Os Filhos do Padre Anselmo/X

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Os Filhos do Padre Anselmo por António José de Albergaria
Capítulo X: Para os grandes males...


Custodio de Jesus não se enganara quando dissera aos seus dois cumplices em patifaria que suppunha ter sido Paulo quem inspirara a Beatriz o pedido da relação das dividas do pae, para pensar na melhor maneira de as solver.

Effectivamente, Paulo de Noronha, animado pelos conselhos de madre Paula, a quem fizera a confidencia dos seus amores, e pelas palavras de esperança que ouvira da bôcca do seu amigo Jorge, fôra n'essa mesma noite fallar com Beatriz.

A pobre menina, aterrada, contara-lhe tudo, a sua recusa formal, as instancias do pae, o arrebatamento de colera com que elle, a principio, pretendera impôr-se-lhe, e afinal a dolorida confissão em que cahira das suas desgraças financeiras e do funesto designio em que estava de recorrer ao suicidio, se o casamento que propunha como unico recurso salvador fosse de todo em todo repudiado pela filha.

Mais contou a apaixonada creança o expediente de que lançara mão para retardar o desenlace da tragedia com que o pae a ameaçava, pedindo uma entrevista com Eugenio de Mello, afim de expôr a este, com lealdade e franqueza, as circumstancias difficeis da casa de seu pae e os laços de inquebrantavel affeição que já tinha contrahido com Paulo de Noronha.

— E o que respondeu esse homem? — interrogou Paulo.

— Ao contrario de que eu suppunha, mostrou-se de cada vez mais apaixonado e declarou não desistir da sua pretensão, com o fundamento de que, em face da minha lealdade, agora mais que nunca, o seu coração lhe impunha o dever de salvar meu pae da ruina e a mim da pobreza.

— E tu?...

— Despedi-o sem responder, disposta a recusar, mas tambem a pensar no meio de evitar que meu pae pratique o acto de verdadeiro desespero com que me ameaçou.

— E se não encontrares esse meio?

— Succederá o que Deus quizer, mas eu não serei jamais mulher de outro homem que não sejas tu, meu Paulo! — exclamou Beatriz com firmeza.

O mancebo sentiu na alma um transporte de sincera alegria ao ouvir estas palavras.

— Ouve, Beatriz — disse elle. — É possivel que sejamos victimas de uma d'essas astuciosas ciladas que os paes ambiciosos ás vezes preparam á ingenua affeição de suas filhas para as compellirem a acceitar um enlace de que se lhes affigura depender a felicidade d'ellas e d'elles... Mas o nosso dever é tomar como verdadeiras as palavras de teu pae e tratarmos de remediar do melhor modo os males de que se diz victima. Eu sou pobre, não tenho fortuna, porque, se a tivera, desde este momento ella pertenceria inteira a teu pae, sem um documento, sem uma promessa sequer de que mais tarde me solveria essa divida. Por mim nada posso. Mas tenho amigos valiosos com quem conto e em quem espero encontrar auxilio para remover as difficuldades que affligem teu pae, sem ser preciso sacrificar o meu e o teu coração, prendendo-te a um homem que não estimas e que não duvido affirmar indigno de ti. Pede, pois, a teu pae uma nota das suas dividas, e eu verei se me é possivel libertal-o da responsabilidade d'ellas.

— Mas, meu Paulo, o que pensas fazer? — interrogou Beatriz commovida, quasi adivinhando a nobre intenção de mancebo.

— Penso pedir aos meus amigos que me constituam seu devedor por essa quantia, que pagarei quando haja concluido a minha carreira e conquistado a posição a que tenho direito na sociedade. Tu és filha unica. e, portanto, a universal herdeira de teu pae. É o teu dote que asseguro por esta forma. Se eu morrer antes de solver toda a divida, tu, um dia, quando te encontrares senhora da herança paterna, restituirás aos meus crédores o que faltar para seu integral reembolso. Assim, não prejudicaremos ninguem e teremos salvado a vida de teu pae.

— Ah! meu Paulo, como tu és um grande e nobre coração! Como tu és digno do santo amor que te dedico! — exclamou a donzella.

Foi assim que no dia seguinte Beatriz fez a seu pae o estranho pedido de uma nota dos credôres, declarando ao mesmo tempo que recusava terminantemente o enlace com Eugenio de Mello.

O antigo marido de D. Carlota podia perguntar, com a sua auctoridade de pae tyranno, como é que uma menina de dezenove annos ousava pensar em remediar desastres financeiros que elle, velho agiota, encanecido na usura, não podia sanar; e dando-se por offendido e desrespeitado nos seus brios de progenitor, por um momento esteve para exigir que a filha, em vez de pedir contas, lh'as desse alli, claras e cathegoricas de todos os seus actos.

Mas o mariola, que na convivencia do padre Anselmo ganhára em manha o que perdera em dinheiro e não em honra — porque essa nunca elle a tivera — achou prudente e de bom aviso levar a farça até ao fim, apparentando uma inteira e absoluta submissão á vontade da filha.

O secreto plano que formára, já nós lh'o ouvimos no escriptorio do procurador em conversa com este e com Eugenio de Mello: apanhar o dinheiro, se Paulo o arranjasse, e negar o consentimento para o casamento dos dois jovens; ou esperar que o mancebo, assustado com a grandeza do sacrificio que era preciso para obter a mão de Beatriz, desapparecesse sem dar novas suas, o que resolveria a teimosa menina a acceitar a mão de Eugenio sem repugnancia.

Firme n'este proposito, entrou no escriptorio e phantasiou uma conta corrente com o procurador Belchior, em que este apparecia com um saldo a favor de cincoenta contos, representado por letras acceites em poder do crédor e com vencimento em curto praso.

Eram estas letras que o Custodio declarava não poder pagar, se o casamento com Eugenio não se realisasse, devendo seguir-se o protesto e a execução em poucos dias, pois que o procurador, amigo de Eugenio e deveras interessado no seu enlace com Beatriz, recusaria a reforma, exigindo immediato embolso.

Organisada a conta corrente, o Custodio subiu ao quarto de Beatriz e, apresentando-lhe o papel, disse:

— Aqui tens, minha filha... aqui tens o documento da nossa desgraça! Por elle verás que estamos perdidos sem remedio, visto que tu recusas o meio unico da nossa salvação!

— Não fallemos n'isso, meu pae! — retorquiu mansamente Beatriz — Vamos a vêr se por outro meio mais em harmonia com a dignidade de ambos, conseguimos fazer face á adversidade que nos persegue.

— Mais em harmonia com a nossa dignidade, dizes — observou o snr. Custodio — Supponho que não póde haver nada mais digno do que o casamento com esse rapaz, que é rico, que é de bôa familia e que te ama loucamente...

— Mas não o amo eu, e é n'isso que estaria a indignidade, se eu consentisse em me vender a elle por dinheiro...

— Vender! Tu não ias como escrava, ias como mulher recebida á face da egreja e ficarias senhora de metade do que é d'elle.

— Ainda que ficasse senhora de tudo quanto lhe pertence, reputaria uma venda ignobil o acto de me unir a elle, desde que o meu coração o repudia...

— O coração! — fez o sr. Custodio com um desdenhoso encolher de hombros — O coração, minha filha, está sempre bem, desde que o estomago não está mal...

— Essas theorias não se comprehendem na minha idade, meu pae...

— Comprehende-as toda a gente, em todas as idades, Beatriz... Só não as comprehendes tu, porque até agora, graças a Deus, não tens sentido falta de nada e foste sempre considerada como pessoa rica. Mas quando a miseria chegar e tu vires fugir de ti todos quantos agora te fazem muita festa, então comprehenderás que teu pae tem rasão no que diz.

O usurario, com refalsada velhacaria e crente em que Paulo sentiria gelarem-se-lhe os ardentes impulsos do seu coração amoroso ante a horrivel perspectiva d'aquella medonha conta-corrente, ia predispondo o espirito da filha para acceitar no fim o casamento com Eugenio, como unico recurso que se lhe offerecia.

Beatriz não respondeu. Pegou no papel e dobrou-o, depois de lhe relancear a vista.

— Eu verei isto — disse ella — e póde ser que Deus me inspire alguma ideia salvadora que nos livre de apuros, sem ser necessario recorrer ao sr. Eugenio de Mello.

— Deus te ouça, minha filha, mas duvido bem...

E depois de um curto instante de silencio:

— Emfim, pensa e repara que não é brincadeira... São cincoenta contos. Ha muito que isto teria dado um estoiro, se não fosse o Belchior, coitado, que, ainda assim, tem sido meu amigo... Agora é que está lá embirrado com a historia do casamento e já me disse que, se tu não acceitares, escuso eu de contar com elle para mais nada... Aquellas malditas letras de ouro do Banco de Credito Real do Brazil arrazaram-me! — suspirou por fim.

— E foi só o pae que teve prejuizos com ellas? — perguntou Beatriz.

— Não. Ficaram muitas familias redusidas á miseria... Mas cada qual sente o seu mal...

— E Deus o de todos.

— Pois é verdade, Deus sente o de todos... Mas quando Elle offerece o remedio á creatura e ella o não acceita, tambem se offende e não sente nada...

— Será o que Deus quizer.

O Custodio notou que a filha começava a impacientar-se e fazia visiveis esforços para respeitosamente disfarçar o seu enfado.

Resolvido a representar o seu papel de pobre humilde e dependente da vontade de Beatriz, retirou-se, dizendo:

— Só te peço, minha filha, que não me sujeites á vergonha de me pôrem fóra d'esta casa por justiça. Eu, já agora, estou velho, pouco se me dá da vida... O que quero é ter tempo de dar cabo de mim, antes de soffrer um tal desgosto...

— Não se affija, meu pae, que Deus tudo ha-de fazer pelo melhor...

N'essa noite, o usurario, fingindo recolher-se cêdo aos seus aposentos, conservou-se á espreita, para vêr se a filha fallava da janella com Paulo.

Teve um sorriso de velhaco satisfeito quando, ahi pela meia noite, deu conta de que Beatriz descia ao rez-do-chão para ir fallar através da janella gradeada com o mancebo.

— Vaes entregar-lhe o passaporte que o ha-de levar para longe de ti!... — resmoneou escarninho o velho, esfregando as mãos de contente. — Cincoenta contos era o bastante para fazer fugir o homem mais rico do Porto, quanto mais um pobre diabo que não tem cincoenta vintens.

E certo do seu triumpho sobre a reluctancia da filha, enfiou-se na cama.

D'ahi a pouco, ressonava.

Dias depois, Jorge entrava em casa de Paulo e dizia-lhe:

— Ora, meu amigo, dou-te os sentimentos pela má escolha que fizeste do homem que ha-de ser teu sogro.

— Então? — interrogou o mancebo.

— Segundo as informações que acabo de obter, o pae da tua Beatriz é um usurario, um agiota insaciavel, com instinctos de chacal, incapaz de deixar sahir com pelle o desgraçado que lhe cáiha nas garras implacaveis.

Paulo encarou o amigo:

— Tens bem a certeza d'isso? — perguntou.

— Se tenho a certeza! Não me resta a menor duvida. Esse homem empresta a vinte e a trinta por cento sobre hypothecas bem garantidas. Não larga das unhas um real sem lh'o caucionarem pelo menos com dois, e é assim que tem conseguido amontoar uma fortuna que se calcula superior a cem contos de reis.

— Como é então que elle diz dever cincoenta contos ao procurador Belchior e que está perdido porque não lh'os póde pagar?

— Esse procurador Belchior — disse Jorge — é tambem um refinado patife. Não trata senão de causas escuras e ha em toda a sua vida uma longa série de revoltantes ladroeiras. Não seria para admirar que o Custodio de Jesus lhe devesse cincoenta contos, se esse Custodio fosse homem para se deixar roubar por alguem. Mas não. O Belchior e o Custodio entendem-se. Pactuaram sobre a melhor maneira de esfolar a pobre humanidade, e não se mordem um ao outro. Vê-se, pois, que os dois estão combinados para roubarem um terceiro, que é esse tal Eugenio de Mello, a quem pretendem casar com a tua namorada.

— E elle quem é?

— Quem? O Eugenio do Mello? Faltam-me ainda esclarecimentos exactos sobre esse figurão, mas hei-de obtel-os breve. Por emquanto, o que se sabe é que é um rapaz estroina que tem dado que fallar no Porto pelas suas liberalidades e extravagancias. Suppõem-n'o rico e é de crêr que o seja pelo interesse que o Custodio tem em querer casar com elle a filha.

— De maneira que — observou Paulo — essa divida dos cincoenta contos...

— Não é mais que uma phantasia para justificar a insistencia em que o casamento se faça e compellir Beatriz a acceitar o noivo que se lhe offerece.

— Eu já tinha suspeitado isso mesmo! — redarguiu Paulo indignado — Mas o que precisamos agora é provas d'essa infamia.

— Descança que hão-de apparecer. Por agora, o que quiz foi dar-te a certeza de que o pae da tua amada não se matará por falta do dinheiro d'elle — que esse está bem garantido. O que póde é matar-se por não poder apanhar todo o dinheiro dos outros. Previne, pois, a pequena de que póde recusar a mão do tal sr. Eugenio e dormir tranquilla, que o pae não pensa em deixar este mundo, que é muito do seu gosto emquanto n'elle houver quem tome dinheiro a trinta por cento, com hypotheca...

— Mas, se Beatriz recusa, certamente o pae não transige com a decisão da filha. Tendo-lhe falhado o plano que imaginou, ha-de buscar outro...

— E nós cá estamos!

— Pois sim, estamos... Mas não impediremos que elle empregue a violencia, visto que os meios suasorios lhe não deram resultado...

Jorge poz-se a rir.

— Desde que a Mão-Negra protege Beatriz, o pae, o pretendido noivo e o procurador não teem senão que tremer pelas consequencias do seu procedimento, se não fôr correcto.

Paulo, n'essa mesma noite, transmittiu a Beatriz todas as informações obtidas por Jorge ácerca das verdadeiras condições de fortuna em que se encontrava o sr. Custodio de Jesus.

— Teu pae não deve coisa algum ao procurador Belchior — disse-lhe o mancebo — Essa divida, com que elle finge affligir-se tanto, não passa de um pretexto para te mover a acceitar a mão d'esse rapaz...

— Tens tu a certeza d'isso, meu Paulo? — perguntou Beatriz admirada.

— Affirmo-te que teu pae possue uma fortuna superior a cem contos de reis, solidamente garantidos por boas hypothecas. Não tenhas, pois, receio de que se mate apavorado com a ideia da miseria.

— Mas se isso é assim, como é então que o procurador Belchior exerce sobre meu pae um tal ascendente?

— São alliados. Quem apresentou em vossa casa Eugenio de Mello?

— Foi o Belchior.

— Pois bem; logo, o Belchior é que planeou este casamento. Conhecia Eugenio de Mello, viu n'elle um bom partido para ti, apresentou-o a teu pae e os dois, d'accôrdo, procederam de modo que levaram esse rapaz a pedir a tua mão. Como o negocio se lhe afigura vantajoso, teu pae emprega todos os meios para te resolver a casar. A violencia n'estes casos é quasi sempre inutil, quando não é contraproducente... Portanto, qual o melhor meio de vencer a tua resistencia? Era levar-te pelo lado da compaixão e da ternura filial, pois que, pelo sentimento do interesse material e grosseiro, teu pae deve conhecer-te bem para te julgar invulneravel. D'ahi, as suas queixas, as suas lagrimas e as suas ameaças de pôr termo á existencia. Mas com o que elle não contava era comigo. Teu pae que queira fazer uma cedencia de todos os seus haveres actuaes por cem contos de reis, e avisa-me, porque eu promptamente lhe apresentarei quem realise a transacção. Propõe-lhe isto, minha amiga, e ouve o que elle te diz.

— É extraordinario! — disse Beatriz — Suppunha meu pae um homem de genio rispido, despotico, intractavel mesmo, mas nunca o julguei capaz de descer a representar comigo uma comedia tão aviltante da dignidade paternal!

— Minha querida amiga, bem sabes que te amo por ti, sómente por ti, e não por tua familia, e ainda menos pelos teus haveres, que nunca tratei de indagar quaes fossem; e se agora sei isto, foi porque as circumstancias me obrigaram a fixar a minha attenção sobre tal assumpto, e Deus sabe com que boas e generosas intenções. Mas, visto que tanto te admiras, permitte-me que te pergunte: sabes que genero de negocio é o de teu pae?...

— Não sei. Meu pae nunca fallou diante de mim sobre assumptos commerciaes. Elle foi sempre homem de poucas palavras e de nenhuns carinhos para mim. Eu, desde que vim do collegio, tenho vivido n'esta casa quasi como uma estranha... A primeira vez que lhe ouvi fallar de negocios foi agora, depois que este rapaz se apresentou a pedir a minha mão e eu recusei...

— Então saberás, minha bôa amiga, que teu pae empresta dinheiro ao juro de vinte por cento, o minimo, sobre hypothecas que ordinariamente representam o dôbro do valôr emprestado. Vê tu se, em taes condições, teu pae, que tem dinheiro para emprestar, póde dever cincoenta contos ao procurador Belchior e encontrar-se na situação desesperada que diz.

— O que entendes que devo então fazer? Que resposta deverei dar-lhe? Eu não queria vexal-o e desafiar talvez a sua colera dizendo-lhe abertamente que estou conhecedora da sua odiosa mentira...

Paulo reflectiu por alguns instantes.

— Tu, por emquanto, nada dizes a teu pae, senão que estás pensando no que melhor convirá fazer em face da grave situação em que ambos vos achaes...

— No emtanto, elle não deixará de insistir por uma decisão rapida...

— Muito bem; e tu dizes-lhe que não tens duvida em acceitar o marido que se te propõe, desde que esse casamento seja a unica solução que se te apresente para salvar teu pae. Antes d'isso; porém, não te dispensas de estudar o assumpto com o cuidado e a reflexão que elle requer.

— Mas esta situação é insustentavel por muito tempo, meu Paulo...

— Não te dê cuidado o resto. Antes de seres obrigada a dar uma resposta definitiva, tenho esperança que os acontecimentos hao-de obrigar teu pae a mudar de resolução.

— Oxalá que assim seja!

O sr. Custodio de Jesus, que não perdia o menor movimento da filha, ancioso como estava de saber que solução daria ella ao intrincado problema dos cincoenta contos que se lhe propunha, sentiu que Beatriz viera mais uma vez á janella do escriptorio conferenciar com Paulo; e no dia seguinte, depois de almoço, pondo os olhos enternecidos na pobre menina, perguntou-lhe com fingido carinho:

— Então, minha querida filha, já pensaste na nossa terrivel situação?

— Já, meu pae — respondeu Beatriz baixando os olhos.

— E o que resolves?

— Por emquanto, nada.

— Nada! — exclamou o snr. Custodio affectando grande espanto. — Pois é possivel que, tendo-me tu promettido uma resposta decisiva sobre esta questão de vida ou de morte para mim, te mostres assim indifferente ao que póde succeder? Para que me pediste então essa conta que te apresentei?

Beatriz fitou um olhar persistente no pae e respondeu placidamente:

— Pedi-lh'a, meu pae, para ter bem a certeza do que cumpre fazer.

— O que! Pois não sabes o que cumpre fazer? Quando se devem cincoenta contos de reis e o crédor os exige, o que cumpre é pagar.

— Pagar ou casar... — replicou Beatriz com amarga ironia.

— Ninguem te obriga a isso. Eu mesmo, que sou teu pae e que podia impôr a minha auctoridade paterna, prefiro deixar-te ampla liberdade na escolha do homem que ha-de ser teu esposo, embora eu tenha de sacrificar a vida...

— Não lhe será preciso sacrifical-a, meu pae.

— Isso tudo são palavras, Beatriz... Mas as dividas não se pagam com palavras... Prometteste-me resolver a questão, e afinal já lá vão uns poucos de dias e tão adiantados estamos hoje como hontem.

— Alguma coisa temos já adiantado...

— O que?

— A resolução em que estou de salvar meu pae...

— Sério, Beatriz!? Tu acceitas o casamento que se te propõe, minha filha?

— Se outro recurso não houver, acceital-o-hei.

— Pois olha que não tens outro recurso, crê!

— Veremos.

— Pensas ainda em conjurar o mal que nos ameaça por outra forma?

— Talvez.

— Ah! minha filha, minha filha! se confias no auxilio de qualquer das pessoas nossas amigas, desde já te digo que nada conseguirás... Os amigos fogem da desgraça como as andorinhas fogem do inverno. Se lhes fallamos em dinheiro, — emigram!

Beatriz meneou a cabeça e respondeu com voz submissa, porém firme e serena:

— Quando se é leal e sincero para com todos; quando se não abrigam no peito sentimentos de egoismo e de torpe má fé, a Providencia, que vela pelos bons, envia-nos sempre alguem que nos comprehende e nos vale nos lances mais desesperados da nossa vida...

— Pois sim! — tornou o sr. Custodio n'um tom de mal disfarçado motejo — é bom a gente confiar na Providencia, mas é muito melhor conhecer o mundo e tratar cada qual de se livrar de apuros pelos meios que puder... A Providencia já não faz pouco em nos enviar esse rapaz que te quer para esposa...

— Pois se ella se não manifestar por outra forma, acceitarei o casamento que se me offerece... Mas, antes d'isso, meu pae, rogo-lhe que me deixe pensar reflectidamente sobre o caso...

— Pensa o que quizeres, minha filha, e resolve o que te parecer melhor, comtanto que não pareça, pela demora em dar uma resposta decisiva, que estamos a caçoar com esse rapaz e com o Belchior que o apresentou e que é, como sabes, nosso crêdor...

— Ninguem póde tomar como caçoada o facto de eu querer reflectir maduramente antes de dar um passo de que vae depender o meu destino...

— Sim, isso é justo... — tornou o Custodio com brandura — Mas quantas no teu logar, minha filha, se o Eugenio lhes pedisse a mão, lhe estenderiam logo as duas sem mais ceremonias, antes que elle se arrependesse!

— Não vejo vantagem nenhuma n'isso. Se tiver de se arrepender, mais vale que seja antes do que seja depois. Justamente para que o arrependimento me não sobrevenha, é que eu desejo pensar bem no que vou fazer, antes de me decidir...

— Faze lá como entenderes. Para mim, como já pouco posso durar, a questão está resolvida: é mais mez, menos mez, mais dia, menos dia... Quando se chega á minha idade, a vida já pouco prende... Preferiria morrer socegado na minha cama, da morte que Deus me desse, e não ter eu que pôr termo á vida para me livrar de vergonhas... Mas se Deus tiver determinado o contrario, cumprirei resignado a sua divina vontade... Acredita que, se me afflijo, não é tanto por mim como por ti, a quem eu não queria deixar no mundo sosinha, pobre e desamparada!

— Sim, meu pae... — respondeu Beatriz levemente ironica — Eu conheço quanto lhe devo pelas provas de carinho que sempre me tem dado... Mas não se afflija por mim como eu não me afflijo por meu pae, pois que Deus ha de valer-nos...

— Tens essa fé, Beatriz?

— Tenho a certeza, meu pae. Pois não lhe disse já que, se outro remedio não houver, casarei com o sr. Eugenio de Mello?

— Deus te abençôe, minha filha, pela grande consolação que me dás! E has-de ser feliz, crê, porque o Eugenio é bom rapaz e está perdidamente apaixonado por ti.

— É pena que eu não possa apaixonar-me por elle...

— Minha filha, depois, a convivencia faz tudo... Pensa, pensa e has-de vêr que não encontras outra solução melhor do que esta para nos tirar de difficuldades: casar e deixar de tolices...

Disse, e retirou intimamente satisfeito, por lhe parecer que tinha com o seu discurso adiantado um grande passo no caminho do ambicionado casamento que sonhava para a filha.

— Naturalmente — ia dizendo comsigo — lá o tal franganito mostrou-se desanimado e ella vae perdendo a esperança que tinha n'elle... É questão de mais dois dias ou tres, e ella ahi está a dizer que sim, que se resolve a querer o Eugenio... Se todos os paes fizessem como eu... se quando as filhas se inclinam para um bigorrilha sem cinco reis, lhes dessem logo com as precisas, fazendo-as pensar na pobresa e na miseria que as espera, não se via tanto casamento desgraçado como se vê!

E esfregava as mãos, satisfeito de haver conseguido illudir a filha.

Mal sabia o velhaco que n'este caso, o verdadeiro illudido era elle!