Os Filhos do Padre Anselmo/V

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Os Filhos do Padre Anselmo por António José de Albergaria
Capítulo V: Madre paula


Na casa conventual das Sereias, vamos encontrar madre Paula, aquella espirituosa e gentil abbadessa que os leitores da Irmã Dorothêa certamente não terão esquecido e com quem aquelles que porventura a não conheçam d'ahi, acharão prazer em travar conhecimento.

Formosa ainda, posto que um ou outro fio de prata ponha um signal de velhice nos seus lindos cabellos pretos, a amiga de Helena de Noronha não tem já aquella vivacidade traquina dos tempos em que a conhecemos.

A sua conversa, porém, é ainda adoravel d'encanto pelas scintillações do seu espirito gracioso e fino, que ás vezes se desata em torrentes de bom humor que muito alegram o padre Filippe, de ha muitos annos seu unico e constante director espiritual.

Á hora a que vamos encontrál-a, está ella sentada em fofa poltrona, escutando o padre Filippe, que acaba de chegar e que, ao que parece, traz novidades importantes a communicar-lhe.

A conversação intima entre os dois conserva ainda aquelle caracter familiarmente carinhoso de duas almas que se comprehendem, de dois corações que se amam e que se acham ligados pelos laços indestructiveis da mais solida confiança.

— Sabes, minha querida amiga? — disse-lhe o padre Filippe depois de a beijar carinhosamente nas faces — tive hoje a visita do nosso Paulo, do filho da irmã Dorothêa...

— Sim? Esse ingrato ha muito tempo que aqui me não apparece! Senta-te e conta-me: como está elle?

— Physicamente, pareceu-me bom. Agora, quanto á bóla, o rapaz tem-n'a um pouco transtornada...

— O que! que dizes tu? — perguntou madre Paula com visivel interesse — Notaste n'elle qualquer alteração?

— Imagina tu, minha amiga, que me entra em casa com ares melodramáticos e dispara-me esta pergunta com que eu não contava: «Diga-me, padre, quem é meu pae?!»

— Elle fez-te essa pergunta?

— E queria por força que eu lhe dissesse de quem era filho e por que razão se lhe occultava o segredo do seu nascimento.

— Mas isso é extraordinario! Como se atreveu a perguntar-te semelhante coisa?

— Como se atreveu! A mocidade de hoje atreve-se a tudo. A educação livre que lhe demos havia de produzir n'elle os naturaes resultados. Não nos suppõe seus protectores, nem sequer lhe passa pela imaginação que tudo quanto é o deve a nós. Julga-nos intermediarios, apenas, entre elle e os paes, para o acto material de lhe entregarmos as mezadas e mais ou menos inquirirmos do seu aproveitamento. N'estas circumstancias, comprehendes que acanhamento algum podia ter em se me dirigir da maneira por que o fez.

— E o que lhe respondeste? Como satisfizeste á curiosidade d'essa creança?

— Comprehendes, minha amiga, que eu não podia senão tomar o partido de me fingir tão ignorante como elle ácerca dos mysterios do seu nascimento; e foi isso o que fiz.

— Mas que motivo o levou a querer saber quem são os paes?

— Achas estranho? Tambem eu estranhei uma tal pergunta, e por isso não o quiz deixar partir sem indagar o que se passava de extraordinario n'aquella alma juvenil...

— E indagaste?

— Indaguei e soube.

— O que é, pois?

— O nosso Paulo ama!

— Ah! mau prenuncio! Cêdo começa esse pobre pequeno!

— Que queres tu, minha Paula? Hoje as creanças passam cêdo a considerar-se homens feitos, e a não guardarem para os trinta annos os prazeres do coração, que lh'os reclama aos dezoito...

— Isso é uma doença muito séria, a meu vêr, e que póde causar graves prejuizos de futuro ao nosso protegido...

— Ha doenças que em vez de matarem, salvam. Talvez esta seja uma d'ellas...

— Sempre optimista, sempre! — disse madre Paula com um sorriso de leve censura. — Não creio que o nosso Paulo possa lucrar grande coisa com uma affeição que certamente lhe ha-de preoccupar o espirito e desviar-lhe as attenções do estudo para o objecto dos seus amores. A prova de que essa paixão nascente, e de todo o ponto intempestiva, começa a produzir perniciosos effeitos, é que já despertou n'elle o desejo de penetrar o segredo do seu nascimento...

— Isso tinha de succeder mais hoje ou mais amanhã — replicou o padre Filippe — Não era natural que um espirito vivo e irrequieto como o de Paulo se conservasse por muito tempo indifferente ao desejo de saber quem são ou quem fôram seus paes...

Madre Paula conservou-se silenciosa e meditativa por alguns instantes.

— Creio que fizemos mal — disse ella — em dar a esse rapaz a educação livre que os modernos philosophos preconisam... Uma creança entregue aos imprudentes impulsos do seu coração juvenil, sem uma voz amiga que a aconselhe, sem a presença de preceptor austero cuja voz auctorisada lhe indique o caminho do dever, ha de necessariamente cahir no deploravel desvario de Paulo.

— Os homens formam-se na adversidade; o coração retempera-se nas amarguras para as grandes luctas da vida — retorquiu o padre Filippe. — A educação moralisadora de um preceptor austero corta os vôos ao espirito, e perniciosamente contribue para deformar a indole e perverter o caracter do um adolescente. A violencia imposta pelos preconceitos de uma conducta regrada, sujeita a methodos e convenções oppostas ao sentir individual, dá em resultado a falsificação de um caracter. O individuo assim creado não é nunca um producto apreciavel da natureza, é o producto artificial de uma odiosa tyrannia exercida sobre o seu espirito. Não é mais um homem são — bom ou mau — é um hypocrita; isto é, um aleijado que se arrasta miseravelmente deformado pela vida fóra, tanto mais perigoso aos outros homens quanto aprendeu a occultar e a disfarçar as suas intenções e os seus instinctos. Deixemos a este rapaz ampla liberdade de manifestar a sua indole. Se é bôa, avigorada pela liberdade da educação, ella bracejará frondescente como arvore de bons fructos; se é má, não haveria destra mão de habil podador capaz de extirpar a seiva ruim que a natureza lhe pôz na raiz.

— Elle é filho do padre Anselmo! — disse madre Paula — e se herdou a indole cruel, hypocrita e verdadeiramente sanguinaria do pae, com certeza ha de ser um monstro temivel, de que a sociedade terá que arrecear-se.

— É tambem filho da irmã Dorothêa — atalhou o padre Filippe — e é possível que haja herdado da mãe os sentimentos de singela bondade que a fizeram cahir nas rêdes infernaes d'esse homem extraordinario que nunca mais tornámos a vêr!

— É um caso que ainda hoje não sei explicar, o desapparecimento subito d'essas tres creaturas! — exclamou madre Paula. — Parece incrivel que até hoje não tenhamos tido mais noticias do padre Anselmo nem da irmã Dorothêa, nem ainda do padre Hilario!

— Como sabes, minha amiga — ponderou o padre Filippe — nas congregações jesuiticas, muda-se frequentamente de nome, e é esse até o processo adoptado por muitos dos nossos irmãos e irmãs, para apagar os rastos compremettedores da sua passagem por este ou por aquelle ponto. É, pois, de presumir que o padre Anselmo, ascendendo aos logares superiores da Companhia, julgasse conveniente adoptar outro nome, e, levando comsigo a irmã Dorothêa e o padre Hilario, lhes impuzesse a mesma mudança, afim de que ninguem mais pudesse seguir-lhes o rasto no amplo caminho das suas grandezas...

— Assim será. No emtanto, Helena é ingrata! Sabendo quanto eu a estimava, sabendo que lhe salvei a vida e lhe dediquei sempre uma amizade sincera de irmã, é imperdoavel o esquecimento a que me votou!

— Minha querida amiga, a distancia enfraquece os affectos. Não ha peor inigma da amizade do que é a ausencia. Depois, quem sabe? Talvez que o padre Anselmo, hoje Provincial ou Assistente com outro nome, lhe impozesse silencio como condição indispensavel de seus beneficios...

— Oh! não! Custa-me a crêr que a irmã Dorothêa tranzigisse com esse homem, que tão profundamente detestava agora!

— Mas não dizes tu, minha querida, que ella amava o padre Hilario, o joven filho do padre Anselmo, que desempenhava o cargo de capellão no convento da Covilhã, de que ella era abbadessa?

— Ella propria m'o confessou.

— Nesse caso, o amor pelo filho venceu a natural repugnancia pelo pae, e a esta hora temol-os juntos, n'algum convento do estrangeiro, felizes e resignados como nós o estamos, cavando com verdadeiro enthusiasmo na santa vinha do Senhor.

— Se tudo se passou como suppões — ponderou madre Paula — se realmente o padre Anselmo ascendeu aos mais altos cargos da Companhia e levou comsigo o filho e a amante d'elle e do filho, é impossivel que a estas horas Helena ignore quanto temos feito por esta creança que ella cruelmente engeitou...

— Decerto. Ella póde ter noticias nossas. Nós é que não as temos nem podemos obtel-as d'ella...

— Mas é ingrata! — repetiu ainda madre Paula. — Por quanto procederia eu de igual modo para com ella, eu que tu accusavas de leviana, superficial e inconstante nos meus affectos?

— Minha querida amiga — volveu risonho o padre Filippe — eu sempre fiz justiça ao teu coração; e se me queixava da tua cabeça, é porque era ella a que vinha receber-me na ante-camara dos affectos sem me deixar penetrar no sanctuario intimo do teu peito. E, para cumulo de desgraça, succedia que eu nunca me encontrava alli sosinho; havia sempre na sala commum das affeições triviaes dois ou tres frequentadores impertinentes com quem me acotovelava e cuja presença me indispunha e fazia soffrer...

— Sabes que foste sempre o preferido do meu coração!

— Suspeitava-o. Não tinha, porém, a certeza. E essa duvida torturava-me.

— E agora?

— Agora, minha bôa e querida Paula, tambem eu me não queixo. Devo-te os mais bellos momentos de toda a minha vida; devo-te os mais ardentes prazeres da minha mocidade e as mais suaves consolações da minha velhice. Bemdita sejas!

E enlaçou-a nos braços, beijando-a com um ardor ainda não de todo extincto n'aqueile organismo gasto pela edade.

Madre Paula deixou-se enlaçar n'um suave e doce abandono, murmurando com os olhos brilhantes e as faces purpureadas de prazer:

— Agora, e de ha muito tempo, és tu o unico senhor absoluto de todo o meu ser. Reinas e governas nos meus sentidos como no meu coração. Se me faltasses, morria!

— Se o amôr é a vida — tornou-lhe o padre Filippe — se é a grande lei universal que rege todos os sêres; se o amôr é a suprema aspiração dos novos, e ainda a unica força que ampara os velhos, como poderemos nós, minha querida, impedir ou sequer estranhar que Paulo ame com todo o fôgo do seu juvenil coração a mulher que o destino pôz no seu caminho?

— Não é precisamente esse o meu desejo, mas tão sómente guiar e dirigir esse pobre rapaz para que o desvairamento da paixão o não precipite nos abysmos da desgraça irremediavel.

— O coração apaixonado raro escuta os dictames da prudencia. Todavia, talvez tu possas, minha amiga, com essa tua dôce voz persuasiva, influir no espirito d'esse rapaz a deixar-se guiar pelos conselhos da experiencia. Prometteu-me que viria procurar-te, e creio bem que virá. A ti incumbe, pois, a difficil missão de dirigir os seus passos e vigiar pelo seu futuro. Elle ama-te como filho e se não escutar a tua voz, ninguem n'este mundo poderá fazer-se obedecer por elle.

— Pois bem; se até amanhã aqui não apparecer, mandal-o-hei chamar e ouvirei o que me diz. No emtanto, convém saber quem é a mulher que elle ama, a que familia pertence, e no caso que a união dos dois não seja uma d'estas inconsequencias absurdas que a razão repelle e as conveniencias sociaes condemnam, espero que não duvidarás unir os teus esforços aos meus para aplanarmos o caminho da felicidade a esse pobre rapaz.

O padre Filippe sorriu.

— Queres arvorar-me em casamenteiro á ultima hora! — acquiesceu elle — Seja! Interroga-me esse rapaz, inquire e desvenda todos os segredos da sua alma; e se te convenceres de que se trata de uma paixão séria e não d'uma d'essas velleidades tão frequentes e tão perigosas na adolescencia, faremos todo o possivel por lhe aplanar as difficuldades e conduzil-o triumphante á realisação dos seus desejos.

— Eu devo-lhe protecção e carinhos de mãe — disse ainda madre Paula — Não posso esquecer-me de que fui cumplice, embora forçada, na grande desgraça do seu nascimento. Essa creança é o fructo das milagrosas apparições do Christo á desvairada Helena de Noronha. Se não fosse eu, talvez que o padre Anselmo não realisasse a infame burla por esse processo tão suave... A minha consciencia accusa-me, se bem que a intenção com que procedi fosse mais humanitaria que criminosa. Eu quiz poupar a essa desgraçada os horrores de uma desillusão brutal, de uma violencia monstruosa como aquella de que foi victima a pequena Candida, immolada no Sardão aos instinctos bestiaes do padre Anselmo.

— Não recordemos, minha querida, esses horrores que a miseria da nossa situação subalterna nos tem obrigado a presenciar e até a proteger com o coração confrangido de dôr, com a alma revoltada de nojo. Vinguemo-nos da crueldade da sorte praticando o bem espontaneamente, em desconto dos males que temos sido forçados a fazer. Paulo é para todos os effeitos nosso filho. Façamos por elle todos os sacrificios compativeis com a nossa consciencia e com a nossa posição, e que Deus nos leve em conta o bom desejo que temos de proceder sempre bem e de harmonia com os dictames do nosso coração, que não é mau, mas que a fatalidade acorrentou a uma vida de torpezas e de immoralidades.

Despediu-se de madre Paula promettendo voltar no dia seguinte.

A abbadessa, ao vêl-o partir, ficou immersa n'uma profunda tristeza.

— É o unico que a alma negra da seita não perverteu de todo! — murmurou ella. — Que adoravel esposo e que exemplar cidadão se não perdeu n'este homem, que assim vae atravessando a vida amortalhado na sotaina da hypocrisia que elle proprio odeia! Pobre amigo! morrerás como eu na dôr e na saudade cruciante da liberdade que te roubaram!