Os Filhos do Padre Anselmo/XXVI

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Os Filhos do Padre Anselmo por António José de Albergaria
Capítulo XXVI: Um amigo dos diabos


Na tarde d'esse dia, madre Paula e padre Filippe, convenientemente disfarçados sob os trajes seculares e guiados por mestre Tomba, tomavam na estação do Pinheiro, em Campanhã, bilhetes para Guimarães, por ser o caminho que mais rapidamente os levaria a S. Martinho de Campo.

O sapateiro, persuadido de que fôra elle quem conseguira resolver a superiora das Sereias a esta viagem, pois ignorava inteiramente o conthéudo da carta de que fora portador, ia radiante e vaidoso da sua astucia.

A principio observou com desgosto e desconfiança o padre Filippe, em quem suspeitava um segundo tomo do padre Anselmo. Essa suspeita, porém, em breve se lhe desvaneceu, em presença da attitude lhana e amavel do secerdote.

— Este parece que é vinho d'outra pipa! — commentou comsigo o sapateiro — Mas támem se o não fôr, o que eu quero é lá pilhal-o, porque, depois, quem manda é o sr. Julinho e mais eu... E se se fizer fino, lá ainda ha de haver quem lhe troque a corôa em mindos p'ra lhe metter juizo á força na cachola...

Passadas as primeiras estações, o sapateiro tornou-se loquaz e palrador. Dando largas ao seu genio communicativo e alegre, ia dando informações pelo caminho aos seus dois companheiros. Conhecia todas as propriedades e nomeava-lhes os donos pelo nome. Este era muito sujeito; aquelle támem não era mau, mas andava em demanda com os cunhados á conta das partilhas por morte da sogra. Emfim, elle conhecia toda a gente e de tudo dava relação exacta e minuciosa.

Quando chegaram a Guimarães, o Tomba perguntou se queriam descançar um pouco no hotle ou se queriam seguir logo para S. Martinho.

— É muito longe d'aqui lá? — ? perguntou o padre Filippe.

— É alli logo adiente das Taypas... Se o cocheiro bater bem, chegamos lá em tres horas.

— Então é melhor que partamos já.

O Tomba, solicito, fretou um carro em que entraram os tres, com recommendação ao cocheiro de que urgia chegar breve.

Ás 9 horas da noite, o carro parava á porta de Julio de Montarroyo.

O Tomba, sempre movido do pensamento de surprehender agradavelmente o seu amigo e protector apresentando-lhe madre Paula em casa quando elle menos o esperava, em vez de parar á porta de D. Aurelia, guiou os seus companheiros para a antiga casa de Norberto de Noronha.

O sapateiro introduziu madre Paula e o padre Filippe na primeira sala, pedindo-lhes que se demorassem, que elle ia dár parte á senhora. E quasi sem esperar resposta e desrespeitando todas as prescripções medicas, entrou impetuosamente no quarto de Julio de Montarroyo, exclamando:

— Ora, sr. Julinho, os amigos conhecem-se nas incasiões, e o Tomba, com um raio de diabos! p'ra servir um amigo é capaz de dar uma volta no inferno! Cá está ella!

— Ella, quem? — interrogou Julio de Montarroyo.

— A madre Paula, com seiscentos livros de missa!

Julio de Montarroyo encarou espantado no sapateiro, suspeitando que elle tivesse endoidecido.

— Mas está onde, mestre? — perguntou.

— Alli fóra, sr. Julinho, alli fóra na sala... Vem acompanhada com um padréca, mas não tem duveda... Quer que os mande entrar p'ra aqui?

— Você falla serio, mestre Tomba?

— Ó sr. Julinho, isso não são coisas que vossa incellencia me diga a mim na minha cara! — exclamou o sapateiro escandalisado — Pois eu ando por lá a dar voltas ao miolo p'ra lh'a trazer, — que suei e tornei a suar primeiro que a arresolvesse — e o snr. Julinho, chego aqui, e não me quer acuarditar?! Eu serei capaz de lhe dezer uma coisa por oitra, sr. Julinho?

— Está bem, mestre... — tornou Julio — Não vale a pena zangar. Eu vou immediatamente cumprimentar essa senhora...

— Olhe lá, ó sr. Julinho — observou o sapateiro detendo-o quando elle ia já a transpôr a porta do quarto — eu enganei-a!

— Enganou-a?

— Disse-lhe que estava cá a irmã Dorotheia, muito doente e que lhe mandava pedir p'ra ella cá vir vê-a... Ora agora, o sr. Julinho arranje lá as coisas de modo que não me deixe ficar por mentiroso...

— Você está doido, mestre? Como quer que eu sustente essa mentira, se Helena não está aqui nem eu tenho noticias d'ella?

— Não sei, sr. Julinho... Diga-lhe que ella já morreu e que se enterrou honte á noite... Eu cá por mentiroso é que não hei-de ficar, senão ellas, em me apanhando lá outra vez, são capazes de me dar uma coça...

— Descance, mestre; eu vou fallar com madre Paula.

E deixando o sapateiro, entrou na sala onde se encontravam a religiosa e o seu companheiro.

Padre Filippe, que o não conhecia, limitou-se a observal-o com curiosidade.

— V. ex.ª certamente não reconhece n'este velho o moço que ha desoito annos teve a honra de admirar na gentil superiora do Sardão uma das mais austeras religiosas que em sua vida lhe foi dado cumprimentar? — disse Julio de Montarroyo, dirigindo-se a madre Paula, ao mesmo tempo que saudava com uma reverente inclinação de cabeça o padre Filippe.

— Está v. ex.ª enganado, sr. Julio de Montarroyo — replicou madre Paula recobrando a serenidade — Reconheço-o perfeitamente, e é com verdadeira satisfação que torno a vel-o, se bem que estava longe de o encontrar aqui.

— A surpreza, portanto, é para nós dois, pois que eu tambem, apezar do vivo desejo que sentia de fallar a v. ex.ª, não podia esperar a subida honra que me dá da sua caridosa visita... E digo caridosa, porque visitar um enfermo nas minhas condições é verdadeiramente uma obra de caridade, que só as almas sinceramente religiosas como a de vossa excellencia sabem comprehender e praticar.

Madre Paula escutava-o sem o comprehender.

Julio de Montarroyo offereceu o sophá aos seus hospedes.

— Dignem-se v. ex.^{as} sentar-se, e, pois que me dão a honra da sua visita, permittam-me que os considere meus hospedes por alguns dias. Esta casa é pobre. Ha aqui o triste desconforto das casas da provincia que não teem a direcção intelligente de uma mulher a governal-as.

No entanto, dois titulos tornam digna esta desconfortavel habitação da subida honra de abrigar sob o seu tecto a superiora do Sardão: o primeiro vem a ser o soccorro espiritual prestado a um enfermo que ardentemente o deseja e implora; e o segundo o facto de ter sido esta, outr'ora, a casa de uma das amigas mais intimas de v. ex.ª, a irmã Dorotheia, conhecida no seculo por Helena de Noronha.

— Helena! — bradou madre Paula — Onde está ella? Peço-lhe que me conduza sem demora até junto do seu leito. Mal soube que estava doente, accorri immediatamente ao seu chamamento, e tenho fé que a minha presença ha de fazer-lhe bem, ha de melhoral-a...

Julio de Montarroyo encarou com insistencia a abbadessa.

— V. ex.ª não sabe onde está Helena de Noronha? — perguntou elle.

— Julguei encontral-a nesta casa, d'onde me escreveu a chamar-me e onde me disseram que estava.

— D'onde lhe escreveu, diz v. ex.ª?

— Sim. Eis aqui a carta que hoje mesmo recebi pelo homem que aqui nos conduziu.

E madre Paula apresentou a Julio de Montarroyo, estupefacto, a carta de que o Tomba fôra portador.

— É a lettra de Helena! — exclamou Julio n'um brado de alegria extrema — Não ha duvida, Helena escreveu esta carta... Mas onde está ella? — perguntou por sua vez tambem.

— Pois deveras Helena de Noronha não está aqui? — interrogou ainda madre Paula, tomada de estranha surpreza.

— Não, minha senhora — volveu Julio — e até eu ignoro como e de que maneira esta carta pudesse ser-lhe enviada por Helena, de quem não tenho noticias ha dezoito annos! Esperava eu que v. ex.ª, compadecida do meu estado de doença e do muito que tenho soffrido no esforço inutil de encontrar a filha de Norberto de Noronha, se dignasse dar-me quaesquer indicações que me permitissem fallar-lhe ou escrever-lhe ainda antes de morrer.

E com uma eloquencia febril, contou em rapidas palavras tudo o que lhe succedera nos desoito annos decorridos e que o leitor não ignora, por já lh'o ter ouvido contar a Gustavo de Magalhães.

— Agora — concluiu — alquebrado, doente, com poucos dias de vida, todo o meu empenho era procurar v. ex.ª e pedir-lhe, por tudo quanto mais ama no mundo, que me dissesse se Helena de Noronha vive ainda ou se devo procural-a no mundo dos espiritos...

— O homem que aqui nos guiou é que foi portador d'esta carta. Elle portanto, poderá dizer quem lh'a entregou e onde se encontra quem a escreveu... — explicou madre Paula, de cada vez mais attonita e surprehendida.

— Tem v. ex.ª rasão. Vou mandal-o chamar á sua presença, e elle explicará...

Julio levantou-se, tocou uma campainha e ordenou ao criado que appareceu á porta da sala:

— Diga ao mestre Tomba que venha cá.

Pouco depois apparecia á porta o sapateiro com o ar petulante de quem está resolvido a dizer tudo sem rodeios, e a assumir inteira responsabilidade dos seus actos.

— O sr. Julinho, chamou?

— Chamei, mestre. Venha cá...

— Prompto!

E o sapateiro avançou dois passos na sala, de cabeça erguida e olhar firme.

— Então como é isto? — ia Julio a dizer.

Mas o sapateiro interrompeu-o, sem o deixar concluir.

— Então como hade ser? Fui eu que armei esta trempe, p'ra fazer que aqui a nossa reverendissima madre e mais este reverendissimo sr. padre viessem á presencia do sr. Julinho... Vossa incellencia estava todos os dias a appellidar por ella, que a queria vêr, que lhe queria fallar e que morria sem estifazer o seu desejo... Vae eu atão disse comigo: «Se eu, armar uma pêta bem arranjada e disser á nossa reverendissima madre que é a sr.ª D. Helenia de Laronha que está a dar a alma a Deus, ella larga barcos e redes e vem por ahi fóra atrás de mim, que é um ar que lhe dá... Ponto é que ella me acuardite... Vamos a vêr se as bichas pegam... Fui e as bichas pegaram. Ella aqui está... Agora o sr. Julinho diga o que tem a dezer, e se eu fico por mentiroso, é o mesmo... Se quer ó menos, intrujei, mas foi p'ra estifazer a ultima vontade a vossa incellencia... Agora já póde morrer descançado.

— Mas venha cá, Tomba, como arranjou você a carta de Helena de Noronha?

O sapateiro arregalou os olhos:

— A carta da sr.ª D. Helenia? A carta não é d'ella!

— Como não é d'ella?

— Não é d'ella, já lhe disse! Assim um raio venha que nos parta aqui a todos, se eu vi a sr.ª D. Helenia ou sequer alguem me boquejou a respeito d'ella!

— Mas esta carta — disse madre Paula — foi-me entregue por vocemecê...

— Isso é oitra coisa... — tornou o sapateiro — Mas as cartas são papeis... Essa carta não é da sr.ª D. Helenia.

— Não é! — exclamou Julio — Mas a lettra e a assignatura são d'ella. Como arranjou você esta carta?

— São d'ella!? — disse por sua vez o Tomba muito admirado.

— Se esta carta não é escripta por Helena — tornou Julio de Montarroyo — então alguem lhe imitou a lettra e a assignatura. O mestre dirá quem foi...

— E a carta o que diz, ó sr. Julinho? — interrogou o sapateiro com grande interesse.

— Pois você não o sabe, mestre?

— Eu não, senhor! Cego seja eu e o meu Santo Antonio, que está lá dentro, permitta que eu não arranje mais cinco réis d'esmola em toda a minha vida, se eu sei o que ella diz... Eu levei-a fechada, não a abri para a mandar lêr, como hei-de eu adivinhar o que ella diz?

Julio percebeu que o sapateiro fallava verdade, e de cada vez mais surprehendido pela ignorancia do mestre sobre o contheudo da carta, resolveu-se a esclarecel-o.

— Esta carta é assignada por Helena de Noronha e pede á virtuosa madre Paula que venha junto ao seu leito de agonia dizer-lhe o ultimo adeus...

— Ella diz que está doente?

— Diz que está a morrer...

O sapateiro bateu uma palmada na testa com expansão:

— Quer vossa incellencia vêr que é ella!? — exclamou — Pois não é oitra coisa. É ella! Oh! com um raio de diabos! E eu aqui a dois passos, e sem o saber! Que grande cabeça de burro eu sou! Pois é ella, não ha que vêr!

— Ella quem? — interrogou anciosamente Julio.

— A doente que está em casa da sr.ª D. Aurelia! Ora... ora esta! E fui eu que dei co'ella na estrada, como morta, sem dar por burro nem por albarda...

E depois, n'um movimento de duvida:

— Mas olhe lá, ó sr. Julinho, a carta diz isso?

— Sem duvida, mestre, a carta é de Helena... Diz que está doente e pede a madre Paula que venha vêl-a...

— Agora... agora! Por isso vossa reverendissima se pôz tão prompto para me acompanhar... Cá me queria parecer!... E eu a cuidar que era eu que a trazia ao engano!... Sou esperto, não tem duvida! Posso ir p'ró diabo que me carregue e mais a minha esperteza!

— Mas venha cá, mestre Tomba... explique-nos que doente é essa de que está fallando... Eu não sei nada!

— Pois se vossa incellencia tem estado ás portas da morte, vae hoje, vae amanhã, e todos me deziam que não lhe dissesse nada nem lhe trouvesse novidades, que podia ser ás vezes dar-lhe uma coisa pela cabeça e alimpal-o ainda mais depressa... como é que eu havia de lhe vir contar o que era passado? Mas agora é que eu percebo a tramoia... Antão lá vae!

O sapateiro contou como encontrára inanimada no caminho, quando regressava, do Porto, uma pobre mulher desconhecida e andrajosa, que fôra recolhida por caridade em casa de D. Aurelia onde ainda se encontrava.

— E atão agora está tudo explicado. — concluiu — A snr.ª D. Aurelia foi que me mandou ao Porto entregar essa carta aqui á snr.ª madre, mas sem me dizer de quem era... Ora, se o sr. Julinho diz que a carta foi escrevida pela snr.ª D. Helenia, atão a coisa está bem clara: a doente que lá está e que eu topei na estrada é ella!

Julio ouvira com extraordinaria commoção a narrativa do sapateiro.

— Ah! meu Deus! — exclamou — até que emfim a encontro!

E voltando-se para madre Paula:

— Minha senhora, pois que foi chamada por Helena, cumpre-me conduzil-a á casa onde ella se encontra.

Minutos passados, madre Paula, padre Filippe e Julio de Montarroyo, acompanhados por mestre Tomba, entravam em casa de D. Aurelia.

A irmã de Gustavo veio recebel-os ao salão d'entrada, e não ficou pouco surprehendida quando Julio de Montarroyo lhe disse:

— Minha amiga, tenho a honra de lhe apresentar madre Paula, virtuosa superiora da casa conventual das Sereias, no Porto, amiga intima de Helena de Noronha, que, segundo creio, se hospeda na casa de v. ex.ª...

E indicando o padre Fillipe:

— E este cavalheiro é o sr. padre Filippe, respeitavel sacerdote que teve a amavel complascencia de acompanhar esta senhora na visita á sua amiga.

D. Aurelia cumprimentou os visitantes, relanceando um olhar de censura ao Tomba que, interdicto, coçava na orelha, como quem comprehendia que tinha feito asneira.

— É verdade — disse por fim D. Aurelia — que tenho em minha casa Helena de Noronha; e se d'isso não informei immediatamente, como desejava, o snr. Julio de Montarroyo, foi devido a duas considerações imperiosas: a primeira foi o facto de Helena, que recolheu doentissima e em perigo de vida a minha casa, me haver supplicado que não divulgasse, fosse a quem fosse, a sua estada aqui; e a segunda foi a circumstancia do snr. Julio de Montarroyo se achar gravissimamente enfermo e haver especial recommendação do seu medico para que lhe não dessem noticia que pudesse causar-lhe qualquer abalo moral, porque isso poria em perigo a sua existencia.

— Oh! — protestou Julio — pois se toda a minha doença era não ter noticias de Helena!

— Helena, cuja vida continua ainda em perigo — proseguiu D. Aurelia — pediu-me que fizesse entregar no Porto a madre Paula uma carta que ella mesma escreveu e cujo contheudo eu ignoro...

— Essa, carta, minha senhora — disse madre Paula — eil-a aqui. Por ella verá v. ex.ª que Helena reclama a minha presença...

E apresentou-lhe a carta que D. Aurelia recusou delicadamente com um gesto.

— Por Deus, minha senhora! Eu não duvido um momento da sua palavra... Simplesmente o que devo é prevenir v. ex.ª do melindroso estado de saude da nossa pobre amiga... Qualquer abalo, qualquer commoção violenta póde matal-a...

— Mas se Helena espera a visita de madre Paula — objectou Julio.

— Espera a visita de madre Paula, mas não espera a de v. ex.ª... — retorquio D. Aurelia. — Era justamente essa surpreza que me parecia bem poupar-lhe por emquanto...

— Decerto! — atalhou madre Paula. — Nem eu creio que o snr. Julio de Montarroyo, que é tão dedicado a Helena, pense em lhe aggravar a enfermidade apresentando-se-lhe, sem ella estar preparada para isso...

Julio de Montarroyo exclamou n'um accesso de exaltação febril:

— A minha vida pela d'ella! Digam-me que é preciso fazer saltar os miolos para salvar Helena e eu não hesitarei um instante!

— Socegue, socegue, meu amigo, que não será preciso recorrer a esse extremo, para termos a nossa querida doente restabelecida dentro em pouco. Aqui o que é preciso é evitar-lhe qualquer sobresalto ou commoção que possa aggravar-lhe a doença... V. ex.ª não imagina o estado em que a pobresinha se encontra. Eu mesma, quando aqui m'a apresentaram, não a reconheci... Foi ella que só passados dias se deu a conhecer, porque se tal não fizesse, ainda agora eu estaria na ignorancia de quem ella fosse.

— Pobre Helena! — exclamou madre Paula.

— Parece-me, pois, tornou D. Aurelia — que seria bom dispôr a nossa doente para receber a visita da sua amiga. Emquanto ella a espera, convem prevenil-a com cuidado...

— Sim... sim!... — concordou madre Paula.

D. Aurelia voltou-se para Julio e com um sorriso amavel:

— Tenha paciencia, meu amigo... Já não é pequena felicidade para o seu coração o saber que Helena vive, está aqui entre nós e que, dentro d'alguns dias, poderá vêl-a e fallar-lhe. O que é preciso é que v. ex.ª mesmo tenha cuidado com a sua saude e trate de se restabelecer, livre de apprehensões e de tristezas que já não têm razão de ser.

E a um gesto de assentimento de Julio de Montarroyo, que se inclinou em silencio, proseguiu:

— Deem-me licença que eu vá junto da minha amiga, tratar de a predispôr para receber sem grande surpreza a virtuosa madre Paula. Escuso dizer-lhes que os considero meus hospedes n'esta casa e que vou tambem dar as ordens precisas para serem convenientemente installados.

Fez uma ligeira mesura e sahiu.

D'ahi a instantes, a criada de quarto de D. Aurelia entrava na sala a indicar aos hospedes que os seus aposentos estavam preparados.