Página:A morgadinha dos canaviais.djvu/269

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que algum motivo occorra que a explique melhor... aos olhos dos outros.

—­Como queira; a minha porta não se fecha a quem me procura.

E separaram-se depois de se cortejarem.

—­Se me não engaño—­dizia comsigo Henrique, em caminho do quarto—­é um verdadeiro desafío o que eu acabo de dirigir a este rapaz. Quer-me parecer que estou sendo bem ridículo, desafiando um mestre-escola. Se lhe deixo a escolha das armas, decide-se pela férula. Tem graça! Veremos o que ámanhã, á luz do dia, eu penso d’isto tudo. Eu já não fico por mim está noite. Estou a querer convencer-me de que tenho andado estouvadamente e com não demasiado cavalheirismo. Que diabo! É que está mulher e este creancelho são irritantes. Ella com a sua altivez, elle com os seus brios. Mas, na verdade, será este o Endymião d’esta esquiva Diana? Caprichos feminis... É o tal primo ingenuo e timido... A ociosidade da aldeia para alguma coisa ha de dar. Mas da maneira por que ella lhe falou... Havia certo tom de sinceridade... Astucias... O que é certo é que estou em lucta com uma mulher superior... Pois luctemos, priminha, mas com armas leaes. Não me prevalecerei do segredo que o acaso me revelou, se segredo existe... Veremos como ella ámanhã me trata...

Esta scena deixou em Augusto uma perturbação de espirito maïs profunda.

As operações mentaes, que o preoccuparam toda a noite, eram d’aquellas a que repugna chamar pensar. É maïs uma febre intellectual, um succéder de imagens sem ordem nem filiação, que não conduz a nenhum resultado, que não aconselha nenhum partido, que não esclarece, offusca.

Como se explica está differença entre os dois? Por um apparente parodoxo; porque Augusto tinha maïs hábitos de reflectir. Quando n’uma vida de episodios uniformes e apparentemente vulgares, o espirito