Os Filhos do Padre Anselmo/XVII

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Os Filhos do Padre Anselmo por António José de Albergaria
Capítulo XVII: Quem semeia ventos...


O Belchior e o Custodio, mal chegaram ao Porto, dirigiram-se ao commissariado de policia e ahi formularam a sua queixa contra Eugenio de Mello, accusando-o do rapto de Beatriz.

O procurador e a familia apresentaram-se como testemunhas, e todos declararam haver reconhecido o bohemio n'um dos dois raptores.

A policia pôz-se em campo para descobrir os fugitivos, e o Custodio, esfregando as mãos de contente, recolheu a casa á espera dos acontecimentos.

— Agora, amigo Custodio — disse-lhe o Belchior — como tudo correu á medida dos nossos desejos, vá descançado, que o casamento não leva oito dias a fazer-se...

— Como o rapaz não tenha ainda gasto toda a cortiça da quinta... — respondeu o Custodio com um sorriso velhaco — o casamento vem em bôa occasião.

— Deixe lá, que por falta de cortiça não é que o negocio ha-de ir ao fundo...

Despediram-se, promettendo voltar a vêr-se no dia seguinte.

Ao chegar a casa, porém, o Belchior ficou surprehendido ao encontrar um bilhete de Eugenio de Mello, em que este lhe declarava que, tendo-o procurado sem o encontrar, voltaria no dia seguinte de manhã, para, saber que novidade tinha havido.

— É bôa! — disse o procurador á mulher — Este maluco rapta a rapariga e quer que eu lhe diga a novidade que houve!

— Mas — observou a esposa — quando te deixou elle esse bilhete?

— Não sei... Encontrei-o na caixa das cartas... Naturalmente, mandou-m'o por algum portador de confiança, depois do rapto.

— Mas elle diz que veio procurar-te e que não te encontrou...

— É verdade! Confesso que não percebo isto... Elle não iria com ella para Villar do Paraiso como haviamos combinado?

— Não sei... não estaria o dono da casa prevenido para os receber?...

— Qual! estava tudo prevenido. É uma casa isolada no fundo de uma quinta e de que um meu constituinte tem a chave... E elle estava prevenido... Nada, aqui houve tolice do rapaz...

Intrigado com o bilhete de Eugenio, que não sabia como explicar, o Belchior metteu-se na cama e dormiu regaladamente, na ideia de que levava o negocio do casamento a bom caminho.

No dia seguinte, pelas dez horas, descia ao escriptorio quando Eugenio entrou:

— Então? — disse-lhe o procurador. — Você já aqui, em vez de estar a convencer a pequena!

— Qual pequena? — interrogou Eugenio, sem comprehender.

— Qual pequena? É boa! Então você não sabe o que fez?

— O que fiz? Eu não fiz nada, e não sei de quem me falla...

— Essa agora! Pois você quer-me metter em cabeça que não raptou a Beatriz?

— Eu?!

— Homem, sim! Pois quem diabo havia de ser? Fui eu talvez?!

— Mas se lhe digo que não pratiquei rapto nenhum...

— Mau! — disse o Belchior, abespinhado com a ideia de que Eugenio estava gracejando. — Isto são negocios muito serios e eu não gosto d'essas brincadeiras!

— Que diabo! mas se lhe estou dizendo que não brinco... Você mandou-me um recado, prevenindo-me de que não fosse, que o rapto não podia effectuar-se como se havia combinado... Como queria que eu, depois d'isto, fosse raptar a pequena?

— Com os diabos! — berrou o procurador, desesperado. — Mas eu vi! Você, quer-me negar uma coisa que eu presenciei?!

E n'uma furia crescente, persuadido de que Eugenio premeditava maroteira grossa:

— Olhe que isso não é digno, ouviu? Eu bem sei aonde você quer chegar... Mas comigo é preciso vêr como se fazem, porque eu não sou menino que se deixe enganar!

O bohemio encarou-o fito, franziu o sobr'olho e replicou n'um tom meio zombeteiro, meio ameaçador:

— Você está doido, amigo Belchior?

— Não estou doido nem você é capaz de me tirar o juizo, percebeu? É preciso notar que eu cumpri tudo aquillo a que me obriguei, e você ha de cumprir tambem, ou então temos muito que vêr!

— O que quer você dizer com isso, Belchior?

— Quero dizer que escusa você de vir negar o rapto que eu presenciei, com a ideia de se furtar a entregar-me a commissão que tinhamos combinado... Eu sei qual é a sua ideia... A sua ideia é fazer-se com o Custodio para arranjarem o casamento a occultas e deixarem-me a mim a chuchar no dedo... Mas lembre-se que eu tenho-os a ambos na mão... De você, descubro tudo, digo quem é e quem não é, faço vêr que não tem onde cahir morto, e depois sempre quero saber se o Custodio não prefere mandal-o por uma barra fóra, a dar-lhe a filha. E a elle, se se fizer fino e me quizer ser falso, tenho cá uns certos segredos que o compromettem e veremos quem n'este jogo leva a melhor! Comigo é preciso muito cuidado, ouviu? Eu não me deixo ir assim na rêde, ainda que a você lhe pareça o contrario!...

O procurador punha tal indignação nas suas palavras, que Eugenio comprehendeu que havia alli um equivoco a desfazer.

— Homem, não se zangue e fallemos sério — disse elle, procurando serenar o Belchior. — Eu não percebo uma palavra do que você está para ahi a dizer...

— Não percebe? Ah! você agora não percebe, mas eu sou muito capaz de o fazer preceber... — tornou o Belchior, sempre persistente na ideia de que o aventureiro o queria enganar. — É preciso que se lembre de que eu estava lá, vi-o chegar, apear-se do carro com o outro, deitar as mãos á pequena, atirar com ella para dentro do carro e abalar... Isto a mim não se me nega e bem póde você vir com um santo Christo dizer-me o contrario, que eu não o acredito.

— Pois não fui, amigo Belchior, creia que não fui! — protestou Eugenio, verdadeiramente espantado das affirmações do procurador.

— Não foi! Então quem foi?

— Não sei. Eu é que posso dar-lhe a minha palavra d'honra de que não entrei n'isso, nem pensei mais em tal, desde que você me mandou recado a dizer que o rapto ficava transferido para outro dia...

— Que recado? Eu mandei-lhe algum recado?

— Certamente. Eu estava no Suisso, eram quatro horas da tarde, conversando com o amigo que devia acompanhar-me, quando entrou um homem, que me chamou de parte e me disse: «O sr. Belchior manda dizer que tenha a bondade de não ir ao sitio onde sabe, porque houve transtorno e o passeio da menina ficou addiado para outro dia. Elle depois lhe explicará os motivos.» Ouvindo isto, perguntei-lhe: — «Onde está o sr. Belchior?» — «Em casa do sr. Custodio de Jesus com a familia e não regressa a casa d'elle senão á noite.» Ora, depois d'isto, como queria você que eu fosse raptar a pequena?

O procurador ficou-se a olhar espantado o aventureiro.

Elle queria convencer-se de que Eugenio fallava verdade, mas os factos de que tinha sido testemunha, contradiziam totalmente a narrativa do bohemio.

— Sim... tudo isso está muito bem — disse elle. — Mas o peor é que a rapariga foi raptada; eu vi, o pae viu, minha mulher e minha cunhada viram, e ninguem podia ter sido senão você...

— Mas você não está gracejando, amigo Belchior? — interrogou por sua vez o bohemio. — Realmente Beatriz foi raptada?

— Essa agora! Então não sabe que o foi?

— Ah! sim... então foi raptada por outro!... Não tem duvida.. Você indemnisa-me dos prejuizos e está o negocio arrumado...

— Dos prejuizos... Que prejuizos?

O bohemio, sem perder a gravidade, replicou n'um tom cheio de convicção:

— Obrigou-me a despezas excessivas, na ideia d'este casamento. Depois, entretendo-me com as suas promessas e os seus palanfrorios de me arranjar esta noiva que me convinha, fez com que eu perdesse outra união mais vantajosa. Tudo isto são prejuizos que eu não estou disposto a soffrer; e você, antes de me roer a corda, devia pensar n'isso...

— Com seiscentos diabos! — gritou o procurador desvairado — Então já o ladrão é o roubado, hein! Então a você não lhe basta raptar a rapariga e negar, para se safar com ella e casarem-se occultamente em sitio que eu não saiba, para me não darem nada, senão ainda por cima quer que eu lhe dê dinheiro, a titulo de indemnisação? Diz que gastou mundos e fundos! E de quem era esse dinheiro, não faz favor de me dizer? A conta está alli, e o preto no branco falla como gente!

E apontou para o cofre onde guardava os documentos da divida de Eugenio.

— É verdade! — replicou o rapaz com soberano despreso — E esse preto no branco, que você alli tem, diz de uma maneira bem clara e bem evidente que você é o maior ladrão que a roda do sol cobre!

— Veja como falla... Olhe que eu estou em minha casa! — berrou o procurador n'um gesto de ameaça.

— Esta casa não é sua, é dos desgraçados que você tem esfollado, seu malandro! A sua casa é a penitenciaria, e lá é que você devia estar.

— Pulha! — regougou o Belchior, rouco de colera — Ponha-se lá fóra! ponha-se lá fóra!

O bohemio avançou para elle com o punho estendido. O procurador, livido de medo, foi recuando até á parede.

Então ahi, sereno e imperturbavel, Eugenio, pondo-lhe a mão vigorosa sobre o hombro, disse:

— Amigo Belchior, você escolheu mau parceiro para a sua bisca, porque eu não tenho que perder, e só posso ganhar... Tome bem conta no que lhe digo: eu não sou homem de quem se escarneça impunemente. Você fez raptar a rapariga por outro... Por ella, pouco me importa, porque eu não tinha empenho na mulher. Mas pelo dote, faz-me differença e eu não posso perder. Tenho, pois, direito a uma indemnisação e ou você m'a dá ou lhe mando a vida para o inferno. É um ladrão que fica de menos no mundo e os tribunaes, se não me absolvêrem, tambem não hão-de dar-me grande pena. Estou novo, posso bem com alguns annos de penitenciaria, mesmo porque não tenho nada que fazer cá fóra... Pense n'isto e não seja tôlo. Eu não sou exigente. Receberei mesmo em prestações. Adeus!

O Belchior, desorientado, sahiu tambem pouco depois, dirigindo-se apressado a casa de Custodio.

Não podia crêr no que ouvira da bôcca do bohemio, e parecia-lhe, em face de tamanha audacia, que havia já combinação feita entre Eugenio e o pae de Beatriz para o roubarem a elle, despojando-o da commissão que ambos haviam combinado dar-lhe.

— É incrivel — murmurava elle — a desfaçatez com que aquelle maroto nega uma coisa que eu vi e ainda por cima me pede uma indemnisação! Agora o que falta é que o patife do Custodio tambem queira que eu o indemnise... Ah! mas não tem duvida! Eu arranjo-os... Comigo não brincam elles!

Atravessou a cidade a passo accelerado e entrou em casa do Custodio no momento mesmo em que este se preparava para sahir.

— Ia agora mesmo a sua casa — disse-lhe o agiota.

— Sim? Então o que ha de novo? — perguntou-lhe o Belchior, que tivera tempo de serenar e recobrar o sangue frio.

— Que eu saiba, não ha nada... O que eu queria saber era se sempre temos de ir á administração de Villa Nova de Gaya ratificar as declarações que fizemos hontem ao regedor e á policia...

— Pois está claro que sim! — tornou o procurador — Agora é carregar-lhe com a polvora toda, declararmos que o vimos, que o reconhecemos, de modo que elle não possa negar ainda que queira...

— Você julga-o capaz d'isso? — perguntou o Custodio em sobresalto.

— Não... eu não o julgo capaz d'isso... Mas supponhamos que lhe dá o diabo na cabeça para se arrepender e dizer que não foi elle? É preciso que a gente tenha força nas declarações para o obrigar.

— Mau! Mas você não fallava assim antes do rapto... — observou o Custodio desconfiado.

— Eu sempre fallei como fallo agora, amigo Custodio. Eu não sou homem de duas caras nem digo uma coisa por outra... O que eu disse é que ficava por minha conta obrigal-o a casar com a pequena depois d'elle a raptar. Mas para isso é preciso que você me ajude e puxe certo...

— Eu estou prompto! — volveu o Custodio — Diga você como quer que puxe...

O Belchior adquiriu n'esta resposta a certeza de que o Custodio ainda nada sabia da negativa de Eugenio e que, portanto, não estava combinado com elle para o espoliarem da parte que lhe cabia n'aquelle infame negocio.

— Trabalha por conta propria — pensou — e quer vêr se faz jus a mais dinheiro por parte do velho e a dar-me menos dinheiro a mim... Mas está enganado. É mais facil eu arranjar-lhe a cama na penitenciaria e perder tudo, do que deixar-me comer por aquelle patife!

E voltando-se para o Custodio de Jesus:

— É teimar sempre que foi elle e que foi elle! Eu juro que o reconheci, porque deixou vêr a cara na occasião em que raptava a pequena... Minha mulher e minha cunhada juram a mesma coisa... e você, já se sabe, tem de dizer comnosco... não nos póde contradizer...

— Ágora contradigo! N'essa não caio eu...

— E assim, com esta prova, ainda que elle negue e diga que não foi, ou casa ou vae para a Penitenciaria que nem Santo Antonio o livra de lá...

— Mas a você palpita-lhe que elle seja capaz de negar? — insistiu o Custodio de cada vez mais apprehensivo.

— A mim não me palpita nada... Mas você nunca ouviu dizer que o seguro morreu de velho? É preciso a gente prevenir sempre o peor...

— Bem; pois então vamos lá para o administrador de Gaya.

Chegaram á praça de Carlos Alberto, tomaram um trem á hora e partiram para Villa Nova.