Os Filhos do Padre Anselmo/XXI

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Os Filhos do Padre Anselmo por António José de Albergaria
Capítulo XXI: Tal vida, tal fim


Leonor, prevenida na vespera por João Lazaro, ficou sabendo que Eugenio iria procural-a n'essa noite, e d'accordo com aquelle, mandára mudar a fechadura da porta para impedir que elle entrasse sem bater.

No emtanto, não se deitára. Espreitando pela janella, vira-o aproximar-se, vira o espanto que lhe causára a mudança da chave, traduzido na attitude hesitante do bohemio, indo ao meio da rua a espiar as janellas como que a certificar-se de que era aquella a mesma casa e de que tudo lá dentro estava em silencio.

Viu-o depois dar alguns passos na rua, como que a tomar uma resolução, encostar-se á parede fronteira com os olhos cravados nas janellas, voltar á porta tentando vêr se a chave seria a mesma, e por ultimo afastar-se a passo vagaroso como homem que não sabe bem o que pensar d'uma contrariedade que lhe succede. Viu tudo, e por dentro dos vidros, na escuridão da sala, com os dentes cerrados pela colera, ia murmurando com rancôr profundo:

— Miseravel! vinhas ainda, pela calada da noite, saltear a tua victima, roubar-lhe o dinheiro que precisas para sustentar a mulher por quem a trocaste! Vae! vae e não voltes... Porque se voltas, saberás então quanto custa ludibriar uma mulher como eu!

E nervosa, tremula, a face horrivelmente pallida, os louros cabellos em desalinho, cahiu sobre um sofá e desatou n'um choro convulso e abafado.

Esteve assim por muito tempo, sem dormir, sem pensar. A febre escaldava-lhe a fronte, e as lagrimas, em vez de lhe acalmarem a enorme excitação, mais lh'a exacerbavam. De manhã, aos primeiros fulgores da aurora, viu-se a um espelho e achou-se horrivel, com as feições transtornadas pela vigilia. Teve então um accesso de furor invencivel. Era elle, o perfido, o miseravel, que depois de lhe ter extorquido os affetos e o dinheiro, depois de lhe haver roubado o socego e a tranquillidade, ainda por cima lhe roubava a belleza! Oh! a vingança seria terrivel!

Desde essa hora, Eugenio de Mello estava condemnado.

Logo que a velha criada abriu a porta da rua á hora habitual para fazer as primeiras compras do dia, Eugenio de Mello, que já espiava os arredores da casa, entrou no portal e subiu ao andar superior.

Como pessoa familiarisada com os costumes da casa, dirigiu-se ao quarto de Leonor e encontrou a porta fechada por dentro.

Ia bater, quando a criada, apparecendo, preveniu:

— Faça o favor de não bater, que a senhora passou mal a noite e recommendou que a não acordassem.

— Essa ordem não pode entender-se comigo — volveu Eugenio, admirado do modo como lhe coarctavam a liberdade que até alli usara.

— Não se entende com o senhor, porque ella não o esperava. Mas deu-me esta ordem e a minha obrigação é cumpril-a.

Eugenio encarou a criada por alguns momentos espantado de tamanho atrevimento, a que não estava habituado.

— Marianna — disse elle, contendo-se e tomando um tom affavel — o que se tem passado n'esta casa, que encontro tudo tão mudado?

— O que se tem passado, diz o senhor? Não se tem passado nada. Está tudo na mesma.

— Tudo na mesma, não. A chave da porta da rua foi mudada. Agora é outra. Leonor, que d'antes dormia com a porta do quarto aberta, agora tem a precaução de se fechar por dentro. Porque é isto?

— Porque ha de ser? — respondeu a criada fazendo uma careta inexpressiva. — O senhor bem sabe que, em casa onde não ha homem, não póde uma senhora estar a dormir com a porta aberta. O sr. Eugenio foi-se embora, a menina não o esperava... Eu ando cá na minha vida, e assim como o sr. Eugenio entrou, podia entrar outra qualquer pessoa por ahi dentro e ir dar com a senhora na cama. Por isso ella fecha-se, e faz muito bem... E então agora que andam por ahi tantos ladrões!

— Foi então por causa dos ladrões que a sua ama mudou a chave da porta da rua e se fechou no quarto, por dentro?

— Olhe, senhor, eu não sei! — rematou a velha. — Ella não me dá contas nem estifações do que manda fazer... Ella é que dá as ordes, é a senhora, e eu cá d'essas coisas não sei.

O bohemio tirou o chapéo e a capa, arrumou tudo sobre uma cadeira e aproximando-se da criada, disse-lhe a meia voz:

— Marianna, quem está alli n'aquelle quarto?

— Quem ha de estar? Está a senhora...

— Só?

— Quem queria o senhor que estivesse lá com ella? O sr. encommendador, não fica cá, o sr. Eugenio está ahi... Parece-me que aqui não vem mais ninguem....

— Parece-lhe? Não tem a certeza...

— Assim Deus Nosso Senhor me ajude e os anjos acompanhem a minha alma á hora da morte se já cá veio mais alguem depois que o senhor se foi embora, tirante de ser o sr. encommendador... Então ella, coitadinha, que não se tem fartado de chorar de noite e de dia, depois que andam aqui estas rodilhices...

— Rodilhices de quem?

— Eu sei lá de quem! O sr. Eugenio bem sabe o que anda nas gazetas a seu respeito. A senhora lê a folha todos os dias e afflige-se... Pudera! Outra qualquer faria o mesmo.

Effectivamente o escandalo do rapto attribuido a Eugenio de Mello fôra noticiado com grande pompa de phrase e de minudencias nos jornaes diarios. Eugenio sabia-o e não estranhou por isso que a leitura do caso tivesse impressionado a amante, como a criada affirmava.

— Leonor tem-se então affligido muito? — perguntou elle.

— Oh, Senhor! Não faz outra vida senão chorar e affligir-se... E anda ruim que não ha quem a ature... O pobre do encommendador anda parvinho de todo, que ella dá-lhe cada sarabanda por dá cá aquella palha, que é uma coisa por demais!

O bohemio teve um sorriso de vaidade satisfeita. O seu amor proprio comprazia-se na ideia de que Leonor o amava a ponto de tratar mal toda a gente, até o homem que a protegia, tudo por sua causa.

— É doida a Leonor em dar importancia ao que dizem os jornaes — disse elle — principalmente quando sabe que tudo isso não passa de uma sucia de pêtas.

— São pêtas, são pêtas — retorquiu a velha com um sorriso de incredulidade — mas o sr. Eugenio anda a fugir da policia que lhe não vá ella deitar a mão...

E depois n'um tom de reprehensão amigavel:

— O senhor tambem me sahiu levadinho da breca! Pois tendo aqui a senhora, que tem uma cara como um sol, precisava de se importar co'as outras lambisgoias para nada? Credo! Os homens são a coisa peor que ha! Quem se fia n'elles está perdida.

— Pois você tambem acredita, Marianna?

— Cale-se, cale-se! Eu não digo nada... mas estes olhos teem visto muito e estes ouvidos teem ouvisto inda mais — disse ella, levando alternativamente os dedos aos olhos e aos ouvidos.

— O que é que você tem visto e ouvido, Marianna?

— Muita coisa! Deus me livre que a senhora soubesse da missa ametade... O sr. Eugenio cuida que se não sabem as coisas... mas eu já ha muito que ouvia fallar que o senhor que se queria casar co' essa tal menina p'ra amor de quem agora andam estas questães...

E muito persuasiva, como quem dá conselhos bons de sensatez e de prudencia:

— P'ra que diacho a quer? Ella poderá ter mais dinheiro, mas nunca é capaz de lhe ter a amizade que esta lhe tem... O dinheiro, quem tiver mais que se enforque co'elle!... Demais, casar por casar, então antes co' esta, que se quer ao menos já sabe quem tem... É só dezermos não é uma menina capaz, mas em bom panno cáem as nodoas... E olhe que ella não lhe dizia que não... que o que ella lhe quer de bem só eu é que o sei... E dinheiro támem não lhe havia de faltar, que se não fosse o encommendadôr, não faltaria quem lh'o desse... O ponto era ella querer.

— Está bem, Marianna, acabe com o sermão! — ordenou o bohemio, de mau humor. — Visto que Leonor está dormindo, esperarei que ella acorde.

E estirou-se ao comprido sobre um canapé, resolvido a esperar.

Á hora habitual, a porta da alcova de Leonor abriu-se e a loura appareceu na sala, fingindo-se surprehendida de encontrar alli o amante.

Eugenio, ao vêl-a, correu para ella com os braços estendidos, n'um amplexo carinhoso.

A loura contrafez no rosto pallido um sorriso e perguntou:

— Tu por cá! Que novidade é essa?

— Venho pedir-te que me salves mais uma vez, Leonor! — exclamou o bohemio com artificial commoção.

Leonor não respondeu. Encaminhou-se para um sofá e sentou-se, indicando a Eugenio que a imitasse.

— O que é então que desejas? — perguntou.

— A policia persegue-me de cada vez mais encarniçadamente — principiou dizendo o bohemio — de modo que não só me é impossivel continuar a viver no Porto como permanecer por mais tempo em Portugal...

— E d'ahi?

— D'ahi, comprehendes quanto deve ser doloroso para o meu coração o pensamento de te deixar...

A loura esboçou nos labios um sorriso de cruel desdem.

— Faço ideia! — disse ella friamente.

O bohemio, um tanto desconcertado com a attitude glacial da amante, proseguiu:

— Sou victima da fatalidade, mais ainda do que dos meus inimigos! Estes não perdem occasião de me perseguir e de instar com a auctoridade para que me prenda, afim de me fazerem condemnar por culpas que não commetti! Mas o que mais me afflige e perturba é o ver accumularem-se contra mim provas de culpabilidade, quando eu juro que estou innocente! Dir-se-hia que um genio infernal tomou a peito a minha desgraça e quer a todo o custo perder-me sem me deixar possibilidade de salvação!

— Foi talvez feitiçaria que te fizeram! — disse a amante com um aggressivo sorriso de sarcasmo.

O bohemio encarou-a espantado.

— Tambem tu, Leonor, tambem tu escarneces da minha desgraça? — lamuriou elle, buscando enternecel-a com os seus queixumes.

— Eu? Que lembrança! — casquinou nervosamente a loura. — Eu posso lá escarnecer de um amante feliz, de um seductor audacioso e arrojado, que affronta impavido os perigos e os rigores da justiça para possuir por força a mulher que por bem não quiz amal-o?!

Laura fallava nervosamente, com os olhos scintillantes de indignação e de odio mal reprimido.

Eugenio imaginou-a dominada por um dos seus accessos de indomavel ciume, e respondeu, sorrindo com a fatuidade do amante que ainda se reconhece querido:

— Mau! ahi estás tu com as tuas loucuras do costume! Sabes que tens sido sempre injusta para comigo, sendo a primeira a accusar-me de faltas que não commetti. Mas agora peço-te, Leonor, que te moderes e repares bem na injustiça que me fazes...

— Injustiça?!

— Sim! É uma injustiça que te não mereço o suppôres-me, como toda a gente, auctor do rapto d'essa rapariga, que mal conheço, que não amo, que nunca amei e que a esta hora se está rindo nos braços de outro da partida que o seu raptor me pregou, envolvendo-me na aventura escandalosa dos seus amores, a que sou — juro-o! — completamente estranho!

Leonor abanou a cabeça em silencio, sem responder. Eugenio, de cada vez mais possuido do vivo desejo de mover a loura a emprestar-lhe dinheiro, continuou:

— Juro-te, Leonor, que estou innocente! Este rapto não foi obra minha. Eu podia pensar em tudo, menos em raptar essa rapariga, que é filha de um homem rico e incapaz de transigir com tal violencia offensiva da sua honra e do seu bom nome...

— Como é então que o acusam ao senhor? — disse Leonor, cravando n'elle um olhar que o gelou.

— Tudo obra dos meus inimigos! — balbuciou o bohemio, desconcertado — Sabes que tenho concitado contra mim os odios e as invejas d'essa canalha endinheirada que não póde perdoar-me a maneira como a affronto com a minha distincção e a minha maneira de viver... E eu sei lá se n'esta perseguição surda que agora se me move entra tambem o ciume d'aquelles que tu rejeitaste e talvez o do commendador Garcia, a esta hora sabedor das nossas relações?

— Basta! — bramiu Leonor, livida de colera, levantando-se de salto — basta! Que o senhor abusasse da fraqueza do meu coração para me illudir, ainda lh'o poderia tolerar; mas que leve a infamia ao ponto de calumniar o homem que confia em mim e a quem tenho feito soffrer por sua causa, não lh'o consinto!

— Bravo! — tornou o bohemio sarcasticamente — Vejo que o commendador tem feito progressos no teu coração durante a minha ausencia!

E encolhendo os hombros com desprezo.

— Afinal, é de justiça... Ha tanto tempo desapossado do thesouro que de direito lhe pertencia, é obra de caridade restituir-lhe o que se lhe tirou.

Levantou-se e encaminhou-se para a cadeira onde tinha posto o chapéo e o capote.

Com esta retirada falsa, expediente que tantas vezes lhe havia sortido o effeito desejado, esperava elle abrandar a irritação da amante.

— Adeus! — disse, já da porta da sala, como quem se preparava para sahir.

Leonor avançou para elle:

— Foi para isso que o senhor cá veio? — rugiu indignada — Foi unicamente para fazer uma accusação tão insensata como absurda a um homem que nem sabe que o senhor existe? Visto isso, ainda a perseguição que a justiça lhe move não é tamanha como diz, pois que lhe deixa ociosidade e tempo para essas distracções...

O bohemio retrocedeu.

— Não foi para isso precisamente que eu cá vim. Mas ainda quando não viesse senão para isto, não dava por mal empregado o meu tempo, que é sempre curioso e interessante vêr como as mulheres amam os que atraiçôam e atraiçôam os que dizem que amam...

— O que! O que é que o senhor diz? Explique-se sem trocadilhos, faça favor!

— Digo — volveu o bohemio — que eu devia esperar isto mesmo... Seria caso unico na historia da humanidade que a desgraça me perseguisse e o coração da amante me restasse firme... Peço-lhe perdão se vim importunal-a. Eu devia desde logo pensar que as mulheres só amam o prazer, as alegrias da vida facil e que não podemos contar com ellas para as horas negras da desgraça.

Leonor, tremula e excitadissima, lançou-lhe a mão ao braço e arrastou-o para junto do sofá. O bohemio deixou-se conduzir.

— Venha cá! — disse ella. — A accusação que o senhor acaba de fazer é mais uma infamia sobre tantas! A que é que o senhor veio aqui?

— Vinha despedir-me da mulher que amava e...

— E...?

— E pedir-lhe que me salvasse da vergonha e da miseria da prisão. Mas isso terminou. Sei que nada posso esperar. Seguirei o meu destino...

— Se a sua consciencia lhe dizia que nada podia esperar, para que veio cá? Vamos! explique-se! O que desejava?

O bohemio conhecia a loura. Sabia por experiencia que todos os conflictos por ciumes acabavam por ternissimas demonstrações de affecto, sempre que elle proferia palavras de resentimento, desilludido.

— Para que hei-de dizer-lhe nada, se tudo entre nós acabou?

— Talvez se engane... talvez ainda não acabasse tudo como o senhor suppõe...

Illudido por estas palavras, o bohemio ajoelhou aos pés de Leonor, tomou-lhe as mãos e cobriu-lh'as de ardentes beijos.

— Se é certo que conservas ainda no teu coração um terno sentimento de affecto por mim, para que me torturas na minha desgraça, para que me lanças no desespero quando venho pedir-te consolação e amparo? — bradou elle.

— O que desejas de mim? Dize!

— Desejo que me salves! A minha vida, a minha liberdade, o meu futuro, está tudo na tua mão!

— Como? O que posso eu fazer?

— Vaes ouvir. Não posso continuar a viver em Portugal sem entrar na cadeia. É, pois, indispensavel que eu fuja quanto antes para a Hespanha e por lá me demore até se apurar a minha innocencia. Presentemente não posso contar com o auxilio de parentes nem amigos. Só tu me pódes valer, emprestando-me a quantia necessaria para eu por lá não morrer de fome... Vinha, pois, pedir ao teu amor a salvação que todos os outros me recusam...

Era isto justamente o que Leonor esperava para acabar de se convencer da perfidia do amante.

João Lazaro havia-lhe dito que Eugenio viria, n'uma ultima exploração, arrancar á sua boa-fé o dinheiro para fugir com Beatriz para a Hespanha.

Confirmada a denuncia de João Lazaro pelas palavras do bohemio, a loura sentiu dentro em si o demonio do ciume a espicaçar-lhe o desejo da vingança.

— Quinhentos mil reis... — disse com voz tremula. — Não é isso o que precisas?

— Sim, é isso mesmo! — exclamou o bohemio sem reparar no tom de pungente sarcasmo em que a pergunta lhe fôra feita — Quinhentos mil reis é quanto eu tenho calculado que me serão precisos para os primeiros tempos...

Leonor sorriu e disse:

— E se eu fosse comtigo?

O bohemio fez um movimento de surpreza a estas palavras.

— O que! — exclamou — querias ir comigo para Madrid?

— E porque não? — tornou Leonor sem desfitar os olhos do amante.

Eugenio ficou um momento calado. Pensava. A companhia da loura ser-lhe-hia de alta conveniencia, se ella tivesse dinheiro em abundancia para gastar com elle. Mas o bohemio sabia que ella apenas poderia dispôr das suas joias e pouco mais.

Para o acompanhar, seria inevitavel o rompimento com o commendador Garcia, e, desapparecida esta fonte de receita, que poderia ainda ser-lhe um auxilio valioso mesmo distante, a loura ser-lhe-hia um encargo pesado, senão odioso, em meio da sua desgraça.

Além d'isso, elle não podia contar com os encantos de Leonor n'um paiz onde as mulheres são as mais graciosas e tentadoras do mundo e onde o genero abunda em tal maneira, que d'elle faz annualmente grande exportação para as principaes capitaes da Europa e até para o Brazil.

Assim, depois de rapidamente ter ponderado a inconveniencia de um tal passo, respondeu:

— Comprehendes, minha querida, quanto me seria agradavel a tua companhia n'uma terra estranha, longe da patria... Mas eu devo antepôr ao meu egoismo a tua felicidade... Para me acompanhares, serias forçada a romper com o commendador, a perder a sua protecção... E esgotados os primeiros recursos, o que havia de ser de nós, dois ou tres mezes depois de havermos d'aqui partido? Não, eu não posso consentir que faças por mim esse sacrificio, porque é verdadeiramente o sacrificio do teu futuro e do teu bem estar o que um tal passo importa!

O bohemio era, senão sincero, pelo menos sensato e pratico. Mas Leonor é que não traduziu assim o seu pensamento e, attribuindo a recusa ao desejo que o amante teria de partir com Beatriz, como João Lazaro lhe fizera crêr, irrompeu n'uma explosão de ciume e de colera mal contida.

— Eu já esperava a resposta, miseravel! — bradou ella enfurecida — Eu bem sabia que o teu maior martyrio seria que eu te acompanhasse, porque, indo comtigo, não poderias levar na tua companhia a mulher por quem me trocaste, vil!

— Leonor!

— Não tentes negar! Sei tudo, canalha!

— Leonor! Juro-te...

— Não jures, biltre, que as tuas juras são mentidas, são a hedionda expressão do teu caracter baixo, cobarde e infame, vil explorador de mulheres!...

E, rapidamente, tirando do bolso o rewolver, sem que Eugenio, ajoelhado a seus pés, tivesse notado este movimento, apoiou-lhe o cano da arma á fronte direita e disparou.

O desgraçado cahiu exanime no pavimento, sem soltar um gemido.

Então Leonor, pondo-lhe o revolver ao lado, levantou-se e, desgrenhada, a face livida pela commoção do momento, levantou-se e começou clamando por soccorro em brados afflictivos.

A primeira que acudiu foi a velha Marianna.

— Meu Deus! o que foi, senhora?

— Matou-se! Matou-se! Ai, quem acode! Vá chamar um medico... ande, vá depressa!

E com as mãos enclavinhadas, estorcendo-se n'uma dôr angustiosa, a loura debruçou-se sobre o cadaver do amante e rompeu n'um chôro lancinantissimo.

O estampido do tiro e os gritos de Marianna, que alternavam com os da sua joven ama, attrahiram as attenções da visinhança e das pessoas que iam passando.

Em breve a casa encheu-se de gente, e, por entre a turba, appareceu tambem o guarda civil de giro, que recebeu as primeiras declarações, participando o caso para o commissariado.