Os Retirantes/I/XVII

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Os Retirantes por José do Patrocínio
Primeira parte: a paróquia abandonada, Capítulo XVII


Tinham-se passado alguns dias depois da partida precipitada de Rogério, e o vigário não interrompera a assiduidade na casa de Queiroz.

Uma profunda modificação havia-se operado em todas as pessoas da família, e a própria vida da paróquia tinha-se tornado mais triste e monótona. Só na venda de Antão Ramos havia, à tarde, algumas conversações alegres entre os fregueses, que vinham aguardentar-se e cantar o desafio. Todavia o inspetor não tomava, como outrora, parte nessas palestras; andava arredio do balcão e já não dava ensanchas a grandes familiaridades.

— Todo o meu tempo é pouco para socorrer àqueles desgraçados - dizia ele. No principio tudo é flores... O vigário lá anda às voltas com o Queiroz, que está a decidir, e o Feitosa, magro e quase inválido, nada pode fazer. O Engenho inteiro ficou sobre as minhas costas.

E o bom do inspetor queixava-se amargamente: era um povo duro de sofrer-se, mole e remisso, amigo de se deixar imundo e de habitar na imundícia. Todos o sabiam na paróquia: um dia o vigário foi obrigado a ir pessoalmente acompanhar os retirantes para conseguir que eles se limpassem e vestissem a roupa nova, que escondiam como se tivessem mais amor pelos andrajos. Demais não se contentavam com o que se lhes dava: pois os paroquianos não viam, quase todos os dias, grupos de mulheres que vinham à venda lastimar-se e pedir disparates? Enfim, era uma vida muito amarga, a de comissário, e o inspetor, só por amor dos seus semelhantes e temor da religião, ainda se conservava em tão espinhoso cargo.

— Mas para que Vossa Mercê faz este sacrifício, sr. inspetor? Deixe a comissão que há de haver quem o substitua - ponderavam-lhe.

— Homem, não me fica bem como autoridade.

— Apele para o seu gênero de negócio.

— Isto não embaraça.

— Nem faz conta - diziam-lhe amistosamente -, nesta freguesia Vossa Mercê faz e batiza.

— É, comecem as más línguas a contar, e eu lhes direi quem é que deixa a paróquia. Para besta já basta.


No dia 12 de junho um novo assunto serviu de pasto à conversação dos cantadores de desafio e a todo o povoado: a doença incurável de Queiroz.

De feito, a moléstia do professor tinha-se dia por dia agravado mortalmente, lançando a consternação no ânimo inconsolável da família. As dores, que a princípio apenas lhe tolhiam o movimento das pernas, aumentaram gradativamente e subiram-lhe invadindo os antebraços, a região lombar e a nuca. A canseira que o molestava tornou-se dificuldade quase sufocante de respiração, e o rosto inchou-se-lhe de modo a torná-lo deforme. Nos últimos dias um fenômeno mais incômodo do que todos os outros veio arredar toda a esperança de cura para o doente.

— Sinto no estômago um aperto como se estivesse sendo amarrado por um cinturão - queixava-se ele -, tirem-me daqui esta dor que me mata.

Eulália, que não abandonava a cabeceira paterna, ouvia-o chorando, e beijava-lhe as mãos, como se quisesse sugar para o seu corpo aquelas dores fatais. Muito descorada, com os cabelos em desordem, as pálpebras inchadas e roxas, com grandes distrações, quase como as de um idiota, dócil até a passividade, a desventurada passava a maior parte do tempo contemplando aflita o pai moribundo. Então ficava ainda mais triste, como se por um milagre houvera sentido as passadas da morte avizinhando-se da rede em que o professor jazia, arfando o cansaço de que só devia descansar no túmulo.

Pelas duas horas da tarde, Queiroz fez reunir em torno de si a desolada família, em cujos rostos, macerados pelas continuas vigílias, estava estampada a verdade do sofrimento e a certeza de que em breve devia separar-se, para sempre, do único amparo que tinha sobre a terra.

O moribundo chamou então o vigário, que passeava lentamente pela sala, conforme era seu hábito nos longos quartos que fazia todos os dias ao amigo.

— Paula - murmurou ele por entre a ânsia penosíssima -, eu sinto-me morrer e deixo na miséria as minhas pobres filhas e a minha boa irmã. Você sabe que eu nada tenho...

— Tem um amigo, que não lhe quer ouvir idéias tristes; distraia-se desse teimoso pensamento de morte.

— Não me distraio, não. Talvez dentro em poucos minutos eu já não possa falar: sinto a língua trôpega, quase paralisada, e eu seria muito desgraçado se não pudesse dirigir a você um pedido.

— Pois faça-o, que eu cumprirei: seja qual for.

— Não abandone a minha desgraçada família. Jure-me que não a abandonará.

— Juro, meu amigo; mas nem precisava jurar; é o meu dever!

Uma solenidade veneranda revestiu o grupo transido pela mais horrorosa das dores, a despedida do moribundo; e cerca de uma hora depois a família ajoelhada recebia no fervor das suas preces, no desolamento do coração, o último suspiro de Queiroz.

Paula levantou-se solenemente aportou nos braços e beijou a fronte a cada uma das filhas do honrado homem.

— Podem contar com um pai - afirmou gravemente; - eu saberei ser amigo, minhas filhas.

Foi então parar em frente de Eulália que, atirada sobre uma cadeira, com a cabeça oculta entre os braços cruzados, soluçava amargurada o seu tristonho desamparo.

No olhar de Paula sentia-se alguma coisa que não era digna de uma câmara mortuária. Dir-se-ia que lhe voltara algum dos sonhos das suas noites de ciúme. O sorriso mau, que era a arma temperada da sua hipocrisia apareceu-lhe de novo em toda a sua plenitude, como se todas as baixezas da lubricidade nele se dilatassem.

Percebia-se que aquela alma fria e insensível deleitava-se com o som tristonho dos crebros soluços da família, que nem ousava levantar a cabeça para não dar de face com a tremenda realidade do seu futuro. Nos lábios do vigário, esse sorriso, aparentemente bondoso, denunciava o lampejar de um crime.

— Tenha paciência - murmurou ele procurando consolar a moça; - não ficou de todo só, creia.

E curvando-se, beijou-lhe uma das tranças.

Os soluços da infeliz prorromperam com mais força.

— Está bom - disse Paula um tanto contrariado -, vou mandar cá o Marciano para ajudar a vestir o cadáver.

Poucos momentos depois chegaram o velho sacristão, o inspetor e outros vizinhos que vinham satisfazer o pedido do vigário, e o cadáver foi colocado na sala das aulas, sobre a mesa que servia para a escrita dos meninos, em uma das pontas da qual Marciano colocou um crucifixo, flanqueado por uma das banquetas da modesta igreja paroquial.

— Pobre gente! - disse o inspetor saindo da casa do morto; - faz cortar o coração.

— É muito triste a posição da família, é, sr. Antão Ramos; mas há outras que ainda ficam em pior estado - respondeu o velho sacristão.

— Coitadas! o pai não lhes deixou nada.

— Mas elas têm o sr. vigário.

— Ora diga-me você esta, Marciano! Pois lá a proteção de um homem é coisa com que se conte? Olhe que dar cansa.

— Conforme: o sr. vigário era muito amigo do professor, e além disso as filhas são bonitas...

— Isto não vem ao caso.

— Eu cá me entendo; aqui vem muito ao caso.

— Salta fora, velho sem brio! exclamou Antão Ramos indignado; começa já a difamação e ainda o pobre Queiroz está sobre a terra!

— Pode praguejar e descompor, sr. Antão Ramos; eu que o digo é porque alguma coisa sei.

— Infelizmente eu nem posso pedir a Deus que faça com que a sua família passe pelo mesmo - resmungou Antão Ramos; - já lhe aconteceu em vida o que tinha de acontecer. Malvado!

— Nós havemos de ver quem acertou no ponto.

— Você talvez julgue pelos exemplos de casa: olhe!

E apontou para o vigário que vinha saindo da casa do sacristão.

Marciano não respondeu e nem mostrou-se molestado com a ofensa pungente que lhe foi vibrada e quando o vigário passou por junto de si, descobriu-se todo, com uma humildade de lacaio.

— Lá está tudo pronto, sr. vigário; não ordena mais nada?

— Arranje alguns mochos no corpo da igreja, para se depositar o cadáver durante a encomendação.

— Veja como ele trata o cadáver do amigo, seu linguarudo, e continue a se fazer besta - ponderou o inspetor quando o vigário se retirou.

— Eu não quero brigar com Vossa Mercê; pode dizer o que quiser - respondeu brandamente Marciano.

Paula não demorou a voltar para casa do morto, e aí empregou-se em espalhar consolações e esperanças de um futuro menos sombrio, do que o agourava a dor da enorme perda experimentada pela família.


Era já bem tarde da noite, e os prantos e as lamentações continuavam vivos, sentidos como na hora do passamento do professor. Sobre os bancos reunidos e colocados por todo o perímetro da sala, d. Ana e Eulália choravam inconsolavelmente, enquanto Chiquinha e as outras filhas do morto soluçavam, cabeceando sonolentas, vencidas pelo cansaço das muitas noites que tinham passado a velar.

— Oh! minha senhora - observou Paula, dirigindo-se a d. Ana - é preciso fazer dormir estas pobres meninas; elas já nem se podem suster, coitadinhas.

— Nós podemos ficar aqui mesmo, sr. vigário; não temos mais sono - respondeu Chiquinha receosamente.

— Ouça, d. Ana - segredou o vigário -, pode bem ser que elas não queiram deitar-se, porque tenham medo...

— É isto mesmo, sr. vigário; eu percebo; mas é melhor, porque ao menos elas ficam vendo o pai, que tanto as estimou.

— Pois eu, no seu caso, ia acomodá-las porque deve fazer-lhes mal passar tantas noites em claro.

— Tem razão - respondeu a boa senhora.

E conduziu as meninas para o interior da casa.

Paula ficou finalmente só com Eulália, que continuava a soluçar, sentada em face do cadáver de seu pai. A hora, a solenidade do lugar, a alucinação do sofrimento davam à moça um desalinho que impunha respeito, mas provocava a adoração.

O vigário veio postar-se-lhe defronte, mudo e respeitoso, e assim quedou por largo tempo, até que, voltando-se descuidadamente para o cadáver, estremeceu e pôs-se a caminhar ao longo da sala. Quando deixava de olhar para o crucifixo e para o morto, fitava Eulália, que, sentada e encostada a cabeça na parede, chorava como que desacordada. Por fim parou junto à mesa, e descobriu o rosto de Queiroz. Um sorriso inqualificável revestiu a fisionomia perturbada de Paula, que logo encaminhou-se para junto de Eulália.

— Por que não vai dormir também? - murmurou sentando-se ao seu lado; - eu ficarei velando o corpo.

— Não tenho sono; eu sentiria mais se tivesse de sair daqui.

— Mas então busque espairecer um pouquinho; não se mortifique tanto....

— Não está na minha vontade.

— Não posso consentir que esteja assim a chorar... a molestar os olhos... - disse Paula tomando as mãos de Eulália e apertando-as nas suas ternamente... - Esses olhos que são meus ... que serão meus... para sempre!

— Deixe-me, deixe-me por piedade - murmurou a desventurada tentando em vão desenvencilhar-se.

O vigário, porém, parecia presa de veemente delírio e, envolvendo a moça nos seus braços, exclamou:

— Não; eu quero que me escutes hoje, agora, em face de um cadáver e diante de Deus, o grito que há longos anos repito e que sinto sufocar-me o peito: eu te amo!... te amo!... amo-te muito!...

E o silêncio prolongava o som do estribilho apaixonado!...

Diante do arrebatamento de Paula, o morto, com os braços cruzados sobre o seio, tinha o ar de quem se horroriza, e o Cristo, com a cabeça descaída, parecia chorar por tão monstruosa infâmia!...

Eulália, desorientada, sem energia, sem vontade, entontecida pelas vigílias e pelo choro, opunha fraca resistência à sedução vitoriosa.

A tristeza tornou-se ainda mais sombria naquela câmara mortuária.

Só se ouvia o eco do ressonar cavo e roufenho da família entorpecida pelo cansaço, de vez em quando o estalejar do pavio das velas de carnaúba ardendo sob a pirâmide amarelada da chama tranqüila, e as passadas de Paula, passeando de um para outro lado.

Eulália tinha ido abraçar-se com os pés do cadáver de Queiroz, e ali jazia, ora derramando lágrimas silenciosas ora prorrompendo num choro violento, soluçado como o da histeria.

O vigário procurava consolá-la; fazia promessas de ventura; pedia-lhe que confiasse em seu amor. Mas a infeliz, escondendo o rosto afogueado, exclamava redobrando o choro:

— Meu pai! meu santo pai! por que não morri eu contigo? Afinal os galos da vizinhança começaram a cantar amiudadas vezes, batendo as asas poderosamente como se quisessem com o seu ruído espantar a noite e acordar de súbito a manhã.

Paula foi de novo instar com a moça para não se entregar com tanta veemência ao desespero; mas não conseguia desligá-la dos pés do morto.

— Mau começo - resmungou ele com azedume. - Vamos ter uma lua-de-mel tresandando a cadáver.

Depois, abriu cautelosamente uma das janelas, aquela em que por muitas vezes vira Eulália nos dias em que julgava impossível possuí-la e sentia atenazarem-no o despeito e o ciúme.

A aurora assomava esplêndida como uma chuva de brilhantes sobre um tapete solferino. A luz enfraquecida da lua punha o véu da virgindade eterna da natureza sobre a face da terra e do céu e no horizonte a luz e o rubor do amanhecer lembravam o pudor e a hesitação das noivas aldeãs.

Paula ficou extasiado diante do espetáculo grandioso da manhã, e disse voltando-se para dentro:

— Venha ver como o céu está bonito, Eulália, venha!

A infeliz apenas respondeu com uma explosão de soluços ao convite que lhe insultava ainda mais barbaramente o sofrimento.

— Eu não quero zangar-me consigo - disse então o vigário aproximando-se da vítima -, por isso vou-me embora.

— Oh! como o senhor é cruel! - exclamou Eulália com amargura.

— Devia ter visto antes - resmungou ele amuado e impertinente -, não estou para ver loucuras.

E foi tomar o chapéu para retirar-se.