Os Retirantes/I/XXI

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Os Retirantes por José do Patrocínio
Primeira parte: a paróquia abandonada, Capítulo XXI


À noite já toda a paróquia estava alvorotada.

O clamor das mulheres retirantes enchia as ruas e ia condensar-se diante da casa do vigário, que, muito irritado já, mandara fechar as portas da casa, para não vê-la de contínuo invadida pela multidão.

— Nada! não é possível ficar mais aqui - pensava Paula; - de um lado estes malditos; do outro, Eulália e aqueles malvados.

Já tarde, porém, silenciando o povoado, Paula saiu calmo e vagaroso, costeou a praça e entrou na horta do defunto professor, depois de ter arrancado e reposto o mourão. Parou então defronte e empurrou a janela do quarto de Eulália. Estava trancada.

— Eulália! Eulália! - chamou com voz sumida - abre, sou eu.

Aplicou o ouvido, chamou de novo com maior insistência, mas o silêncio manteve-se imperturbável, e ninguém apareceu.

— O que terá ela feito? - pensou aterrorado. - Não a devia ter perdido de vista; sou em verdade muito mau para consigo!

E repetiu com voz trêmula:

— Eulália! Eulália!

Mas ainda desta vez chamou em vão.

Desanimado, inclinou a fronte sobre o peitoril a conter os soluços que irrompiam-lhe numa rebelião do remorso contra a hipocrisia educada.

Uma sombra passou pela frente da horta, rente com a cerca, e, depois de olhar para o interior, hesitou e voltou sobre os seus próprios passos.

Quando Paula, depois desse violento abalo, entrou cautelosamente em casa, na sala de jantar havia ainda luz e quem reparasse para o umbral veria colado a ele a cabeça da velha Antônia, que tinha estado à espreita.

Paula, porém, entrara prevenindo apenas o ruído das suas passadas e não reparou em tamanha e tão insólita curiosidade da cozinheira.

No outro dia pela manhã Antônia teve uma demora desusada ao ir às compras; mas o vigário não deu por isso, e só à tarde veio a surpreender-se com a atitude da velha quando lhe participou que se despedia da sua casa.

— Mas o que vai você fazer saindo daqui? O que é que há de ser de si?

— Vou cuidar da minha vida e da dos meus parentes -respondeu secamente a cozinheira.

— Há de ganhar muito; não lhe dou um mês que não se arrependa.

— Eu? - Nunca - disse a velha com um tom severo; - nem estaria mais hoje aqui se tivesse pensado bem.

— Oh! - sorriu o vigário - então tem grandes queixas de mim? Não malandreja bastante, hein? Há ainda coisa melhor: não fazer nada.

A velha porém encolheu os ombros, cortejou o vigário e saiu resmungando:

— Antes não fazer nada do que lavar roupas sujas de sangue.

Paula, que não pudera ouvir o que disse a cozinheira, distinguiu todavia a palavra sangue, e tanto bastou para ficar desassossegado. Mas apesar dos tratos que deu à imaginação não conseguiu chegar a conclusão alguma. Por isso, passeando pela sala, repetia freqüentemente:

— O que quererá dizer aquela velha tonta?

Acreditando que o vigário entendera as suas palavras e conhecendo-lhe a fundo o gênio desigual, os arrebatamentos súbitos, os acessos de irascibilidade desse temperamento ardente que se escondia numa calma hipócrita, como um vulcão sob um geleiro, Antônia andava com a presteza do medroso, e, em poucos minutos, entrou pela casa de Marciano.

— Venho pedir-lhe uma pousada, por hoje - disse ela ao sacristão. - Deixei a casa do sr. vigário.

A casa está aí para todos, tia Antônia, ainda que eu não saiba por que motivo saiu você da casa de seu amo.

— Ah! é uma história muito comprida.

A curiosidade de Marciano e sua família sobreexcitou-se com esta comprometedora declaração, e todos por sua vez porfiavam em acabrunhar com perguntas a simplória da velha; mas Antônia não satisfez às interrogações curiosas senão quanto a Eulália.

— Olhe que dói dentro dalma - ponderou - ver uma menina criada, para bem dizer, nos braços da gente, cair em semelhante desgraça.

— Mas que culpa tem o sr. vigário de que isso se desse? - perguntou Mundica. - Ele apenas faz ali o papel de pai.

— É o que ele diz, mas entra tarde da noite pela cerca para falar com a filha do defunto professor.

— Pela cerca? - interrogou Marciano admirado.

— Vi-o eu entrar, e qualquer pode fazer o mesmo, indo espiar.

— Eis aí por que ele se prestou logo ao que nós lhe exigimos - pensou Mundica. - Podia continuar a amar Eulália, sem que eu nunca o percebesse.

— Eu queria um favor de Vossas Mercês - continuou a velha; - era não dizer que eu vim para aqui. Desde que o sr. vigário entrou-me certa noite em casa, eu tenho medo daquele homem.

— Certa noite - pensou o sacristão -, que noite será esta?

E como não pudesse atinar com a resposta, disse:

— Desconfiança, tia Antônia; o vigário no fundo é um bom homem.

— Não digo menos disso, sr. Marciano, mas são coisas que a gente tem.

Marciano retirou-se dentre os conversadores, e, como tinha por hábito e dever, dirigiu-se para a igreja à espera do vigário, que para lá ia sempre à tarde encomendar em massa os defuntos da véspera.

Abertas as portas, o velho debruçou-se numa das janelas da sacristia, e pôs-se a pensar nas trevas que ele dera tatear, para dar segurança à sua vida, agora exclusivamente à mercê da boa vontade de Paula.

Os bandos de retirantes cirandavam lamentosos, pedindo piedade para as crianças e para as mulheres esfaimadas. Havia nas suas fisionomias o abatimento da desesperança, e esse não sei quê que transuda no semblante o temor do desconhecido.

— Eis a minha sorte - pensou Marciano; - ao menor aceno do vigário, não terei mais um grão de farinha.

Mas, repentinamente, cavaram-se-lhe na fronte rugas fundas, como se elas fossem os vincos deixados por uma resolução inabalável, e o velho, ouvindo os passos do vigário, veio colocar-se ao pé da mesa com os braços cruzados e os olhos cravados no chão.

— O que temos de novo, sr. Marciano? - perguntou Paula, afetando bom humor. - Temos novas queixas?

— Não lhe pareça a Vossa Mercê.

— Então o que há de novo?

— Nada, sr. vigário, nada: coisas da vida. Vossa Mercê não vai encomendar?

— Vou. Dê-me a sobrepeliz.

Paula vestiu-se a olhar e a sorrir para o sacristão, que se conservava carrancudo e seco. Seguiu até a capela-mor, e aí, aspergindo o soalho tosco, desempenhou a sua função de pároco, rezando pela memória dos retirantes mortos.

Quando voltaram à sacristia, Marciano apressou-se em reatar a conversação da maneira mais singular. Dir-se-ia um gato farto a brincar com a vítima, antes de estrafegá-la.

— Vossa Mercê está sempre disposto a partir?

— Conforme; se continuar a penúria, não tenho outro remédio. O Antão Ramos já declarou-me que, se o governo ficar firme na sua resolução, ele também parte.

— E os pobres ficam a morrer para ali, como bichos do campo ?!

— É a lei do mundo. Eu não hei de morrer só pelo gosto de morrer. Lá diz o rifão: livra-te dos ares, que eu te livrarei dos males.

— Também Vossa Mercê vai ficando com a casa vazia: já está sem cozinheira, e breve talvez fique sem o José

— Isto é o menos; o que não falta é quem sirva.

— É verdade, mas os criados sempre levam consigo alguns segredos.

Havia na entoação das últimas palavras do sacristão tanta intenção de impressionar o seu ouvinte que Paula não teve força para dominar a comoção que o assoberbou.

Tornou-se-lhe de repente compreensível no espírito a causa pela qual Antônia desligara-se do seu serviço; lembrou-se da camisa e da volta que atirara a um canto da casa na noite do atentado, e teve assim a significação da palavra sangue, que ouvira a velha pronunciar.

Mais para não cambalear do que por ter vontade de demorar-se, o vigário sentou-se e, fitos os olhos em Marciano, disse a meia voz:

— Às vezes também esses ingratos espalham calúnias.

— Ah! - exclamou Marciano, que percebeu a perturbação de Paula - a velha Antônia não está neste caso.

— Nem eu digo isto - respondeu o vigário, continuando a fitar o sacristão, porém mais sossegado; - entretanto, se ela o fizesse não era para admirar.

— A Mundica é que ficou de novo triste com a sua sorte; o sr. vigário disse que partia...

— Mas não disse que a abandonava.

— E abandonará a família do seu amigo e o seu filho?

— Não falemos mais desses infelizes; você nada tem com eles.

— Mas o sr. vigário não está no mesmo caso.

O orgulho de Paula, ainda ferido dos recentes golpes que lhe desfecharam o sacristão e a filha, conteve-se todavia para não se expor aos ataques desapiedados de Marciano.

— Não avive dores fundas, meu amigo - murmurou com uma submissão comovida; - eu posso esquecer Eulália, mas não quero ouvir falar com desrespeito da sua desgraça.

— Eu não sou o culpado - replicou friamente o interlocutor; - Vossa Mercê é quem devia ter pensado assim naquela certa noite, como dizia ainda agora a tia Antônia.

Paula estremeceu violentamente e pôs-se de pé como um autômato que sofresse um impulso repentino.

— Então aquela bruxa disse alguma coisa?

— É; esteve a falar de uma certa noite...

— E o que disse ela? - perguntou o vigário com os olhos esbugalhados, a fitar o sacristão.

— É o meu segredo...

— Veja, Marciano; eu tenho medo que difamem aquela infeliz rapariga, e temo que a velha Antônia dê à língua. Veja você: isto me mataria de vergonha. Você é meu amigo, peça à Antônia, diga-lhe que se cale, eu não duvido fazer o que ela quiser.

— Não é para esse lado - ponderou friamente o sacristão; - a coisa há de ser outra.

— Não, não pode ser outra - objetou o vigário perturbando-se cada vez mais -, nada mais podia ela dizer.

— Meta a mão na sua consciência, sr. vigário, e diga, diante de Deus, se está falando a verdade.

— Não, já lho disse! - bradou o vigário. - Se aquela velha tonta se atreveu a dizer mais, eu não hei de errar o golpe: arranco-lhe a língua.

— Ela nada disse que eu ouvisse; acalme-se Vossa Mercê; deixe-se de ver fantasmas - disse Marciano, sorrindo.

E batendo no ombro de Paula, acrescentou:

— A minha Mundica não lhe deu tamanhos desgostos, e o senhor é bem ingrato para com ela.

Paula não comungou da brusca jovialidade do sacristão, apesar do requinte que este punha em torná-la comunicativa.

— Parece que estamos todos doidos - ponderou ele; levamos o tempo a assustar-nos e a ofender-nos em vão.

— Por minha parte, já não tenho receios; o sr. vigário é que não pode ouvir falar na casa do professor; como que Vossa Mercê tem medo daquela .....

Uma vozeria estrepitosa levantou-se lá fora. Paula aproveitou-se da curiosidade do sacristão e correu à janela.

Estagnada em face da casa de Antão Ramos, uma onda de retirantes, grande e nojosa como um antigo monturo, levantava a grita assustadora, e, como o inspetor houvesse fechado as portas, começava lá a ameaçá-las com o arrombamento.

— Vá repicar o sino em sinal de prece - disse Paula - e acenda as velas dos altares. Eu vou acomodá-los.

Seguiram ambos ao seu destino, e dentro em pouco o vigário, colocando-se perfilado diante da casa de Antão Ramos, fazia recuar submissa a multidão desvairada pela fome.

Os sinos convidavam à prece e à resignação, falavam de paz e de piedade no meio do alvoroço, e eles, mais o que a voz do vigário, arrastaram para o templo e suas circunvizinhanças, os retirantes e os moradores do povoado.

Paula subiu então ao púlpito e com uma austeridade angélica pôs-se a doutrinar os fiéis aconselhando-lhes coragem no padecimento e no transitório da vida, - porque dele surge, como a flor do cacto das vergônteas espinhosas, a paz d'além túmulo.

— E vão dizer lá que ele é quem é - resmungou a velha Antônia, que estava com a família de Marciano encostada à porta da capela-mor aberta sobre o corredor da sacristia.

— É verdade - concordou o sacristão -, é um santo...

— Credo! até os sermões dele hão de fazer mal à gente; sempre é homem que se manchou em sangue alheio.

— Qual, tia Antônia! isto agora é raiva dele; você como saiu do serviço do vigário...

— Pode sim - murmurou a cozinheira - mas ele não nega à minha vista que entrou numa certa noite em casa, com a camisa, a volta, e as mãos cheias de sangue.

— E há muito tempo, ou é coisa nova?

— Vossa Mercê há de saber mais tarde; quem é o dono da coisa há de puxar pelos seus direitos.

— Está bom, venha isto quanto antes.

Calaram-se, porém Marciano vivamente impressionado continuou a examinar com olhares vesgos de sofreguidão o semblante calmo da velha. Dir-se-ia, ao vê-lo agora, que ele fazia um retrospecto de todos os acontecimentos extraordinários que se haviam atropelado na paz quase patriarcal da paróquia. Uma idéia vinha-lhe de continuo e era que as palavras de Antônia tinham muita relação com o temor do vigário quando o ouvia dizer que iria revelar a Augusto Feitosa a origem do beato contra Rogério Monte. Mas a suspeita do sacristão de pronto se desvanecia, porque uma série de perguntas vinham demonstrar-lhe a improcedência. Por que razão Paula havia de agredir o rapaz? Eram tão amigos. Feitosa nunca demonstrou ao menos gostar de Eulália; porque havia ele de tentar assassiná-lo?

A lembrança da carta passou-lhe pela memória aclarando-lhe as sombras da dúvida como o relâmpago o céu tempestuoso, e Marciano deixando cautelosamente a família, veio para a sacristia, que estava alumiada por uma vela colocada junto ao crucifixo.

Levado pelo primeiro impulso da viva curiosidade que o avassalava, o sacristão leu as primeiras linhas da primeira lauda e apressou-se em ver a assinatura. A decepção que o apoderou levantou-lhe os olhos para a imagem de Cristo, que parecia um indiscreto devassando com o olhar descaído as linhas escritas. O signatário da carta não era, como esperava Marciano, o velho Rogério Monte, mas um homem desconhecido no povoado, provavelmente algum amigo do defunto professor e que nunca tinha vindo à paróquia: Antônio de Louredo.

— Perco mais uma esperança - murmurou o sacristão.

Rasgou em cruz, amarrotando a folha de papel, e atirou-a pela janela, acrescentando:

— Cometi uma ação má sem necessidade.

Arrependendo-se de súbito, debruçou-se na janela e olhou para a praça; ainda viu um vulto levantar-se e começar logo a caminhar apressado; mas os pedaços de papel não estavam sobre o areal.

— Boa noite - exclamou Marciano.

— Boa noite - respondeu o vulto. - Como vai, sr. Marciano?

— Ah! é Vossa Mercê, sr. Augusto Feitosa?

E deixando a janela correu até a porta lateral, onde foi apertar a mão do moço, sem entretanto ter coragem de perguntar-lhe se tinha ou não visto os pedaços de papel.

— Está incomodado? Parece sobressaltado - perguntou o moço.

— Seu velho já, sr. Feitosa, e as cenas como as de hoje à tardinha me fazem muito mal.

— Mas os infelizes já estão mais acomodados, não é verdade?

— Parece; estão ouvindo o sermão.

— Não tenha medo, tudo se há de arranjar pelo melhor.

Despediram-se. Augusto Feitosa entrou para o templo, enquanto Marciano saía e procurava atentamente sob a janela e nas suas vizinhanças os pedaços de papel. Malograda a sua pesquisa, voltou para a sacristia a fim de ajudar o vigário a desrevestir-se. Depois, retirada a multidão, tornou à sua esperança de achar a carta e, de vela em punho, procurou por largo tempo, até que, desiludido, murmurou a coçar a cabeça:

— Não acho, e entretanto pode bem ser que nesta carta eu encontrasse alguma coisa que me auxiliasse.

Já a praça estava deserta e nem na venda de Antão Ramos havia luz; as ameaças da tarde o intimidaram a ponto de ter dito que não ficava mais na paróquia. Marciano caminhou até a cancelinha da sua casa, e ia impeli-la quando hesitou e continuou a andar na direção da casa do vigário, junto da qual, parando pôs-se à escuta, e depois a espiar pela fresta de uma das janelas.

De chofre correu até o meio da praça e deitou-se de bruços, espichado como um morto.

A porta abriu-se cuidadosamente e um vulto negro apareceu no umbral, olhou para todos os lados e saiu.

Marciano quedou por largo tempo, conservando apenas a cabeça um pouco levantada para poder seguir o vulto com o olhar; e só quando ele desapareceu de todo e a praça encheu-se homogeneamente da claridade do luar, ergueu-se o velho sacristão, que sempre pelo meio da praça palmilhou a distância que o separava da casa.

— Sabe? - disse indo ter com Mundica; - vi-o entrar agora mesmo na casa da Eulália.

— Não há de entrar outra vez, eu lhe juro - respondeu Mundica enxugando as lágrimas que lhe rolaram de improviso; - ou eu ou ela.

Era domingo, e desde muito cedo o velho Marciano badalejava, no campanário tosco da paróquia, os avisos para a missa conventual.

Não obstante, os repetidos repiques não despertavam no povoado a alegria que causa a voz dos sinos, ouvida fora das grandes cidades. As casas conservavam-se na quietação e silêncio dos outros dias, como se elas temessem o sussurro, que causam as pressas devotas do mulherio da roça.

Só quando as três badaladas do estilo anunciaram a próxima entrada da missa, os paroquianos, sem esmero no trajo, dirigiram-se para a igrejinha, quase silenciosos.

O vigário saiu também e foi parar à porta da casa de d. Ana; que só esperava pelas sobrinhas para ir cumprir com a devoção.

— Não há mais perigo de barulho, sr. vigário? Esses coitados de famintos já se resignaram?

— Mais baixo, d. Ana, porque eu não quero que Eulália saiba que eu estou aqui. Não me tem querido aparecer... Eu as espero lá; e quanto aos retirantes não há novidade.

Seguiu dando passadas largas para distanciar-se, mas quando, já bastante afastado da casa, viu a família sair, foi demorando o passo e afinal detendo-se entre os devotos espalhados junto à igreja, até que a família aproximou-se.

— Então a Eulália não veio?

— Não - respondeu d. Ana -, chamou-se por ela, mas não quis vir.

— Melhor; vamos para aqui, d. Ana; no corpo da igreja as senhoras não acham lugar; vamos para a capela-mor.

A família de Marciano já se achava assentada, quando entraram d. Ana e suas sobrinhas, que foram ajoelhar-se junto das suas antigas conhecidas.

Mundica, requintando a afabilidade, conversou alegremente com d. Ana, antes e durante a missa, chegando por fim a interessar na conversa as conhecidas que estavam junto. Mas, terminada a missa, no meio do silêncio com que se esperava a prédica do vigário, a voz de Mundica principiou com uma entoação esquisita a impressionar a desventurada senhora.

— Eulália está bem doente, não é verdade? Dizem que está sempre a cuspir. Será fraqueza de estômago ?

— Deve ser - murmurou d. Ana, concertando o seu xale preto; - mas não é coisa de cuidado.

— O sr. vigário é que está cada vez mais forte e mais sadio; vende saúde, não lhe parece ?

— Ele foi sempre assim, não muda nunca.

— É, há gente assim. A Eulália é que dizem ter feito muita diferença; até pode-se julgar que ela está com barriga d'água: está com ela tamanha! E verdade?

— Não é tanto...

— Vocês estão ouvindo - disse Mundica chamando a atenção das conhecidas -, é verdade que a Eulália está com a barriga muito grande?

— Que modos, Mundica! - murmurou d. Ana. - Isto é reparado.

— Quem sabe, d. Ana, se não é graça o que eu ouvi dizer de Eulália com o sr. vigário?

D.Ana, com as faces sangrando de vergonha, calou-se e, pretextando que estava doente, mandou que as sobrinhas se levantassem.

— Estou com arrepios de frio, não posso ficar para o sermão.

— Adeus, d. Ana - respondeu a filha do sacristão -, Deus permita que a sua doença não seja igual à de Eulália; deixe essas macacoas para as moças. A Chiquinha já pode...

— Você parece...

D.Ana, puxando pelo vestido de Chiquinha, impediu que esta prosseguisse, mas não conseguiu evitar a resposta de Mundica.

— Quem parece é sua irmã que está pejada do sr. Vigário e anda a fazer-se sonsa. Não veio à missa para não mostrar a barriga. Vão, podem ir; não se tapa o céu estendendo um lenço.

Os cochichos e as risotas das conhecidas de Mundica zumbiram como um enxame e repetiram as palavras da despeitada amante do vigário, enquanto d. Ana e Chiquinha retiravam-se trêmulas e sem poder conter as lágrimas, que se lhes desfiavam abundantemente.

— Não sabia que ela tinha este jeito - diziam umas.

— Ora, é sempre assim - respondiam outras -, as santas são as piores.

Pelo meio dessa erupção da má vontade do mulherio, desde muito percebida por Eulália, que a buscou evitar, quando suplicou um dos lugares do andor na procissão de março, atravessavam as duas infelizes mulheres, precedidas pelas meninas, e só no corredor acharam a quem se dirigir. Marciano, parado à porta lateral, agitava brandamente a sua cambada de chaves, a conversar com a velha Antônia.

— É como lhe digo, sai aí uma água suja dos diabos: o moço está como doido, e jura que foi o vigário quem o quis matar.

— E como sabe você disto?

— Se eu venho de lá! se eu conversei com ele! Como não hei de saber? Lá está a velha mãe agarrada com ele.

— Ah! Ele apanhou-me a carta! - exclamou desesperado o sacristão; - roubou-me um conto de réis, que era a minha salvação.

Antônia, sem compreender as exclamações de Marciano, ria-se com a franqueza da mulher do povo, quando foi bruscamente interrompida pela voz de Chiquinha.

— Ainda bem que lhe encontramos, sr. Marciano - soluçou a mocinha; - vá ouvir o que está dizendo de nós a sua Mundica, a quem nós nunca ofendemos.

— Eu sei lá disso - respondeu o sacristão colérico; - ela que o fez é porque tem suas razões.

— Não senhor - interveio a velha Antônia; - Mundica não tem razão; Vossa Mercê há de repreendê-la já. D. Ana e suas sobrinhas nunca trataram mal a ninguém no povoado.

— Deixe-me com um milhão de diabos! - bradou Marciano -, eu já estou em termos de perder a cabeça, deixe-me!

O que Mundica diz está bem dito, eu não tenho nada com a sua gente, d. Ana; vá para o vigário que é o amante da Eulália e talvez desta....

Dentre a mó de curiosos que se adensara em torno dos interlocutores, um braço estendeu-se e espalmou em cheio uma bofetada no rosto do sacristão:

— Toma a resposta, alcoviteiro, toma! - gritou Antão Ramos.

Uma confusão extraordinária espalhou-se em todo o grupo, dividido em partidários do inspetor e do sacristão, que fora cambaleando estender-se a comprido no areal.

— Por causa de uma mulher perdida insulta-se desta sorte um pobre velho; isto só a pau! - gritaram alguns.

— É ciumada daquela comborca - gritaram outros; - como o vigário protege a família do amigo, ela e este velho sem-vergonha tratam de difamar a pobre d. Eulália. Fora com esta canalha! Fora!

E os curiosos, os indignados e os apaziguadores corriam em bando enchendo o corredor e aumentando a gritaria.

— Fora o vigário! - bradaram furiosos os partidários de Marciano.

E correram precipitadamente para a sacristia, onde entraram tumultuariamente.

— Vejam! o miserável fugiu! É que Marciano e Mundica são os que falam a verdade! Vejam! - gritaram os mais indignados.

— Fora! Morra o vigário! - gritaram uníssonos os paroquianos. - Fora o sedutor!

Dezenas de vozes começaram então a clamar, querendo dirigir o movimento; mas ao passo que uns aconselhavam ir imediatamente à casa de Paula, outros julgavam mais acertado que fossem bater os capoeirões vizinhos. Dir-se-ia que todos estavam representando uma farsa com o fim de deixar o vigário evadir-se, porque a mais inconciliável confusão estabeleceu-se entre os indignados. Só depois de largo tempo a onda começou a espraiar-se por todos os recônditos da igrejinha à procura do fugitivo, e só mais tarde ainda lembraram-se de tomar o expediente de penetrar na casa de Paula. Os foras e morras ecoaram por longo espaço, mas ninguém pôde descobrir o perseguido, que parecia ter desaparecido do povoado por um milagre.

Paula entretanto ouvia a gritaria dos paroquianos e temia pela sorte que o aguardava, caso pudessem descobrir o seu esconderijo, aliás bem patente a todos os olhares. Quando romperam as primeiras assuadas e maldições, ouvindo soar por entre elas o nome de Eulália, compreendeu logo que o seu crime não mais se envolvia no misterioso véu em que por tanto tempo o furtara à indignação pública.

O seu primeiro desejo foi fugir para bem longe do povoado, mas refletiu em que o alcançariam na fuga e o desacatariam sem piedade. Trepou então ligeiro para cima do velho armário da sacristia e lá se escondeu na funda cuba formada pela guarnição. Daí acompanhou com temor a minuciosa busca que deram em toda a igreja, e ouviu os gritos convocando para a invasão da sua casa. Depois o templo silenciou e só passada cerca de uma hora ouviu de novo falas que se avizinhavam.

— Veja você, Estevão, como aquele mau homem desgraçou este povoado - dizia Marciano; - todas as pessoas mais importantes foram feridas por ele. O Monte e a filha lá se foram.

— Nem é bom mais falar nisso, faz arrepiar os cabelos da gente.

— Você viu em que estado se achava d. Ana, a lastimar a fuga da Eulália?

— A alma do professor persiga o malvado; uma pobre moça que era uma santa! Mil raios o partam.

— Aquela senhora fica doida com certeza e a Chiquinha e as outras meninas arrebentam de tanto chorar. Até a caçula, coitadinha, não cessa de chamar pela irmã - a sua mamãe.

— Só na força. Eu tinha coragem de amarrar aquele demônio, afora a coroa e as mãos bentas.

— Deixe estar que ele não perde, não. O Feitosa já sabe quem foi que lhe deu o golpe. A velha Antônia pô-lo ao corrente. Bom rapaz aquele; jurou ir procurar o Monte, pedir perdão e casar com a filha.

Mas por causa da saída do Monte daqui do povoado é que se deu a desgraça na casa do defunto professor, e ele não se lembrou da pobre d. Ana.

— Como não, Estevão? A família vai ser protegida por Augusto e soube-se que Eulália tinha fugido justamente porque a mãe de Feitosa mandou-a buscar para a sua companhia.

— Deus os ajude.

— Só eu - resmungou o sacristão - perdi tudo e até a maldita carta, que foi parar às mãos de Augusto.

— Hein?

— Vai ser um inferno agora: o vigário era o diabo, mas enfim sempre servia para conter os retirantes. De hoje em diante isto fica uma praga, até que se ponha para fora essa cambada.

— Isto é o menos, faz-se; primeiro nós, depois vós.

— Mas, enquanto não se lhes tira o vezo, temos o que fazer.

Os dois interlocutores continuaram a conversar sobre os acontecimentos, voltando a comentar a fuga de Eulália, cuja sorte, muito mais que a tentativa de assassinato, afetava o caráter do vigário aos olhos dos paroquianos. Feitosa era rico e forte, e demais disso a sua família, que não havia escrupulizado em derramar sangue naquelas mesmas paragens, não gozava de grande simpatia entre os habitantes. Cumpria ainda juntar que o moço tivera desde a noite a carta que o fizera acreditar na inocência de Monte, e além disso ouvira de manhã a velha Antônia; portanto tinha tido bastante tempo para vingar-se. É verdade que havia cedido às rogativas de sua mãe, que o não queria ver assassino, mas também era verdade que ele tinha meios de tomar uma desforra tremenda contra Paula.

O sofrimento de Eulália era, pois, o ponto fulminante da odiosidade geral contra o vigário, que, no seu esconderijo, ouvia, transido de dor, a narrativa da imensa desgraça.

— Bom, vamo-nos embora, eu já prometi a Nossa Senhora da Piedade uma vela para que se descubra o malvado.

— Só um milagre - respondeu Estevão; - ele meteu-se em lugar seguro.

— Julgam-me fora daqui - pensou o vigário; - posso ficar em paz.

Marciano e Estevão saíram trancando as portas e janelas da igrejinha e já se despediam quando se detiveram ouvindo gritos lacerantes vindos da banda da estrada, que, passando pelo cemitério, conduzia ao Engenho.

— Oh! que dia de maldição - exclamaram ambos e Marciano acrescentou: - quem sabe se não é alguma barulhada de retirantes? Eles ontem já ensaiaram e é possível que hoje continuem.

— Esperemos; todos estão e devem estar prevenidos.

Voltaram-se para o lado de onde vinham os gritos e esperaram. Um homem assomou gritando e correndo pelo meio da estrada e dirigiu-se para os dois interlocutores.

— Ah! é o Joaquim Maluco - exclamou o sacristão -, temos história, anda furioso ultimamente; entremos.

Marciano abriu a porta lateral que dava para o corredor da sacristia da igrejinha, mas não teve tempo de furtar-se com o seu companheiro às mãos do doido.

— Venham, venham - suplicou ele arfando de cansaço -, lá está ela, acordei-a.

— Sim, nós vamos já - respondeu Estevão - mas deixe-nos ir primeiro a casa; venha conosco.

— Eu?! Não, ela está lá, o vigário mandou enterrá-la dizendo que estava morta, ah! o vigário, e ela lá está viva.

O meu filho não quis acordar, e ela chora. Lá está beijando a terra.

A impaciência com que o pedido era feito, longe de impressionar, serviu apenas para fazer rir os dois interlocutores e alguns curiosos que vieram ouvir o maluco.

— Já sabemos que ela está lá, Joaquim, já sabemos disso, ela nem pode deixar de estar lá, entende?

— Sim, sim e o meu filho também, mas não acordou.

— É porque está com mais sono.

Riram-se todos, enquanto o aflito Joaquim Maluco, afastando-se com o seu esgarado olhar de doido, murmurava:

— Pensam que é verdade o que disse o vigário, e a minha filha lá está acordada, com fome, mordendo a terra.

O desgraçado vagou de porta em porta repetindo as suas tristes palavras, que misturavam o desvario a uma visão dolorosa, mas ninguém lhe deu crédito e menos ainda o quis acompanhar até o cemitério, que era o lugar para onde ele apontava, dizendo ter encontrado a filha.

Quando, porém, as palavras chegaram ao conhecimento da família do finado professor, uma esperança assomou ao espírito de d. Ana.

— Talvez ele tenha visto Eulália - exclamou a boa senhora e, saindo sem mais refletir, foi pedir ao inspetor que a acompanhasse até o cemitério.

A suspeita da boa senhora era a expressão exata da verdade. Com efeito, quando ainda não se haviam desdobrado as cenas tumultuárias, que para logo se atropelaram no templo, Eulália tomara uma resolução digna dos tempos alegres da sua vida: - resolveu fugir.

A ameaça de Paula nunca mais deixara de ecoar nos seus ouvidos. Como que o filho embrionário, apavorado pela idéia da morte, repetia-a de contínuo para fortalecer a coragem materna, e Eulália, estremecendo ao menor ruído, apertava logo na mão a arma com que o vigário desfizera a felicidade da sua amiga, e que hoje servia de defesa ao seu abandono.

Fechara-se no seu quarto para fugir à vergonha que lhe causavam os olhares da tia e das irmãs inocentes, e nem os chamados da caçula, que a tratava por mãe, faziam-na sair do seu retiro.

— Não, não morrerás meu filho - murmurava ela de quando em quando a desfazer-se em lágrimas; - eu denunciarei aquele malvado antes que ele te ponha a mão.

Na noite em que o sacristão viu a entrada de Paula na horta, Eulália sentiu, como na anterior, a voz plangente do vigário a chamar por si, enquanto tentava com repetidos empurrões abrir-lhe a janela do quarto.

Temendo pelo filho, abriu a porta para que a pudessem socorrer e esperou forte e resolvida a cravar-lhe o punhal se ele, porventura, ousasse querer levar ao fim a sua brutal ameaça.

Com a madrugada, fugiu-lhe, porém, o temor, porque a pressão importuna, de espaço a espaço aplicado à janela, cessou inteiramente e os ecos frouxos de um soluçar abafado extinguiram-se também.

A tristeza da sua posição ocupou por inteiro o vácuo deixado pelo temor que a havia torturado durante toda a noite, e Eulália teve horror de si mesma, pensando que ainda se conservava na casa honrada dos seus. Sentia-se agora com força e empregá-la-ia contra o vigário, caso ele de alguma sorte viesse renovar as ameaças contra o filho.

O contentamento que lhe vinha de imaginar-se mãe absorveu por instantes o negror do seu padecimento numa visão cor-de-rosa e consoladora, que a fazia antegozar o sabor dos beijos, que lhe daria, dos afagos enlevadores que lhe prodigalizaria. Mas o ressonar das suas irmãs veio perturbá-la no seu silêncio feliz, e o remorso de havê-las ela nodoado com a sua paixão criminosa alevantou-se hirto, inexorável diante de si.

Pareceu-lhe então ver o honrado professor, com os cabelos sujos e as mãos fechadas, apertando punhados de terras do sepulcro, deformado pela demasia, o seu corpo meão caminhar para si no meio da tremenda solidão do repouso do ler. A boca escancarada pela convulsão da asfixia tornava ainda mais assombrosa a aparição, cujo mutismo afigurou-se à mísera Eulália a intimação formal de abandonar imediatamente o lugar, onde vivera inocente e feliz.

Impelida pelo seu próprio pesadelo, a desventurada tateou a escuridão até a sala de jantar e foi parar junto da rede em que, a um canto, dormia a caçula - resfolegando com desafogo o sono da meninice, cujo pequenino coração não tem espaço para dar entrada às grandes dores. Curvando-se por sobre a rede, Eulália beijou longamente a irmãzinha adormecida, a quem, até bem pouco, havia sacrificado todos os gozos da mocidade, e, como se neste beijo houvera sugado mais energia para a sua resolução, resmungou por entre soluços refreados:

— Adeus, não hás de ter vergonha de olhar para mim, mais tarde!

A manhã veio encontrá-la da mesma sorte deliberada, e os repiques do sino lembrando-lhe o contraste entre a sua sorte e a de Paula consolidaram definitivamente a sua decisão.

— Enquanto eu me sinto morrer de vergonha, ele de fronte

alevantada recebe as bênçãos de todos - pensou Eulália. - Eu sofro e não tenho ânimo de aparecer nem a mim mesma; ele, com a mão manchada de sangue de um suposto rival, e da ameaça contra o próprio filho, segura tranqüilamente a hóstia consagrada e encara altivo o povo.

As lágrimas correram-lhe então em inundação e a mísera foi atirar-se de joelhos, com a cabeça sobre a caixa onde escondera a prova do crime de Paula. Desta violenta prostração só acordou ouvindo a voz de Chiquinha convidá-la para ir à missa.

— Não, não posso, minha irmã, rezem você e as outras por mim, adeus! – soluçou a infeliz.

Logo que o silêncio, que era o seu fiel companheiro no quarto, sempre fechado, restabeleceu-se na sua inteireza dolorosa, Eulália despiu a roupa de luto e amarrando estreitamente à cintura o canivete-punhal, vestiu-se com um dos seus vestidos de chita, sumiu a cabeça sobre uma toalha, pregada à moda das retirantes, e murmurou:

— Ninguém agora me conhecerá e eu não envergonharei mais o nome dos meus.

Atravessou resolutamente a casa solitária e a praça por onde os paroquianos, extasiados na sua fé, caminhavam para a missa e internou-se pela estrada, pela qual havia poucos meses passara feliz para ir ver o espetáculo do Feiticeiro.

Em frente ao cemitério, porém, vieram-lhe saudades profundas de seu pai, a piedade filial chamou-a a despedir-se ainda uma vez daquelas cinzas adoradas, e Eulália entrou resolutamente e foi ajoelhar-se e beijar a terra onde elas se escondiam.

Foi nessa atitude que o doido, que estava em uma das extremidades do campo-santo a despertar a filha há longos anos morta, viu-a e, confundindo-a com a larva que lhe alimentava a loucura, suplicou-lhe, beijou-a e finalmente correu ao povoado para encontrar alguém que a viesse buscar.

D. Ana correu a este apelo da loucura do lastimável pai, ouvindo os gritos do próprio coração que sentia por Eulália quase o amor de mãe, e foi ofegando de esperança que penetrou no cemitério.

A desilusão matou a última esperança da boa senhora que sufocando-se com a própria angustia só teve forças para exclamar:

— Oh! meu santo irmão, perdoai-a.

Eulália tinha desaparecido.