Página:A morgadinha dos canaviais.djvu/306

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seu brazão, levára o publico, foi serenada por um chorado côro de anjos que cantavam atraz da cortina:


Não temas, ó rei cruel,
Que te conquiste o docel.

Herodes pára aterrado, ao escutar estás vozes, apesar de lhe afiançarem a segurança do docel, pela qual elle parecia receioso. Vacilla, entra-lhe o mêdo no coração, mêdo que procura afugentar com bravatas, em que ameaçava pôr tudo por terra. O Cancella exprimia tudo isto com abundancia de gestos e de movimentos.

Aquí é que subia a toda a altura o genio dramático do Herodes. Para este final do monólogo reservava todos os segredos da arte; apoderava-se d’elle a musa do palco; desappareciam-lhe deante dos olhos os espectadores, via o mundo; perdia a consciencia da individualidade propria; suppunha-se Herodes; e até... ó fôrça da arte! offuscavam-se-lhe os bons instinctos da indole generosa e quasi chegava a ter verdadeira ancia de sangue e carnificina. O publico era dominado por o artista, e n’um d’estes silencios que todos prevêem se desencadeiará em brados de enthusiasmo e phrenesi, escutava-lhe as duas quadras finaes:


Porém o furor me incita!

Dava, ao dizer isto, très passos á frente, desembainhava o alfange e abria os braços. Tinha o que quer que era de Adamastor, visto assim.


O brio dá-me ousadia.

Levantava os braços acima da cabeça, espalmando a mão esquerda.


Para defender o sceptro
A favor da tyrannia!