de tudo, e se elle fôr vivo... entregue-lh'o... Se elle tiver morrido... diga-o de missas por minha alma...

— Não tem filhos, vocemecê? — perguntou o padre Filippe, acceitando com repugnancia o thesouro da velha e sem mesmo verificar a quanto montava.

— Tenho... Mas esses... estão arrumados... Nunca quizeram saber de mim... Mil contos que eu tivesse... haviam de ser todos para o meu Hilario... coitadinho!

— Não seria melhor distribuir pelos seus filhos este dinheiro, de que o padre Hilario talvez não precise?

— Não! Não! exclamou a velha anciadamente, arregalando os olhos, onde a vida começava a extinguir-se. Se elle não apparecer... missas pela minha alma!... Esse dinheiro... deu-m'o a religião... para a religião torna! São tres centos de libras... Tres centos!

— Está bem! Socegue. A sua vontade será cumprida — aquietou o padre Filippe.

— Graças a Deus! Morro descançada... E agora, meu padre... deite-me a sua absolvição... para que Deus me perdôe!

O padre murmurou em latim as palavras da absolvição.

— E elle... se fôr vivo... que se acautele do padre Anselmo... que não lhe mostre esse dinheiro... O padre Anselmo é pae d'elle... mas envenenou-lhe a mãe... para o roubar!... — murmurou ainda a velha, deixando descair a cabeça no travesseiro e entrando logo na agonia ultima.

O padre Filippe, impressionadissimo com as revelações que ouvira dos labios da moribunda, guardou no bolso o legado da velha e sahiu do lobrego cubiculo em que aquella vida se extinguia.

Chegado ao patamar, respirou com força e disse para a outra velha que o aguardava com a fumarenta candeia de petroleo na mão.

— Essa pobre mulhersinha está agonisante. Logo que ella expire dê-me parte, porque o enterro fica por minha conta.

— Sim, meu senhor! — disse a velha — Não seria bom dar-lhe ao menos a Santa Uncção, já que não póde tomar o Senhor?

— É tarde — respondeu o padre Filippe — Quando cá chegasse esse ultimo soccorro espiritual, encontraria um cadaver.

— Seja pelas almas! — lamuriou a velha — Não sêmos nada n'este mundo!

— Somos realmente bem pouco, quando presumimos ser tanto! — concordou philosophicamente o sacerdote — Vocemecê faria uma obra de caridade, indo assistir aos ultimos momentos d'aquella desgraçada...

— Sim, meu senhor... eu vou — concedeu a velha.

Padre Filippe, voltando-se para a mulher que o fôra chamar e que tambem viera ao patamar n'uma curiosidade agradecida, pediu:

— E vocemecê, santinha, não poderia fazer-me o favor de me alumiar até ao fundo da escada, que é tão cheia de precipicios para a minha idade?

— Eu vou, meu senhor... Então não hei-de ir?

E tirando da mão da outra a candeia:

— Vá vocemecê pró par da creaturinha de Deus, emquanto eu alumeio ó sr. padre...

A velha cedeu a luz e retirou para o interior, resmungando:

— Estes carólas do inferno, em não sentindo dinheiro a uma creatura, põem-se logo a avoar e dizem aos oitros que se aguantem co'as massadas... Se lhe cheirasse a que lhe untavam as unhas no fim, punha-se ahi a alanzoar os officios da agonia e não arredava d'aqui pé emquanto ella não fechasse o olho... Assim, vae a correr metter-se no quente e tanto se lhe dá que a probesinha de Christo vá p'ró céo como que vá p'ró inferno!

O padre Filippe, alumiado pela outra visinha, chegara ao fundo da terrivel escada com as costellas direitas.

— V. s.ª quer que o vá acompanhar inté casa? — offereceu a mulher.

— Não, não é preciso... D'aqui até lá é perto e não ha escadas a subir nem a descer. Amanhã procure-me para se comprar um caixão á pobre creatura. Boa noute!

— Vá v. s.ª na graça de Deus, meu senhor!