Página:A morgadinha dos canaviais.djvu/469

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habilitou-me a concluir que teria o gôsto de receber o primo em minha casa.

—­E que disseste no Mosteiro? Sabem que vieste?

—­Não. Disse que ia visitar Brizida, onde passaria a noite. Bem me viste sair. Viemos ambas para aquí ainda com dia para pôr a casa em arranjo.

—­São mesmo coisas tuas—­disse Christina, rindo.

—­Mas eu não disse nada—­insistiu Torquato.

—­Porém, por que motivo se irritou tanto o herbanario?—­perguntouHenrique.—­Que imaginava elle a final?

-Ah!... É porque este sr. Torquato teve a habilidade, com as suas meias palavras, e reticencias indiscretamente discretas, de arranjar as coisas de maneira que o velho Vicente chegou a persuadir-se de que havia aquí um romance em que entrava eu... A discreção do Torquato é das que respeita os nomes, de maneira que as honras da aventura fôram-me todas attribuidas... N’este mesmo romance parece que entrava tambem o primo Henrique...

—­Ah! percebo agora—­disse Henrique, rindo.—­O velho é ciumento por procuração.

Magdalena abanou a cabeça, sorrindo tambem.

Christina, que já estava habilitada para entender a allusão de Henrique, sorriu com elles.

O Torquato foi o unico que nada percebeu.

Eram perto de duas horas, quando a morgadinha lembrou a necessidade de voltarem a casa.

—­Choverá?—­perguntou Brizida.

—­Julgo que não—­respondeu Magdalena, e como para assegurar-se correu a vidraça da janella e examinou o firmamento.

Henrique acompanhou-a.

—­A noite está serena—­disse ella.—­São horas de voltarmos.

—­Mal sabe a tia D. Victoria por onde lhe anda parte da familia a estás horas—­disse Henrique, debruçando-se á janella, e continuou:—­Mas que