Os Retirantes/I/XV

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Os Retirantes por José do Patrocínio
Primeira parte: a paróquia abandonada, Capítulo XV


Desde a noite fatal, a essa de Queiroz perdeu inteiramente o ar alegre que a distinguia entre as da paróquia.

Os meninos deixaram de cantar, reunidos em aula, a musica monótona das suas contas e leituras. Entravam e saíam com uma vaga tristeza daquela sala grande, que lhes fazia saudades na ausência, e freqüentada entristecia-os.

— O mestre está bem doente.

— Vamos ter muitos suetos: é este mês todinho.

De feito, o velho Queiroz, na manhã seguinte à tentativa de assassinato contra Augusto Feitosa, queixava-se ainda mais das dormências e dores pelas pernas e braços. À tarde, indo espairecer pela horta, sentira as pernas fracas, como que desarticuladas nos joelhos, pesando muito. Dera apenas algumas voltas e, no entanto, chegando a casa, dizia-se cansado, como se houvera feito uma jornada fadigosa.

Passara este dia inteiro muito triste; ia de vez em quando à cabeceira de Irena, que havia despertado do seu prolongado espasmo, porém se conservava em grande prostração. Isto o impressionava muito e, para cúmulo de infelicidade, o vigário não tinha aparecido para dar o seu quarto de hora matinal, nem viera depois para distraí-lo com a bisca e com os comentários que necessariamente faria a respeito do sucesso da noite.

— E o Paula? - ponderou ele a sua irmã. - Como que vai se esquivando da gente pouco a pouco!

— Anda agora entretido com os seus pobres.

— Não é razão; sempre veio aqui apesar disso.

— Você é muito desconfiado; pelo vigário ponho eu a minha mão no fogo.

— Eu hoje não juro nem por mim - murmurou Queiroz; - há coisas que não se explicam.

— É verdade, e uma delas é a doença de Irena.

— Ora é muito boa esta! Pois o estado do pai, a certeza de que vai sair do lugar onde nasceu, é pouco?

— Mas também um sentimento assim é demais.

— São gênios; sempre foi assim quando pequena. Você já não se lembra que ela adoecia quando quebrava as bonecas?

Desculpando, porém, com tanto zelo a filha do amigo, Queiroz mostrava não ter convicção do que dizia, e as suas palavras junto da rede de Irena eram um desmentido solene que a si próprio dava.

D. Ana, por sua parte, limitava-se a sacudir os ombros.


Três dias depois dos múltiplos sucessos da noite do crime, um novo desgosto veio juntar-se aos muitos que torturavam o professor.

O inspetor Antão Ramos veio visitá-lo, e pediu-lhe um instante em particular. O começo da conversação foi dolorosamente embaraçoso para ambos, até que se ferisse o ponto.

— Você sabe, Queiroz: eu não desconfio nada do velho Monte.

— Mas para que declarar isto, homem?! Deve-lhe ele alguma coisa? Conte certo o pagamento.

— Antes fosse por isso; neste ponto ninguém lhe põe o pé adiante.

— E então por que havia de desconfiar?

— Eu lhe digo: rosnam que a partida do Monte para o Aracati foi uma chicana.

— E quem é que rosna este desaforo?

— Toda a gente.

O professor endireitou-se na cadeira, e baixou os olhos para esconder a sua contrariedade.

— E a propósito de que dizem esta grande tolice?

Antão Ramos demorou-se muito a responder; compreendia que as suas palavras arrastariam o professor a um transe doloroso. Mas, afinal, disse com longas reticências:

— Você sabe, bem? Deu-se aquele desastre com o Feitosa, e o rapaz não tem um só inimigo... Para serem os Viriatos, eles não se contentariam com tão pouco, tanto mais que o rapaz não trazia nada consigo. E então..

— E então?... - perguntou Queiroz, trêmulo e indignado, a olhar fixamente para o inspetor.

— Toda a gente se recordou do ódio que há entre Montes e Feitosas.

— Mas pensam esses malvados que foi Rogério quem o quis matar?

— Eu por mim não creio mas... O velho mesmo disse muitas vezes que tinha coragem de atravessar o coração a um por um dos Feitosas.

— Palavras ditas à toa, Antão Ramos... - ponderou Queiroz, titubeando -, no calor da conversa. Mas Rogério é incapaz de matar uma mosca e, se quisesse atacar um Feitosa, você bem sabe, atacava-o cara a cara.

— Tudo isto eu digo, mas o zunzum não deixa de crescer. O próprio rapaz creio que diz a mesma coisa.

— Mas é uma calúnia! - bradou Queiroz convulsamente.

— Diga-me quem a espalhou que eu vou desmascará-lo.

— Vá lá saber quem foi; anda na boca de toda a gente.

— E você também acredita?

— Eu só farei o que a lei manda, quando se tirar a limpo este negócio.

— Muito obrigado; Monte há de justificar-se. Quando o inspetor retirou-se, Queiroz vestiu-se prontamente, e saiu, arfando o seu cansaço, em procura do vigário. Achou-o em casa muito pensativo, com o rosto macerado, a voz muito rouca, e os modos muito distraídos.

— Já não aparece pela casa dos pobres, sr. vigário; todos são filhos de Deus, e lá diz o rifão: pobreza não é vileza.

— Tenho estado muito doente, e não sabia que você estava tão incomodado.

— Deixemo-nos disto: de ingratos está o inferno cheio. O que me traz aqui....

— É o seu velho amigo Monte - interrompeu-o o vigário.

— Pois você também já ouviu?

— Se está tudo cheio - ponderou Paula, contendo um calafrio. - Voz do povo é a voz de Deus, ou.

— A do diabo, como neste caso.

— Mas vá lá convencê-los.

— Você podia fazê-lo - exclamou o professor - se fosse ~r com Augusto Feitosa, se lhe dissesse que tinha lido a carta do Aracati, se provasse como isto não passa de uma emboscada de algum desses miseráveis retirantes.

— Tudo Isto já eu lhe disse - respondeu Paula friamente -, mas perdi o meu latim; deram para dizer que foi ordem do Monte, o que quer você que se lhes faça?

— Mas então um inocente há de pagar pelo que não fez?

— O Cristo morreu assim. Mas não há de que desanimar por ora; não passa de boatos.

A frieza do vigário indignara o honrado professor, que se levantou para sair despedindo-se com uma secura hostil.

A sua amizade por Monte obrigou-o, porem, a deter-se, e a suplicar o auxílio do vigário.

— É um nosso velho amigo, Paula. Você tem um gênio esquisito, mas não há de deixar que um amigo sofra inocente.

— Eu tenho um alvitre a aconselhar. Monte retira-se daqui o mais depressa possível e troca o nome; nessa leva de retirantes quem o há de descobrir?

— Mas isto é um recurso desesperado.

— É para o caso desesperado; se ele ficar, está perdido. A mãe de Feitosa jurou persegui-lo até a morte.

Queiroz voltou a casa estalando de amargura. A monstruosidade do infortúnio do seu amigo entontecia-o, embriagando-o de pesar. Pensava em ir ter com Augusto; mas por sua vez sentia-se fraco para convencê-lo da inocência, que ele afirmava como amigo, mas de que em consciência não estava convencido. O que lhe dizia o coração era justamente o que repetiam todos, e demais tinha sempre na memória as palavras de Paula: "É um bom homem que há de ir parar no inferno a dar esmolas". O ódio entranhado e indelével do amigo era capaz de tanto, ou mais.

No entanto, alguma coisa lhe dizia ao mesmo tempo que não tinha sido Monte o mandante do crime. Fora sempre leal e nobre, não atacaria de emboscada, embora soubesse que, vingando-se, morreria. Mas essa dúvida favorável desaparecia logo, porque vinha combatê-la a suspeita de Rogério acerca das relações entre Irena e Augusto, o que considerava tamanha afronta ás suas tradições que não trepidara ante a idéia de ver morrer a filha.

Enredado pelas agravantes que o próprio Monte fora solícito em acumular contra si, Queiroz por sua vez concordou com o vigário em que só havia um meio para salvar o amigo - a fuga.

— Eulália! - chamou o professor.

Quando a filha veio ter consigo, disse-lhe bruscamente:

— Você, que é a cúmplice da desgraça de Irena, vá convencê-la de que ela deve mostrar-se corajosa e não demorar aqui o pai.

As palavras de Queiroz - feriram fundo o coração de Eulália. Debilitada pelas vigílias, torturada pela cruel certeza de que fora a causa de um crime, tinha passado os dias a esconder as suas lágrimas, a reprimir os gritos da consciência, que ora aconselhavam-na a que arrancasse do mistério a origem e o autor do atentado, ora impunham-lhe silêncio em nome da paixão violenta e indomável de Paula. O tom severo de seu pai pareceu-lhe uma sentença que a exilava para sempre do seu coração, e uma dor funda, sem lágrimas, estranguladora como a laçada de um tugue, constringiu-lhe a garganta, e atirá-la-ia por terra sem sentidos, se os braços de Queiroz não a amparassem.

— Mas que culpa tenho eu? - murmurou queixosa.

— Eu sei lá, filha! - respondeu o pai arrependido; eu sei lá o que digo! Vivíamos todos felizes. Vocês eram a nossa alegria, o nosso orgulho, a nossa esperança. Chamavam-nas por aí as letradas da paróquia, e nós ríamo-nos da inveja dos maldizentes, porque víamos em vocês grande diferença das matutas nossas conterrâneas. Mas, de repente, vocês procedem da mesma sorte que elas, pior ainda do que elas...

Eulália abatida, receosa, sem coragem para defender-se, nem pestanejava, pensando que ia ouvir pronunciar o nome do vigário.

— O resultado - continuou Queiroz - é que Irena, apesar de ser uma santa, vai cavar a cova para o desgraçado pai, com o seu amor insensato.

As lágrimas rebentaram tumultuariamente nos olhos avermelhados do professor, que prosseguiu solenemente:

— Ouve, minha filha; eu sei que não era você quem devia ser a denunciante de sua amiga, mas também não lhe ficava bem servir de capa ao seu amor. Eu sei que não se pode muitas vezes fazer caiar o coração, porém responda: uma filha deve condenar á morte, á vergonha, à ignomínia o pai que a idolatra?

— Meu pai! - suplicou a mísera Eulália - Não a condene assim; ela tem sofrido muito.

— Não há sofrimento que impeça um filho de salvar a honra de seu pai.

— Mas também - balbuciou a filha - o ódio dos pais não deve servir de obstáculo à felicidade do filho.

— Não se trata disto - respondeu Queiroz visivelmente contrariado. - É da honra de Rogério que se trata. É preciso que Irena se decida a partir hoje, amanhã, agora mesmo, no instante que seu pai quiser.

— Mas isto é condená-la à morte, meu pai.

— Que morra, entendeu? Mas salve o nome de seu pai, que, de outra sorte será arrastado à prisão, infamado e punido como tendo tentado assassinar Feitosa.

Um ai! repassado de angústia indefinível rompeu dos lábios trêmulos de Eulália, que se precipitou nos braços paternos sufocada a soluçar.

O professor, ameigando a voz, continuou:

— É preciso ter coragem, filha, se quer salvar Irena, salvando a honra de seu pai. Ela não resistiria ao golpe de vê-lo manchado com o labéu de assassino.

Surda às consolações do velho, Eulália parecia querer dissolver-se na abundância das lágrimas. Os lábios continham-lhe a custo o segredo, cuja integridade o coração impunha-lhe guardar. Sentia-se bem a luta que lhe ia no espírito, pelos seus movimentos bruscos, ora levantando a cabeça do ombro de Queiroz, ora fitando-o para logo recair nos angustiosos soluços.

— Vai, minha filha, vai ter com tua amiga - insistiu o professor. Eu sei quanto ela sofrerá, mas Deus há de ajudar-nos a descobrir o criminoso, e então quem sabe se o próprio sofrimento que hoje nos tortura a todos, não será um meio de unir para sempre Irena e Augusto?

O honrado professor enxugou amorosamente os olhos pisados de Eulália e, beijando-lhe a testa, conduziu-a silencioso até a porta do quarto, onde Irena quase passava os dias em madornas sucessivas.

Ficando só, conservou-se Eulália de pé por algum tempo a conter a onda tumultuária de soluços que se lhe emarolava no seio, e só entrou para ver se subtraia-se a sua velha tia, que, deixando a costura, veio saber o que tinha havido entre ela e seu pai.

A boa senhora, porém, acompanhou-a.

— Esta casa parece estar excomungada, disse d. Ana; é desde manhã até a noite choros e mais choros, e sem se saber por quê.

— Quer que me ria, quando não tenho vontade, titia?

— Pois não tem razão para viver assim; aqui ninguém a maltrata. Estes choros até hão de fazer o mano pensar que é alguma coisa com a gente. Isto é por força e obra de satanás.

— Não é então coisa de perigo; benze-se a casa, e tudo cessa.

— Oh! Sr. vigário - exclamou d. Ana amaciando o tom de molestada com que falava à sobrinha. - Bons olhos o vejam. Pensei que estava ofendido conosco.

Paula assomou na porta da sala de jantar; sorrindo estendeu a mão a d. Ana, que lhe saíra ao encontro, e voltando-se para o lado de Eulália, perguntou-lhe afetuosamente:

— Foi você quem trouxe o diabo para casa, menina? É preciso uma semana de penitência.

— Eu vou avisar o mano - continuou d. Ana; - a sua presença aqui é agora para cantar-se a boa nova.

E a excelente senhora tomou o pequeno corredor que conduzia à sala das aulas, chamando pelo irmão.

Eulália, apoiando-se com uma das mãos ao umbral da porta do seu quarto, quedou com os olhos baixos, e Paula, meio perturbado, estatelou também no lugar em que falara com d. Ana.

— Já não lhe mereço um aperto de mão? - murmurou depois de um breve silêncio. - É mais severa do que todos, e no entanto é quem não tem razão para isso.

Eulália levantou os olhos lacrimosos e encarou severamente com o vigário, que não pôde sofrer de fronte erguida o olhar da moça, misto de indignação e de espanto.

Mas, ainda tentando sufocar a consciência, disse com um tremor fraco na voz:

— Não sei por que provoquei-lhe tanto ódio...

Um impulso brusco de Eulália escancarou a porta, deixando ver no interior do quarto o rosto lívido de Irena, meio reclinada e adormecida, e ao mesmo tempo a moça travou do braço do vigário com violência igual a sua angústia.

— Veja, senhor, veja - disse com voz sumida: - Feitosa está moribundo e a minha pobre amiga está assim.

O hábito da hipocrisia deu ainda ao vigário forças para sorrir e voz para responder:

— Queixe-se do Monte.

— Que diz?!

— É pelo menos o que todos dizem.

— Mente, mente - articulou a moça com voz surda. - Eu vi!...

— Mais baixo, mais baixo, que me perdes, acudiu o vigário trêmulo e agarrando a mão de Eulália.

— Nunca lhe tinham feito mal e o senhor fê-los desgraçados.

— Mais baixo, mais baixo, por piedade! - segredou Paula ansioso e aterrado... - Se te ouvem, estou perdido - suplicou querendo ajoelhar-se.

— O senhor fala em piedade, mas não teve...

— Não - atalhou o vigário alucinado -, não podia tê-la! Não podia tê-la, porque te amo!... Amo-te como doido, e ele também te amava... Oh! não me interrompas: amo-te!... entendes?... E não serás de outro ainda que eu tenha de despenhar-me no inferno em vida!

E erguendo-se de improviso, colheu nos braços a cintura de Eulália, em cujos lábios tentou depor seus lábios abrasados de paixão.

Eulália defendeu-se arrebatadamente; soltou-se dos braços que a prendiam, recuou cambaleando para dentro do quarto e foi cair sobre uma caixa. Ai toda a indignação deliu-se de súbito na sua própria energia: com a cabeça pendida entre as mãos, presa de extraordinária ansiedade, derramando amarguradas lágrimas, murmurou afinal entre soluços abafados:

— Oh! meu Deus! É um miserável... mas eu... o amo!

No corredor tinha-se feito já ouvir a voz de d. Ana:

— Desculpe, sr. vigário, mas o mano não pode vir cá; doem-lhe muito as pernas e não pode firmar-se nelas, porque fez um excesso ainda agora.

Paula, com uma suprema força de vontade, tinha já recuperado a calma.

— Quem sabe se não é o beribéri? - ponderou a d. Ana. - Tem havido muito este ano.

A velha senhora, que se havia aproximado, pôs-se a olhar para a rede em que jazia Irena na sua prostração assustadora.

— Vê o sr. vigário o que são desgraças? Tem padecido muito esta pobre criatura.

— Coitadinha!... Se ela vê o pai quase perdido.

D. Ana agitou o indicador negativamente.

— Como não? - perguntou o vigário a meia voz.

— O mano pediu-me que acompanhasse o sr. vigário até o quarto dele. Vamos?

Depois de darem alguns passos, pararam, e a boa senhora pôs-se a vazar no ouvido de Paula as suspeitas que nutria.

— Quanto a mim a doença dessa menina é pelo Feitosa.

— Qual, d. Ana! Acredita que estas duas famílias chorem uma pela outra?

— O certo é que, na noite do rebuliço por causa do rapaz, foi que ela ficou pior.

— Mas o pai tinha partido e ela sabia que iam ficar reduzidos a nada...

— Pode ser, sr. vigário; mas eu lhe digo aqui como quem se confessa: parece até que o rapaz foi ferido por causa dela.

— Não pense nisto, d. Ana; Irena nem por sombra pensa no Feitosa: eu sou o seu confessor.

— O sr. vigário me absolve de um mau juízo?

— Diga.

— Eu não ponho as mãos no fogo; tenho pensado muito neste ponto: Irena foi encontrada fora de si, caída entre os Canteiros.

— Deveras, d. Ana?! - acudiu o vigário prontamente. -Diga-me: então foi ela quem esteve?... quem foi achada entre os canteiros?

— Já sabia? - perguntou a boa senhora.

— Não, soube agora... Estou tão comovido com tudo isso que nem sei o que digo. Foi achada entre os canteiros, dizia a senhora; mas não devia estar só, estava com Eulália... certamente.

D. Ana agitou de novo o indicador em sentido negativo.

— Eulália estava na sala, porque o mano já se sentia adoentado.

— Mas é então uma grande desgraça! - exclamou Paula comprimindo a fronte com uma das mãos. - Oh! uma fatalidade, santo Deus!

— Veja o sr. vigário, ninguém poderia desconfiar. Daí para cá tem a infeliz estado sempre como morta...

Paula ergueu o busto, parecendo ter tomado uma súbita resolução.

— Percebo agora por que Feitosa insiste em que foi o velho Rogério quem o mandou matar, disse serenamente.

— Jesus do céu! O pobre não sabe de nada; eu vou jurar que nem lhe passou pela cabeça. Diga a todos, sr. vigário, diga a todos; salve o infeliz de mais este desgosto.

— É impossível, d. Ana. Dói-me tanto como à senhora, mas para convencer Feitosa era preciso encontrar o verdadeiro criminoso, e este como se poderá descobrir?

— Esta confissão já está sendo longa - ecoou do quarto a voz simpática de Queiroz -, guardem o resto para a quaresma que vem.

— Está ralado de dores e ainda brinca, sr. vigário; é mesmo um santo! - disse prazenteiramente d. Ana. - Não lhe diga nada a respeito de Monte: ele ficaria pior.

— Fique descansada, d. Ana.

Paula entrou no quarto do professor, ainda transfigurado pela confusão que lhe causava o que acabava de ouvir, e sobretudo impressionado por aquela exclamação comprometedora de Eulália, que o fizera fraquear e trair-se.

— Ela viu - pensava ele. - Odeia-me sem dúvida e dentro em pouco toda a gente saberá que fui em quem, sem uma queixa, sem a menor ofensa de Feitosa, tentei tirar-lhe a vida. Não haverá um coração por mais piedoso que me perdoe, e o meu nome cobrir-se-á para sempre de vergonha. Oh! como sou maldito!

O tumultuar do pensamento estresia-se-lhe no semblante, no imenso fuzilar dos olhos, no mordicar incessante dos lábios, no freqüente confrangir dos supercílios.

— Você esteve no quarto das meninas, não? Viu aquele espetáculo? - perguntou o professor.

— Cortou-me o coração - respondeu Paula brevemente.

— É a desgraçadinha ainda não sabe a sorte que espera o seu velho pai. Talvez não resista a tantos golpes, e a minha Eulália ficará inconsolável se ela morrer. É horrível, incalculável a desgraça do meu infeliz amigo.

— É - disse peremptoriamente o vigário - é um mal sem remédio; tudo se conspira contra ele. Irena e Feitosa amavam-se, e Rogério, você bem sabe, não podia tolerar esse amor. Será mais uma prova - acrescentou mais baixo, como se falasse apenas para a consciência.

— Acima da fatalidade está Deus, e eu não sei o que me diz que há uma testemunha do crime.

— Se existisse já teria denunciado o criminoso! - exclamou o vigário - Estas coisas não se calam, dizem-se logo.

— Quer saber? - disse precipitadamente o professor eu desconfio que será possível descobrir algum indício.

— Com quem? - perguntou Paula profundamente comovido.

— Jura-me segredo?

— Não precisa pedir.

Eulália parece saber de alguma coisa.

— Eulália! - repetiu Paula com uma acentuação dolorosa. - Sim... elas são amigas... que é impossível que ela não saiba tudo.

Queiroz relatou então quanto, durante os três longos dias, tinha surpreendido a filha: - a inquietação, os contínuos sobressaltos, as súbitas perplexidades, as incessantes lágrimas, o zelo exagerado por Irena. Na manhã seguinte ao crime, encontrou-as abraçadas, trocando-se mútuos protestos de eterna amizade; mas pouco depois, não podia afirmar, pareceu-lhe ter ouvido a Eulália dar-se como desleal, e prometer resgatar-se vingando a amiga.

— Tive ímpetos de interrogá-la mas hesitei; não tinha nenhuma prova...

— E fez bem - interrompeu-o o vigário -, nada se pode concluir das suas palavras. É que ela sabia das relações dos dois noivos e inculpava-se de não ter prevenido o desenlace fatal, revelando o segredo.

— Não é só isto; eu também sou amigo, sinto profundamente a desgraça de Monte, mas não é com a violência de Eulália. Quando lhe disse que o velho era apontado como criminoso, Eulália como que teve uma explosão de remorso.

— As mulheres são mais esquisitas nas amizades, apaixonam-se.

— É exato, mas também sacrificariam milhões de amigas ao seu amor.

— Mas era preciso que elas fossem rivais - objetou Paula com um sorriso indescritível.

— E se o caso se desse, meu bom amigo? Se a nossa desgraça fosse tamanha!...

Um calafrio violento abalou na cadeira o corpo todo do vigário, que, boquiaberto, arfando, ficou a olhar de olhos esbugalhados para o professor.

— É em que tenho estado a pensar - continuou Queiroz -, talvez Eulália suspeite de alguém...

— Sim... sim... - concordou o vigário -, e será possível arrancar-lhe a confissão desse nome.

— Mas quem há de poder tanto?!

— Eu! com o auxilio de Deus - acudiu Paula.

E levantou os olhos para o céu.

— Oh! como eu lhe agradeceria! - exclamou Queiroz apertando ambas as mãos do vigário. - Era um desencargo para minha consciência, e a salvação de Monte, contra o qual eu também, eu seu amigo, confesso, tive profundas suspeitas.

— Acalme-se - disse o vigário inteiramente reportado à maior perversidade -, eu saberei de tudo.