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ATLANTIDA


Esperei o gabinete vazio do Tavares, onde ninguêm nunca se lembrara de tomar chá às cinco da tarde, mas onde eu pensava dominá-la — com champagne e amor. Ao saltar, Etelvina tremia como uma grande dama honesta na sua primeira entrevista criminosa. Quando no gabinete caí-lhe aos pés e repeti uma ardente declaração sempre de fulminante efeito; ela disse-me, encostada a mesa: — «Mediu bem o que vai fazer?» Respondi que era o seu escravo, incapaz de medir a extensão da minha felicidade. Ela murmurou: — «Bem». Depois sentou-se. Sentei-me tambêm. Um instante rimos porque desastradamente o meu pulso a tremer inundou de espuma de champagne a toalha clara. E rindo, aproximei mais o meu corpo. Etelvina afastou-se um pouco. Insisti. Ela afastou-se mais. Estava à beira da banqueta. Tentei mais um movimento e ela naturalmente pôs-se de pé, para partir. Eu

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que até então conseguira conter-me, agarrei-a, prendi-lhe a cabeça, beijei-a furiosamente na bôca. Ela debateu-se quási a gritar: — «Não! Não!» E, conseguindo desvencelhar-se, correra ao outro extremo do gabinete — «Etelvina!» — «Deixe-me, ou eu grito!» — «Mas é estúpido!» — «Não posso! Abra a porta. Não posso!» — Esfregava o lenço na bôca como se eu a tivesse maculado. Tive uma dessas cóleras lívidas que se exteriorizam pela pancada ou por um silêncio terrivel. Abri a porta. Ela precipitou-se no estreito corredor, que tem Visto coisas muito piores. Um criado passava. Mandei abrir a outra porta, a da rua. Ela, sem um olhar, correu ao coupé, bateu a portinhola, e o trem rodou a toda a pressa pelo mau piso...

— Calculista a rapariga!

— Pensei exactamente assim. Ao pagar a conta a um criado que sorria, jurei profundo desprêzo por todas as mulheres e por aquela em particular. Estava envergonhado, humilhado, e temendo que alguêm desconfiasse da minha triste aventura, fui ao teatro, conversei nos bastidores, acabei por convidar os dois pri-