Página:A morgadinha dos canaviais.djvu/385

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cruel e maligna, prefiro arriscar-me á primeira sorte. Se um passado inteiro de honra e de probidade, se um caracter provado nas maïs tentadoras situações da vida, se um nome ennobrecido pelo infortunio, não são garantías bastantes para protéger um homem contra os ataques da suspeita, não quero entrar n’essa pesquisa inquisitorial que nada respeita, que é capaz de lançar sacrilegamente a dúvida entre paes e filhos, entre irmãs e irmãos. Innocente, prefiro aguardar a calumnia; culpada, o castigo, a sentar-me como juiz n’esse tribunal impío que quer arvorar.

—­Previ essas palavras, prima Magdalena; por isso hesitei. Lamento sinceramente ter já perdido no uso do mundo uma tão sympathica e adoravel boa fé nos outros, que é a maior prova de candura que se pode dar do proprio caracter.

D. Victoria não percebeu nada d’este rapido dialogo; por isso exclamou:

—­Mas que estão vossês ahi a dizer? De quem falam? Eu se vos entendo! Quanto a mim, foram os criados, e d’isto é que ninguem me tira.

Abriu-se n’este momento a porta da sala e appareceu Augusto. Era a hora das lições dos pequenos.

Comquanto, desde o termo das férias, Augusto viesse todos os dias ao Mosteiro, era aquella a primeira vez que se encontrava com Magdalena e com Henrique, depois da scena que entre elles se passára na noite de Natal.

A morgadinha fitou por momentos n’elle os olhos; pareceu-lhe maïs pallido e triste do que de costume. Desviou-os, porém, como se até sentisse remorsos de ter escutado as allusões de Henrique sobre o caracter de um homem que ella se costumára a respeitar. Porque o leitor, cuja intelligencia é, sem lhe fazer favor, maïs perspicaz do que a de D. Victoria, percebeu de certo que era a Augusto que se referiam os vagos termos trocados entre Henrique e Magdalena.