Os Retirantes/III/XII

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Os Retirantes por José do Patrocínio
Terceira parte: a capital, Capítulo XII


Apesar da dificuldade imensa que surgiu diante de Eulália, a infeliz não perdeu a esperança de vingar-se de Paula.

A sua nova posição, degradando-a aos seus próprios olhos, mais do que diante da sociedade que a tolerava e até a favoneava, fazia-lhe vir continuamente à imaginação a imagem do seu sedutor.

Quando pela primeira vez teve de entregar nos lábios os beijos comprados e deixar que olhares libertinos devassassem-lhe as formas, pensou que ia morrer. Passou a noite a deliberar, febricitada por um pensamento monstruoso.

Mão invisível impelia-a para junto do vigário, não para pedir-lhe, mas para indenizar-se no seu sangue do aviltamento a que se via forçada.

Acordando, tirou da cintura o punhal, que nunca mais abandonara, afagou-o com o olhar como que lhe pedindo uma inspiração. Assomou-lhe então um plano monstruoso. Iria à igreja, confessar-se-ia para pedir o perdão a Deus do seu crime, e depois esperaria que o vigário viesse celebrar. Quando ele estivesse mais absorto, quando viesse descuidoso e tranqüilo distribuir a hóstia consagrada aos penitentes, ela cravar-lhe-ia o punhal uma, duas, mil vezes e no meio da geral estupefação suicidar-se-ia heroicamente.

Este pensamento dava-lhe um suave bem-estar ao espírito; o vapor de sangue, refrescava-lhe os lábios secos e despertava-lhe ardente apetite de vida, mas de vida sobrenatural, de lágrimas ou de sorrisos, de torturas ou de bem-aventurança, não importava, porque via nos golpes do punhal unificados o seu e o destino de Paula.

Começou a vestir-se absorta nesta resolução, mas, ao apertar o vestido que lhe fora dado pela dona da casa, como enguiço à lascívia dos transeuntes, o esforço como que lhe rompeu a inércia da consciência. Lembrou-se da família, e das irmãs.

A imagem de Chiquinha apareceu-lhe colocada na posição tristíssima de perdida, macilenta, mascarando com sorrisos o desespero. E, mais desgraçadas do que ela, via as irmãs menores, sendo exigidas pela libertinagem na hora em que as graças da irmã mais velha se houvessem dissolvido nas vigílias crapulosas.

Recuando espavorida diante das larvas que ela própria evocara, soluçou a infeliz:

— Não, eu não as condenarei a tal sorte; serei infame para lhes salvar a vida.

Saiu, entretanto, mas em vez de dirigir-se à catedral, encaminhou-se para a vizinhança de Meireles e aí pagou com o prêmio da perdição a tranqüilidade da família.

Uma satisfação dolorosa compensou-lhe o sacrifício da noite, e a desventurada, resignando-se à crueldade do seu fadário, resolveu-se a aceitar a sua nova posição.

— Voltou mais alegre - ponderou-lhe a companheira de casa; - lá vê que o diabo não é tão feio como se pinta.

— Já paguei a casa para a minha família e tenho fé que nunca mais lhe há de faltar nada.

— Conservando-se aqui. O nosso contrato é despesas por

minha conta e lucro dividido em três partes, duas para mim e uma para si, o mais razoável que poderia encontrar, não é verdade?

Eulália meneou afirmativamente a cabeça.

— Ora, você, mantendo-se num certo pé, pode ter pelo menos 10 mil-réis por dia, e, com os três que lhe ficam, a sua família passa um vidão.

Eulália abaixou a cabeça para esconder as lágrimas, que lhe vieram involuntariamente aos olhos.

— Depois ainda há os presentes; as noites de pândega, passageiros que não conhecem a terra. Está com a fortuna feita, se tiver juízo!

Nos dias que se seguiram, esta última exclamação da companheira repetiu-se por diversas vezes. Eulália conquistou uma série de admiradores, que lhe disputavam os sorrisos e os afagos. Tornou-se uma celebridade.

— Eu quando a convidei não foi em vão, conheço o povo com quem lido - sorria a perdida, quando Eulália vinha fielmente dividir consigo o preço da sua degradação.

Ao contrário da alegria da companheira, Eulália não se alegrava com os seus triunfos.

Só um dia na semana viam-na sorrir. Era às quintas-feiras, quando voltava do abarracamento de M., onde ia levar à honestidade da sua família o socorro que ela, chorando de vergonha, tirava à perdição.

— Você é uma doida - observava-lhe diariamente a dona da casa; - leva a torturar-se. Isto pode vir a fazer-lhe mal. Nesta vida quer-se cara alegre e coração à larga, e você pode tê-los porque é feliz.

— Parece - respondeu-lhe um dia Eulália; - mas estou certa de que nem aqui serei por muito tempo feliz.

Tinha neste dia amanhecido mais sombria do que de costume e evitava toda conversação. Alta noite fora acordada pela companheira, e estava a chorar sem saber a causa. Tinha-a afligido um pesadelo, mas nem ao menos lhe ficara dele a reminiscência; sabia apenas que sofria tanto, que não pudera conter o pranto.

— Há de ser alguma asneira, alguma dessas criançadas em que você passa os dias pensando, e que não têm valor nenhum.

— Deve ser; eu hei de distrair-me.

A promessa era apenas uma evasiva para furtar-se às consolações impudicas da companheira. Esta voz a incomodava, porque a aviltava extremamente, uma vez que não a considerava senão uma fábrica de adquirir dinheiro.

À noitinha, porém, a angústia atormentando-a demasiadamente, mergulhando-a na indiferença que muitas vezes lhe embotava de todo os movimentos nobres do coração, foi colocar-se à janela.

— Não se faça fraca, hein, Eulália! veja bem a quem manda entrar; sentido com os peraltas; siga sempre o meu exemplo - disse a companheira quase automaticamente, pelo hábito em que estava de fazer tal recomendação.

Eulália sorriu tristemente. Aquela mulher baixa, metalizada, tinha diante de si um grande prestígio: dera-lhe um meio, ignóbil mas eficaz, para salvar a honra de suas irmãs e a vida inestimável de d. Ana.

A frescura da tarde encantava-a. Uma viração forte, escapando-se do mar, vinha de esfuziada pela rua, levantando redemoinhos; a poeira, que não tinha tempo de fugir do abraço do vento, limitava-se a cabriolar, a estorcer-se, a descer e a subir, com os movimentos de uma briga de crianças.

Absorta no silêncio da rua, o olhar de Eulália ora descansava no de algum transeunte decente que a encarava insinuantemente, ora envolvia os grupos silenciosos e cabisbaixos de retirantes que passavam, levando sobre o chapeirão de couro as rações de carne do Rio Grande, branquicentas da salga, cheirando mal.

A pouco e pouco as feições da moça foram desanuviando e readquirindo o acento de resignação que nelas predominava.

A companheira veio postar-se a seu lado, elogiando-a.

— Assim é que eu gosto de vê-la, minha santa; é preciso fazer pela vida.

Eulália conservou por muito tempo o semblante calmo; a companheira tranqüila foi sentar-se na rede ao fundo e abandonou-se a longos balouços.

— Vamos ter uma boa noite.

— Parece - respondeu Eulália; - promete.

Houve um curto silêncio, durante o qual só se ouvia o ranger das cordas nos armadores da rede. Mas, de repente, Eulália, levando as mãos aos olhos e entrando precipitadamente, soltou um ai agudo, penetrante e desolador.

— O que sucedeu, meu bem, o que tem? - exclamou a companheira correndo em auxílio de Eulália.

A moça trêmula, tiritante, com o olhar esgarado, nada respondeu, e a companheira intrigada pelo imprevisto do incidente, correu até a janela.

Nada viu que lhe chamasse a atenção, e, voltando para dentro, exclamou com uma entoação maternal:

— Você está hoje com muitos nervos; não há nada de extraordinário na rua. Distraia-se; eu vou buscar água.

Quando a companheira afastou-se correndo, ouviu-se no silêncio da sala estas palavras que vinham da rua:

— Estás muito por cima, comborça.

O eco de tais palavras aumentou ainda mais a perturbação de Eulália. Sabia que elas eram apenas o prólogo de uma página violenta, e quem sabe se fatal à sua vida!

Quando a companheira voltou, Eulália estava tão trêmula que não podia levar aos lábios o copo de água.

— Feche os postigos - disse Eulália; - não quero ouvi-la nem vê-la.

A companheira dirigiu-se à rótula.

Começavam a acender o gás, e o acendedor afastava-se neste momento de junto do lampião, que ficava a poucos passos da casa.

Uma claridade viva dissipou o lusco-fusco que ensombrava o lugar e a companheira pôde ver, sob o lampião, uma mulher que olhava fixamente para a casa. Vestia uma porção de andrajos; cobriam-lhe a cabeça uns farrapos de toalha pardos de sujo, e pelos rasgões do corpinho viam-se-lhe os seios tufando uma camisa encardida. De uma estatura nobre, direita, a mulher parecia uma aparição vingadora, vomitada pela miséria.

A companheira, ao vê-la, sentiu-se por sua vez perturbada, e, vindo assustada sentar-se junto de Eulália, perguntou:

— É da tua família aquela mulher? Pelo seu olhar parece estar fervendo em ódio.

— Não me fale nela - respondeu Eulália -, deixe-a, é a minha asa negra; persegue-me, e eu tenho-lhe medo e ódio.

— Tem má catadura, é medonha, apesar de não ser feia. O que ela quererá contigo?

— É a Mundica - respondeu Eulália -, é ela!...

— Ah! - exclamou a companheira a quem Eulália havia narrado os sucessos da paróquia.

Foi fechar melhor os postigos e veio para junto de Eulália, que continuava agitada e amedrontada, e buscou distraí-la.

— Eu não lhe disse que nem mesmo nesta vida eu podia ter felicidade?

— Qual, filha, isto passa; não vale a pena pensar em coisa tão pequena.

— Até outra vista, comborça - soou lá fora a voz de Mundica -, lembranças ao vigário; nós nos havemos de tornar a ver.

Eulália resfolegou; estava livre por hoje, e o adiamento, concedido por Mundica à tortura que devia infligir-lhe, pareceu-lhe o aliviar de um peso enorme.

— Foi-se, com efeito - disse a companheira que tinha ido espreitar no xadrez da rótula; - estamos livres dela.

Eulália, porém, não chegou a acalmar-se a ponto de ficar inteiramente desassombrada. Tinha certeza de que Mundica viria provocá-la, dar lugar a alguma cena de que resultasse algum escândalo. Passou a noite a cogitar dos meios de evitar semelhante desastre e no outro dia ponderou à companheira:

— Não seria melhor que mudássemos de casa? Esta rua faz-me agora medo.

— Mudemo-nos; ainda que possamos perder alguma coisa com isto. Enquanto se guarda de cor o número da casa, vai tempo.

— Eu creio que maior transtorno será ficarmos aqui; aquela mulher...

— É urgente que nos mudemos; uma desgraça agora que íamos indo tão bem.

A mudança foi no momento resolvida. Aconselhava-a o interesse, a boa fama da casa, fama conseguida pela habilidade com que a companheira tinha conseguido viver até agora, coonestando a sua baixeza. Na vizinhança ignoravam ou fingiam ignorar qual a posição real das duas mulheres; sabiam apenas que elas não eram casadas, mas nem por isso as consideravam perdidas. As mais recatadas senhoras do quarteirão as cumprimentavam e algumas delas, em dias de necessidade, mandavam pedir-lhes dinheiro emprestado.

Mundica viria, pois, causar um grande dano à reputação das duas mulheres e cumpria à fina força evitá-lo.

Vestiram-se e saíram, com o trajo e o andar de gente honesta, cumprimentando discretamente os conhecidos, deitando esmolas nas mãos sujas dos pequenitos, que lhes vinham ao encontro, e fazendo inveja às moças que vinham espiá-las.

— Vão bem vestidas.

— E sérias.

— Parece boa gente.

— Mas não levam homem consigo.

— Talvez seja gente de fora; mulheres dos engenheiros que têm chegado.

— Têm ar.

No meio dessas aclamações da curiosidade, correram toda a rua em que moravam e dobraram afinal tomando o lado beira-mar da cidade, entrando em diversas casas, examinando-as detidamente. Sentiam-se ambas dispostas a prolongar o passeio, apesar do sol que já queimava e ser ainda manhã.

Chegadas, porém, perto do largo em frente à Sé, Eulália não quis seguir na mesma direção. Ficava muito perto do lugar em que morava a sua família, não queria vexá-la, e, mais do que isso, condená-la a amargos sofrimentos, caso d. Ana a visse.

— Minha tia já anda desconfiada da proteção que tem na casa e, se me visse assim, com certeza recusaria o pouco que dou a minhas irmãs - ponderou Eulália; - busquemos outra rua.

Tomaram a rua em frente ao palácio da presidência e seguiram por ela.

— Há de haver na rua que passa por detrás do palácio alguma casa; vamos passar por lá.

Tomaram essa direção.

Em frente ao palácio havia um grande ajuntamento de mulheres. Partia daí um sussurro intenso, e afinal alevantou-se uma vozeria enorme.

— Temos fome - gritavam , matam-nos à fome, os nossos filhos morrem de fome. Socorro!

Eulália e a companheira tentaram voltar, mas não tiveram tempo de fazê-lo. Uma mulher que estava sentada em uma das portas, levantou-se, e, correndo para elas, travou brutalmente do braço de Eulália.

— Onde está o vigário, coisa à-toa? Onde está o teu amante? Queria que ele me visse.

Mundica, que era quem falava, sacudia grosseiramente a infeliz moça, que interdita, com os olhos estatelados, nem se esforçava para libertar-se da incômoda pressão.

Tinha as faces quase sangrando. A perdição não lhe havia calejado ainda a delicadeza dos sentimentos, nem os extremos da educação; passara-lhe sobre o coração como o lodo do brejo sobre as asas das aves aquáticas, cujo verniz não as deixa manchar de todo, e basta um movimento da plumagem para tomarem à limpeza. Não havia, como Mundica, mineirado no cinismo frases obscenas e gestos canalhas, não podia, pois, responder-lhe.

Mundica, aproveitando da confusão de Eulália, levantou a mão e espalmou-a sobre as espáduas da moça, que pôde a tempo livrar as faces. Uma revolta da dignidade fez com que Eulália tentasse repelir a afronta.

Os transeuntes pararam então, formando circulo, chacoteando da luta, em que Mundica tinha superioridade. Vieram em seguida os apupos, a assuada e afinal os apitos, a galhofa e a prisão das duas contendoras, enquanto a companheira de Eulália fugia para não ser envolvida na questão e nas suas conseqüências.

— Eu não fui a provocadora, passava quieta, foi esta mulher quem me veio insultar - soluçou Eulália ao ver-se agarrada por um soldado.

— Silêncio - respondeu o agente; - se resiste à prisão, eu a levarei por mal.

À tarde ainda Eulália achava-se detida na cadeia, misturada com a escória depravada de mulheres avilanadas pela mais extremada miséria, e só à noitinha foi mandada embora.

A pouca distância da cadeia, esperava-a a companheira que se lhe dirigiu friamente.

— Eu gosto muito de si, Eulália, mas não posso continuar a morar consigo. A sua inimiga há de continuar a persegui-la, e isto é vergonha e descrédito. Procure, pois, casa para si desde amanhã.

— Desde já - respondeu Eulália - não dormirei mais na sua.