Os Retirantes/I/XVI

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Os Retirantes por José do Patrocínio
Primeira parte: a paróquia abandonada, Capítulo XVI


Eulália hesitou por largo espaço, antes de dar começo à empresa que lhe fora cometida por seu pai.

A entrevista inesperada, o protesto fervoroso do vigário absorveram-na inteiramente na fascinação invencível, que sobre si exercia aquele homem, ora arremessado como um louco, ora submisso como uma criança. Sentia-se avassalada ao seu império, e deixava-se ir pelo declive desse vitorioso sentimento com a passividade de um magnetizado, sem reagir, bendizendo a própria fraqueza. Em vão a consciência protestava contra o segredo fatal, que a envergonhava como uma gravidez criminosa: todo o passado alevantava-se radiante e delia em luz as trevas do remorso. Era uma fatalidade; a sua vida devia levar, pelo impulso da educação, um curso prescrito como o do sol nos diversos signos do zodíaco.

Todos os seus escrúpulos de amiga sincera conjuravam-se contra a missão de que fora encarregada; mas ao mesmo tempo recordava-se das últimas palavras de seu pai: talvez da partida rápida de Irena dependesse a sua união com Feitosa. Ajoelhou-se, pois, junto à rede da amiga, e imprimindo-lhe beijos na mão muito branca, acordou-a sem sobressalto.

— Você afugentou-me um sonho tão bom, que eu dera tudo para o continuar sempre - disse-lhe Irena no fraco tom de convalescente.

— Quem sabe se ele não se realizará ainda, e estando você acordada?

— Fora preciso um milagre.

— A coragem pode fazê-lo.

— Qual, foi apenas um sonho.

Ficaram ambas a olhar-se como se estivessem mutuamente a medir nos semblantes a grandeza dos sofrimentos.

Pela janela do quarto entrava a claridade melancólica do crepúsculo, frouxa como a esperança daqueles dois corações, e de mistura com ela vinham os ecos de vozes alegres, das risadas francas de Chiquinha e das outras duas irmãs de Eulália, que repetiam as palavras da caçula e folgavam com elas.

— Como são felizes! não é, Eulália? Quem nos dera o mesmo tempo!

— Você pode ser ainda mais feliz do que elas, se quiser; está nas suas mãos.

Irena sorriu com a tristeza do desenganado.

Eulália abaixou os olhos como se se arrependesse de ter afrontado a sua amiga, que, notando-lhe o embaraço, murmurou:

— Nem você mesma acredita na esperança que deseja dar-me!

— Não, não é isto; eu é que sou uma tonta, não sei como dizer: meu pai espera que vocês hão de casar-se..

— Ele já sabe?

— Sabe tudo, mas não lhe quer mal por isso.

— Que vergonha, meu Deus! - soluçou Irena.

— Eu sei que vou fazê-la chorar muito, mas é preciso dizer tudo.

E com a precipitação do temor desfiou as suas esperanças, de envolta com a situação do velho Rogério Monte.

Irena ouviu a exposição pungente, e só no fim perguntou com uma calma heróica:

— E Augusto acredita nessa calúnia?

— Se ele sabe que é odiado por seu pai, como não acreditar?

— Pois bem, eu partirei.

E levantando-se a meio, pálida como um cadáver, acrescentou:

— Vê? eu já não sinto mais nada. Sei que seu pai há de alegrar-se muito; vá dizer-lhe que eu obedeci ao seu conselho.

A altivez da raça sobrepujara a fraqueza da mulher, e o fogo do orgulho, fuzilando nos grandes olhos azuis de Irena extinguiu-lhe inteiramente as lágrimas.

Eulália parecia fulminada; deixou-se cair sobre os quadris, e escondeu o rosto no colo da amiga. Julgava-se doida, baldão de um pesadelo cruel, que dava a tudo em torno de si a aparência da vida real, para melhor torturá-la.

— Você parte ? - perguntou amedrontada, fitando os olhos rasos de lágrimas nos de Irena.

— Juro! partirei com meu pai.

— E o seu amor, a sua esperança, e Augusto, e tudo quanto tem sofrido?

— Deixo ficar, para não feri-los pelas costas; eu sou da raça dos cobardes.

— Mas é a morte, minha filha, porque não tardará muito que você se arrependa.

— Nunca! - exclamou Irena resolutamente.

Mas as lágrimas apareceram-lhe de novo, de novo os soluços começaram a sufocá-la, e a jovem, deixando-se arrebatar na efusão tempestuosa do seu sofrimento, disse com amargura:

— Ele tem razão para supor-nos cobardes. Eu esqueci-me de tudo por seu amor; não pensei nos brios de minha família quando jurei ser sua; afrontei a minha própria honra indo ouvi-lo à noite enquanto o meu pobre pai dormia confiado no meu recato. Augusto pode insultar, tem razão: eu atraiçoava a velhice de meu pai, a quem feria pelas costas, com a minha loucura. Este procedimento - pensou ele talvez - devia ser ensinado pelo velho Monte. Augusto é quem tem razão.

— Ai! como eu sou indigna de si - suspirou Eulália, abraçando a amiga -, não devia ser eu quem a estivesse convencendo de que deve partir!

Irena, porém, acudiu logo:

— Diga a seu pai que obedeci ao seu conselho; partirei.

Eulália levantou-se automaticamente e saiu trôpega como um tonto, mas, em vez de ir ter com o professor, tomou a direção da horta.

Chiquinha e suas irmãs continuavam a brincar animando a melancolia do crepúsculo com o estrídulo das suas gritas alegres. Paula e d. Ana conversavam a distância: a boa senhora sentada na borda de um canteiro, o vigário com as mãos entrançadas sobre as costas, dando curtos passeios de um para o outro lado e parando de quando em quando em face de d. Ana.

Falavam dos acontecimentos, que eram então a conversa obrigada.

— Eu lhe disse um dia, não sei se se recorda: falta-se com a religião até junto do andor da Virgem. Há de lembrar-se que Eulália ficou então muito comovida e chegou a chorar. Não se lembra?

— Se me lembro, sr. vigário Mas estava longe de pensar que era com ela que Vossa Mercê falava.

— Já o negócio estava adiantado, e o grande caso é que o tal Augusto enganava as duas, entretendo-as com os seus olhares.

— As duas?

— Sim, porque hoje está mais que provado que ele era o noivo das duas, mas preferia a Irena, pelo faro do dinheiro.

— Olhe que sempre se vêem coisas, sr. vigário!

— Agora não quererá uma nem outra: o dinheiro de Rogério bateu as asas, e Eulália, depois de saber do que se passou, não o quererá também.

— Eu não acreditaria se não fosse o sr. vigário quem me contasse.

— E quer saber de mais uma coisa, d. Ana? Para mim o crime se não foi praticado por ordem de Rogério, com certeza é de algum pretendente ao amor de Eulália.

— Eu cada vez fico mais abismada!

— O Feitosa vinha sempre aqui, e entrava... naturalmente para conversar.

— Mas eu nunca o vi, sr. vigário: neste ponto parece que não há muita verdade.

— Ah! não vinha às claras, mas de noite. Não sei quem foi que me disse que há ali na cerca um dos paus completamente abalado. Foi pessoa que esteve aqui na noite do ferimento e que descobriu o fato, indo encostar-se na cerca. Mas pelo nome não perca...

— Forte desaforo! e com caras de santas.

— Talvez o pretendente visse o Feitosa entrar e o esperasse...

Eulália tinha entrado na horta, e seguia para o lado da cerca. Pensava que o assomo de dignidade de Irena contra Feitosa extinguir-se-ia, como tantos outros que por várias vezes ela tivera contra Paula. Vinha pois, observar pela janela do quarto os movimentos da amiga.

— Olhe para onde ela vai - disse Paula apontando para Eulália.

— E até onde pode chegar o desavergonhamento - resmungou d. Ana. - Se ela fosse minha filha...

— Perdão! eu estou lhe falando como seu amigo, daqui não passa uma palavra para ninguém.

— Mas, sr. vigário, isto que o senhor sabe devia ser dito para que se procurasse o criminoso.

O vigário assumiu um tom solene.

— Deus, que o esconde, d. Ana, é porque tem lá suas razões...

— Mas não se deve deixar sofrer um inocente..

— Quem sabe lá se é! Tudo quanto eu disse não passa de meras suposições... Olhe, anda de um lado para outro -acrescentou, apontando de novo para Eulália; - faz-me dó.

Pois a mim faz-me ferver o sangue, sr. vigário, só com lembrar-me que os pobres pais padecem tanto.

— Devemos perdoar as fraquezas do nosso próximo. Vá ter com o seu irmão, d. Ana; eu vou conversar com Eulália; tenho o que dizer àquela alma atribulada.

— Então até logo, sr. vigário.

D. Ana deu-se pressa a entrar em casa.

Paula exalou um suspiro de satisfação.

— Até que enfim! - murmurou ele.

E dirigiu-se para onde estava Eulália.

O brinquedo das crianças tinha cessado, e só se ouviam mal distintos os ecos das suas conversas em voz alta. Irena mergulhara-se de novo na sua rede e ninguém podia observar o que se passava na horta.

— Ainda está com muita raiva de mim? - segredou o vigário aproximando-se de Eulália, sem que ela o pressentisse.

Trêmula de indignação, a moça voltou-se de face para ele e atirou-lhe em cheio o brado da sua consciência:

— Deixe-me; o senhor é um assassino; mate-me também!

Paula não mostrou o menor abalo, mas como Eulália quisesse retirar-se, travou-lhe do braço e prorrompeu em tom amargo:

— Eu sei que é seu desejo perder-me. Quinze anos em que eu enchi-a de carícias, os longos anos em que tenho sentido corroerem-me os dentes agudos de uma paixão indomável, e durante os quais vim dia a dia mostrar-lhe o coração ensangüentado, não lhe valeram uma palavra de piedade. Desiludido, desesperado, fui descendo aos poucos aos meus próprios olhos, abismando-me cada vez mais na tristeza e na soledade da minha vida, e de queda em queda passei do ciúme à desesperança, da desesperança ao crime. No entanto da mulher, por quem me aviltei, por quem me perdi, não mereço senão isto: o desprezo, e talvez, ao sair daqui, a denúncia que levar-me-á à prisão e à ignomínia.

Eulália sentiu-se comovida até as lágrimas pelo tom pesaroso em que lhe falara o vigário.

— Deixe-me ir embora - insistiu ela brandamente -, basta o que eu já tenho feito sofrer a Irena; deixe-me ir.

— Mas eu tenho maior direito à compaixão, Eulália, e ninguém se condói do que eu padeço. Que importa que Irena seja sua amiga, se não respeitou o seu amor?...

— Que amor?

— O seu amor por Feitosa...

— É falso! - afirmou Eulália soluçando. - Eu não amo Augusto, nunca o amei!

— Oh! - exclamou o vigário radiante de alegria - diga-me outra vez, mil vezes que o não ama!

— Não o amo, já disse; se o amasse, teria entregado a prova que condena o criminoso.

— E qual é essa prova?

— O canivete-punhal ainda tinto do sangue de Feitosa.

— Mas o que ainda não fez, poderá fazê-lo em um instante, não é assim? - acudiu Paula visivelmente perturbado. - Pois bem, esqueça tudo, tudo, amor, sofrimentos, sacrifícios, e vá dizer a todos: eis ali o criminoso! prendam-no, infamem-no, matem-no! — E ele não consente que uma pobre moça padeça, que o seu velho pai seja apontado como um assassino cobarde?

— Em menos palavras pode dizer tudo: “Este homem ama-me muito; é um grande crime; infamem-no portanto”. Diga; eu prefiro isso, porque então poderei trocar a paixão insensata que sinto pelo mais horrível desprezo. Vá!

Eulália deu alguns passos, mas parou de súbito, e erguendo os olhos lacrimosos para o céu:

— Não - exclamou alucinada -, pode ficar descansado: não direi nunca o seu nome.

— É inteiramente minha - murmurou Paula extasiado -, ama-me como um cão.

E seguiu Eulália que voltava para casa.

Essa cena deu ao vigário a certeza do domínio absoluto que exercia sobre o espírito de Eulália, mas não bastou para de todo asserenar-lhe o ânimo. Voltou à assiduidade de outrora na casa de Queiroz e, atento ao menor movimento da moça, renovou a miúdo os combates violentos, em que enervava cada vez mais aquela gasta energia.

Duas noites passou-as ele, até horas mortas, velando à cabeceira do professor, cuja moléstia agravava-se dia a dia, levando o susto e a consternação à família inteira.

— Maldito reumatismo - repetia d. Ana -, há de vexar muito o mano; como veio forte!

— Há de durar muito tempo, d. Ana: é dos que não têm mais cura...

— O meu medo todo é que o mano fique entrevado. O que será de nós, santo Deus ?! Nem é bom pensar nisso.

Em verdade, a moléstia progredira com rapidez, porque a superexcitação nervosa de Queiroz parecia concorrer poderosamente para apressar-lhe a marcha. O dédalo de cogitações em que se desgarravam os pensamentos e as comoções repetidas que o abalavam, os semblantes de Irena e de Eulália, tudo concorria para o mal-estar moral do professor. Na manhã seguinte à tarde da entrevista na horta, ouvindo a asseveração definitiva de Paula de que tinham sido injustos para com Eulália, a quase certeza da culpabilidade de Monte exasperou-o, e prostrou-o num acesso violento de dores que o obrigavam a penar.

Todavia, era de notar que a fisionomia de Paula em nada se coadunava com a sua exagerada solicitude junto ao amigo. Brincava muito com a caçula, conservava o ar desassombrado de quem não tem cuidados, e de vez em quando levava o seu bom humor até ir consolar a desventurada Irena, cujo esforço em domar o coração a enfraquecia a ponto de quase dominá-la.

Foi nestas disposições que o vigário foi abrir a porta da sala das aulas, na undécima noite depois da partida de Rogério Monte.

— Oh! é você? - exclamou ele estremecendo, ao dar cara a cara com Rogério - venha de lá este abraço.

Monte abraçou-o sem transporte, e limitou-se às frases de cortesia.

— Ó Queiroz - continuou o vigário -, cá está o nosso velho amigo são e rijo.

A família inteira rodeou logo o recém-chegado; mas, em vez de sorrisos, havia no rosto de todos a mais acentuada tristeza.

— O preguiçoso do Queiroz não sai do quarto? - perguntou Rogério.

E forcejando para ser jovial, acrescentou:

— Quem traz as pernas em sopa é este seu criado e não pode ir lá agradar a sua preguiça.

— Está com um achaque muito forte de reumatismo -disse a boa d. Ana; - nem se pode levantar à vontade.

Monte entrou no quarto de Queiroz, seguido pelo vigário.

— É a hora fatal, minha amiga - soluçou Eulália retirando-se abraçada com Irena. - Deus nos dê forças.

— Não chore assim que me desanima! O pranto não dá remédio. Paciência!...

— Eu não posso tê-la; morro! apunhalam-me o coração.

No quarto puseram-se os três a conversar. Monte referiu que os seus credores tinham sido inexoráveis; não quiseram estar por nenhuma espera. Nesse mesmo dia ia dar ordem para que os seus escravos fossem para o Aracati à disposição dos credores: pobres escravos, a quem ele tinha vergonha de dizer a sorte que os esperava. Mas não trazia ressentimento: o estado da província era tal que ninguém podia ter confiança no dia de amanhã. Todo o Aracati estava inundado de desgraças; as febres grassavam intensas; os retirantes chegavam ás centenas, piorando cada vez mais o estado sanitário da cidade. A população adventícia era já, com certeza, superior a 30 mil pessoas, que tinham fome, que se exasperavam e morriam como cães.

— E você está deliberado a sair da paróquia?

— Que remédio! - suspirou Monte. - E quero ver se parto dentro em dois dias.

— Muito depressa! - ponderou o vigário.

— É que ainda tenho de voltar ao Aracati; o preço dos escravos baixou muito, e eu quero ver se eles dão revés às minhas dívidas.

— Eu já não insisto - disse Queiroz: - honra é honra.

— Eu entendo assim - respondeu Rogério.

Est modus in rebus - ponderou o vigário. - Às vezes tem-se muita honra à esquerda e negam que haja na direita.

E os olhos de Paula cravaram-se no velho criador.

Queiroz revolveu-se na rede, malgrado seu.

— É o que eu não quero que digam de mim - respondeu Rogério.

— Faz muito bem: não quer que se diga - acentuou Paula.

— Nem dou ocasião.

O vigário fez um movimento.

— "Cruel" - pensou o professor, - "ainda quer aumentar aflição ao aflito!"

E interveio logo em voz alta:

— Ninguém diz isto, felizmente. Monte, vá descansar; deve estar moído da viagem. Entre.

— Não - respondeu Rogério - eu vou para nossa casa.

— Então espere - acudiu o professor -, eu tenho muito que dizer-lhe.

— E eu deixo-os em liberdade - disse Paula, levantando-se e conservando o seu olhar hostil.

O pároco saiu e foi reunir-se às senhoras na sala de jantar, enquanto no quarto os dois amigos conversavam a meia voz.

O coração bondoso de Queiroz quis poupar o golpe profundo que a nova dos boatos causara ao velho amigo. Depreendia-se isto das palavras de Monte, quando pouco depois referiu na sala de jantar a conversação que tivera com o professor, que se limitou a queixar-se da severidade dos paroquianos ao comentarem a negativa de Rogério para a comissão de socorros.

Paula julgou dever adotar uma resolução decisiva.

— Já soube do que aconteceu ao Feitosa? - perguntou ele. - A notícia deve agradar-lhe.

— Não há notícia que me agrade a respeito de Feitosa: é como se não existissem... Como estás pálida, minha filha! - acrescentou Rogério voltando-se para Irena.

Nesse momento a voz do professor chamou no quarto por Eulália.

Nos lábios de Paula debuxou-se um sorriso de contentamento.

— Pois o Feitosa está a decidir - insistiu ele -, creio que não escapa.

Irena não pôde esconder a comoção tremenda que a avassalou, enchendo de espanto o mísero recém-chegado.

Mas o que têm você, minha filha? Parece que está com frio.

— Ah! ela sabe das circunstâncias do crime, o espesso véu de mistério que o cobre - continuou o vigário. - Um pobre rapaz que não tem inimigos, a não ser você... e que é apunhalado sem mais nem menos...

— Mas se você sabe que ela impressiona-se, para que vem falar-me nisso? Eu em nada me interesso por Feitosa, nada tenho com ele...

— É o que lhe parece.

— Como o que lhe parece? ~ o que é.

— Pois não é o que se diz, e em nome da sua honra você deve justificar-se, ou fugir.

— Ora, Paula - disse Rogério, franzindo as sobrancelhas você nunca deixará de ser esquisito no seu modo de pensar?

— É o que lhe digo.

— Então atacam minha honra?

— Apelo para todos.

Rogério olhou assombrado para os circunstantes, e leu em cada semblante, em cada atitude, a confirmação das ignominiosas palavras que ouvira. Irena prorrompeu em soluços, e o vigário continuou:

— Eu não o quero ofender, mas é preciso que você parta, por amor daquela pobre menina. Não se pode abafar a voz do povo.

— São muitos golpes repetidos, meu Deus! Eu já não posso resistir! - exclamou Rogério em tom repassado de amargura.

— Eu sei também calcular o seu sacrifício - murmurou o vigário - mas a amizade de Queiroz podia perdê-lo pelo escrúpulo de não angustiá-lo. Cumpri o meu dever de amigo, por amor de sua filha. Se tirassem-na dos seus braços para pôr entre ambos a prisão e o aviltamento, eu sei que nenhum de vocês resistiria, e isto é o que viria a acontecer, porque você está arruinado e Augusto Feitosa é um homem estimado e rico.

— Não, eu lutarei primeiro! - bradou o velho Monte elevando a cabeça com altivez; quero e hei de confundir os caluniadores.

— Será esmagado.

— Não importa, nada receio; eu tenho por mim a verdade é a justiça divina.

— Enquanto você tratar de justificar-se, Irena morrerá.

— Sim... sim... você é que tem razão - gemeu o infeliz. - O que posso eu hoje, mais do que salvar a vida da minha pobre filha! Partirei pois com ela.

E apertando entre as mãos a cabeça encanecida, prorrompeu em soluços.

D. Ana, que, a enxugar lágrimas renitentes, viera colocar-se ao lado de Irena, chamou a atenção do vigário para outro ponto da sala de jantar.

Paula volveu a cabeça num relance e olhou sobressaltado para Eulália. Era a estátua do remorso hesitando em confessar um crime. Apoiando-se por uma das mãos à mesa de jantar, trêmula e boquiaberta, fitava com um olhar felino o miserável, cujos dentes bateram num tiritar violento, enquanto as mãos sumiram-se-lhe no cabelo espesso e negro.

Os olhos, porém, baixaram-se-lhe, e envolvendo com rápido olhar o grupo formado por d. Ana e a filha de Rogério o vigário exclamou:

— Doidos que somos todos nós! Vejam como torturamos estas duas pobres crianças! E preciso fazê-las repousar.

O egoísmo de pai impeliu Rogério para a filha, a quem tomou nos braços, falando-lhe com uma acentuação profunda de desespero.

De repente exclamou:

— Ela está sem sentidos! ajudem-me a socorrê-la!

— Isto é uma infâmia! - exclamou por fim Eulália, fitando o vigário com o seu olhar assustador.

Paula pareceu por um momento fulminado, ao passo que o generoso Monte entendeu prudente atenuar o que julgava uma inconveniência da amiga de sua filha.

— Perdoe-a - disse ele -, perdoe-a, meu amigo; elas estimam-se tanto... que não admira que uma sinta igualmente a dor da outra.

— Não - continuou Eulália -, ele não tem que perdoar, porque tem muita culpa, porque é um malvado...

— Pobre criança! - interrompeu o vigário trêmulo, mas com a voz repassada de meiguice e de tristeza. - Veja como retribui a quem a estima tanto!... como será capaz de sacrificar tudo... por causa de sua amiga!

A boa d. Ana desfazia-se também em desculpas ao vigário.

— Perdoe-a, perdoe-a - exclamava aflita e lacrimosa.

Depois, correndo para junto de Eulália:

— Acalme-se, minha filha; veja que está faltando com o respeito ao sr. vigário.

Paula tinha-se aproximado de sua vítima e, envolvendo-a sempre com o seu olhar ardente, murmurou humilde e angustiosamente:

— Eis como se pagam tantos anos de um amor imenso... como o de um pai... Pode insultar à vontade, Eulália não lhe hei de querer mal por isso; pode dizer o que quiser.

D. Ana e Rogério, comovidos por tanta mansuetude e pela sobreexcitação de Eulália, suplicavam calorosamente ao vigário que esquecesse a ofensa recebida.

— O que hei de eu fazer? Via-a crescer amando-a... como filha... Eu sou como um segundo pai... - disse Paula em tom triste, e aparentemente sossegado.

As lágrimas marejavam-lhe nos olhos, fitos nos de Eulália.

E acrescentou em seguida:

— Demais, ela diz a verdade: o que sou eu senão um coração cruel... um malvado... um...

— Não, não - atalhou a moça vivamente, com o rosto banhado em lágrimas. - Perdoe-me!... O senhor bem sabe que eu já não sei o que digo!

— E deixando-se cair sobre uma cadeira afogou-se em entrecortados soluços.

Paula tomou-a nos braços - apertou-a fortemente contra o seio, beijou-a na testa com efusão, e suspirou:

— Oh! muito temos sofrido...

— É verdade - murmurou d. Ana; esta casa parece estar excomungada.

— É porque dentro dela está um desgraçado - ponderou tristemente o velho Monte.