Os Retirantes/III/XIII

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Os Retirantes por José do Patrocínio
Terceira parte: a capital, Capítulo XIII


A decepção de Feitosa, ao ver levantar-se uma barreira invencível diante da sua esperança de desforra do vigário Paula, assumiu as proporções de uma alucinação.

Foi aos periódicos da capital, mas em vão; fechou-os a própria natureza da questão e sobretudo a má fama daquele em que tinham saído os primeiros artigos. Diante da autoridade civil a dificuldade foi ainda maior, reputou-se mesmo impossível qualquer procedimento legal.

O moço, convencido de que era justa a punição de Paula, não obstante os óbices legais que diante dela se levantavam, resolveu a princípio matá-lo. Era fácil. A fome fizera do homem do povo uma fera. Este já havia esquecido todas as noções e perdido todos os nobres traços morais que elevam o cearense ao grau de povo essencialmente digno. Ele já não hesitava diante das questões de honra; vendia esposa, filhas e irmãs ao primeiro preço, alijando-as depois com a facilidade com que náufragos lançam ao mar os designados pela sorte. Uma quantia avultada, pois, armaria não só um, mas cem, mil braços se tantos fossem necessários para a vingança contra Paula.

Mas uma reflexão sensata sobreveio. Sabia-se na capital qual a extensão do seu ódio contra o vigário; sabia-se mais qual a influência dos padres sobre o espírito crédulo dos sertanejos cearenses. Para que um destes levantasse mão criminosa contra um ministro de Cristo, seria necessária uma pressão invencível feita sobre o seu espírito. Embora o assassino se evadisse, era facílimo descobrir o mandante do crime.

Esta idéia fez abortar imediatamente o plano. Augusto sentia que a sua vida dependia de Irena, que não poderia viver sem ela, que não tinha mesmo o direito de torturar-se mais, sem que houvesse adquirido a certeza de que Irena não existia.

— Não te perdoarei, padre miserável, embora eu saiba ter a condenação eterna. Espaceio, mas não cedo a minha vingança.

Volveu ao seu primeiro empenho, trabalho em que viu perdidos meses, e ainda agora já em fins de março não dava o fruto ambicionado.

Uma tarde abriu-se-lhe a imaginação a uma grande esperança. Circulou pela cidade um boato, que, embora não tivesse grande alcance aos olhos de Augusto, produziu sobre si uma agradável impressão. Propalou-se que o enorme cruzeiro da praça da Sé estava a marejar água.

A nova, entrando pelas casas da cidade, pelo palácio, pelos abarracamentos, produziu, principalmente nestes, um grande alvoroço. Semelhante acontecimento não podia ser senão a profecia de que em breve estaria acabada a seca, e para os desgraçados não podia haver sobre a terra nenhum anúncio mais grato.

Este rebate dado por um milagre tão estupendo ao coração dos retirantes, esta evocação sobre-humana das suas mortas esperanças fizeram com que a população inteira dos abarracamentos se entornasse sobre a cidade. Todos queriam verificar o milagre, sentir diante dele o coração desvairar de contentamento, alucinar-se numa alegria tal, que só se poderia comparar à de um leproso que visse de repente me cair a crosta repelente, e aparecer-lhe o corpo são e robusto, o sangue a querer irromper da epiderma nova e finíssima.

Augusto, que havia calculado semelhante efeito do boato sobre os retirantes, saiu logo para tomar lugar diante do cruzeiro, ante o qual devia desfilar todo o mar desses desgraçados.

Chegando à praça, viu realizado o seu cálculo. Desdobrou-se-lhe um espetáculo de cenas indescritíveis. A fé e a sofreguidão davam ao ajuntamento enorme a voz das cascatas em época de enchente; saía dela um ruído que azoinava. Soavam cânticos em toda a praça, onde a multidão se conservava de joelhos; reinava a confusão em todas as ruas que desembocam no largo.

Mas o que chamava mais a atenção era o número incalculável de redes que passavam através da multidão, por entre alas que esta lhes abria, como se quisesse dar aos enfermos esta última consolação.

A credulidade mantinha a exaltação geral; formavam-se grupos onde havia sempre quem afirmasse que tinha visto, que era perfeitamente exato o milagre: o cruzeiro marejava água, e isto depois de tantos meses de soalheira assassina; era por força aviso do céu.

Os próprios moradores da capital mostravam-se impressionados, sem poderem explicar o acontecimento.

— É quase inacreditável...

— Mas diante do fato...

— Sim, diante de fato não há contestação possível.

— Entretanto - interveio finalmente um incrédulo que ouvia um grupo formado junto a Feitosa - um sacristão pode ser o autor do milagre.

— Como?

— Deitando água no madeiro gretado do cruzeiro; este, embebido...

Não o deixaram acabar a frase; expeliram-no a empurrões, chamando-o emissário de satanás, satanás em pessoa.

E clamavam em voz alta:

— Perdão, perdão, Senhor Deus, não vos desafronteis em vosso povo da heresia do demônio.

E cada vez mais amotinado, o grupo repetia em voz alta, com gesticulação exaltada, com soluços, com lágrimas a heresia, que foi logo, com uma rapidez elétrica, sabida por toda a gente.

Começou então uma cena apaixonada de desagravo. Todos queriam ao mesmo tempo oferecer a Deus a sua prova de fé, e ricos e mendigos principiaram a atirar ao supedâneo do cruzeiro todo o dinheiro que traziam.

Planejou-se logo uma solenidade estrepitosa de missas cantadas e de procissões em toda a cidade, durante dias, para que o Ser, que tudo sabe e sé faz o bem e o justo, se amerceasse da contrição daqueles que nada tinham dito.

A noite caiu sobre este imenso fervor religioso para que o luar desse-lhe ainda maior majestade e exaltação.

Feitosa, de pé, olhando, com uma atenção de fera esfaimada, para as pessoas que saíam da praça por uma única rua, providência que dera a polícia para evitar distúrbios, não perdia as feições de nenhuma das que passavam.

— Ela virá, decerto; eu os encontrarei ainda hoje; vou ver, felizmente, acabado o meu tormento.

Mas as horas foram passando sem que a sua esperança tivesse o menor indício de se ver realizada; e o moço começava já a desanimar. Para agravar mais o mal-estar que ele já sentia, começou a diminuir o número dos que saíam pela rua. Feitosa soube então que o povo tinha conseguido zombar das sentinelas e sair por todas as ruas.

— Oh! desgraçado que eu sou - exclamou Feitosa que, sem se poder conservar de pé, foi encostar-se a uma parede próxima.

Um retirante corpulento, vestido decentemente, com a camisa de algodão sobreposta a fralda às ceroulas do mesmo pano, estava havia mais de uma hora, em frente a Feitosa, a olhá-lo, a acompanhar-lhe todos os movimentos da fisionomia.

Quando Feitosa cambaleou e foi recostar-se à parede, este homem deu um salto para ampará-lo, mas logo afastou-se e veio ficar de novo em frente ao moço, a quem continuava a encarar com um olhar em que se lia a hesitação.

Feitosa cansou de observar e com o coração torturado, afogueado de desespero, pôs-se em caminho com o povo que se espalhava.

O retirante, que não o perdia de vista, coçou a cabeça como quem hesita e afinal acompanhou-o até junto de um lampião, sob cuja luz pôs-se diante de Feitosa.

— Vossa Mercê dá-me uma palavra? - disse o retirante.

Feitosa parou e esperou que o interlocutor se aproximasse.

— Eu sou o comboeiro Estevão, de B. V., e queria pedir a Vossa Mercê...

Ao ouvir o nome da paróquia, Augusto Feitosa desanuviou imediatamente o semblante, porque o coração readquiriu a esperança de encontrar Irena.

— Conheceu lá então o velho Monte e sua filha? - perguntou ele precipitadamente.

— Lá e aqui, meu senhor, e é por eles que eu venho pedir a Vossa Mercê...

— Fale, fale - exclamou Feitosa -, diga-me onde eles se acham.

A maneira brusca por que estas palavras foram proferidas, fizeram estremecer Estevão, que interrompeu Feitosa com uma entoação suplicante.

— Morrem à fome; o velho cego e inchado da anasarca, a filha reduzida a esqueleto, sofrem muito.

— Sim, eu imagino, tenho certeza de que devem ter sofrido muito; diga-me onde estão eles.

— Eu não venho denunciar, meu senhor, eu venho pedir perdão para os dois infelizes. Toda a gente na paróquia soube, por fim, que não foi o velho Monte quem cometeu o crime contra Vossa Mercê e não é justo que seja ele o perseguido. Perdão, meu senhor, perdão para os desgraçados!

Feitosa estava como doido. A noticia, que lhe trazia finalmente a paz ao espírito, lançava-o num estado de exaltação, que não lhe dava palavras para exprimir o que sentia. Não respondeu à suplica de Estevão; fez-lhe por sua vez o pedido que lhe pairava, havia longos meses, sobre os lábios.

— Vamos vê-los, meu amigo; já, depressa.

— E perdoá-los, não?

— E pedir-lhes perdão, - exclamou afinal Augusto Feitosa; - tenho-os torturado muito.

Estevão, que conservava na mão o chapéu, desde que se dirigira a Feitosa, enterrou-o na cabeça e disse triunfantemente:

— É por aqui, estamos lá dentro em meia hora.

— Minha santa Irena - murmurou Feitosa -, ainda tenho tempo para salvar-te.

— Decerto, há de salvá-la. Eu por um acaso fui empregado como guarda do abarracamento, há 15 dias, e encontrei-os sob um cajueiro: Irena com febre, o pai inchado pela anasarca. Corri ao abarracamento, o da Pimenta, e lá contei o que eles eram e o que padeciam. O administrador teve dó deles e mandou recolhê-los ao hospital. O velho estava a morrer e d. Irena...

— Não me diga nada sobre o seu estado - interrompeu-o Feitosa; - vamos vê-la.

Em menos de meia hora, atravessando a cidade, os dois

homens chegavam ao alto da Pimenta e aborreciam-se com o embaraço que lhes causava, ao caminhar apressado, o longo areal. Permearam, finalmente, as ruas de casas de palha e o cercado em que eram distribuídas as rações, distante apenas alguns passos do hospital.

Por comum acordo, Feitosa parou, enquanto Estevão ia ao hospital chamar Irena, para que fosse menos violento o abalo do encontro e se lhe dissipasse o temor da vingança de Augusto.

Estevão, tomando uma vela na administração, penetrou no hospital; uma sala de 40 palmos de comprimento sobre 20 de largo e em que se viam uns trinta e tantos leitos miseráveis, feitos com quatro forquilhas e envarados de bambus, sobre os quais, cobertos apenas por um cobertor de algodão escuro, jaziam os doentes.

Quando a claridade da vela alumiou o recinto fétido e asqueroso, Estevão deparou com um quadro comovente.

Numa das extremidades da sala em que estava o leito de Rogério Monte, estava estendida sobre o chão frio e imundo a mísera Irena; e, sobre o leito, estatelado, inerte, o corpo de Rogério. Estevão salvou correndo a pequena distância e inclinou-se sobre o fazendeiro.

— Morto, já está morto! - exclamou ele, que balançava o cadáver. - Infeliz velho, infeliz gente; quem sabe se ainda é tempo de salvar a filha?

Dizendo tais palavras, tomou nos braços o corpo de Irena e saiu com ele para o lugar em que deixara Feitosa.

— Está aqui ela; o pai é morto.

— Irena, minha santa amiga, perdoe-me, perdoe-me -soluçou Feitosa; - nunca mais nos separaremos.

Irena não respondeu. Queimava-a a febre intensa que lhe arrebatava os sentidos e a deixava completamente indiferente a tudo. O seu semblante, muito demudado, parecia já mascarado pela morte.

— Não há de morrer, não, minha amiga; viverá, viveremos para o nosso amor - murmurava Feitosa, cobrindo de beijos as faces da enferma; - vamos já daqui.

Poucos minutos depois, entrava pela cidade Irena, conduzida em uma rede, e ao lado dela Feitosa e Estevão.

O resto da noite passou sobre as maiores torturas e as mais doridas lágrimas que podem sofrer e derramar um coração humano. Feitosa, completamente desvairado, impaciente, febril, não deixava o médico um só momento.

Queria-o de contínuo à cabeceira de Irena e que lhe fizesse desaparecer a febre. Dar-lhe-ia o que lhe pedisse; a vida de Irena era mais que a sua vida. era a sua honra.

Ao romper do dia o médico veio comunicar a Augusto que a doente parecia estar salva; a febre fazia remissão e a fisionomia era lisonjeira.

De feito, pelas oito horas da manhã, quando Augusto, lembrado por Estevão, mandava este tratar do enterro de Rogério Monte, a fim de que o honrado fazendeiro não fosse atirado à vala comum, como os demais retirantes, o moço esteve a ponto de endoidecer.

De dentro do seu quarto vinha o eco das vozes do médico e de Irena, que lhe perguntava:

— Não estou então delirando? É verdade que eu estou acordada e que me vejo assim?

— É, minha senhora, e é preciso acalmar-se, dormir um pouco.

— E meu pai? - perguntou ela precipitadamente.

— Melhor; a moléstia é muito grave; foi necessário retirá-lo daqui para a serra... Está com o beribéri.

— Pois eu era capaz de jurar que ele...

Um soluço compungente sufocou-lhe o resto da frase e o doutor, intervindo sem hesitação, exclamou:

— Também eu pensei, mas felizmente foi apenas um acesso violento que passou... Acalme-se a senhora, porque bem sabe que seu pai não resistiria à sua perda.

Irena, com a sua docilidade natural, obedeceu ao médico e calou-se. Estava nesse estado inconsciente em que as febres violentas deixam o enfermo, estado em que parece que há uma dormência no espírito, proibindo que as sensações e os sentimentos tomem corpo e se arraiguem.

Com os olhos amortecidos, os lábios muitos secos, as faces escaveiradas, Irena ficou a olhar por muito tempo reparando na decoração singela, mas confortável, do quarto e, afinal, perguntou com interesse:

— Quem é que nos socorre?

O doutor, calmo e prevenido para responder à pergunta, disse carinhosamente:

— Pergunte ao coração se não há ninguém que os possa socorrer; que se orgulhe em servi-los.

Irena olhou admirada para o doutor, cuja fisionomia de qüinquagenário se iluminava por um sorriso acariciador.

— Temos vivido tão sós e tão abandonados, que eu não julguei poder encontrar alguém que nos socorresse.

— Eu guardarei o segredo; será o seu presente de convalescença, que deve ser breve para encontrar-se com o seu velho pai.

Irena cerrou as pálpebras depois de algum tempo, durante o qual ficou absorta a olhar para o doutor. Parecia ter adormecido, mas, de repente, levantando-se no leito, exclamou trêmula e ofegante:

— Adivinhei o seu segredo, doutor, adivinhei, e o senhor vai confirmar-mo.

O doutor sorriu benevolamente e respondeu:

— Não é possível.

— Disse-mo o coração, e disse-me mais que o meu desgraçado pai está perdido. O meu protetor é Augusto Feitosa!...

O doutor perturbou-se e não soube como responder. Irena, aproveitando a confusão, buscou sair precipitadamente, mas à porta do quarto Augusto deteve-a, exclamando de joelhos:

— Sou eu, sim, quem vem merecer de ti o perdão que não pude obter de teu pai!...

Irena recuou espavorida e foi sentar-se automaticamente no leito, muda, boquiaberta, a fitar com os olhos esgazeados o amante. Lia-se-lhe no semblante o terror profundo e invencível que a dominava e deixava-a quase inteiramente alheia ao que se passava.

— Não acreditas, não é assim? Também eu ontem pensei que sonhava ao encontrar-te, tamanhas foram a minha ventura e dor, mas a tua presença, hoje e aqui neste momento, convence-me de que não me enganei. Não me encares assim como para um fantasma dos teus delírios; olha-me bem, serenamente, sou eu, o teu amigo que te pede perdão!...

Os lábios descorados do moço tentaram beijar as mãos de Irena, mas um movimento delicado e rápido da moça furtou-as ao beijo apaixonado.

— Tens razão - soluçou Augusto -, eu lá não mereço uma caricia tua, e nem a posso pedir. O meu amor foi a tua

desgraça: as humilhações, as afrontas, a penúria em que por longo tempo viveste, foi tudo obra minha. Sei, não devia afoitamente encarar contigo, Irena! Porém julguei-me castigado pelos meus remorsos e esperei que a sinceridade do meu sofrimento fosse um título à tua piedade...

Houve uma longa pausa em que ressoaram mais alto os soluços de Augusto.

O médico saiu do quarto, cabisbaixo e comovido, e, cruzando os braços sobre os rins, pôs-se a andar de um para outro lado da sala. De quando em quando na quietação do aposento ouviam-se o retinir das ferraduras dos animais no calçamento da rua e palavras destacadas de conversas de transeuntes. Um retirante, que estava ao serviço de Feitosa, ressonava sentado no corredor.

O médico parou afinal junto de uma janela que tinha as vidraças descidas e as cortinas corridas. Duas mulheres conversavam sobre um espetáculo a que tinham assistido na praia.

— Era de cortar o coração; pobre gente! Que dor que ela sofria!

— E a família que só tinha mulheres? O que vai a pobre fazer lá no Pará? Esperanças.

— Por muito mau, sempre é melhor do que aqui; à fome não se há de morrer. Eu e o meu marido já resolvemos ir para o Rio de Janeiro; dizem que lá é um céu aberto.

— Basta estar perto do imperador; lá não hão de fazer muamba, o graúdo está vendo.

— No Pará é que não nos apanham; sei lá o que é aquilo? Ninguém fala, e depois só mandam para lá barcos velhos.

— Este de hoje e assim.

— Uns homens que estavam ali conversando disseram que o barco vai ao fundo mais dias menos dias; que não dá conta da viagem.

— Tudo desgraça...

— É a vontade de Deus.

As duas mulheres calaram-se, e o doutor voltou ao seu passeio maquinal, que para logo interrompeu indo parar à porta do quarto.

Augusto conservava-se de joelhos, com a cabeça pendida sobre a beirada do leito, e arquejando continuava a soluçar.

Irena, por sua vez, conservava-se muda, mas, ainda que na mesma posição, havia escondido nas mãos as faces, que se orvalharam de lágrimas silenciosamente.

A sua cabeleira louro-clara, muito seca e descurada agora, caía-lhe sobre os ombros, exagerando ainda mais a palidez romântica da sua epiderma. Aparecia-lhe por sob o vestido velho de chita o pé, pequeno, fino, escurecido pela poeira, mas ainda assim deixando ver as longas estrias azuis das veias. Do seu todo de mendiga exalava-se um perfume celestial de honestidade heróica, que enchia todo o aposento de um extremo recato virginal.

O médico passeou por largo tempo o olhar sobre os dois mártires. Sua alma, acostumada com as grandes dores, calejada já pelos espetáculos comoventes, acostumada a ouvir prantos desolados de orfandade e viuvez de envolta com os últimos suspiros, com o derradeiro resfolegar de pais e de esposas, vibrou não obstante com uma sensibilidade ampla e comunicativa.

— Eis o que é ser desgraçado - pensou ele; - amam-se, querem-se, e no entanto cada um teme lançar-se nos braços do outro.

Em bicos de pés avizinhou-se de Augusto, e, pondo-lhe a mão sobre o ombro, imprimiu-lhe um movimento delicado; e como Augusto levantasse para si o rosto banhado em pranto o médico mostrou-lhe com o indicador as lágrimas e a atitude de Irena.

— Eu contava com o teu perdão - exclamou Augusto, levantando-se e beijando precipitada e gulosamente as mãos da moça; - fui menos cruel que desgraçado.

Os crebros soluços de ambos concluíram a reconciliação de tão vivo quanto sincero amor.

À tarde Estevão veio comunicar a Augusto Feitosa que tudo estava pronto para o enterro do velho Rogério. O bom do comboeiro ria e chorava ao mesmo tempo. Estava contente de si porque, na sua qualidade de guarda do abarracamento esforçara-se sempre em socorrer o velho Monte e Irena; mas, quando expunha aos seus companheiros que os dois pertenciam à grandes famílias dos Montes, aqueles riam e chasqueavam, atribuindo as suas atenções a causas vis.

Hoje tinha-lhes demonstrado que não mentia, que tinha sido verdadeiro quando recomendou o velho ao respeito de todos. Isto o alegrava.

— Está muito bonito o velho com a sua roupa toda preta, a barba feita, no caixão de belbutina com galões de ouro. Tomou outra vez o seu ar fidalgo.

Mas isto mesmo causava tristeza a Estevão, porque pensava que devia ser vestido assim, com aquele ar grave e respeitoso, que o velho devia ir acompanhar Augusto e Irena como noivos e abençoá-los diante de Deus. Entretanto, no dia em que os dois se encontravam, o pobre velho baixava à terra para não mais se levantar.

Augusto depois de ouvir Estevão foi consultar com o médico sobre o que deveria fazer: se ocultar a Irena o saimento paterno ou dar ocasião a que ela o visse.

O doutor opinou que se deixasse ao acaso resolver.

À tardinha ouviram-se na rua os compassos retardados e a entoação tristíssima de uma marcha fúnebre.

Irena, que havia adormecido, acordou sobressaltada e, arregalando os seus grandes olhos azuis, cheios ainda das sombras do sono, perguntou a Augusto o que era aquilo.

O doutor, convidando Irena a levantar-se, conduziu-a até junto da janela e levantando a cortina das vidraças mostrou-lhe a triste cena que a marcha fúnebre anunciava.

Alguns homens vestidos de preto seguravam nas alças do caixão, e um bando de mulheres e de crianças acompanhavam-no. Logo por trás do modesto féretro caminhava Estevão, que conduzia dois mochos, que serviam de eça, em que de quando em quando o caixão era depositado.

Irena, ao dar com o rosto comovido de Estevão, exclamou com um entono indefinível de dor:

— Meu pai, meu desgraçado pai!

— Irena - soluçou Augusto -, é diante do cadáver de teu pai que eu venho pedir-te com o perdão, a reparação do crime. Perdoas-me?

Irena deixou-se cair sem forças nos braços de Augusto. pálida como um cadáver, e, enquanto o moço, esquecendo no egoísmo da ventura a grande dor da moça, beijava-lhe as faces arrebatadamente, lá da extremidade da rua vinham encher o silêncio da sala os compassos da marcha fúnebre.