Os Retirantes/I/XXII

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Os Retirantes por José do Patrocínio
Primeira parte: a paróquia abandonada, Capítulo XXII


Alta já ia a noite no povoado, quando o vigário entendeu que podia abandonar o seu esconderijo. De um salto, veio bater com estrépito no assoalho da sacristia e, tateando a escuridão, foi abrir uma das janelas, pela qual entrou uma nesga de luar.

Espiou cautelosamente a praça deserta e, apoderando-se do crucifixo maltratado, pulou sobre o areal e apertou o passo na direção do Engenho.

Não demorou muito a chegar aí e, com a autoridade que exercia despoticamente sobre os ânimos crédulos dos retirantes, pôs logo em movimento todos os desgraçados.

Sentado junto de um brasido, que para logo foi convertido em uma fogueira, podia-se agora ver, envolto no clarão avermelhado das labaredas, o semblante do vigário.

O dia fora para sua alma um século de sofrimento, que de um lado se avigorava com o desejo de vingança e do outro se aprofundava e afiava o gume na saudade e no temor pela sorte de Eulália. O vestígio do padecer, pouco sensível nas suas faces morenas, estava entretanto claro nos olhos amortecidos, e principalmente na rouquidão da voz.

— Vocês souberam do que se passou hoje na hora da missa? - disse Paula a um grupo de retirantes que, de chapéu na mão, o escutava. Uma série de calúnias foi inventada contra mim, e insultaram-me como a um assassino e sedutor.

— É exato; nós não fizemos nada porque de nada sabíamos: não tínhamos certeza se era verdade ou mentira.

— É uma falsidade, juro-o à face de Deus - exclamou o vigário, olhando para o crucifixo; - eu serei vingado pelo castigo do céu sobre todos os que me insultaram e sobre aqueles que não correrem em minha defesa. A justiça de Deus não é como a justiça dos homens.

Os retirantes baixaram os olhos, e Paula, depois de ter conchegado aos lábios, num beijo longo, os pés do Cristo, prosseguiu:

— Eu era a defesa dos desgraçados; muitas vezes aqueles malvados tentaram vir aqui desalojá-los e expeli-los, para que não os contaminassem com as enfermidades e não lhes extinguissem o alimento. Eu, com a força deste madeiro - e suspendeu o crucifixo -, os detinha, como por detrás dele furtei-me ao olhar da cegueira dos seus pecados. Hoje, porém, vocês já não têm defensor, e aqueles homens sem coração tramam a expulsão dos irmãos infelizes do povoado.

— Nós não esperaremos que eles venham, sr. vigário; sairemos primeiro, amanhã mesmo.

— Sim, devem fazê-lo, mas o que vai ser de vocês pelas estradas sem um grão de farinha para comer?

— O que quiser a misericórdia de Nosso Senhor.

— Ela não poderá evitar que as mulheres e os filhinhos morram à fome, porque a época é de castigo e desafronta divina.

— Paciência; Deus se compadecerá das nossas almas.

— Entretanto vocês deixam após o povoado rico, feliz no seu egoísmo; a casa de Antão Ramos atulhada de gêneros, que ele roubou ao governo, dando assim causa a que não viesse mais a esmola do Estado; os Feitosas, abastados, orgulhosos, calcando aos pés todos e tudo; esses paroquianos orgulhosos com as casas providas.

— Não podemos tirar-lhes isto; Deus é mais piedoso para com eles.

— Quem lhes disse? Eu sou o seu sacerdote e, em nome do Deus que aqui tenho nas minhas mãos, juro que esses bens não podem mais pertencer aos incrédulos e aos impenitentes. Devem servir para matar a fome aos desgraçados. Vamos ao povoado reclamar dos inimigos da religião, dos que insultam os ministros de Deus o sustento dos infelizes.

Paula levantou o crucifixo e deu um passo à frente; mas os retirantes ficaram imóveis, hesitando.

Vendo em perigo a realização da sua vingança, o vigário desviou o caminho pelo qual queria conseguir arrastar o Engenho após si: dirigiu-se às mulheres, em nome da penúria dos filhos. Dentro em pouco havia soluços e lágrimas em todas as faces, em todas as vozes, e as mais queixosas murmuravam:

— Que bem lhes importa a eles que nós morramos de fome? Já nem têm religião para ouvir o sr. vigário e os choros dos filhos.

O efeito que Paula ambicionava para as suas palavras produziu-se finalmente, e a grande massa de andrajosos gritou por uma única voz:

— Ao povoado!

— Vamos, meus filhos - exclamou Paula -, não é o roubo que eu aconselho, é a conservação da vossa existência. Ao povoado: será mesmo nos domínios de Deus que encontrareis armas para a defesa; a cerca do cemitério fica em caminho, os seus mourões servirão para arrombar as portas.

A multidão abalou-se colina acima com o açodamento de quem deixa a família chorando à fome. Desfazer a cerca da habitação dos mortos foi obra de momento, e, à luz clara do luar, caminhou o povaréu na direção do povoado.

Paula seguiu como eles, depois de ter incitado ainda mais os instrumentos da sua vingança; uma circunstância, porém, o fez parar.

Desde que principiou o trabalho sacrílego do descercar do cemitério, uma voz rouca alevantou um protesto pungente.

— Deixem estar a cerca, deixem. O barulho acorda-a e ela dormiu outra vez.

Era o pobre Joaquim Maluco quem assim falava. Impressionado pelo encontro que tivera de manhã com a mísera Eulália, o seu coração de alucinado trouxe-o de novo ao cemitério, no intuito de conduzir consigo a filha idolatrada. Postara-se de joelhos sobre a cova, que lhe roubava o objeto dos seus carinhos, e aí, apesar da soalheira, passara o dia a chorar e suplicar. À noite estendera-se como um cão fiel sobre o leito funerário da morta, e ai permanecera imóvel até que foi despertado pelo barulho da multidão.

Vendo que esta não atendia nem às suas rogativas, nem aos seus protestos, o doido correu para junto do cruzeiro negro e pôs-se a suplicar o auxílio do céu. Respondeu-lhe o silêncio do madeiro.

Joaquim Maluco trepou então, como tinha por costume, até o cruzamento dos dois braços da cruz enorme, e, escarranchando-se lá, prorrompeu em gritos de socorro.

— Aquele endemoninhado é capaz de acordar o povoado - ponderou o vigário - e então não se diria que era a vingança divina, mas uma vingança minha esta revolta para obter o necessário à conservação de tantas vidas. Sigam vocês, não poupem ninguém, eu os seguirei depois.

A onda invasora dos famintos obedeceu de pronto e continuou a sua marcha.

— Ouçam; gritem ao primeiro encontro: viva os Viriatos.

Passo a passo o vigário seguiu o sórdido transbordamento da penúria sobre o povoado, e só deixou-os quando já haviam entrado na praça.

A voz estentórea do maluco, avolumada pelo silêncio, gritava debalde alarma aos paroquianos que dormiam; nenhuma porta se abriu, nenhum sinal de prevenção percebeu-se. O sono parecia cooperar com o vigário na obra de vingança.

A massa compacta de invasores subdividiu-se, e um grupo foi estacionar às portas de Antão Ramos, enquanto o outro dirigia-se à casa de Feitosa. A senha dada pelo vigário foi passada aos companheiros pelos que ficaram na praça, para que ambos os grupos acometessem ao mesmo tempo.

Não durou muito que estrugissem repetidos, prolongados, pavorosos os vivas aos Viriatos e, de par com eles, o bater dos mourões nas portas e janelas das casas. O espanto e a confusão propagaram-se para logo em todas as habitações, e cada um, temendo pela própria sorte, limitava-se a fortificar-se para não ser acometido.

Paula decidiu-se então a tomar também a sua parte no assalto. Atirou com o crucifixo e caminhou.

Dentro da casa de Antão Ramos o saque inflamava os retirantes até a loucura. Ouvia-se o estourar das garrafas, de mistura com a vozeria e os vivas inconscientes aos Viriatos. De repente a detonação de um tiro prolongou-se e um clamor uníssono da multidão aumentou. A onda entornou-se pelo interior e lá soaram gritos pedindo socorro, lamentações e ais de crianças que se esganiçavam em choros de susto e de horror.

— Não matem as crianças - gritou Paula entrando precipitadamente, e querendo em vão conter os seus instrumentos -, piedade para com elas: não são culpadas.

— Qual piedade nem meia piedade; eles não a tiveram para com os nossos filhos. Descasca a faca nessa cambada.

O vigário, empurrado de um para outro lado pelos retirantes, desatendido, espantado pela extensão inesperada que ia ter a sua desafronta, deixou a venda e correu pela praça, seguido de uma porção dos seus sequazes.

— Não esqueça o malvado velho, o pai dos malvados, aquela peste do sacristão - gritou um dos que corriam -, não é verdade, sr. vigário?

— Sim, ele é o principal. Entrem, é ali; ele é o responsável de tudo o que acontece.

Seguiu correndo, depois de ter apontado o casebre de Marciano à fúria brutal, e foi meter o ombro à janela da casa em que morava.

— José! José! - gritou sôfrego -, arreia o meu cavalo, depressa; vamos partir já. O povoado vai arder inteiro.

Não foi respondido. O silêncio fê-lo compreender que o pequeno tinha desertado do seu lugar e, sem perder um minuto, o vigário foi arrear o animal que bufava no cercado próximo.

— Se me vêm, estou perdido - pensava ele -, que inferno! estou a tremer como uma criança. Pronto, finalmente.

Correu ao seu quarto de dormir e, tateando, abriu uma portinha oculta que fechava um cofre cavado na parede, e no qual guardava o produto das suas economias, espoliadas em nome do céu aos paroquianos. Com a mesma celeridade com que viera ao quarto, voltou para encavalgar e partir, mas deteve-se ao montar, proferindo uma blasfêmia:

— Persegue-me, Deus cruel, persegue-me; os meus crimes são teus, é a tua religião quem os comete com o meu braço.

Uma descarga acabava de detonar na praça e a gritaria dobrou entre os assaltantes.

— Vivam os Viriatos.

— Morram os ladrões.

— Bem; estão travados; lutam: eu posso fugir. - Tomou o cavalo pelas rédeas e encaminhou-se para sair na praça.

— O luar, o luar - resmungou trêmulo -, serei alvo de perseguição.

Despiu estouvadamente as suas vestes talares e, atando-as, montou resolutamente e soltou a galope o animal justamente na direção da luta, mas pelo lado oposto da praça.

Nem um tiro veio sequer intimidá-lo com um erro de alvo; passou incólume e desceu a colina, por onde ainda há pouco havia subido para levar o luto e a desolação ao povoado.

O animal tragava o solo com a carreira à briga solta, rápido, bufando como se fosse um cúmplice dos crimes do senhor.

— Upa, upa! - repetia incessantemente o vigário, estimulando ainda mais o corredor.

O galope dobrando de celeridade soou em breve diante do cemitério, e Paula, satisfeito com a distância que já permeava entre si e o povoado, insistia no incitamento ao animal, que de chofre recuou, encabritou-se sobre as patas traseiras e, revirando-se, lancheou cuspindo fora o cavaleiro; mas para logo recobrou o equilíbrio na disparada vertiginosa.

— Cá está, oh! eu jurei apanhar o malvado, cá está - gritou o doido que dera lugar ao incidente, por haver corrido repentinamente para tomar o passo ao animal.

Proferindo tais palavras, Joaquim estava já acocorado sobre o vigário e prendia-o nos seus braços fortalecidos pela tremenda força da loucura.

— Deixa-me, desgraçado; eu mato-te, se não me largas

bradou Paula debatendo-se para levantar-se.

— Quer matar, quer, hein? E o meu filho? Não vê que dorme ali? Eu acordo-o. Há de vir comigo, não vai não, que eu não quero.

Calaram-se ofegando e revolvendo-se no pó a lutar com uma violência indescritível. Pareciam duas serpentes enleadas, dando-se furiosas crebros golpes envenenados. De repente, ambos dobraram de esforço e ao mesmo tempo, gritaram:

— Socorro, que me matam!

A vozeria da multidão já era ouvida distintamente, e a detonação dos tiros acenava-se mais e mais no silêncio do declive.

— Estou perdido! - exclamou o vigário -, deixa-me desgraçado.

— Não; há de vir comigo; - ofegou o doido, que, no acesso de cólera, mordia o seu contendor.

Paula finalmente conseguiu fazer com que rolassem pela ladeira, e assim desligaram-se, para logo, de pé, um impelido pela loucura, outro pelo pavor, se travassem corpo a corpo. Desta vez, porém, era o vigário que acometia e, ao passo que o doído queria segurá-lo pela garganta, ele, aplicando-lhe o queixo sobre a omoplata, e estreitando-lhe a cintura nos braços robustos, vergava-o e, fazendo-o cair por terra, com o joelho apertava-lhe o estômago e com uma das mãos o esganava.

— Morre endemoninhado, morre! Perde-me, mas desce comigo ao inferno.

O doido já não podia responder-lhe senão por uns sons estrangulados de asfixia iminente, mas os gritos, a vozeria, as maldições, o estampido dos tiros ouviam-se já a pequena distância.

— Salva-me, salva-me, Senhor meu Deus - resmungou o vigário, e, sacudindo de si o corpo inerte do doído, cujos braços o seguravam como duas tenazes, correu e enterrou-se no matagal vizinho.

O estrépito da luta entre os paroquianos e os invasores continuou ainda por muito tempo e só ao romper da manhã cessou de todo. Então os vencedores puderam ver os estragos da invasão e ao mesmo tempo os despojos da desforra.

A praça estava semeada de mortos e de moribundos; a venda de Antão Ramos convertida em um monte de ruínas dava entrada para um lago de sangue em que se debatiam as crianças mal feridas e jazia morto o inspetor. Feitosa com um grande golpe na face andava como doido a procurar por sua velha mãe, cujo destino ignorava. O velho Marciano jazia estendido na sala do seu casebre, abandonado pela família. Em toda a parte enfim, havia alguém que lastimava, por que aonde não chegara a mão dos assassinos chegara o temor da morte.

— E, por cima de tudo isto, ainda teremos a fome - diziam alguns paroquianos.

— A morte hoje mesmo, se não abandonar este maldito lugar - respondiam os ouvintes. - Os que ficaram virão vingar-se.

A idéia da fuga espalhou-se imediatamente e à noite não se via no povoado senão alguns velhos trôpegos, que ainda assim se arrastavam na direção das duas estradas.

O Engenho não tinha mais uma única rede suspensa, e na estrada, em frente ao cemitério, o cadáver de Joaquim Maluco abria os braços ao luar.

Só um homem robusto era visto no meio desta rumaria ensangüentada. Saiu do matagal junto ao campo-santo, despiu na praça a roupa de couro de um dos muitos mortos ali caídos e, depois de ter entrado na casa de Paula, tomou pela estrada de noroeste.