Os Retirantes/I/XI

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Os Retirantes por José do Patrocínio
Primeira parte: a paróquia abandonada, Capítulo XI


A tristeza entrara na casa de Queiroz, e muito principalmente na de Monte, para não mais deixá-las.

Algumas horas tinham bastado para ruir até os fundamentos do edifício construído, havia dois séculos, e cimentado com tremendas mortualhas. Rogério Monte, o último dos representantes que podia bruxulear o brilho dos seus maiores, via diante de si a miséria, e, ameaçado por este inimigo tremendo, não tinha outra saída além da humilhação da esmola ou a prisão perpétua do favor.

O velho Queiroz, apalpando com o tato finíssimo todo o horror da situação do seu velho amigo, sofria com a mesma intensidade o desgosto profundo que lhe havia sido reservado para os últimos dias da existência.

— Parto, pois, amanhã - disse-lhe Monte no silêncio da sala das aulas; - se eu morrer no Aracati, espero que minha filha não ficará sem pai.

— Basta o que já sofres, homem - respondeu-lhe Queiroz; - não me fales em morte.

Os dois honrados amigos não tinham, entretanto, medido a extensão da mútua desgraça, apesar da larga e tristíssima face que lhes era dado ver. Para que os seus corações fossem precisamente cruciados pela realidade, era mister que penetrassem no quarto de Irena.

Aí as duas amigas continuavam a agravar pela imaginação os seus sofrimentos.

O amor violento e intratável de Irena sobreexcitava-se quase até a loucura, e como que despertava no espírito da amiga o desejo de ser também infeliz pela mesma causa e com o mesmo arrebatamento.

— Sabe o que hei de fazer, Eulália, sabe o que eu hei de fazer ... Não, não posso dizer.

E alucinada, escondendo o rosto nas mãos brancas de jaspe, contava à amiga que tinha medo. Parecia-lhe que a alma de sua mãe, condenava-lhe o amor: ela não tinha conhecido as veemências da paixão; levara uma vida serena do berço até a cova, cercada pelos afagos de seus pais, pela afeição calma do esposo, pelas bênçãos sinceras da pobreza, de que fora mãe desvelada. Sua alma tinha-se desprendido do corpo sem uma contração dolorosa; saíra como o ar respirado pelas plantas; imperceptivelmente. O seu viver foi calmo e bonançoso; nos dias de penúria ela banqueteava-se com o farto quinhão de afetos que lhe talhava o esposo na própria vida. Não podia, pois, compreender por que um outro coração se exaltasse até o delírio e principalmente sendo esse coração de sua filha. A alma de sua mãe devia por força amaldiçoá-la à esta hora.

A tristeza de semelhante pensamento fazia com que Irena não exprimisse a sua resolução; julgava que, fechando-a na consciência, escondia-a do olhar do duende que a sua imaginação mesma criou para torturá-la. À semelhança do Caim do poeta, que sobrepunha muros a outros muros e mandava construir moradas subterrâneas para furtar-se a um olho medonho, que o espiava desde o dia do fratricídio, Irena procurava esconder no seio da ternura filial, da saudade, das lágrimas, da amizade sincera, do silêncio, do desespero enfim, a triste resolução que lhe foi aconselhada pelo amor infortunado. Mas, como a sentinela de Caim não se rendia ao cansaço, a consciência de Irena não se deixava vencer e, de quando em quando, a moça, enxugando as lágrimas, repetia:

— Sabe o que hei de fazer, Eulália?

— Ser um pouco mais resignada, e esperar - respondeu-lhe a amiga.

— Não - replicou por fim a mísera Irena: - fugir!

— Nunca, minha amiga, nunca! Seria a morte de seu pai.

— É a esperança do meu amor.

— Doida! soluçou Eulália.

— Desgraçada é que eu sou.

A compleição fraca e doentia não lhe dava forças para comportar a violência da paixão e arcar com o horror do seu fadário.

À noite, um relaxamento muscular invencível invadiu-a, e, depois de escandescê-la na intensidade de uma febre delirada, prostrou-a na atonia semelhante à da inalação prolongada do clorofórmio.

Durante a febre falava em pujança de cavalos, gabava-lhes o esgalgado dos canelos, a compostura nobre com que enfreavam, resfolegando alto e batendo vigorosamente o chão com a presteza da andadura. Faziam-lhe entretanto medo, porque eram russos, e na claridade do luar podiam servir de alvo à perseguição; demais disso, relinchavam freqüentemente, como se quisessem denunciá-los. Se eles fossem murzelos, se tivessem no pêlo o colorido negro do destino dos cavaleiros, seria muito melhor; mas até a cor dos animais rebelava-se contra o seu afeto.

Monte, lendo nos olhos de Eulália a impaciência e o temor que lhe causavam as palavras de Irena, perguntou-lhe de que falava a filha, se lhe conhecia algum segredo que justificasse o delírio: ela repetia freqüentemente que a odiavam, que era impossível obedecer, e que preferiria morrer!

— É uma história que lemos de dois noivos, que fogem, porque os pais se negam a consentir no casamento - respondeu Eulália.

— E que motivos tinha o pai? - sorriu bondosamente Rogério Monte, desafogado da impressão que lhe causara o delírio de Irena.

— Odiavam a família do noivo!

— Não era motivo bastante; se ele fosse digno...

— Ouvindo essa história, Irena observou-me que seria muito desgraçada se amasse um Feitosa.

— As mulheres pensam sempre em impossíveis! - acudiu Rogério com exaltação. - Uma filha dos Montes não pode dedicar o coração a um filho daquela raça amaldiçoada!

— Felizmente ele não ama - disse Eulália corando muito.

— Felizmente; porque eu preferira não vê-la mais levantar-se daí!

— Augusto! Augusto! - bradou a doente. - Não insultes meu pai!

— É muito singular este delírio! - ponderou o velho Monte.

— É o nome do noivo - explicou Eulália. - Ela impressionou-se muito; o senhor sabe quanto Irena sente as dores alheias.

O velho Monte, porém, não despreocupou-se de todo com as explicações de Eulália, e um receio assustador lhe sobreveio.

A semelhança da história com a situação das duas famílias rivais, o nome do protagonista, podiam ter inclinado o espírito de Irena para o representante dos Feitosas, que era galhardo e sedutor.

De madrugada, ao despedir-se para partir, parou junto da rede em que Irena ressonava a sua profunda prostração. Olhou por largo tempo para aquele rosto pálido, para as olheiras roxas e os cabelos desfeitos pelo desalinho, e disse ao velho Queiroz:

— Estou com vontade de ficar; não sei o que me diz que faço mal em deixá-la.

— É o mesmo que a faz sofrer: a tristeza da separação, a saudade antecipada.

— Deve ser isto só!... Não é possível que Irena ame Augusto.

— E se fosse?...

— Matava-o! - interrompeu Rogério Monte. – Mas... é impossível.

Pousou na testa de Irena um beijo, longo como as noites de insônia, e saiu a enxugar as lágrimas que lhe choviam nas barbas brancas.

— Adeus; eu estarei de volta em oito dias, em princípios de junho - disse abraçando Queiroz. - Vele pela minha filha; Deus sabe se não será você em breve o seu pai, ou se eu não a chorarei.

— Coragem! Isto é desanimar antes de tentar os meios de remediar. Vá tranqüilo por este lado, meu velho; eu a confundi sempre com Eulália. O pior é criar fantasmas.

— Não seria o primeiro caso, e a fatalidade não mede os golpes. Mas eu devo obedecer à minha palavra de honra: adeus.

— Até breve; que volte mais animado.

Quando Monte se afastou e sumiu-se no declive da ladeira, Francisco de Queiroz voltou-se para Eulália que os ouvia:

— Tu deves saber se Irena ama o Feitosa; não mintas a teu pai.

— Eu não sei - respondeu Eulália -, mas, se soubesse, meu pai mesmo me ensinou que não revelasse nunca o segredo das minhas amigas.

Queiroz abaixou a cabeça, humilhado pela indiscrição, sem ter forças para encarar com Eulália. Toda nobreza da sua alma ergueu-se desde então para resgatar a falta momentânea, e a revelação de Irena ficou sendo aparentemente uma inconseqüência de delírio.